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domingo, 29 de dezembro de 2013

A Travessa do Açougue - o 1º Centenário das “moradias em banda” de cariz operário




Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2013)



A Travessa do Açougue - o 1º Centenário das “moradias em banda” de cariz operário


(por Fausto Castelhano)




Ao revisitarmos demoradamente a velhinha Travessa do Açougue aproveitámos a soberana ocasião que se nos deparou e resolvemos tomar em mãos a iniciativa de singela mas justíssima comemoração dando-lhe justificada relevância quando se assinala a efeméride do 1º Centenário da construção do emblemático bloco de “habitações em banda” de cariz operário na sequência das profundas alterações ocorridas no já longínquo ano de 1913 que transfiguraram, de modo substancial, o perfil da recatada artéria. 


Conjunto de “moradias em banda” na Travessa do Açougue 4 a 20/Estrada do Poço do Chão, 2, a actual Rua da Bolívia.
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Além do mais, a Travessa do Açougue alberga no bojo uma história algo interessante polvilhada de pormenores peculiares que importa conhecer e divulgar tendo em vista que não encontramos o mínimo paralelo no contexto da rede viária da Freguesia de Benfica. 


Ao fundo e frontal à Travessa do Rio (donde foi obtida a imagem) avista-se o início da Travessa do Açougue.
(Foto de João H. Goulart, 1960 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Assim, no enfiamento da Travessa do Rio (toponímia atribuída ao Beco Visconde Sanches de Baena após a implantação da República Portuguesa no ano 1910) e inserida num notabilíssimo conjunto de vetustas habitações, lobrigamos a curiosa Travessa do Açougue. 



Estrada de Benfica, 554/554A - A taberna do Zé da Graça e a Foto Nice (1º andar). Nos pisos superiores, também residia o passarinheiro “Passarinho Moni”. À direita deste prédio tinha início a Travessa do Açougue (Foto de Artur Goulart, 1961- Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


E lá está, mais ou menos estrangulada entre os prédios da Estrada de Benfica, 552 (construído em 1960/1961 depois da malfadada demolição do venerável palacete do século XVIII) e o gaveto na Estrada de Benfica nº 554/Travessa do Açougue, nº1 (rés/chão, 1ºandar e águas-furtadas), moradia onde estabeleceram domicílio ou ramos de negócio, meritórios cidadãos que a população de Benfica prezava em absoluto. 

Assim sendo, vejamos os seus inquilinos: 
O já saudoso Sr. José da Graça, homem de trato lhano e que geria com eficiência a sua modesta, mas cativante taberna, um dos locais de eleição onde o “povo miúdo” da comunidade aportava no intuito de acamaradar com amigos alguns momentos de amizade e lazer, ora cavaqueando qualquer assunto que por mero acaso viesse “à baila”, ora participando de modo activo nas renhidas jogatinas de “dominó” ou “damas”, “sueca” ou “bisca de quatro”. 



Estrada de Benfica, 546 (antigo nº 481). A entrada do venerável edifício do século XVIII demolido na segunda metade da década de 50 do século XX e que formava gaveto com a Travessa do Açougue. No seu espaço foram construídos prédios de habitação em regime de “propriedade horizontal” e lojas comerciais 
(Foto de Eduardo Portugal, 1951 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


E, claro está, sem jamais prescindirem do trivial copázio de “vinho genuíno do lavrador” ou trago de macia bagaceira enfiados pelo “garganhol” abaixo e, quando o “rei fazia anos”, o tilintar de meia dúzia de tostões no bolso davam sinais de vida ou mercê de ocasião propícia, ninguém se escusava na pronta degustação de eventual petisco caseiro de “arregalar o olho”. 



Estrada de Benfica, 546 - Pedra de Armas (já mutilada no topo) e que estava colocada no palacete da Estrada de Benfica, 546 e demolido nos “anos 50” do “século XX” 


E mal findava o “defeso” e despontava o Outono, os extractos mais desfavorecidos da população aproveitavam as tardes de Domingo e abancavam, infalivelmente, pelas várias tabernas e tascas do burgo acompanhando, a par e passo, os emocionantes relatos radiofónicos do Campeonato Nacional de Futebol da 1ª Divisão transmitidos através das ondas hertzianas da Emissora Nacional na voz vibrante de Domingos Lança Moreira ou Alfredo Quádrio Raposo e, anos mais tarde, Amadeu José de Freitas e tantos outros… E sempre, sempre à volta do tal copinho de vinho tinto ou branco da praxe. Tempos safados e já um tanto perdidos no tempo valha a verdade, mas onde possuir um simples receptor de rádio e só de Onda Média representava, sem qualquer dúvida, autêntico objecto de luxo. A porta de entrada do prédio propriamente dito (Estrada de Benfica, 554) dava acesso aos pisos superiores. Os reputados Estúdios da Foto Nice estavam sediados no 1º andar, onde o Sr. Virgílio, exímio profissional na exigente especialidade de “tirar retractos”, seja em estúdio, casamento ou baptizado, “dava cartas” em concorrência com a categorizada Foto Águia d’Ouro (Estrada de Benfica, 574 onde pontificava a afabilidade de Alice Lisboa, a Beca para amigos e vizinhos, dominando sem qualquer dificuldade, a técnica de criação de imagens a expensas de fonte luminosa e a sua posterior fixação em película adequada. 



Panorâmica da Travessa do Açougue no sentido Este/Oeste. Ao fundo, o termo do arruamento na confluência da Estrada do Poço do Chão (actual Rua da República da Bolívia) com o Largo da Cruz da Era. À direita, o bloco de “moradias em banda” 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Anos mais tarde surgiria a conceituada Fotografia Flórida localizada na Estrada de Benfica, 678C, 1º Frente contudo, a entrada fazia-se na fachada lateral, exactamente no adro oriental da Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica. 



Vista geral da Travessa do Açougue no sentido Este/Oeste. Ao fundo, a bifurcação com o Largo da Cruz da Era e a Estrada do Poço do Chão (actual Rua da República da Bolívia) À direita, o conjunto de moradias de “cariz operário” construídas em 1913 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Chegados aqui, vamos relançar uma demorada olhadela à histórica Travessa do Açougue, mas recuando ao mês de Outubro de 1947 quando, provavelmente, teríamos irrompido pela primeira vez no maltratado piso da referida via, ou seja, seguindo a rota do habitual caminho que nos levava à Escola Primária que iríamos frequentar no início do primeiro período da 2ª Classe. 



