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quinta-feira, 27 de março de 2014

“Passarinho-Moni” - O lendário passarinheiro-mor da freguesia de Benfica




Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2014)



(por Fausto Castelhano **)



Cidadão respeitadíssimo e incontornável no seio da comunidade de Benfica, Passarinho-Moni tornou-se, no transcorrer de longos anos de traquejo na sua actividade dominante, insigne mestre na arguta arte de “armar ao ramo”, método eficiente com que lograva caçar alguns pássaros silvestres bastante comuns da fauna estremenha, aves canoras de pequeno porte e que facilmente se adaptavam em ambientes de cativeiro: tentilhões e milheirinhas, verdilhões, lugres e pintassilgos, onde com mais ou menos êxito, poderiam acasalar com canários dando origem a espécies híbridas muito interessantes. 



Debulhadora/enfardadeira movida a vapor e ainda utilizada até aos anos 40/50 do século XX nas freguesias do Termo da Cidade de Lisboa (Foto Wikipédia


A arte de “armar ao ramo”, modalidade outrora bastante difundida nas freguesias do chamado Termo da cidade de Lisboa praticava-se numa época do ano bastante precisa, balizada entre o período final das colheitas de cereais cultivados na região, principalmente trigo e aveia (debulha das espigas/enfardamento da palha) e logo depois, quando caíam as primeiras chuvadas de Setembro/Outubro, ou seja, coincidindo com os trabalhos da “lavra” e a preparação dos solos agrícolas visando as sementeiras de Inverno.


A “lavra” com charrua e junta de bois na preparação dos solos para as sementeiras de Inverno, faina agrícola bastante comum até às décadas de 40/50 do século XX nas freguesias do Termo da Cidade de Lisboa
(Foto Wikipédia


O processo de “armar ao ramo” exigia quatro elementos essenciais: produto pegajoso (visco), pequeno ramo de árvore, hastes fininhas de qualquer arbusto ou caruma de pinheiro e, por fim, um pássaro cantante adequado à função de “chamariz” (tentilhão ou pintassilgo e, ainda, a milheirinha. 
Segundo os entendidos na matéria, o tentilhão e o pintassilgo eram considerados os “chamarizes” por excelência. 
Apenas eram utilizadas dois tipos de “visco” e a sua preparação requeria alguns conhecimentos técnicos sobre o assunto. Assim, recorria-se a pedaços de “sola de Ceilão” que depois de lançados num qualquer recipiente metálico e derretidos em lume brando, convertia-se numa cola bastante eficiente. A outra opção, a arjunça: substância glutinosa extraída por incisão do caule de uma conhecida variedade de cardo, o “cardo do visco” (carlinga gommifera). 
Quanto ao ramo, escolhia-se uma pequena pernada de oliveira e que seria fixada no solo e em local propicio por onde a passarada no seu esvoaçar nas suas rotas, passaria por perto… Previamente besuntadas de visco, as finas hastes seriam colocadas de forma dissimulada por entre a folhagem do ramo com uma tal perspicácia que inadvertidamente quase obrigava os passarinhos a pousar sobre as hastes aderentes.


O “cardo do visco” (carlinga gommifera), variedade de cardo onde por intermédio de incisão no caule se extrai a arjunça, substância glutinosa que se utilizava na caça aos pássaros na especialidade de “armar ao ramo”. 
(Foto Wikipédia


Então, quando a época de Estio se aproximava do fim e os jovens passarinhos saídos da última postura adquiriam total autonomia e voejavam em bando por todo o lado, também chegava o momento do infatigável Passarinho-Moni entrar em frenética actividade. 

-Tocaram o sino do portão, vai lá ver quem é… 
- É p’ra já, mãe!  
- Ah! É o Sr. António… 
- Boa tarde, o pai está?  
- Está, sim, Sr. António. Já dormiu a sesta e agora foi lá p’ra cima. Deve estar na adega ou então, foi medir o leite. O vaqueiro acabou de mungiu as vacas. Venha daí… 
- Boa tarde, Sr. Augusto. Amanhã, bastante cedinho posso “armar ao ramo”? 
- O Sr. António esteja à vontade. Venha sempre que quiser e arme o ramo onde entender.


Ramo de oliveira, visco e chamariz, ou a arte de apanhar pássaros na modalidade “armar ao ramo”
(Foto Wikipédia


A cena repetiu-se durante cerca de dezena e meia de anos. Pois bem, logo que o mês de Setembro assomava, desde o ano já longínquo de 1945 até aos finais da década de 50 do século transacto quando a Quinta do Charquinho (e tantas outras) foi desmantelada devido ao derradeiro alargamento do Cemitério de Benfica em 1959 e, também, à construção dos edifícios do actual Bairro da Quinta do Charquinho, o Sr. António, o inesquecível Passarinho-Moni surgia-nos a tocar o sino da Quinta do Charquinho. 

