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sexta-feira, 11 de março de 2011

"Novos Rostos, Novos Desafios"




(por Alexandra Carvalho)



A 28 de Fevereiro, o Movimento de Cidadãos pela preservação da Vila Ana e da Vila Ventura remeteu um ofício à Direcção Municipal de Acção Social da Câmara Municipal de Lisboa (com conhecimento da Senhora Vereadora do Pelouro da Habitação, Arqª. Helena Roseta), dando conhecimento do caso dos 3 indivíduos sem-abrigo que se encontram a pernoitar na Vila Ana e solicitando auxílio aos mesmos.

Esta acção foi empreendida com conhecimento prévio das 3 pessoas, as quais acederam a que o Movimento de Cidadãos empreendesse esta iniciativa.

A Equipa de Rua de Apoio aos Sem Abrigo da CML contactou-nos no dia 01/03/11, informando que os seus elementos tinham estado na véspera nas Vilas, tendo tocado a todas as campainhas e não aparecera nenhum dos indivíduos sem-abrigo (naturalmente! Uma vez que a zona destinada às campainhas serve, apenas, os 3 Moradores-Inquilinos que lá vivem).

Ficou agendada nova visita para ontem à noite.

Ontem de manhã, fomos contactados pela Equipa de Rua de Apoio aos Sem Abrigo da CML, informando que, dado não possuírem nesse dia uma carrinha, não se poderiam dirigir ao local, pelo que o caso iria ser acompanhado pela Associação "Novos Rostos, Novos Desafios".

Ontem à noite, recebemos junto às Vilas 4 técnicos desta associação, os quais falaram com as pessoas sem-abrigo, que pernoitam na Vila Ana, dando-lhes a conhecer quais os melhores caminhos que poderiam seguir para sair daquela situação de exclusão social.
A equipa de rua desta associação ficou de ali regressar, no dia seguinte, com vista a continuar a acompanhar este caso.

Em nome do Movimento de Cidadãos pela preservação da Vila Ana e da Vila Ventura, gostaríamos de agradecer publicamente pela celeridade empreendida pela CML no presente caso, e, sobretudo, pelo profissionalismo, diligência e humanismo com que os técnicos da Associação "Novos Rostos, Novos Desafios" iniciaram o seguimento deste caso.

De salientar que, até à presente data, estas 3 pessoas sem-abrigo ainda não tinham sido "sinalizadas" a nenhum serviço de apoio à exclusão social, nem tão pouco sido sequer visitadas ou contactadas pelas entidades locais competentes (ou seja, era como se fossem meros fantasmas, vagueando pela nossa freguesia... à semelhança de tantos outros que por aí andam!).











quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Podias ser Tu!...




“O nosso quotidiano civilizado está cheio desses seres
que mantendo uma similar aparência física,

se afastaram de tal maneira da humanidade
que perderam o laço comum.

Pelo que estão reunidas as condições objectivas e morais

para a chacina dos homens-lixo.

E essa é já uma prática quotidiana.

Imposta pelas autoridades,

desculpada pela moral pública,

exigida pela economia.”


Leonel Moura, in "Os Homens Lixo" (2000).






(por Alexandra Carvalho)




Ao longo de 14 anos, a Vila Ana e a Vila Ventura chegaram a um estado de abandono e degradação insustentáveis, que o Movimento de Cidadãos tem vindo a divulgar, exigindo que as entidades responsáveis cumpram o necessário para que este património edificado da freguesia de Benfica seja devidamente preservado.

De facto, desde que a Ormandy Portuguesa, Lda., empresa da qual é Director o Dr. Henrique de Polignac de Barros (Presidente da Direcção da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários) adquiriu estas Vilas, em 1997, para além de nunca ter efectuado obras nas mesmas, depois de ter desapossado os inquilinos que se encontravam ilegalmente em regime de sub-aluguer, não voltou a alugar essas fracções; o que permitiu que, durante anos a fio, em particular a Vila Ana tenha vindo a ser "habitada" por sucessivas vagas de indivíduos: - há 3 anos, os indivíduos toxicodependentes que foram expulsos pelos imigrantes da Europa de Leste do prédio embargado junto ao Mercado; - em seguida, os indivíduos toxicodependentes desalojados do antigo Instituto Lusitano, junto à Mata de Benfica, depois deste ter sido demolido; - depois, os imigrantes de origem cigana da Roménia; - mais tarde, algumas pessoas sem-abrigo; - servindo, também, no último ano, o 1º andar de esconderijo esporádico a indivíduos que supostamente furtam transeuntes na Rua Ernesto da Silva.