Travessa do Açougue, 25. O final da Travessa do Açougue na bifurcação do Largo da Cruz da Era e da Estrada do Poço do Chão (actual Rua da República da Bolívia). Neste último edifício do lado esquerdo esteve instalado desde a década de 40 do século XX, o afamado “Ferro-velho”, o ramo de negócio do Guarda-nocturno da área. 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Afinal, tratava-se de atalho natural depois de calcorrearmos o longo trajecto desde a Estrada dos Arneiros onde residíamos e, seguindo pela Estrada do Poço do Chão, cruzávamos a Travessa do Açougue, desaguávamos em plena Estrada de Benfica e, um pouco mais à frente, chegávamos ao final da etapa na Quinta do Marrocos, local onde se erguia o barracão de albergava as quatro salas de aula da Escola Primária Elementar nº47, precisamente à ilharga, não só do antigo Quartel do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Benfica, mas também das alongadas traseiras da Fábrica Simões e defronte da Cozinha dos Pobres da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a celebérrima “Sopa do Sidónio” ou “Sopa do Barroso”. 



Travessa do Açougue, 3A e 5 (lado direito). Panorâmica no sentido Oeste/Este e, ao fundo (a Nascente), um dos portões de acesso à Quinta da Granja de Cima registado com o nº2 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Ora, o início da discreta Travessa do Açougue sempre se salientou pelo especial condão de passar quase despercebida a transeuntes menos observadores que circulassem pela Estrada de Benfica, não obstante e percorridos os iniciais 15 metros (Sul/Norte), abre-se um alargado espaço, à esquerda e no sentido Este/Oeste, facto que ainda hoje acontece e que induz, logo ao primeiro impacto, a visão inopinada de um enorme pátio ou terreiro de dimensões invulgares e onde se torna patente, a esplêndida fileira de moradias geminadas que tamanha admiração continuam a causar. 



Travessa do Açougue, 20. A última moradia (gaveto) no lado direito localizava-se na confluência do Largo da Cruz da Era e da Estrada do Poço do Chão, actual Rua da República da Bolívia 
(Foto de Artur Goulart, 1965 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Mais adiante, a espaçosa superfície afunila e termina na bifurcação do Largo da Cruz da Era e da Estrada do Poço do Chão (actual Rua da República da Bolívia) perfazendo o comprimento aproximado de 80 metros. 



Travessa do Açougue, 3A, 5, 7A, 7, 9 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Assim sendo, coloca-se a premente pergunta: será que a Travessa do Açougue consegue reunir todos os predicados que lhe conferem o estatuto deste género de arruamento tendo, na devida conta, o formato do traçado, tal e qual como se apresenta? Pois bem e sem mais delongas, vejamos a definição de “Travessa”: “rua estreita e curta entre outras duas ruas principais; pequena rua transversal”. Nesta medida, certamente haverá uma sólida e plausível razão que torne entendível tão flagrante facto. Com efeito, recuando além de uma centena de anos e dispondo da parca documentação disponível, verifica-se que o presente topónimo teria sido concedido mediante um Decreto de 1889 quando o Travessa do Açougue expunha uma faceta algo diferente em relação àquela com que somos defrontados hoje em dia, contudo ignoram-se os reais motivos da atribuição da mencionada nomenclatura que, ao cabo e ao resto, perdura desde o final do século XIX até aos nossos dias… 



Travessa do Açougue, 3A, 5, 7A, 7, 9 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


A hipótese mais provável aponta para a existência de um açougue de relativa amplitude integrado no próprio local ou suas imediações, favorecido pela superior vantagem de usufruir de curso de água corrente muitíssimo próximo, sito na Travessa do Rio (Ribeira de Benfica), factor determinante associado às múltiplas tarefas que se desenrolam nas actividades inerentes aos matadouros (açougues) desde o abate, o desmanchar das rezes e à comercialização. 



Travessa do Açougue, 3A, 5, 7A, 7, 9, 11, 15 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Entretanto, face à observação em pormenor da Planta Topográfica 4O datada de Junho de 1908 (Arquivos da Câmara Municipal de Lisboa) permite-nos concluir, inequivocamente que, afinal de contas, a estreita Travessa do Açougue assumia em épocas mais remotas, a sua verdadeira característica, ou seja, condizente com a condição de Travessa, tal como se sublinhou atrás e apenas sofrerá modificações de monta em 1913. 



Travessa do Açougue, 7A e 7. A moradia onde residia a família do Sr. Arnaldo, um dos padeiros que procedia à distribuição de pão ao domicílio nas ruas da Freguesia de Benfica 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Assim, a exígua largura do primitivo traçado resumia-se a cerca de 2/2,5 metros e apenas consentia a circulação de veículos de tracção animal (tão comuns num passado já distante) e estava cingido, não só pelo casario alinhado em todo o percurso do lado esquerdo mas, também, no lado direito e desde o seu início, por um primeiro troço de cerca 15 metros (sentido Sul/Norte e mais largo que o restante) e que correspondia à extrema da propriedade da Estrada de Benfica, 552 (demolida na “década de 50” do século XX). A partir daqui, e guinando à esquerda no sentido Este/Oeste, o forte muro da Quinta da Granja estabelecia a fronteira da Travessa do Açougue até ao seu termo, isto é, a bifurcação do Largo da Cruz da Era e da Estrada do Poço do Chão (actual Rua da Bolívia). Refira-se que o primitivo trajecto e que contorna as habitações no lado esquerdo permanece funcional embora com limitações no final da via devido à aplicação de três degraus e patamar em pedra. 



1 - Quinta da Granja de Cima (roxo, tracejado); 2 - Quinta do Caldas (castanho tracejado); 3 - Quinta dos Baldaias ou Quinta de Colares Pereira (laranja tracejado); 4 - Quinta do Visconde de Baena; 5 - Ribeira de Benfica/Ribeira de Alcântara ou Caneiro de Alcântara; 6 - Chafariz das Águas Livres; Travessa dos Arneiros, actual Rua dos Arneiros (azul); 7 - Passagem pedonal (quelha) entre a Estrada de Benfica e a Travessa do Açougue; Estrada do Poço do Chão (verde); Largo do Espírito Santo/Rua do Espírito Santo, actual Largo Ernesto da Silva/Rua Ernesto da Silva (vermelho); Travessa da Cruz da Era/Largo da Cruz da Era (verde tracejado); Travessa do Açougue (laranja); Travessa do Vintém das Escola/Beco do Vintém das Escolas, antiga Travessa do Espírito Santo (amarelo); Estrada das Garridas (vermelho tracejado); Travessa do Rio (verde tracejado). 
Extracto da Planta Topográfica 4O - Junho de 1908 (Arquivo Municipal de Lisboa) 


Além da colocação de passeios, as bermas e valetas foram objecto de melhorias significativas apenas na década de 80 do século XX e o empedrado basáltico foi substituído por tapete de asfalto contudo, o segmento inicial de 15 metros manteve a estrutura antiga em pedra negra de calçada. 