Passarinho-Moni montava as engenhosas, quão fatídicas armadilhas, tanto na Quinta do Sarmento (Quinta do Bom-Nome) e Quinta do Charquinho, como nas terras um pouco mais afastadas de Alfornelos ou Falagueira e ai, sim! Integrado em pleno cenário campestre, o saudoso Passarinho-Moni sentia-se absolutamente livre que nem passarinho e tornava-se verdadeiramente insuperável na original modalidade de “armar ao ramo” onde exibia em toda a plenitude, a vasta gama de segredos do “métier” e as inexcedíveis performances da sua rara e sagaz habilidade, onde avultava paciência ilimitada, a mesma pachorra incomensurável com que instruiu o meu irmão Carlos Alberto nos mecanismos de tão singular ofício.



O pintassilgo-comum ou apenas pintassilgo (Carduelis carduelis), pequena ave fringilídea, comum em toda a Europa, mais abundante nas zonas central e meridional. É uma residente habitual nas zonas temperadas, mas as populações de latitudes mais altas migram para sul durante o inverno (Wikipédia). 


As hastes embebidas em “visco” seriam assentes de modo científico no ramo de oliveira que se fixava no chão restolhado e, juntinho ao ramo, a gaiola (protegida por mero pano branco) que encobria no seu interior, um dos componentes relevantes do método de “armar ao ramo”, o “chamariz”. Depois, o passarinheiro dissimulava-se por perto e pacientemente aguardava os acontecimentos.



Verdelhão comum (Carduelis Chioris), ave fringilídea de contextura similar ao pardal comum, ave de constituição pesada, corpo compacto, cabeça grande e bico grosso de cor osso. Visto à distância parece somente verde. Visto ao perto, poderemos apreciar as suas cores bastante destacadas (Wikipédia


Decorrido breve espaço de tempo, começava o chilreio mavioso do “chamariz” que de imediato, atraía a passarada ao redor. Um pouco desconfiados, aproximavam-se do “canto de sereia” e respondiam do mesmo modo com os seus chilreios, intrigados com a cantoria d’um pássaro que nem sequer conseguiam lobrigar. 

Então, começava a dança. Revoluteavam num verdadeiro rodopio, empoleiravam-se sobre a gaiola e à volta do ramo e, quando dominadas por extrema curiosidade resolviam pousar nas hastes besuntadas de visgo, as frágeis avezinhas já não conseguiam safar-se. O namorico, instigado pelo canto sedutor do “chamariz” acabava de modo absolutamente atroz… 

Enfim, qualquer tentativa empreendida para se libertarem da ratoeira onde caíram, resultava infrutífera. Quanto mais se debatiam, mais se enrodilhavam no “visco” fatal. 
E pronto, rapidamente apanhados à mão, procedia-se sem perda de tempo, à limpeza cuidadosa das penas, patas, etc. por meio de um pequeno trapinho embebido em petróleo.



O lugre (Carduelis spinus), também conhecido pelo nome de pintassilgo-verde, é um pássaro fringilídeo extremamente acrobático, podendo ser visto muitas vezes, pendurado de cabeça para baixo, enquanto procura alimento nas árvores (Foto Wikipédia


Ao calcorrear as ruas da freguesia de Benfica, Passarinho-Moni parecia-nos que andava sempre atarefado, contudo ao atravessar a Estrada de Benfica, acalmava e nunca ousou pisar as linhas dos carros eléctricos. Prudente, apenas alargava a passada, transpunha os carris…e já está. Saltava para o passeio do lado contrário. Quem assistia, comovia-se com tal cena mas abstinha-se de pronunciar o mais leve murmúrio…



Milheirinha, chamariz, serrazina ou grazina (Serinus serinus) é um pequeno pássaro da família Fringillidae. É muito comum em toda a Europa e encontra-se em jardins, parques e matas de coníferas. A plumagem é malhada de castanho-escuro e amarelo. No Verão, o amarelo intensifica-se e a cabeça fica quase completamente amarela. 
(Foto Wikipédia


E lá ia, ensimesmado ou à conversa consigo mesmo, segurando a gaiola envolta num simples pano branco e que ocultava no seu interior o “chamariz” da sua preferência, tentilhão ou pintassilgo, um dos principais argumentos da artimanha com que almejava levar ao ludíbrio a passarada.



