"(...) Hoje, vamos trazer à liça a Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica, o velho e o novo Cemitério, as ossadas e, se calhar, almas do outro mundo.
Espero que os nossos amigos que têm desenvolvido um notável trabalho de pesquisa no que diz respeito à Sociedade Euterpe, não se sintam melindrados com as manigâncias dos dirigentes desse tempo que, pelos vistos, tentaram dar uma pequena golpaça à Irmandade do Santíssimo Sacramento. Se fosse hoje, a Comunicação Social tinha ali pano para mangas para duas ou três semanas.
A amiga Alexa não imagina o gozo que me deu (e à minha mulher) ao desenterrar este saborosíssimo episódio.
Como pode verificar na legenda da foto do coreto, o edifício é o mesmo de hoje porém, a rua não tinha o nome que tem hoje (Rua Ernesto da Silva). Na realidade, no tempo em que foi implantado o coreto, era a Rua do Espírito Santo. Brevemente, farei um pequeno texto sobre esta questão.
Fausto Castelhano"
A partir do século XVIII e com o aumento demográfico da Freguesia Benfica, após a descoberta destes pitorescos e aprazíveis lugares de veraneio colocou-se, a breve trecho, a questão de construir uma nova igreja que comportasse o enorme número de paroquianos que, ao templo, afluíam.
Essa ideia deve ter sido aceite com bastante entusiasmo e, naturalmente, já devia estar na mente dos paroquianos desde muito tempo atrás.
João Frederico Ludovice, que passava a época de Verão na sua casa apalaçada, no sítio da Alfarrobeira, deve ter desempenhado um importantíssimo papel na realização do projecto. É dele a primeira traça da construção e toda a capela-mor.
A 29 de Agosto de 1750, começaram os trabalhos da construção da
nova igreja. Porém, provavelmente por falta de recursos, a obra parou em Dezembro de 1754.

Prédios da Rua Ernesto da Silva, que, à data do coreto da Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica, já existiam.(Fotografia de Fausto Castelhano - 2010) Só muitos anos depois, destacados paroquianos unidos a
João Frederico Ludovice, arquitecto e valido de el-rei D.José I (que ofereceu o projecto para a restante obra), lançaram mãos à obra no intuito de a terminarem. Eram eles: Joaquim dos Reis e Francisco António, ambos mestres das Águas Livres; Bernardo António da Silva, escrivão da Junta das mesmas Águas; João Gomes, paroquiano e mestre-de-obras e que já havia construído a Real Obra da Memória, na Ajuda. Foram eles que tiveram uma influência decisiva no recomeço da obra em 28 de Março de 1780.
A obra avançou, com altos e baixos e com períodos de maior ou menor entusiasmo.
Então, a
12 de Dezembro de 1809 e num ambiente de extraordinário entusiasmo da população, tiveram início as
cerimónias da sagração da Comunidade Paroquial de Nossa Senhora do Amparo de
Benfica as quais, se prolongaram até à festa da Padroeira, em 18 de Dezembro.

Os edifícios da Rua Ernesto da Silva, que, à data da implantação do coreto no adro poente da Igreja Paroquial de Benfica, já existiam.(Fotografia de Fausto Castelhano - 2010) Acabada a construção e aberto o culto a todos os fiéis, verificou-se que o novo templo possuía duas belíssimas entradas com escadarias de pedra trabalhada e um enorme adro dividido em duas partes. Do lado nascente, existia já um belo cruzeiro, muito antigo e majestoso. Do lado poente, o adro tinha ainda maior amplidão e, segundo o cura João Cipriano de Assis e Morais pensava-se implantar, naquele espaço,
um cruzeiro igual ao do adro do lado nascente.

Cemitério de Benfica
Augusto de Jesus Fernandes, in Arquivo Municipal de Lisboa
Portão em frente da Rua dos Arneiros. O muro em gaveto, à direita, pertencia à antiga Quinta das Palmeiras. A foto deve ter sido tirada antes de 1960.
Este projecto, porém, não reuniu os consensos necessários. O adro do lado poente, que confinava com a igreja velha, iria ser vedado com um muro que iria fechar o antigo adro de tal maneira que, toda a zona antiga será utilizada como cemitério. Tanto o velho templo, como o terreno do adro poente, irão ser utilizados com esse fim.
Assim, no ano de 1846, fizeram-se obras no cemitério novo com o objectivo de alargar o cemitério local que já existia. Demoliram a antiga igreja, já muito arruinada, mas de um valor incalculável, com portais góticos e uma antiquíssima capela de S. Roque que seria, provavelmente, as ruínas da antiga Igreja Paroquial. O cemitério passou a abranger uma área que rondava os 1250 metros quadrados e capacidade de enterramento de cerca de 90 corpos por ano.
O novo
Cemitério de Benfica que, inicialmente se chamou Cemitério dos Arneiros, foi mandado construir no ano de 1869, na sequência da extinção dos antigos cemitérios paroquiais de Benfica e Carnide (localizado junto à Igreja de S. Lourenço). Para este espaço, foram trasladadas as ossadas identificadas existentes nos cemitérios paroquiais, e, nalguns casos, as próprias lápides originais das sepulturas.