A ocupação sistemática da Vila Ana por pessoas sem-abrigo, em particular, no piso térreo, tem permanecido mesmo depois desta ter sido entaipada. O que faz com que a situação desta Vila continue periclitante, constituindo um perigo, não só para o edificado, como também para os moradores-inquilinos, para os vizinhos dos prédios contíguos… e para as próprias pessoas sem-abrigo que aí pernoitam.





Filme de Nuno Rocha
(publicado in YouTube por LGlifesgoodPortugal)





João
, Mihail e ...
3 nomes... 3 vidas... uma mesma casa...

João, Mihail e ... são os 3 últimos habitantes "não legais" da Vila Ana...

Cada um com a sua história de vida e um motivo muito peculiar (a ela associado) para ter caído nesta situação de “abandono social”...

Cada um deles desenvolvendo pequenos trabalhos e biscates (no comércio da própria freguesia), para tentar ir remediando a situação em que se encontra…

Cada um deles preocupado, também, com o destino que a Vila Ana e a Vila Ventura terão, o qual estará intrinsecamente ligado à sua própria vida (tal como sucede com a dos Moradores-Inquilinos, a quem eles ajudam a vigiar o que se passa nas Vilas, procurando a segurança de todos).

Há gestos que nos comovem mais do que mil palavras… E hoje, ao final da tarde, tive a oportunidade de ser brindada com um desses gestos.

Enquanto falávamos sobre a situação das Vilas e os antigos moradores de renome das mesmas, o Sr. Zé sacou da sua carteira e disse com orgulho:

- “Querem ver uma coisa que eu guardo sempre comigo e que toda a gente me pede para lhes mostrar?”

E eis senão quando me mostra o folheto da nossa Acção de Natal pelas Vilas, que guarda religiosamente dobrado e muito bem estimado.

O gesto do Sr. Zé tem ainda mais significado na medida em que este folheto, que ele tem guardado, foi criado especialmente para juntar às ofertas de géneros alusivos ao Natal que fizemos aos 3 Moradores-Inquilinos e aos 3 indivíduos sem-abrigo das Vilas.

Na grande maioria das vezes não temos ideia do impacto de certas coisas pequenas que fazemos e de como as mesmas podem ter um significado grandioso para o quotidiano daqueles que as viveram!...

A história que hoje ouvi da boca do Sr. Zé (há 6 anos nesta condição de “sem-abrigo”) é uma história triste, de quem, no entanto, ainda não perdeu a capacidade de sonhar. Uma história pautada com alguns importantes reencontros (assemelhando-se muito à do filme de ficção acima), mas, também, de muitas perdas inestimáveis...

Mas é, sobretudo, uma história que, de um momento para o outro, podia acontecer a qualquer um de nós!...






O Movimento de Cidadãos pela preservação da Vila Ana e da Vila Ventura considera que todos os seres humanos independentemente da sua condição sócio-económica têm direito à felicidade, ao amor, à ternura e, sobretudo, ao bem-estar de um lar.
Independentemente dos motivos que fizeram com que cada uma destas pessoas tivesse caído na situação em que se encontra (ou do que na mesma experimentaram), cada ser humano é único, e todos merecem ser tratados com a dignidade que as constituições e os direitos humanos lhes conferem. Antes de serem "sem abrigo" são pessoas!

Pelo que gostaríamos de, publicamente, aqui deixar o apelo às instâncias competentes para que a situação do João, Mihail e não seja esquecida, no desenvolvimento do processo inerente à realização das obras de conservação na Vila Ana e na Vila Ventura.









sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Às Portas de Benfica




"(...) Retiros de fados berços de fadistas, gostei de mais esta contribuição do Sr. Castelhano.

Ele falou do Restaurante 'Bacalhau', no início da Av Elias Garcia na Venda Nova, a seguir aos Castelos das Portas de Benfica, e não resisti a enviar-lhe esta foto do Restaurante onde o meu pai parava e eu tantas vezes ali entrei ou lhe passei à porta.