O tentilhão-comum (de tintim, vocativo onomástico) é um pássaro de pequeno porte, com cerca de 15 cm de envergadura da família dos Fringilídeos (Fringilla Coelebs), sedentário, de coloração bastante viva e de canto mavioso. É também denominado batachim, chincho, pincha, pintalhão pardal-de-asa-branca, pimpalhão, pardal-dos-castanheiros, chincalhão, pintarroxo e pimpim. 
(Foto Wikipédia)


Sempre que era abordado, Passarinho-Moni, mostrava-se atencioso e irradiava largo sorriso com certa semelhança ao do antigo actor e cantor francês “Fernandel”
Aceitava encomendas de pessoas amigas ou clientes ocasionais e procedia pessoalmente, às entregas dos pássaros solicitados nas moradas indicadas ou transaccionava o produto do seu intenso labor tanto nas proximidades do mercado de levante da Avenida Grão Vasco como, mais tarde e após a sua inauguração em 19 de Outubro de 1971, junto ao Mercado Municipal de Benfica. 

O inesquecível Passarinho-Moni residiu na Rua dos Arneiros (antiga Travessa dos Arneiros), 27 - 1º andar, D.to e sempre na companhia de seus extremosos pais, o Sr. Eduardo (Funcionário Administrativo no Cemitério Municipal de Benfica) e a Sr.ª D. Adelaide. 
Após o falecimento dos progenitores no início da década de 80 do século anterior, Passarinho-Moni foi recolhido por familiares com domicílio nas proximidades da Praça do Chile. Mais tarde, afectado por problemas de saúde, seria internado numa Casa de Saúde na freguesia de Caneças. 
Por fim e nos finais dos anos 80 do século XX, o cidadão António, o renomado o Passarinho-Moni, retirou-se do nosso convívio tendo sido sepultado no Cemitério de Caneças.



Prédio onde residiu o Sr. António “Passarinheiro”, vulgo Passarinho-Moni, Rua dos Arneiros (antiga Travessa dos Arneiros, 27 - 1ºandar / D.to, freguesia de Benfica. 
(Foto do Arquivo de Fausto Castelhano) 


Entretanto, a arte de “armar ao ramo” desapareceu do panorama territorial das chamadas freguesias do “Termo da cidade de Lisboa” após a demolição das inúmeras e belas herdades de rendimento e lazer ocorridas nas décadas de 40/60 do século transacto e que, avidamente foram devoradas pela gula insaciável da massiva, quão brutal expansão urbanística que tudo abocanhou sem apelo nem agravo. 
Todavia, o célebre “Passarinho Moni” permanecerá para sempre no imaginário colectivo da população local tendo deixado uma imensa e terna saudade em todos quantos tiveram o privilégio de conhecer o expoente máximo dos passarinheiros da freguesia de Benfica e arredores. 






** O autor não respeita as normas do Novo Acordo Ortográfico









domingo, 8 de janeiro de 2012

Figuras de Benfica - 8





(por Fausto Castelhano, com a colaboração de Jorge Resende) ****




Augusto Romano Sanches de Baena

Figuras de Benfica - 8


Augusto Romano Sanches de Baena, 1º Visconde de Sanches de Baena.
Imagem disponível in Wikipédia




Visconde de Sanches de Baena, título criado por decreto de 13 de Fevereiro de 1869, do rei D. Luís I, a favor de Augusto Romano Sanches de Baena.



Visconde Sanches de Baena na sua casa de Benfica.
Fotografia de José Artur Leitão Bárcia - Ant. 1909,
in Arquivo Municipal de Lisboa
.




Augusto Romano Sanches de Baena e Farinha de Almeida Portugal Silva e Sousa (Vairão, Vila do Conde, 26 de Setembro de 1822 — Lisboa, 8 de Agosto de 1909), 1.º visconde de Sanches de Baena, médico, historiador, genealogista e especialista em heráldica, autor de várias obras de referência no campo da heráldica e da genealogia.

Augusto Romano Sanches de Baena nasceu a 26 de Setembro de 1822, em Vairão, concelho de Vila do Conde, filho do capitão João da Costa Santos (nasceu em 12/01/1775) e de Maria do Carmo Baena Coimbra Portugal (nascida em 27/7/1836).

Foi moço com exercício no Paço e de cota de armas, cavaleiro da Ordem de Malta, comendador da Ordem do Santo Sepulcro e da Ordem de São Gregório Magno.

Foi doutor em medicina pela Universidade de Coimbra.

Foi membro de várias corporações literárias, científicas e económicas portuguesas e estrangeiras.
Casou no Rio de Janeiro, a 5 de Março de 1859, com Felicíssima Constança Manuel Salgado, ali nascida a 27 de Julho de 1836.

