"(...) Retiros de fados berços de fadistas, gostei de mais esta contribuição do Sr. Castelhano.
Ele falou do Restaurante 'Bacalhau', no início da Av Elias Garcia na Venda Nova, a seguir aos Castelos das Portas de Benfica, e não resisti a enviar-lhe esta foto do Restaurante onde o meu pai parava e eu tantas vezes ali entrei ou lhe passei à porta.
"Restaurante Bacalhau, às Portas de Benfica" (1960)
Artur Goulart, in Arquivo Municipal de Fotografia
Artur Goulart, in Arquivo Municipal de Fotografia
A outra foto dos terrenos fronteiros à Rua das Fontaínhas frente ao Restaurante em questão.
Ali acampavam os circos sazonalmente, Circos Torralvo e Mariano, e os carroceis, os aviões, a delícia das crianças de Benfica que para ali iam para se divertirem, e delícia das crianças da Venda Nova, onde morei e que tantas saudades me deixa.
O seu blog está uma autêntica enciclopédia sobre Benfica, de facto cada vez melhor, parabéns mais uma vez.
Um abraço e se houver o jantar do 1º aniversário do blog, como não vou estar peço-lhe que sem ninguém ver beba por mim um trago de champanhe.
Um abraço,
JResende"
"Minha aldeia é todo o mundo
Todo o mundo me pertence
Aqui me encontro e confundo
Com gente de todo o mundo
Que a todo o mundo pertence."
António Gedeão
Todo o mundo me pertence
Aqui me encontro e confundo
Com gente de todo o mundo
Que a todo o mundo pertence."
António Gedeão
(por Alexandra Carvalho)

O relato fotográfico idílico dos terrenos junto às Portas de Benfica, na freguesia da Venda Nova, que o Jorge Resende aqui nos deixou hoje, teve o condão de me relembrar o forte contraste existente com o (já desaparecido) Bairro das Fontaínhas.
O Bairro das Fontaínhas, outrora localizado por detrás das Portas de Benfica, foi dos primeiros bairros ilegais a ser construído e habitado ali mesmo às portas de Lisboa, após o processo de descolonização.
Segundo alguns estudos, este era um local onde os moradores menos sentiam a imagem negativa do bairro (apesar da exclusão social e dos índices de criminalidade a ele associados) e onde existia a maior percentagem de crianças e jovens (comparativamente com outros bairros de génese ilegal, como o "6 de Maio" e o "Estrela D'África").
No Bairro das Fontaínhas habitavam maioritariamente indivíduos de origem cabo-verdiana e os seus descendentes (muitos dos quais, apesar de terem nascido em Portugal e não conhecerem sequer o país de origem dos seus pais e/ou avós, não eram portugueses devido ao princípio do jus sanguinis).
Indivíduos esses que faziam, também, a sua vida em Benfica, frequentando o Mercado e algumas das lojas do comércio tradicional desta freguesia.
Foi no intrincado das labirínticas ruelas estreitas do Bairro das Fontaínhas, em 2000, que comi a minha primeira cachupa (outras, mais tarde, noutros locais, se seguiriam), em casa da Dª. B. e da sua família.
Trabalhava, nessa altura, num dos dois castelinhos das Portas de Benfica. E, durante mais de um ano, pude conhecer melhor a realidade vivida por aquelas famílias, ao atender inúmeros imigrantes do Bairro das Fontaínhas e de outros bairros limítrofes a Benfica e a Lisboa.
Nunca me hei de esquecer do ambiente sereno que se vivia naqueles finais de tarde de Verão, nas traseiras do Castelinho das Portas de Benfica, quando as mulheres se sentavam na soleira das portas de suas casas confraternizando e as crianças brincavam naquele espaço amplo que ficava ali mesmo entre Nós e os Outros, na confluência de duas freguesias.
Foi no Bairro das Fontaínhas, com a ajuda de uma colega de trabalho, que salvei um dos primeiros gatos que comigo se cruzou, quando algumas crianças do Bairro, aflitas, nos vieram bater à porta a pedir socorro para um felino bebé que se encontrava em cima de um telhado.
Mais tarde, já afastada daquele trabalho, não assisti (felizmente) à fatídica morte do cão-de-guarda do Bairro (um rafeirito abandonado), quando um polícia em licença contra ele disparou (induzido pela ressaca dos estupefacientes que ia adquirir ao Bairro das Fontaínhas).

O Bairro das Fontaínhas foi demolido em 2005, para que a CRIL avançasse velozmente. E os seus habitantes foram realojados por diversos bairros sociais criados no concelho da Amadora.