Travessa do Açougue, 7 e 9 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Erguidos no lado esquerdo da artéria, as traseiras dos fogos citados colidem com o flanco posterior (anexos e pequenos espaços) do soberbo quarteirão de edifícios que remontam aos séculos XVIII e XIX (incluindo exemplares da Era Pré-Pombalina) que se estendem na Estrada de Benfica desde a Travessa do Açougue (Estrada de Benfica, 554) até ao prédio de esquina, sito na Travessa da Cruz da Era, 2/Estrada de Benfica, 608). Engloba, também, a totalidade das moradias nesta curta via (cerca de 45 metros), isto é, contidas desde o início até ao seu termo no Largo da Cruz da Era. Valioso conjunto arquitectónico que urge preservar a todo o custo e que se encontra totalmente reabilitado com excepção da moradia assinalada com os números 580 a 584 a qual, se não forem tomadas medidas convenientes e atempadas continuará a degradar-se pouco a pouco correndo-se o risco de iminente derrocada. Nos últimos anos foram empreendidas várias benfeitorias dignas de apreço, tanto a nível dos rés/chão, como também no que concerne às paredes-mestras e travejamentos, reforço de telhados ou soalhos valorizando, sobremaneira, os edifícios em questão… Analisando “à lupa” a Planta 4O de 1908 mencionada anteriormente descobre-se ainda, uma surpreendente quelha ou viela que permitia, em tempos idos, a passagem pedonal desde a Estrada de Benfica até a um ponto situado, sensivelmente, a meio do percurso original da Travessa dos Açougue. 



A entrada da oficina de reparação de automóveis do Sr. José Ernesto (Travessa do Açougue, 11) e habitação demolida nos “anos 80” do século XX. Em seu lugar foi erguida uma moradia (Travessa do Açougue, 13) composta por rés/chão e 1º andar onde reside a família do Sr. José Ernesto 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


A proveitosa ligação teria sido vedada em data indeterminada, já depois de 1937 por meio de dois portões metálicos s/número, quer pelo lado da Travessa do Açougue entre os nºs 13 e 17, quer na Estrada de Benfica, intercalado entre os prédios registados com os nºs 590 e 592. 



Edifício na Estrada de Benfica, 580 a 584 e que se encontra em adiantado estado de ruina 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Enfim, comprovámos “in loco” e por mera curiosidade, a existência efectiva deste pormenor verdadeiramente extraordinário e, mesmo na consulta à Carta Militar de Portugal dos Serviços Cartográficos do Exército de 1937, constatamos que a citada interligação intermédia algo inesperada, mas de insuspeitada valia, continuava aberta ao vaivém da população no afã dos seus afazeres quotidianos. 



Travessa do Açougue,11 (oficina do Sr. José Ernesto) e 13, a residência da família do Sr. José Ernesto. Moradia edificada no local onde existia uma habitação bastante antiga (apenas um piso) e demolida nos anos 80 do século XX 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 



O já obsoleto, mas utilíssimo percurso que ao longo de sucessivas gerações serviu exemplarmente os cidadãos de Benfica, manteve-se imutável até ao dealbar do ano de 1913 quando a tranquilidade da obscura Travessa do Açougue foi subitamente estremecida por um brutal salto qualitativo que modificou de modo definitivo, o antigo aspecto físico que remontava a muitas épocas atrás. Como assim? Pois bem, sucede que os proprietários da Quinta da Granja de Cima (Família Cannas) concederam apreciável parcela da enorme herdade, a qual e ao tempo balizava, todo o lado direito da Travessa do Açougue excluindo, como já se citou, o segmento inicial de 15 metros. Derrubado o robusto muro divisório da Quinta da Granja de Cima, a exiguidade do velho itinerário da Travessa do Açougue amplia-se de modo considerável atingindo assim, novos e impensáveis limites no sentido da largura (Sul/Norte) redesenhando quiçá, um figurino em moldes absolutamente distintos do anterior. 



Travessa do Açougue (vermelho); Largo Ernesto da Silva, Rua Ernesto da Silva e Travessa do Vintém das Escolas (cinzento); Largo da Cruz da Era e Travessa da Cruz da Era (azul); Passagem pedonal (amarelo). 1 - “Moradias em Banda” do Bairro Operário da Travessa do Açougue; 2-Estrada de Benfica; 3-Estrada do Poço do Chão (actual Rua da Bolívia); 4-Calçada do Tojal; 5-Rua Cláudio Nunes; 6-Travessa dos Arneiros (actual Rua dos Arneiros); 7-Avenida Grão Vasco; 8-Estrada das Garridas; 9-Avenida Gomes Pereira; 10-Travessa do Rio (Extracto da Carta Militar de Portugal (1937) dos Serviços Cartográficos do Exército) 


O segmento inicial da Travessa do Açougue, a Nascente e no sentido Sul/Norte, salta de 15 metros e alcança a fasquia de 37 metros e a embocadura do lado Poente, ou seja, a bifurcação com a Estrada do Poço do Chão/Largo da Cruz da Era, passará de 2/2,5 metros a 20 metros. Medidas que implicam, obviamente, a largura das moradias (cerca de 10 metros). 



Portão s/número na Estrada de Benfica intercalado entre os nºs 590 e 592, um dos pontos de ligação da antiga passagem pedonal entre a Estrada de Benfica e a Travessa do Açougue existente entre os nºs 13 e 17 e, entretanto, vedada em data indeterminada depois de 1937 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Arranca a construção de harmonioso bloco de “moradias em banda” (apenas rés/chão) coroadas no topo e ao longo da fachada principal por um arremedo de ameias ao nível do telhado. Simultaneamente e ladeando o novíssimo empreendimento, será delineada uma ampla faixa de rodagem em terra batida e ausência de passeios para peões e onde, seguramente, a precaridade saltava à vista, mas que irá facilitar, sem dúvida, o trânsito rodoviário em ambos os sentidos. Podemos laborar num grave de erro de apreciação não obstante, estamos convictos que a simplória Travessa do Açougue nunca mereceu grandes favores das entidades competentes. Esquecida, propositadamente ou não, alvo de uma espécie de claríssima marginalização, só a muito custo foram obtidos alguns benefícios, tanto a nível da pavimentação ou passeios, bermas ou espaços livres. As péssimas condições de circulação, tanto de veículos como de pessoas perdurará por tempo infinito e só serão supridas aquando da sua completa remodelação nos “anos 80” do século XX. O piso de terra batida será eliminado e substituído por tapete asfaltado. 