Augusto Romano Sanches de Baena, 1º visconde de Sanches de Baena faleceu em Benfica 08.08.1909.



Jazigo da família do Visconde de Baena no Cemitério de Benfica
Fotografia de Fausto Castelhano (2012)



Filhos:

• D. Augusto de Sousa Sanches de Baena e Farinha
• D. Jerónimo de Sousa Sanches de Baena Farinha (nascido a 04.01.1863) e casou com Maria Filomena Alves Basto
• D. Luís de Sousa Sanches de Baena (nascidoa 19.06.1874) e casou com Maria da Conceição Zuzarte de Sárrea



Família do Visconde Sanches de Baena em Benfica, filho, nora e netos.
Fotografia de José Artur Leitão Bárcia - Ant. 1909,
in Arquivo Municipal de Lisboa.



Júlio de Castilho e a família Sanches de Baena na sua casa de Benfica.
Fotografia de José Artur Leitão Bárcia - Ant. 1909,
in Arquivo Municipal de Lisboa.



O Visconde Sanches de Baena e família na sua casa em Benfica.
Fotografia de José Artur Leitão - Bárcia - Ant. 1909,
in Arquivo Municipal de Lisboa.




Titulares:

1 - Augusto Romano Sanches de Baena, 1º visconde de Sanches de Baena * 1822

2 - D. Afonso de Portugal Sanches de Baena e Farinha, 2º visconde de Sanches de Baena * 1886

3 - D. Maria da Graça de Valsassina Sanches de Baena, 3ª viscondessa de Sanches de Baena * 1947

4 - D. Nuno Sanches de Baêna de Saldanha da Bandeira Ennes, 4º visconde de Sanches de Baena * 1972


O magnífico palacete do Visconde Sanches de Baena situava-se na Estrada de Benfica, 609 a 613 e fazia gaveto com a Travessa do Rio onde, também, existia uma outra entrada pelo nº 1 da referida travessa.

O histórico edifício foi demolido nos meados dos anos 70 do século XX.



Brasão de armas do palacete (XIX) Visconde de Sanches de Baena - Estrada de Benfica, 609 a 613.
Fotografia de Eduardo Portugal - 1945, in Arquivo Municipal de Lisboa.




Palacete do Visconde Sanches de Baiena.
Fotografia de Eduardo Portugal - 1945, in Arquivo Municipal de Lisboa.



Palacete do Visconde de Baiena - Estrada de Benfica, 609 a 613.
Fotografia de Armando Serôdio - 1960, in Arquivo Municipal de Lisboa.



Travessa do Rio, 1 - à direita, o palacete do Visconde Baiena.
Fotografia de Artur Goulart, in Arquivo Municipal de Lisboa.









**** Fontes Bibliográficas: - Wikipédia.



ANEXO:




Assento de baptismo de Augusto Romano Sanches Baena

Enviado por Jorge Resende, disponível in Etombo - Recursos para a Genealogia

[clicar na imagem para ampliar e ler abaixo a transcrição do texto]




Assento de batismo/nascimento de Augusto Romano Sanches Baena

Nasceu em Vairão, Vila do Conde, 26.9.1822

Augusto Romano, filho legítimo de José de Souza Costa e Dona Maria do Carmo Baena do lugar de (…) desta freguesia do Salvador de Vairão, neto paterno de João da Costa Santos e Maria da Assumpção do lugar e freguesia de Vairão, e materno de Francisco da Silva Coimbra e de sua mulher Dona Maria Fortunata Agostinho Portugal, da freguesia dos Anjos da cidade de Lisboa, nasceu aos vinte e seis dias de Setembro de Mil Oitocentos e Vinte e Dois e aos vinte e nove do mesmo mês e ano foi batizado solenemente na pia batismal desta igreja com imposição dos santos óleos por mim Padre Manuel José Gonçalves d’Araújo pároco desta igreja e que servi de padrinho e se lhe impôs a Coroa de Nossa Senhora da Natividade e foram testemunhas o Padre José Bento de Souza e José João Ramos ambos desta freguesia que comigo assinaram este termo.

O pároco Manuel José Gonçalves d’Araújo

José João Ramos e

Padre José Bento de Souza











quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O dono da Farmácia União (Manoel d’Almeida e Sousa)




O dono da Farmácia União
(Manoel d’Almeida e Sousa)

“Jogador de pau” ou campeão de Luta Greco-Romana?