O coreto construído pela Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica no adro poente da Igreja Paroquial de Benfica. O prédio que se observa em segundo plano, ainda lá está. Porém, a rua tinha outro nome… Rua do Espírito Santo.(Imagem cedida por Fausto Castelhano) Em 1880, o Cemitério dos Arneiros recebia as ossadas desenterradas do antigo cemitério, junto à Igreja de Benfica. Foi um levantamento muito descuidado pois, muito mais tarde e, em pleno século XX, na construção do Centro Paroquial, apareceram ossadas até dizer chega…Creio que o nome da Adega dos Ossos deriva desse mesmo facto. Aliás, era voz corrente que, na escavação inerente à construção dos estabelecimentos (onde estava a Adega dos Ossos) nos baixios do próprio cemitério, apareciam ossadas em grandes quantidades.
Construído para servir freguesias rurais, a grande expansão urbanística da cidade obrigou a sucessivas ampliações do seu espaço sendo, actualmente, o terceiro maior cemitério de Lisboa. O seu projecto inicial, de pequeno cemitério, é patente na entrada principal estreita, em nada condizente com o tamanho e movimento do Cemitério.
Chegados aqui, e depois de tanto paleio, é inteiramente justo que os nossos amigos se interroguem: -
"E o que é que tem a ver a Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica com o antigo cemitério da freguesia?"Tem e muito, como vamos já ver! Assim, socorrendo-me das memórias do pároco
Álvaro Proença (que conheci muito bem e, se calhar, até bem demais…), aqui vai:
“A 1 de Outubro de 1880, tendo por juiz o Marquês de Fronteira, a Irmandade do Santíssimo Sacramento autorizou, por ofício, a Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica, a construir um coreto no adro poente da igreja ficando, para todos os efeitos, na posse da Irmandade. Tão estúpida autorização, foi votada por unanimidade e, nem sequer uma voz com bom senso, se elevou contra tal construção no antigo cemitério e de onde se haviam levantado, apenas, algumas ossadas.
Entrada do Cemitério de Benfica(Fotografia de Fausto Castelhano - 2010)
O célebre coreto só veio a ser construído em 1900 pela tal Sociedade Filarmónica e custou, 760$345 reis. Teve uso frequente para as festarolas saloias no adro da Igreja, ou seja, no antigo cemitério. Pertencendo à Irmandade, em 1907, a tal Sociedade Filarmónica, pedia-lhe que mandasse pintar o coreto que se encontrava em estado vergonhoso. E o pedido era reforçado com a argumentação de que o coreto pertencia à Irmandade uma vez que, estava em terreno seu e lhe havia sido entregue. Portanto, os cuidados com a conservação do coreto também lhe pertenciam em boa justiça.”Sim, senhor…Uma belíssima argumentação!
E aqui está como a
Filarmónica Euterpe desenvolvia a sua notável obra de ensino e divulgação da música, mas via-se confrontada em assuntos de antigos cemitérios, ossadas, pinturas de coretos e… o que mais houvera…
Esta curiosíssima história não terminou aqui. Em 1938, a Irmandade do Santíssimo Sacramento conseguiu uma sentença favorável às suas pretensões. Isto é, a reivindicação da posse dos adros de que havia sido arbitrariamente esbulhada. Nesse ano, conseguiu a cessão da posse dos adros e igreja, em uso e administração que, em 1940, através da Concordata com a Santa Sé, se transformou em reconhecimento de posse definitiva.
Capela do Cemitério de Benfica(Fotografia de Fausto Castelhano - 2010)Nota: Sou um apaixonado pelas Bandas Filarmónicas. Como membro dos Corpos Sociais da
STIMULI/UNISBEN tivemos, recentemente e na Freguesia de Benfica (a convite da nossa Associação) a presença da excelente
Banda Filarmónica Comércio e Indústria da Amadora sob a direcção do experiente maestro Joaquim Carlos Alves Rodrigues. Desfilaram por algumas ruas da nossa Freguesia seguindo-se,
um magnífico concerto de música clássica nas nossas instalações. E, se a memória não me falha, um acontecimento desta envergadura, já não se verificava na Freguesia de Benfica, pelo menos, há volta de 50 anos.
Este ano, pensamos repetir a extraordinária experiência com a presença desta categorizada Banda de Música.
Um abraço de muita amizade
Fausto Castelhano