"Restaurante Bacalhau, às Portas de Benfica" (1960)
Artur Goulart, in
Arquivo Municipal de Fotografia


A outra foto dos terrenos fronteiros à Rua das Fontaínhas frente ao Restaurante em questão.





"Carrocel nas Fontaínhas" (1961)
Artur Goulart, in
Arquivo Municipal de Fotografia

"Carrocel nas Fontaínhas" (1961)
Artur Goulart, in
Arquivo Municipal de Fotografia


Ali acampavam os circos sazonalmente, Circos Torralvo e Mariano, e os carroceis, os aviões, a delícia das crianças de Benfica que para ali iam para se divertirem, e delícia das crianças da Venda Nova, onde morei e que tantas saudades me deixa.


O seu blog está uma autêntica enciclopédia sobre Benfica, de facto cada vez melhor, parabéns mais uma vez.


Um abraço e se houver o jantar do 1º aniversário do blog, como não vou estar peço-lhe que sem ninguém ver beba por mim um trago de champanhe.



Um abraço,

JResende"





"Minha aldeia é todo o mundo
Todo o mundo me pertence

Aqui me encontro e confundo

Com gente de todo o mundo

Que a todo o mundo pertence."


António Gedeão





(por Alexandra Carvalho)





Fotografia de José Boavida Caria


O relato fotográfico idílico dos terrenos junto às Portas de Benfica, na freguesia da Venda Nova, que o Jorge Resende aqui nos deixou hoje, teve o condão de me relembrar o forte contraste existente com o (já desaparecido) Bairro das Fontaínhas.

O Bairro das Fontaínhas, outrora localizado por detrás das Portas de Benfica, foi dos primeiros bairros ilegais a ser construído e habitado ali mesmo às portas de Lisboa, após o processo de descolonização.

Segundo alguns estudos, este era um local onde os moradores menos sentiam a imagem negativa do bairro (apesar da exclusão social e dos índices de criminalidade a ele associados) e onde existia a maior percentagem de crianças e jovens (comparativamente com outros bairros de génese ilegal, como o "6 de Maio" e o "Estrela D'África").

No Bairro das Fontaínhas habitavam maioritariamente indivíduos de origem cabo-verdiana e os seus descendentes (muitos dos quais, apesar de terem nascido em Portugal e não conhecerem sequer o país de origem dos seus pais e/ou avós, não eram portugueses devido ao princípio do jus sanguinis).
Indivíduos esses que faziam, também, a sua vida em Benfica, frequentando o Mercado e algumas das lojas do comércio tradicional desta freguesia.

Foi no intrincado das labirínticas ruelas estreitas do Bairro das Fontaínhas, em 2000, que comi a minha primeira cachupa (outras, mais tarde, noutros locais, se seguiriam), em casa da Dª. B. e da sua família.

Trabalhava, nessa altura, num dos dois castelinhos das Portas de Benfica. E, durante mais de um ano, pude conhecer melhor a realidade vivida por aquelas famílias, ao atender inúmeros imigrantes do Bairro das Fontaínhas e de outros bairros limítrofes a Benfica e a Lisboa.

Nunca me hei de esquecer do ambiente sereno que se vivia naqueles finais de tarde de Verão, nas traseiras do Castelinho das Portas de Benfica, quando as mulheres se sentavam na soleira das portas de suas casas confraternizando e as crianças brincavam naquele espaço amplo que ficava ali mesmo entre Nós e os Outros, na confluência de duas freguesias.

Foi no Bairro das Fontaínhas, com a ajuda de uma colega de trabalho, que salvei um dos primeiros gatos que comigo se cruzou, quando algumas crianças do Bairro, aflitas, nos vieram bater à porta a pedir socorro para um felino bebé que se encontrava em cima de um telhado.

Mais tarde, já afastada daquele trabalho, não assisti (felizmente) à fatídica morte do cão-de-guarda do Bairro (um rafeirito abandonado), quando um polícia em licença contra ele disparou (induzido pela ressaca dos estupefacientes que ia adquirir ao Bairro das Fontaínhas).