Figuras de Benfica (7)


(por Fausto Castelhano)



Manoel d’Almeida e Sousa, o dono da Farmácia União.
(Foto gentilmente cedida pela família de Almeida e Sousa)




Os anos, paulatinamente, rolaram, rolaram e, pouco a pouco foram varrendo da memória das gentes da Freguesia de Benfica, os sítios que nos deixaram gratas e profundas recordações e os episódios que ao longo do tempo marcaram, indelevelmente, não só a urbe mas também, tantos e tantos cidadãos que deram corpo e alma à comunidade onde estavam integrados… E, se porventura e felizmente, alguns registos fidedignos ficaram retidos na memória colectiva das suas populações, quer através de relatos orais, quer inscritos em páginas de jornal ou livro, folheto, revista ou num qualquer suporte técnico de gravação de som e imagem, muitas outras ocorrências dignas de menção acabaram por se perder de modo irremediável ou então, emergem algo deturpadas por lacunas ou imprecisões, desconhecimento total ou parcial dos factos e acontecimentos e, quantas vezes, sofrendo um qualquer oportuno apagão! Propositadamente… ou não! E, como diz o povo, quem conta um conto acrescenta, logo de seguida, um ponto e, sendo assim, quanta verdade insofismável não irá, mais tarde, passar à História dos povos como simples arremedo do que realmente aconteceu…



Lá está a Farmácia União na Estrada de Benfica, 592 e 594. No piso superior, com varanda, vivia Manoel d’Almeida e Sousa e família, a Sra. Dª. Belmira e a filha única, a Sra. Dª. Maria Leonor .
(Foto de Augusto de Jesus Fernandes, 1961 - in Arquivo Municipal de Lisboa)



Quem, nos dias de hoje e na Freguesia de Benfica, se recorda onde se localizavam o célebre Café Marijú ou a pujante Metalúrgica de Bemfica, a conceituada Fábrica de Pregos “Sópregos” de Ludgero Alvarez ou o antigo Patronato Paroquial da Freguesia de Benfica, a Garagem Bemficauto ou o belíssimo palácio do Visconde de Baena, o Café Paraíso de Benfica (uma referência incontornável) ou a Foto Águia d’Ouro onde a Alice Lisboa (a “Beca”, irmã do hoquista internacional José Lisboa) ajeitava o cliente p’rá posição ideal e, focando a objectiva da máquina e o projector luminoso, arrancava belas fotografias?
E a excelente padaria Panificação do Sul ou o vetusto coreto da Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica, o edifício da Cozinha dos Pobres da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, mais conhecida pela Sopa do Barroso ou Sopa do Sidónio ou a taberna/carvoaria do ti’Alfredo? Quais os locais onde estavam instalados? E por onde corria o nosso rio, a chamada Ribeira de Alcântara? Será que existem registos do percurso da antiquíssima linha d’água e do seu posterior encanamento?



A Estrada de Benfica, 580 a 600 e o prédio da Farmácia União, 592 e 594.
(Foto de Augusto de Jesus Fernandes, 1967 - in Arquivo Municipal de Lisboa)



E que tal o alvoroço causado pela formidável carga policial em plena campanha eleitoral do General Humberto Delgado, sobre crentes e não crentes à saída da missa das 19.00 horas numa tarde soalheira do mês de Maio de 1958 e onde, aos gritos e clamores de cortar o coração das aterradas vítimas se sobrepôs, em grande estilo, a destemida ousadia do padre Álvaro Proença, o prior da Paróquia de Benfica? Lesto, saltou p’ró epicentro do reboliço e, avançando de peito aberto, enfrentou a polícia protestando, energicamente, contra a injustificada e violenta repressão sobre o povo indefeso… E o maralhal ao redor da confusão, curioso e ao mesmo tempo perplexo pelo inusitado burburinho assistia, fortemente indignado, a cena verdadeiramente selvática…Passados que foram tantos anos, quem se recorda do turbulento desacato?



A remodelação da Estrada de Benfica junto à Farmácia União em 1976.
(Foto gentilmente cedida por António Ribeiro de Almeida)



E certamente, ninguém se lembrará do impressionante e pesaroso recolhimento da população aquando da passagem do funeral do Padre Cruz pela Rua Cláudio Nunes a caminho do Cemitério de Benfica ou, então, à visita do Arcebispo de Mitilene que presidiu à espampanante cerimónia da Comunhão Solene e Crisma dos meninos e meninas no memorável domingo 3 de Maio do ano de 1951…
O Lar do Jogador do S.L. e Benfica e os seus famosos futebolistas alojados num edifício da Quinta das Pedralvas no tempo do célebre orientador técnico brasileiro Otto Glória; o Campo Francisco Lázaro e o Ringue Fernando Adrião; os concorridos Torneios de Cavalhadas na Quinta da Granja de Cima (com entrada pelo portão da Estrada do Poço do Chão junto ao poço e chafariz de água desagradavelmente salobra); a sinistra Árvore do Enforcado, um frondoso freixo encostado ao muro do cemitério num soturno e temeroso recanto da Estrada Militar e onde, exactamente no funesto local, cidadãos desesperados aproveitavam p’ra colocar corda à volta do pescoço e aí, num ápice e a sós com os pensamentos mais íntimos, dependuravam-se no espaço! Esperneavam, esperneavam um pedacito e… pronto! Esticavam o pernil…A notícia corria depressa e o povoléu acorria ao local… Lembram-se?