Portão na Travessa do Açougue s/número entre os nºs 13 e 17 e que permitia a interligação pedonal com a abertura localizada na Estrada de Benfica s/número entre os nºs 590 e 592 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa) 


Essencialmente de índole social, as inovadoras moradias serão reservadas ao alojamento dos trabalhadores rurais da Quinta da Granja de Cima, mas ao alcance do proletariado residente na área territorial da Freguesia de Benfica, abrangendo alguns empregados e operários da prestigiada Fábrica Simões



Actual portão s/número na Travessa do Açougue entre os nºs 13 e 17 e que permitia a interligação pedonal com a abertura localizada na Estrada de Benfica s/número entre os nºs 590 e 592 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Abarca um núcleo de dez fogos em correnteza de arquitectura ímpar (3 assoalhadas, cozinha, hall de entrada, além de pequeno quintal) concentrados no lado direito (Este/Oeste) da Travessa do Açougue desde o nº4 ao nº20. Este último, concebido em forma de gaveto abrange, ainda, a moradia da Estrada do Poço do Chão, 2 (actual Rua da Bolívia). A estrutura edificada cobre uma superfície total de 600 m2 (60x10 metros), aproximadamente. 



Travessa do Açougue, 15, 17, 19 - A moradia com os números 17 e 19 (onde laborou uma carpintaria em tempos muito antigos) foi demolida na primeira década do século XXI. Nesse espaço ergueu-se o actual prédio de Rés/chão e 1º andar, registado com o nº 17 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Por não disporem de água canalizada nas moradias, os moradores acarretavam o precioso líquido para o consumo diário por meio de cântaros ou outro vasilhame apropriado e abasteciam-se em dois locais principais: Chafariz das Águas Livres na Estrada de Benfica no início da Estrada das Garridas (desactivado) e um dos poços na Quinta da Granja de Cima junto da habitação D. Gertrudes, a guarda/porteira da herdade (entrada na Estrada do Poço do Chão). Para o efeito, as aberturas introduzidas nos muros dos quintais de cada um dos fogos e mais tarde eliminadas, facilitavam as incursões ao poço providencial. A distribuição domiciliária, tanto de água da Companhia das Águas de Lisboa, como de energia eléctrica da CRGE, só ocorreu em 1948. 



Travessa do Açougue, 17 e 19 – Moradia já demolida na primeira década do século XXI e onde, em épocas passadas, laborou uma carpintaria. O espaço foi ocupado pelo actual prédio de Rés/chão e 1º andar registado com o nº 17 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Os despejos domésticos efectuavam-se em acanhados casinhotos localizados nos quintais e incluíam simples sanitários que estavam ligados à rede de saneamento básico situada no extremo Este da Travessa do Açougue. Posteriormente, os próprios inquilinos introduziram melhorias nas suas habitações, nomeadamente no que se refere às casas de banho que foram perfeitamente incorporadas no interior e apetrechadas com os necessários requisitos. 



Travessa do Açougue, 17 e 19. Habitação demolida na primeira década do século XXI quando já ameaçava derrocada e onde, em tempos já remotos, laborou uma carpintaria. No espaço será construída uma nova moradia 
(Foto de Gomes Mota, 2002) 


Mas, então, quem residia ou ainda reside na Travessa do Açougue? Um punhado de gente altamente respeitável, operários, empregados, comerciantes, etc. e que, no decurso de várias gerações, sempre nos habituámos a saudar com deferência quando nos cruzávamos aqui e ali, em qualquer espaço da urbe onde nascemos e vivemos a maior parte da nossa já longa existência. 



Travessa do Açougue, 17. A actual moradia foi construída na primeira década do século XXI após demolição da antiga habitação registada com os nº17 e 19 e onde funcionou uma carpintaria 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Assim e desde logo, vamos ao encontro da Srª. D. Elisa do Rosário Pereira Nunes, a simpática inquilina da moradia nº10 e a quem endereço sinceros agradecimentos pela desinteressada colaboração e as preciosas informações prestadas na identificação de inúmeros dos seus vizinhos, tanto actuais como antigos. A Srª. D. Elisa nasceu, precisamente aqui, corria o ano de 1929 e a sua avó foi a primeira locatária da habitação. Bom, agora recordemos alguns cidadãos mais à mão de semear que nos ficaram na memória e residentes da Travessa do Açougue: O Sr. Paulo (pai da D. Capitolina, já falecida e que conheci em jovem na década de 50/60 do século XX), técnico de nomeada, exercia a minuciosa profissão de relojoeiro junto à janela da sua residência, a moradia nº16. 



Travessa do Açougue, 19, 21, 23, 25 - Ao fundo, a bifurcação com o Largo da Cruz da Era e a Estrada do Poço do Chão (actual Rua da Bolívia). Na foto observa-se, ainda, o Ford Prefect, matrícula LF-13-68, o automóvel do Sr. Manoel de Almeida e Sousa, o dono da Farmácia União.
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


E quem não conhecia o célebre “Chico Carreira”? Filho de Francisco Luís Gato e de D. Capitolina vivia com os pais na moradia nº 6. Depois do matrimónio com D. Teresa, ali residiram após o casório de que resultaram 2 filhas: a D. Capitolina e a D. Maria Teresa. 



Travessa do Açougue, 21, 23 - Na foto, avista-se o Ford Prefect, matrícula LF-13-68, o automóvel do Sr. Manoel de Almeida e Sousa, o dono da Farmácia União .
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa) 


Proprietário de afamado restaurante no “Parque Mayer”, além de um óptimo talho localizado na Estrada de Benfica nº570/572 o qual, mais tarde, encerraria. Abriria portas, seguidamente, com um novo titular e outro ramo de comércio: loja de móveis e afins. Durante muitos anos, “Chico Carreira” foi dono do único automóvel existente nas mãos do núcleo populacional da Travessa do Açougue. Tratava-se de espampanante espadalhão que não deixava ninguém indiferente. 



Travessa do Açougue, 4 a 20. Conjunto de “moradias em banda” de cariz operário 
(Foto de João H. Goulart, 1969 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


A família do Sr. José Ernesto estabeleceu residência no nº13 e a sua oficina de mecânica, bate-chapa e pintura ocupava o barracão cuja entrada se fazia pelo nº11. O actual prédio (rés/chão e 1º andar) onde presentemente reside a família do Sr. José Ernesto, foi construído nos “anos 80” depois da demolição de uma antiga habitação de um só piso (nº13). O Sr. José Ernesto entregou a alma ao Criador em Janeiro de 2009 e a esposa, D. Florinda, faleceu recentemente (Dezembro de 2013). O Sr. Arnaldo e respectiva família assentaram arraiais no prédio nº7 (rés/chão e 1º andar). Exercia a profissão de padeiro e, alombando com o enorme e tradicional cesto de verga, percorria as ruas de Benfica na distribuição de pão porta-a-porta. Passados alguns anos, adquiriu uma pequena furgoneta de caixa fechada que lhe facilitou a dura e cansativa função. 



Travessa do Açougue, 4 a 20. Conjunto de “moradias em banda” 
(Foto de João H. Goulart, 1969 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


A D. Irene, a famosa “Girafa”, alcunha como era conhecida a ilustre figura de proa da Marcha de Benfica e que alinhou “anos a fio” como marchante de alto gabarito, morava na habitação nº 12. O popular “Chaman”, operário de profissão e inquilino na moradia nº2 da Estrada do Poço do Chão (Rua da República da Bolívia). 