Fotografia de José Boavida Caria



O Bairro das Fontaínhas foi demolido em 2005, para que a CRIL avançasse velozmente. E os seus habitantes foram realojados por diversos bairros sociais criados no concelho da Amadora.






sábado, 8 de agosto de 2009

O Homem descalço que sorria




Ao certo, ninguém sabia de onde viera ou como por ali aparecera.

Uns diziam que, em tempos, fora muito inteligente e ganhara uma bolsa para vir estudar Engenharia para Portugal, mas depois, fruto das agruras da vida, o seu cérebro descompensara e dera naquele estado meio vegetativo.

Costumava andar descalço e com um impermeável cujo tempo já carcomera a cor, mas não aceitava esmolas nem roupa que lhe quisessem oferecer.

Não falava com ninguém e limitava-se a passar os seus dias deambulando por Benfica, uma vezes sentado junto ao adro da Igreja, outras vezes perto do "Nilo" ou junto ao Mercado.

Apesar do seu ar alheado de tudo e de todos, não raro era vê-lo, aquando das suas deambulações, esboçando um ténue sorriso nos lábios... Como se soubesse que a própria vida não passava de um jogo de marionetas em que só ele compreendia quem puxava os cordelinhos.

Esta tarde, pela segunda vez, encontrei-o junto aos contentores de reciclagem perto do Mercado. Agachado, procurava diligentemente, remexia entre os escombros depositados fora dos contentores. De quando em vez, largava o conteúdo dos sacos, levava as mãos à boca e lambia-as sofregamente, saciando-se com aquilo a que outros chamaram lixo.

Ao passar por ali, não consegui conter a agonia, um misto de náusea, dor e compaixão, ao constatar que, na luta pela sobrevivência, ele fazia lembrar um bicho... mas era, de facto, um homem que ali estava.

Por pudor, não consegui fotografar.







quarta-feira, 22 de julho de 2009

Dª. Tina





De costas para a porta da loja, enquanto procurava a ração para as minhas gatas, ouvia-a entrar, protestando contra alguma coisa. Ao longe, enquanto passa, alguém diz:
- “Boa tarde Dª. Tina!”

Chegou perto do escaparate onde me encontrava, olhou para mim e perguntou-me:
- “Óh menina, sabe onde estão as pedras para gato?”
Indiquei-lhe um corredor à direita.
Passados uns breves instantes, voltou a chamar-me:
- “E sabe quais são as melhores pedras, menina?”

Olhei para ela de alto a baixo, meio de soslaio, timidamente.
Dª. Tina, nos seus 60 e muitos anos, tinha um ar humilde e um pouco desleixado, apesar do seu rosto revelar um porte extremamente fino. Nos pés trazia umas sandálias abertas, que deixavam vislumbrar umas unhas enegrecidas e malsãs.

Expliquei-lhe, então, que as pedras em granulado dos sacos de 10 lts. eram as mais baratas, apesar das pedras de areia fina aglomerante em pacote de 5 lts. serem mais higiénicas e, normalmente, durarem mais do que as primeiras.

- “É para o meu gato. Ele é assim como… [breve pausa, olhando por momentos no vazio] é assim como este [aponta para um gato branco, numa embalagem na prateleira ao lado]. Só tenho um gato agora. Dantes tinha muitos… mas as pessoas viam como eles estavam bonitos e gordos e comecei a dá-los. Se calhar vou levar antes este! [apontando para o pacote de pedras mais caro]

Digo-lhe que esse pacote custa 8€ e alguns cêntimos, ao passo que o outro é só 2€ e qualquer coisa.

- “E isto está tão mau! Está tão mau!... Saí hoje para ir cortar o cabelo [passa as duas mãos pelo seu cabelo grisalho encaracolado, alisando-o nervosamente], mas já não fui. Isto está tão mau e todos me pedem dinheiro. Outro dia emprestei 20€ a um que me pediu, porque tive pena, mas já sei que não me devolvem o dinheiro. O meu marido, que Deus o tenha em descanso [junta as duas mãos, olhando para cima, como se estivesse a rezar] não… mas o meu irmão se sabe que ando assim a tirar dinheiro do banco, vai zangar-se comigo.”

Por breves instantes, não consigo evitar que a dúvida me assole o espírito e começo a pensar que, no momento seguinte, a senhora me vai pedir para lhe pagar as pedras que quer levar. Sinto-me mal com esta desconfiança, porque é mesmo muito triste este tipo de pensamentos passarem-nos assim pela cabeça, mas, infelizmente, é o próprio mundo em que vivemos que os propicia.