A Metalúrgica de Bemfica na Estrada das Garridas. O rio (Ribeira de Alcântara) separava o recinto de jogos do Clube Futebol Benfica (Campo Francisco Lázaro) da Metalúrgica de Bemfica.
(Foto de Artur Goulart - in Arquivo Municipal de Lisboa)



Um mundo que desapareceu na sofreguidão insaciável e demolidora do camartelo nas décadas de 50 e 60 do século XX para dar lugar a um outro universo totalmente diferente… Melhor? Pior?
Depois, vão surgindo, já um pouco difusas pelo desfiar dos anos, os rostos d’uma infinidade de individualidades que deixaram uma indelével saudade e marcaram, também, uma época inesquecível na nossa terra… Porém, muitos outros vão caindo, inexoravelmente e aos poucos, no mais total esquecimento: D. José Blanc de Portugal, poeta e crítico musical, homem de extrema simplicidade e que, por mero acaso, foi nosso vizinho na Estrada do Poço do Chão e, mais tarde, na Estrada dos Arneiros; Ludgero Alvarez, o proprietário da Fábrica de Pregos "Sópregos"; Guerreiro Galla, um ricaço de topo e dono da bela Quinta das Palmeiras e o Capitão Santos Romão, o Presidente da Federação Portuguesa de Hóquei em Patins.



O coreto da Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica no adro poente da Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica.
(Foto Wikipédia)



Outros, de quando em vez são relembrados: os inesquecíveis manos Serpa e hoquistas de nomeada (Rodolfo, Olivério e Sidónio) ou o estupendo guarda-redes do Clube Futebol Benfica, Aníbal de Oliveira (irmão do guarda-redes internacional do Atlético Clube de Portugal, Ernesto de Oliveira).
Os valorosos campeões de Hóquei em Patins, José Lisboa, Cruzeiro, Perdigão, Álvaro Lopes, Mário Lopes, o “Marita”, etc. O Torcato Ferreira, jogador e treinador de Hóquei em Patins, um homem de visão apurada que lançou, em hora extremamente feliz e no mundo do “Hóquei sobre rodas”, o fenomenal António Livramento! Mais tarde, Torcato Fereira alcandorava-se a brilhante seleccionador nacional da modalidade! Aliás, António Livramento e após o findar da sua excepcional carreira de jogador seria, também, distinto treinador e seleccionador da equipa nacional de Hóquei em Patins e com enormíssimo sucesso…
Ah! A Sra. Dª. Germana, a bela grega que todos admiravam pela impecável postura e incomparável beleza... Era a esposa de Jorge Marques, filho do dr. Marques e este, sim, é que era o dono da Farmácia Marques…



D. José Blanc de Portugal, poeta e crítico musical.
(Foto Wikipédia)



O “Passarinho Moni”… Personagem típica da Freguesia de Benfica, extremamente respeitado e acarinhado pela população local… Um mestre na sofisticada arte de “armar ao ramo” (com “visco”) na Quinta do Charquinho ou na Quinta do Sarmento (Quinta do Bom Nome). Com extrema paciência e invulgar saber, ensinou o meu irmão Carlos na função que dominava como poucos e colocou-o a par de todos os segredos e truques da difícil especialidade em que era mestre consumado… E assim, com o ardiloso sistema onde imperava, acima de tudo, a perseverança e a artimanha, caçavam verdilhões, milheirinhas, pintassilgos ou tentilhões!