Travessa do Açougue, 4 a 14 – Na foto (sentido Poente/Nascente) e ao fundo, observa-se um dos portões da Quinta da Granja de Cima identificado com o nº 2 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


A moradia que ostenta o nº17 foi construída na primeira década do século XXI após demolição da antiga habitação registada com os nº17 e 19 e onde laborou, décadas atrás, uma antiga carpintaria. A família de Carlos Alberto Garrancho, jogador internacional de Hóquei em Patins do Sport Lisboa e Benfica, além de outros clubes de grande nomeada nas décadas de 60/70 do século XX, residia na habitação cujo acesso se fazia pelo portão nº3. 



O gaveto do conjunto de “moradias em banda” construído em 1918 na Travessa do Açougue, nº20/Estrada do Poço do Chão, nº2, actual Rua da República da Bolívia e onde residia a família do operário Sr.“Chaman” 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Os alvores da “década de 50” do século XX assinalam o início da avalanche do “cimento armado” originado pelo maremoto que, de maneira intempestiva, assolou a área territorial da Freguesia de Benfica deixando marcas insanáveis, as quais, decorridas cerca de seis décadas, ainda se reflectem na época que decorre. A massiva e sistemática destruição do património histórico edificado foi, efectivamente, coroada de indiscutível êxito e impressiona pela colossal dimensão. A antiga Freguesia do Termo descaracterizou-se em alta escala e em todos os azimutes. Nada escapou a tanta e tão celerada cegueira. A velha Travessa do Açougue, acossada fortemente, também não conseguiu safar-se ao medonho assalto a que foi submetida e foi atingida em cheio… Arrasadas várias propriedades históricas adjacentes à Travessa do Açougue, Travessa do Rio e Avenida Gomes Pereira, o poderoso “lobby” da Construção Civil avançou… imparável. 



O início da Travessa do Açougue. O prédio da Estrada de Benfica, 552 em plena construção no início da década de 60 do século XX no espaço onde existia o venerável e brasonado edifício demolido no final da “década de 50”). Ao lado esquerdo, a moradia da Estrada de Benfica, 554 onde se situava o estabelecimento (taberna) do Sr. José da Graça. No 1º andar, encontravam-se os Estúdios da Foto Nice 
(Foto de Artur Inácio Bastos, 1960 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Pois bem, no caso concreto da Travessa do Açougue e na nossa modesta opinião, tal investida guindou-se às raias do absurdo…e com foros de cambalacho de altíssimo quilate. Plantado em pleno espaço público, a Travessa do Açougue surge, como se fora por artes mágicas, absolutamente conspurcada por um enorme mamarracho de apartamentos (tipo “gaiola”) em regime de propriedade horizontal. 



Estrada de Benfica, 552/554 após a construção do prédio sobre a Travessa do Açougue. À esquerda, a moradia da taberna do Zé da Graça e da Foto Nice 
(Foto de Artur Goulart, 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Assim mesmo! A entrada da via fica encanada por apertado e escuro túnel, um pouco à semelhança do fenómeno acontecido na Travessa do Rio, além de obstruir uma parte da fachada lateral da moradia da Estrada de Benfica, 554 assim como, portas e janelas da habitação da Travessa do Açougue, 1 e 3…Ver para crer como diria S. Tomé… 



O início da Travessa do Açougue e a habitação registada com o nº1 sob o túnel do prédio nº552 da Estrada de Benfica construído no início da “década de 60” do século XX 
(Foto de Fausto Castelhano) 


E assim ficou…encurralada. E se é verdade que a modesta Travessa do Açougue passava despercebida aos olhares dos cidadãos, agora nem sequer se dá pela sua presença… Na realidade, esconderam-na, definitivamente. Como consequência imediata, a circulação automóvel foi suprimida pelo lado da Estrada de Benfica. Enfim, concluída a construção do edifício no ano de 1961 na Estrada de Benfica, 552 sobre a entrada da Travessa do Açougue, a loja do rés-do-chão (nº552A) albergou a firma “Malata” vocacionada em componentes da área electrónica, mormente, cinescópios, tubos de raios catódicos e válvulas utilizados em receptores de televisão. Encerrou em 1974. 



O medonho início da Travessa do Açougue e a habitação registada com o nº1 sob o túnel do prédio nº552 da Estrada de Benfica construído no início da “década de 60” do século XX 
(Foto de Fausto Castelhano) 


Reabriu no mesmo ano, agora sob a batuta do Sr. Patrício como loja de Electrodomésticos e Material Eléctrico. Entretanto, o Sr. Patrício faleceu em 1988 contudo, o estabelecimento continua com o mesmo género de negócio e a gerência eficaz da D. Maria Emília, a viúva do Sr. Patrício. 



O túnel da Travessa do Açougue. Além de conspurcar a histórica artéria, o prédio da Estrada de Benfica, 552 e construído na “década de 60” soterrou, também, parte da fachada lateral (com os nºs 1 e 3 da moradia da Estrada de Benfica, 554, Na foto e ao fundo, o túnel da Travessa do Rio 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Quanto ao Sr. José da Graça, já não pertence ao número dos vivos desde a “década de 80” do século transacto. O memorável ponto de encontro, tendo por base a taberna da Estrada de Benfica, 554A e onde tantos e tão bons momentos de convívio ofereceu aos assíduos frequentadores, foi “chão que deu uvas” e, na mesma década do seu falecimento, fechou as portadas de vez. 



Entrada de habitação na Travessa do Açougue, 1. Encontra-se sob o túnel depois da construção do prédio na Estrada de Benfica, 552 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Após várias remodelações no seu interior, reabriu, mais tarde, mas com mudança de negócio: “Celeiro da Memória”, Produtos Naturais. Também não conseguiu sobreviver e encerrou. Entretanto, reabriu recentemente como Café/Pastelaria/ Snack Bar “Água na Boca”. A introdução das modernas tecnologias digitais e outras recentes inovações implicou a liquidação de um incontável lote de estúdios fotográficos da Freguesia de Benfica. Tanto a Foto Nice do Sr. Virgílio, como a Foto Águia d’Ouro (onde a afável Alice Lisboa, a Becas, fazia questão em colocar a clientela na posição ideal antes de apontar a objectiva e clicar), além de outras casas dedicadas à fotografia, desapareceram sem deixar rasto… Actualmente, a belíssima correnteza de moradias da Travessa do Açougue mostram-se de “cara lavada” e em perfeitíssimo estado de conservação. Os inquilinos continuam a pagar as rendas mensais, nitidamente simbólicas, ao senhorio de sempre: a Família Cannas. 