Mas Dª. Tina não me pede o que quer que seja e continua, somente, a balbuciar um infindável monólogo sobre o estado do mundo, com as lágrimas prestes a marejarem-lhe os olhos.
Sem saber muito bem o que fazer, digo-lhe para ter calma e desejo felicidades e um bom ano.

E é, então, que ela se vira para mim e diz:
- “Deixe-me dar-lhe um beijo, minha querida!”
E, num sorriso imenso mas com as lágrimas já a escorrerem-lhe timidamente pelos olhos, aproxima-se de mim, agarra-me o rosto com as suas duas mãos encarquilhadas, e dá-me um beijo na testa, como se costuma fazer às crianças.

Despeço-me e volto à minha vida.

Quando, finalmente, chego ao balcão da loja para pagar, Dª. Tina ainda está na fila à minha frente, com o seu pacote de areia para gato. Pergunta à empregada da loja qualquer coisa sobre um produto vitamínico para felinos, retira uma nota de 10€ enrolada a um cartão Multibanco de dentro do bolso das calças e, por instantes, olha para trás… e já não me reconhece.

- “O que é que eu vinha aqui comprar?” – pergunta a si própria, já depois de ter pago à empregada e de em cima do balcão, mesmo à sua frente, se encontrar o pacote de areão.

Ninguém lhe responde. Os dois jovens empregados por detrás do balcão evitam olhar para ela, como se, para além de ter perdido a razão, a senhora tivesse também ficado invisível e não estivesse ali.

Subitamente, a mente de Dª. Tina regressa ao seu corpo e ela diz…
- “Ah, era isto!” [enquanto pega no pacote em cima do balcão]
Olha outra vez para mim e parece voltar a reconhecer-me.
- “A menina também vai levar pedras?” [diz enquanto coloco os 2 sacos de ração e o pacote de pedras em cima do balcão]

Respondo-lhe que sim e sorrio para ela.



[18/01/08]

domingo, 1 de março de 2009

Gente de Benfica - II








Tinha o rosto duro e queimado pelo sol, deformado por feridas antigas encrostadas.
Do braço e perna do lado direito do seu corpo apenas possuía a metade superior, e andava para todo o lado numa cadeira de rodas.

Ao fim da tarde, costumava estar junto à igreja a pedir esmola e conversava com quem vinha da missa, com quem levava os netos à catequese e com os lojistas, interessando-se pelas suas vidas e gracejando com respeito quando a situação se proporcionava a tal.

A forma como o Sr. M falava, o cuidado que colocava nas palavras e os termos que utilizava, denotavam uma pessoa inteligente e com alguma instrução. Pelo que, alguns vizinhos começaram a oferecer-lhe livros e revistas, para que ele lesse e se distraísse um pouco no antigo colégio degradado em que dormia.

Inúmeras vezes, era, também, possível encontrá-lo perto do terreno abandonado de um prédio embargado, onde se sabia que todos os toxicodependentes daquela zona deambulavam.

Na rudeza do seu aspecto ressaltava o facto de andar sempre acompanhado por uma cadela, uma jovem rafeira, arraçada de podengo, de focinho meigo, olhos doces e tristes, que seguia a sua cadeira de rodas diligentemente para todo o lado.
Por vezes, a altas horas da noite, lá ia ele, pelo meio da Estrada de Benfica, na sua cadeira de rodas, transportando-a ao colo, abraçada a ele.

Os dois passavam as manhãs a pedir esmola, à porta do Café "Monalisa", na Estrada-a-Damaia, servindo de atracção para as caridosas senhoras de idade daquele bairro (as quais acabariam por auxiliá-lo para que a cadelinha Meg fosse esterilizada no veterinário local).

No dia 10/02/06, a Meg desapareceu... supostamente, como constava na zona, roubada por ciganos que vendiam no Mercado de Benfica.

Naquele bairro, gerou-se, então, uma onda de solidariedade como tal nunca fora visto. E diversas pessoas se disponibilizaram a procurar a cadelinha, durante semanas a fio.

No dia 04/03/06, a Meg foi resgatada (ou melhor, adquirida em troca de dinheiro) de um ferro-velho num bairro social perto da Alta de Lisboa, regressando para junto do seu dono.