A Selecção Portuguesa que conquistou o 1º. Título Mundial de Hóquei em Patins em 1947. Em cima: Sidónio Serpa, Jesus Correia, Cipriano, Olivério Serpa e Álvaro Lopes.
Em baixo: Correia dos Santos e José Prazeres - Treinador e Seleccionador Nacional.
(Foto Wikipédia)



“Passarinho Moni” possuía uma característica bastante singular: transportava na mão, sempre e com mil cuidados, uma gaiola tapada com um pano branco ocultando, no seu interior, um tentilhão que lhe servia de chamariz no mister em que se tornou exímio: “passarinheiro de armar ao ramo”… Jamais pisou a linha dos carros eléctricos da Carris: esticava as pernas e, alargando a passada, em meia dúzia de lanços transpunha a Estrada de Benfica d’um passeio ao outro! A quem assistia tornava-se um momento de silêncio e de extrema emoção! Uma imensa saudade que não se esvaiu com o tempo… Até um dia …“Passarinho Moni”!
E a célebre Alice Gorjão? Quem se lembra? Claro, a vendedeira de fruta e hortaliça que, no desfile das Marchas Populares pela Avenida da Liberdade abaixo na noite de Santo António, ajaezada no característico trajo de saloia, mostrava toda a extensão da sua garridice… Fazendo gala em montar no burro que se tornou, também ele, indelével tradição da própria Marcha de Benfica, a carismática Alice lá ia, distribuindo acenos e sorrisos pela multidão apinhada nos passeios laterais da Avenida causando, sempre, desmedida sensação! Hoje, os burros foram proibidos no desfile na Avenida e a Alice Gorjão… há muito que desapareceu do nosso convívio e partiu deste mundo…



Torcato Ferreira, o grande mestre do Hóquei em Patins.
(Foto Wikipédia)



O Sr. Manuel Madureira, dono do Café Paraíso de Benfica e do Café Marijú, um bom amigo que muito estimávamos e que, a contento de todos os convidados à cerimónia do enlace, serviu o “copo- d’água” no meu primeiro casamento! Quanto ao meu irmão Carlos Alberto (o “Calminhas”) ignoro se, na realidade, teria acertado contas com o Sr. Madureira a propósito da reparação do taco de bilhar com que rachou a cachola ao Joãozinho no Café Marijú e o enviou, directamente e de urgência, p’ró Hospital de S. José!
O Sr. Vicente Caleya Ribeiro, cidadão distintíssimo e indefectível amigo de todas as horas do Clube Futebol Benfica, o seu clube do coração e onde, durante largos anos, exerceu o cargo de dirigente desportivo de altíssimo destaque…



António Augusto Pereira, o "António da Farmácia" em 1944.
(Documento gentilmente cedido por António Pereira)



António Augusto Pereira, o “António da Farmácia”, que já dobrou os 80 anos, companheirão e amigalhaço de longa data, mas onde a férrea amizade continua intacta e se fortalece a cada dia que passa… Possui extraordinária e fresca memória e transporta no alforje um rol inesgotável de histórias fabulosas ocorridas na Freguesia de Benfica… E, claro está, dignas de serem ouvidas atentamente e registadas e, se possível, à volta d’um petisco e numa roda de amigos… Aí, sim! Jamais nos cansaremos de escutar, embevecidos, as mirabolantes maravilhas acontecidas na nossa comunidade…
Ajudante de Farmácia e fervoroso lampião dos quatro costados desempenhou, durante um ror de anos, vários cargos de dirigente do seu clube de sempre: o Sport Lisboa e Benfica…



António Pereira, o "António da Farmácia", dirigente um ror de anos do seu clube de sempre: o Sport Lisboa e Benfica.
(Documento gentilmente cedido por António Pereira)



Dotado de pontaria afinada, foi caçador emérito em caçadas memoráveis no país e na estranja tendo, a minha pessoa e amiúde, sido obsequiado, generosamente, com magníficas e saborosas peças de caça de alto quilate: pombos bravos, lebres, patos bravos, coelho bravo, tordos e, num certo dia, dois faisões…
Enquanto jovem, armava aos pássaros utilizando ratoeira e “formiga de asa” na Quinta do Sarmento ou na Quinta do Charquinho todavia, o seu local predilecto e onde a caça se apresentava mais apetecível (e não se espantem!) era junto às sepulturas no interior do Cemitério de Benfica por onde se enfiava, esgueirando-se por um dos buracos de escoamento de águas pluviais existentes no muro da Quinta das Tabuletas que deitava p’rá Quinta do Sarmento…



Manoel d’Almeida e Sousa - 1934.
(Foto cedida gentilmente pela família de Almeida e Sousa)



Os covais revolvidos pelos enterramentos dos cadáveres ou exumação das ossadas seriam, de facto, a oportunidade de um belo manjar p’rós bandos de pardais que ali esgravatavam a terra fresca à cata de minhocas e outras bichezas… O "António da Farmácia", perspicaz, topou-lhes a manha e… não falhava… Aviava-se bem! E, sem sombra de contestação, passarinhos fritos têm-se revelado, ao longo dos tempos, apetitosos acepipes altamente apreciados!
E, se é verdade que o António Pereira, longos anos de dedicação à Farmácia Sousa (1), não chegava p’rás encomendas na eficiência com que aplicava injecções intravenosas e intra-musculares a meio mundo da Freguesia de Benfica e arredores… a restante clientela aguentava sem pestanejar, que remédio, as picadelas certeiras com que o sr. Manoel d’Almeida e Sousa (o dono da Farmácia União) e a esposa, a Sra. Dª. Belmira, sempre muito atenciosos e prestáveis, atendiam os pacientes que deles necessitavam…