Entrada de habitação na Travessa do Açougue, 3. Encontra-se juntinho ao túnel depois da construção do prédio na Estrada de Benfica, 552 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 



“O Celeiro da Memória”, Produtos Naturais na Estrada de Benfica, 554A em 2010 após remodelação do prédio onde existiu a célebre taberna do Zé da Graça 
(Foto de Fausto Castelhano, 2010) 



O início da Travessa do Açougue na Estrada de Benfica, actualmente. O túnel sob o prédio nº542. À esquerda, a Café/pastelaria/snack-bar “Água na Boca” e, à direita (rés/chão), a loja de Electrodomésticos e Material Eléctrico gerida pela D. Maria Emília Patrício 
(Foto Fausto Castelhano, 2013) 


Apesar da tremenda vaga de expansão urbanística desenvolvida no território da Freguesia de Benfica desde a década de 50 do século XX, a excepcional vila operária, única no seu no género em termos de projecto arquitectónico, teima em manter-se incólume contra ventos e marés, precisamente em 2013, quando já se acenderam cem velas e se enchem os peitos de ar preparando, sem perda de tempo, a assopradela da ordem…
Amigos, não se façam rogados, vamos lá! Ergamos as nossas taças de champanhe e brindemos aos primeiros cem anos de longevidade das “moradias em banda” de carácter essencialmente operário, aqui mesmo, Travessa do Açougue, Freguesia de Benfica. Parabéns! Votos de muitos, muitos anos de vida…Tchim-Tchim!  



*** O autor não respeita as normas do Novo Acordo Ortográfico 








quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O Casal dos Arneiros





Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2013)




(por Fausto Castelhano) 


Os antigos sítios e lugares da Freguesia de Benfica



Os antigos sítios e lugares da Freguesia de Benfica Sempre que pesquisamos lugares ou sítios, mormente relacionados com os povoados mais antigos da Freguesia de Benfica, tropeçamos, frequentemente com o termo Arneiro ou Arneiros: Rua dos Arneiros (antiga Travessa dos Arneiros), Estrada dos Arneiros, Casal dos Arneiros, Moinho dos Arneiros e, até mesmo, o novo Cemitério dos Arneiros, designação inicial atribuída ao actual Cemitério de Benfica aquando da sua construção no ano de 1869 devido à extinção, como se sabe, tanto do Cemitério de Benfica, localizado no adro ocidental da Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Amparo de Benfica como, também, do antigo Cemitério de Carnide onde os enterramentos se efectuavam tanto no interior do templo, como ao redor da Igreja de S. Lourenço de Carnide. Cemitério dos Arneiros para onde foram transladadas, um pouco atabalhoadamente, segundo se constou, as ossadas, lápidas e alguns jazigos dos cemitérios paroquiais atrás referidos.


Cemitério dos Arneiros (amarelo); Quinta das Palmeiras, antiga Quinta do Poço Chão (verde tracejado); 1 -Moinho dos Arneiros; 2 - Casal dos Arneiros; 3 - Estrada dos Arneiros; 4 - Travessa dos Arneiros, actual Rua dos Arneiros; 5 - Rua Cláudio Nunes, antiga Rua da Surrada; 6 - Calçada do Tojal; 7 - Estrada Militar (Estrada da Circunvalação); 8 - Posto de Limpeza Camarário do 10º Distrito; 9 - Estrada do Poço do Chão; 10 - Estrada da Correia; 11 - Capela do Cemitério; 12 - Cruzamento do Caliça (Carta Topográfica Militar de Portugal, 1928 - Serviços Cartográficos do Exército).


Documento 1 - Termo (6/11/1900) que assina Maria da Conceição Pinto Leão de Oliveira, obrigando-se às condições com que lhe foi adjudicado o arrendamento da casa do Casal dos Arneiros, em Benfica, para o Posto de Limpeza do 10º Distrito (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa) 


Recorrendo ao "Livro das Almas, Actas das Visitas Pastorais, Contas das Irmandades ou Eleições dos Irmãos", recolhem-se preciosos dados sobre o número exacto de fogos e residentes que constavam nos sítios ou lugares da área territorial da Freguesia de Benfica no decorrer dos séculos XVIII e XIX, tal como vem mencionado no livro “Benfica através dos tempos” do Padre Álvaro Proença. E assim, entre os núcleos populacionais que integravam a Freguesia de Benfica deparamos, mais uma vez, não só com a anotação do tal Casal dos Arneiros mas, também, o registo do número de habitações que ali existiam desde o século XVIII: em 1790, 3 fogos; em 1813 e 1834, 4 fogos e, em 1856, 3 fogos. E na página 30 da mesma publicação na descrição da Ribeira de Alcântara: “O grande caneiro que passa sob a Avenida de Ceuta leva, para o rio Tejo, todas as águas da encosta de Monsanto e de uma grande bacia formada a partir dos limites da antiga Porcalhota, pela Serra do Marco, Arneiro, Carnide e Cruz da Pedra, de um lado e, do outro, pelo Moinho da Atalaia, Calhariz e Serra de Monsanto, como atrás escrevemos”.



Documento 2 - Escritura (25/8/1915) de expropriação da propriedade denominada Casal dos Arneiros pertencente a Ana Elvira Pinto Leão de Oliveira (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa). 


Cá está, novamente, a referência ao Arneiro. Ora, a premência de resolução do intrigante enigma voltou à baila quando, recentemente, resolvemos revisitar a velhinha Estrada dos Arneiros de fagueira memória e, desde então, uma insistente curiosidade foi crescendo, crescendo e jamais nos largou a labita… Afinal de contas, qual a zona geográfica do território da Freguesia de Benfica onde se encontrava, realmente, o malfadado Casal dos Arneiros? Mistério intrincado e que urgia deslindar de uma vez por todas arredando, assim, uma realíssima preocupação que nos atormentava a mente sempre que tal assunto nos surgia…



Documento 3 - Escritura (23/3/1920) de expropriação do Casal dos Arneiros (moinho e terreno anexo) para alargamento do Cemitério de Benfica (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa) 


Assim, desatámos a espiolhar a questão um pouco mais a fundo e, quando tal acontece, amiúde somos premiados com algo de muito extraordinário e que nos pode surpreender agradavelmente… Foi o caso… O paradeiro do Casal dos Arneiros que procurávamos com tamanho denodo desde infindável tempo emergia, por fim, à claridade, após tantos e tantos anos decorridos de busca incessante que, por muito pouco, quase a soterravam de modo definitivo. Melhor, muito melhor: além do Casal dos Arneiros aparecia, também e à laia de brinde, a localização do moinho de vento dos Arneiros, estrutura tradicional da região saloia e de cuja efectiva existência ignorávamos em absoluto… Assim, descortinámos quatro valiosos documentos, além de soberba planta topográfica onde sobressaíam elementos essenciais com os quais, seria possível localizar de modo muito satisfatório, tanto o Casal dos Arneiros, como o moinho do mesmo nome, tal o magnífico espólio conseguido nas intensas pesquisas levadas a bom termo nos Arquivos da Câmara Municipal de Lisboa. Vejamos, então, o 1º Documento datado de 6 de Novembro de 1900 e que rezava assim: “Termo que assina Maria da Conceição Pinto Leão de Oliveira, obrigando-se às condições com que lhe foi adjudicado o arrendamento da casa do Casal dos Arneiros, em Benfica, para o Posto de Limpeza do 10º Distrito”.