A estória de vida do Sr. M era bem conhecida de alguns autóctones, que se interessaram por saber como ficara naquele estado físico.

Uma história, porém, tem sempre 2 lados!
E o melhor desses lados nem sempre é aquele como a história termina. Ambos podem ser ambivalentes, dúbios e pouco transparentes, induzindo-nos em erro sobre a escolha de qual das melhores probabilidades de uma história acabar.

Em Abril de 2006, o Sr. M foi internado no Hospital Amadora-Sintra com sintomas de hepatite.
Certa noite, em Junho de 2006, regressou a casa dos seus pais num estado muito crítico; vindo a falecer a 06/06/06, minado pelas inúmeras doenças que tinha e com um tumor no fígado como causa de morte.

O Sr. M tinha 38 anos…
A sua estória nunca foi bonita... fruto de tanto engano, para poder sobreviver no mundo em que viveu.
Todavia, prefiro continuar a recordá-lo apenas por aqueles momentos que, em determinada altura, nos pareceram belos e simples, como na fotografia tirada no dia em que a cadelinha Meg lhe foi devolvida.






quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A "outra" Benfica...




... quase esquecida!





Vídeo da autoria de Joaquim Pinto
(autor do blog "Bairro da Boavista - Lisboa"
)




O Bairro da Boavista situa-se na vertente norte do Parque Florestal de Monsanto, e, também faz parte da freguesia de Benfica.

A sua construção surgiu no âmbito do Programa de "Casas Desmontáveis", durante o Estado Novo, tendo sido construído em 3 fases distintas: 1ª fase 1939-1944, 2ª fase 1945-1960, 3ª fase 1961-1970.
A sua inauguração solene realizou-se em Dezembro de 1940.




"Bairro da Boavista" (1940),
Domingos Alvão, in Arquivo Municipal de Lisboa




Este programa de habitação social esteve relacionado com o aumento populacional da cidade de Lisboa nos anos 30, derivado dos migrantes internos, que saíam do campo em busca de melhores condições de vida nas cidades (fixando-se, em particular nas freguesias periféricas, principalmente ao longo dos eixos de expansão criados em finais do século XIX).

Para o Bairro da Boavista viriam casais católicos, matrimoniados e pobres; estando a sua permanência no bairro sujeita a conjunto de regras escritas e aceites, algumas de um rigor abusivo e lesivo da liberdade do morador.

O Programa de "Casas Económicas", que constituiu o primeiro programa sistemático de habitação social em Portugal, encarnava o próprio espírito do Estado Novo, na medida em que assentava na submissão do indivíduo em relação ao Estado, que o protegia, mediante o cumprimento de um conjunto de normas conducentes à manutenção da ordem social.

Este Programa esteve assim, como salientam alguns autores, ao serviço de uma ideologia política, reflectindo a convicção de se estar a construir uma sociedade ideal. Em suma, uma construção idealizada e desligada da realidade, um modelo estetizado que procurava impor ao país e à capital uma nova ordem urbana e social.




"Bairro da Boavista" (1975),
Armando Serôdio, in Arquivo Municipal de Lisboa




Após 1974, foram construídas centenas de novas casas, tendo em vista a erradicação total das habitações desmontáveis, concedendo assim mais dignidade aos seus habitantes.

A construção do actual Bairro da Boavista foi finalizada no âmbito do PER.

Actualmente, o Bairro da Boavista é sinónimo da existência de diversos problemas sociais , fruto da própria exclusão social (estranha metáfora, quando o objectivo de base que preside à criação dos bairros sociais e de realojamento é a própria inclusão social!).

O próprio crescimento do bairro e o consequente aumento populacional deram origem a uma grande heterogeneidade de culturas e realidades económicas distintas, o que muitas vezes, pode ser foco de conflito.

Apesar de tudo, o Bairro da Boavista permanece com as suas tradições e projectos, dando-se a conhecer ao mundo, através de uma vivência comum a tantos outros bairros.

Seria, talvez, importante que, cada vez mais, fosse dada uma voz "de dentro para fora" no que diz respeito a este tipo de bairros, de modo a que as expectativas dos seus próprios moradores também fossem veiculadas e ouvidas por quem de direito.