Documento 4 - Escritura (23/6/1925) de expropriação de um moinho a Manuel Joaquim da Silva devido ao alargamento do Cemitério de Benfica (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa) 


O 2º Documento menciona a Escritura de expropriação do Casal dos Arneiros, em Benfica, a Ana Elvira Pinto Leão de Oliveira e tem a data de 25 de Agosto de 1915. O 3º Documento faz menção à Expropriação do Casal dos Arneiros (moinho e terreno anexo) para alargamento do Cemitério de Benfica e tem aposta a data de 23 de Março de 1920 e continha, como anexo, uma planta topográfica onde se inscrevem: o Casal dos Arneiros e o Moinho dos Arneiros, a Estrada Militar da Nova Circunvalação, a Rua Cláudio Nunes e a Travessa dos Arneiros, a Quinta do Vale Tareja, a Quinta do Sarmento e a Quinta do Charquinho.



Planta Topográfica 4P/1: 1 - Moinho dos Arneiros de Manuel Joaquim da Silva; 2 - Casal dos Arneiros; 3 - Quinta do Sarmento (Quinta do Bom-Nome); 4 - Quinta do Charquinho; 5 - Posto de Limpeza do 10º Distrito; 6 - Vale Tareja; 7 - Quinta das Palmeiras (antiga Quinta do Poço do Chão; A (laranja)- Caminho de acesso ao Casal e ao Moinho dos Arneiros; B (amarelo)- Estrada dos Arneiros; C (azul)- Travessa dos Arneiros (actual Rua dos Arneiros; D (rosa)- Rua Cláudio Nunes (antiga Rua da Surrada; E (verde)- Calçada do Tojal (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa) 


O 4º Documento, datado de 23 de Junho de 1925 regista a Escritura de expropriação de moinho a Manuel Joaquim da Silva devido a alargamento do Cemitério de Benfica. Ora, perante à documentação exposta, constatou-se que o processo de expropriação do Casal dos Arneiros, Moinho dos Arneiros e dos terrenos anexos visava, exclusivamente, a ampliação do Cemitério de Benfica, cujo espaço bastante exíguo se tornara insuficiente face às prementes necessidades sentidas pelas populações de Benfica e Carnide. Assim, e dando seguimento às justas reclamações das comunidades, as entidades oficiais avançaram, então, com o primeiro alargamento do Cemitério de Benfica, o chamado 4º Cemitério de Lisboa e cujas obras terão lugar na transição das décadas de 20/30 do século XX. Pela análise da Planta Topográfica 4P anexada ao 3º Documento, verificam-se alguns detalhes dignos do maior apreço e confirma-se, também, a notória exiguidade do espaço abarcado pelo primitivo Cemitério de Benfica em comparação com a área do actual cemitério depois dos dois alargamentos, ou seja, a ampliação que estamos a examinar e a posterior dilatação ocorrida em 1959.



Extracto da Planta Topográfica 4P/2: 1 - Moinho dos Arneiros; 2 - Casal dos Arneiros; 3 - Quinta do Sarmento (Quinta do Bom-Nome); 4 - Quinta do Charquinho; 5 - Posto de Limpeza do 10º Distrito; 6 - Capela do Cemitério de Benfica; 7 - Entrada secundária do Cemitério de Benfica; 8 - Entrada principal do Cemitério de Benfica; 9 - Quinta das Palmeiras, antiga Quinta do Poço do Chão; 10 - Quinta do Vale Tarejo; 11 - Estrada da Circunvalação (Estrada Militar); A (laranja)- Caminho de acesso ao Casal e Moinho dos Arneiros; B (amarelo)- Estrada dos Arneiros; C (azul)- Travessa dos Arneiros (actual Rua dos Arneiros; D (rosa)- Rua Cláudio Nunes, antiga Rua da Surrada (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa) 


Sensivelmente no sentido Sul/Norte encontrava-se a extrema que dividia o antigo Cemitério de Benfica e os domínios do Casal dos Arneiros, ou seja, entre o topo da rampa da Estrada dos Arneiros (confluência com a Travessa dos Arneiros) e a Estrada Militar. Assim, entre os dois espaços referidos existia o caminho de acesso ao Casal dos Arneiros, isto é, interligando a velha Estrada dos Arneiros com a Estrada Militar ou Estrada da Circunvalação e numa extensão que rondava 120 metros.



Extracto da Planta Topográfica 4P/3. O Casal dos Arneiros, o Moinho dos Arneiros de Manuel Jaquim da Silva e o caminho de acesso que existia entre a Estrada dos Arneiros e a Estrada Militar (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa) 


Depois do primeiro alargamento e a consequente absorção do Casal dos Arneiros, moinho e terrenos anexos, a fronteira do Cemitério de Benfica deslocou-se para Este, isto é, colidindo com os limites da Quinta do Charquinho, mas e ao mesmo tempo, seria suprimida definitivamente, qualquer ligação entre a Estrada dos Arneiros e a Estrada Militar. Assinale-se também, que o 1º Alargamento do Cemitério de Benfica e do Posto de Limpeza camarário contaram, ainda, com uma parcela de terreno retirado à Quinta do Charquinho através de Escritura de Cedência de 30/12/1930. Na Planta 4P/1 observam-se as conhecidas Estrada da Militar ou Estrada da Circunvalação, a Calçada do Tojal e os dois acessos, quer à Quinta do César (mais tarde, Quinta das Pedralvas), quer à Estrada da Circunvalação (cruzamento do Caliça). Evidencia-se, também, a Rua Cláudio Nunes e a Travessa dos Arneiros (actual Rua dos Arneiros), a Estrada dos Arneiros (com a conexão à Estrada Militar através do Casal dos Arneiros e o final da citada artéria com a Calçada do Tojal), a Quinta do Vale Tareja e, ainda, a Quinta das Palmeiras, a Quinta do Charquinho e a Quinta do Sarmento.



Início da Rua 8 no Cemitério de Benfica desde o portão secundário ao cruzamento com Rua 7 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


No extracto da Planta Topográfica 4P/2, além de parte das áreas da Quinta do Charquinho e Quinta do Sarmento, surge-nos o Casal dos Arneiros e o Cemitério de Benfica onde são visíveis, tanto a entrada principal e o portão secundário (junto ao caminho de acesso ao Casal dos Arneiros), como os dois pequenos edifícios de apoio (Serviços Administrativos) e, no termo da pequena alameda e no enfiamento do portão principal, a indicação da emblemática capela do cemitério.



Panorâmica da Rua 8 obtida a partir do cruzamento com a Rua 7, o ponto mais elevado do Cemitério de Benfica (Foto de Fausto Castelhano, 2013) 



Enfim, no recorte da Planta topográfica P4/3, a imagem revela-nos o caminho entre a Estrada dos Arneiros e a Estrada Militar (Estrada da Circunvalação) e verificamos, também, que o pequeno conjunto de fogos do Casal dos Arneiros localizava-se, aproximadamente, a meio do percurso mencionado. Ora, um pouco adiante e já bastante próximo da Estrada Militar, encontrava-se o altaneiro Moinho dos Arneiros e onde, certamente seriam moídos os cereais colhidos nas inúmeras herdades ao seu redor, nomeadamente, algumas culturas cerealíferas tradicionais da região, tais como, o trigo e o milho. Assim sendo e no intuito de confirmar a localização mais ou menos exacta do Casal dos Arneiros após a minuciosa abordagem da palpitante documentação obtida, deslocámo-nos ao Cemitério de Benfica. Então, recorrendo à quadrícula dos seus arruamentos insertos na Planta Topográfica 4P, iniciámos a nossa visita pelo Rua 8 (sentido Sul/Norte), ou seja, a linha de fronteira virada ao Nascente geográfico do primitivo Cemitério dos Arneiros e onde outrora existiu o respectivo muro de protecção. Assim, por entre a harmoniosa fileira de jazigos de ambos os lados da Rua 8, percorremos o curto trajecto de acentuada inclinação desde o portão secundário (situado no início da Rua João Ortigão Ramos, troço da antiga Estrada dos Arneiros) até ao seu términus, isto é, o cruzamento (na perpendicular) com a Rua 7 (Este/Oeste) e onde pontifica o memorial ao pintor/escultor Francisco Santos.



Memorial ao pintor/escultor Francisco Santos erguido no cruzamento da Ruas 7 e Rua 8 do Cemitério de Benfica, isto é, no local de maior altitude do Cemitério de Benfica 
(Foto de Fausto Castelhano) 


Aqui, abre-se um espaço planáltico de alguma dimensão (a Leste) e cuja superfície, anterior ao primeiro alargamento do cemitério, encontrava-se inserido nos antigos domínios, tanto do Casal dos Arneiros, como do chamado moinho de vento dos Arneiros. Trata-se, seguramente, de um dos cerros de cota mais elevada existente nas cercanias do centro histórico da Freguesia de Benfica, mesmo em confronto com a alta colina onde se ergue o palacete da Quinta da Granja de Cima.



A Rua 7 desde o cruzamento da Rua 8 (o ponto culminante em altitude do Cemitério de Benfica) até à capela do Cemitério de Benfica 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Observando a configuração do espaço em questão, constata-se que a cerca de dez metros na direcção Norte, o terreno vai precipitar-se abruptamente sobre a Estrada Militar e a Urbanização de Alfornelos e a Este, após breve declive e galgados à volta de 40 metros, uma profunda ravina abre-se ao encontro das Urbanizações da Quinta do Bom-Nome (antiga Quinta do Sarmento) e Quinta do Charquinho. O local, que poderíamos com toda a propriedade baptizar de Cerro ou Cabeço dos Arneiros, oferece-nos ampla e magnífica panorâmica até onde a vista pode alcançar num raio superior a 200º, desde o Casal de Cambra, Brandoa e Alfornelos, o Alto de Odivelas e o Casal Falcão, Urbanizações de Carnide, Bom-Nome e Charquinho, Estádio da Luz e C. C. Colombo, Alto dos Moinhos, etc. Bafejado pelos ventos predominantes que no local sopram dos quadrantes Norte e Noroeste, Manuel Joaquim da Silva não poderia escolher sítio mais favorável para construir o seu moinho de vento, justamente no prolongamento da Rua 7 orientado ao Nascente, ou seja, além da linha de fronteira do cemitério, tal como se poderá confirmar com a imprescindível ajuda, tanto da Planta Topográfica 4P/1, como na Carta Topográfica Militar de Portugal, 1928. Assinale-se, ainda, que a capela do cemitério localiza-se no extremo oposto da Rua 7, precisamente no sentido do Poente.



Panorâmica obtida próxima do cruzamento da Rua 8 com a Rua 7 do Cemitério de Benfica: Odivelas, Pontinha, Casal Falcão, Alfornelos 
(Foto Fausto Castelhano, 2013) 


Pois bem, chegados aqui podemos asseverar com escassa margem de erro que o fugidio Casal dos Arneiros, pequeno aglomerado de fogos onde alguns habitantes decidiram fixar as suas residências situava-se, aproximadamente, a meio do antigo caminho que ligava a Estrada dos Arneiros à Estrada Nova da Circunvalação, tal como já fora mencionado anteriormente. E, quanto ao obscuro Moinho dos Arneiros comprovara-se que se erguia, efectivamente, nas cercanias do ponto mais elevado do Cemitério de Benfica.



Panorâmica parcial de Carnide e Urbanização da Quinta do Bom-Nome 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


A finalizar acrescentamos apenas, uma breve nota: ao procurar o significado da palavra Arneiro, deparamos com a seguinte indicação: “local arenoso, estéril”. Então, saltou-nos uma pertinente dúvida com foros de alguma consistência. Afinal, ao cabo e ao resto e entre tanto espaço disponível no enorme território da Freguesia de Benfica, provavelmente a escolha do local onde seria implantado o futuro Cemitério de Benfica não seria, convenhamos, fruto de um mero acaso. Será que tal preferência recaiu em solos onde a escassa aptidão agrícola saltava à vista? 
O agricultor Augusto Rodrigues Castelhano, que cultivou a Quinta do Charquinho desde 1945 até 1960, sempre se lamentou: “lá p’ra cima (e referia-se às malfadadas terras limítrofes ao cemitério) a colheita não dá nem p’rá lavra e muito menos p’rá sementeira”. E a mesmíssima situação ocorria nas parcelas superiores da Quinta do Sarmento… Ali, trigo jamais medrou…Apenas raquíticas espigas de aveia…e um matagal de cardos espinhosos! E pronto, termina aqui a incursão em torno do enigmático Casal dos Arneiros e do seu moinho de vento engolidos, sem qualquer apelo nem agravo, pelo impreterível 1º Alargamento do Cemitério de Benfica. Apesar da localização exacta do Casal dos Arneiros se esfumarem, pouco a pouco, devido ao inexorável turbilhão do tempo, ainda assim tornou-se possível recuperar as suas coordenadas quando tal já se julgariam perdidas para sempre.