O fascínio pelo mar de Manoel d’Almeida e Sousa! Pescaria em pleno rio Tejo com um grupo de amigos.
É o terceiro a contar da esquerda (1935).
Foto cedida gentilmente pela família de Almeida e Sousa)



E, embora sejam escassas as referências sobre figuras que nasceram, viveram ou que se tornaram notadas na Freguesia de Benfica, uma das freguesias emblemáticas do chamado Termo de Lisboa, encontramos um pequeno lote dessas personagens inseridas no texto Elogio do Subúrbio de António Lobo Antunes e, entre outras vultos sobejamente conhecidos, surge, então, a referência ao dono da Farmácia União, precisamente, uma das individualidades que, felizmente, não foi totalmente olvidada, não obstante e no texto em que é aludido, seja recordado de um modo bastante infeliz, senão mesmo, absurdo…



Almeida e Sousa a preparar os apetrechos de pesca para mais uma pescaria (1935).
Foto gentilmente cedida pela família de Almeida e Sousa)



Ao trazer a terreiro o dono da Farmácia União e salientá-lo como mero jogador de pau, modalidade que não consta no seu riquíssimo currículo e nem sequer encaixa no seu perfil, o autor em questão incorreu numa grosseira falsidade do tamanho da “légua da Póvoa”…



Manoel d’Almeida e Sousa e o famoso Ford Prefect de que muito se orgulhava.
(Foto cedida gentilmente pela família de Manoel d’Almeida e Sousa)



Os familiares e amigos de Manoel d’Almeida e Sousa nunca se conformaram com o insólito atrevimento com que A.L. Antunes caracterizou o dono da Farmácia União! Face à notória parvoeira, os seus familiares melindraram-se e deploraram a desastrada afronta e os amigos “foram aos arames” ante o lamentável dislate!
Com efeito, a ideia peregrina de retratar o nosso amigo Manoel d’Almeida e Sousa de forma tão leviana, além de pouco abonatória, permanece como um mistério insondável… Aonde se teria alicerçado A.L. Antunes p’ra botar no papel uma tal invencionice? Fruto do acaso ou imaginação fertilíssima?
E cá está como a História pode ser adulterada por desconhecimento de pessoas e factos e configura, alem do mais, uma certa desonestidade para com as gentes da Freguesia de Benfica e da memória colectiva da comunidade levando-as, objectivamente, ao mais puro engano face a informação absolutamente errónea…



Férias em Santo António da Caparica na casa de praia de Manoel d’Almeida e Sousa.
Maria Helena com 17 meses (Julho de 1967).
(Foto de Fausto Castelhano)



"O dono da Farmácia União jogava o pau, a esposa do proprietário da Farmácia Marques era uma grega sumptuosa de nádegas de ânfora e pupilas acesas, que me fazia esquecer a mulher do Sandokan ao vê-la aos domingos a caminho da igreja, o sineiro a quem chamavam Zé Martelo e que tocava o Papagaio."

Mas, já vai sendo tempo de levantar o véu e dar a conhecer o dono da Farmácia União: Manoel d’Almeida e Sousa, a quem rendo sincera homenagem ao dedicado amigo que tivemos a felicidade de conhecer e conviver desde os primórdios da década de 50 do século XX quando, inesperadamente, um nosso familiar adoeceu gravemente…



Férias em Santo António da Caparica na casa de Almeida e Sousa.
Maria Helena aos 17 meses com a avó materna Maria José (Julho de 1967).
(Foto de Fausto Castelhano)



Cidadão prestigiado e de insofismável estatura cívica e humana da Freguesia de Benfica, Manoel d’Almeida e Sousa nasceu na cidade de Elvas a 4 de Março de 1894… Homem afável e generoso, prestou serviços relevantes na área de enfermagem e sempre, sempre com impecável competência técnica… Vários atletas do Clube Futebol Benfica recorriam aos seus serviços, graciosamente e procedia, de modo idêntico, em relação às pessoas de recursos limitados e que a ele recorriam frequentemente…
Exercia funções de enfermagem na Cruz Vermelha Portuguesa, tanto no posto do Largo do Calvário, como na delegação do Terreiro do Paço onde era muito acarinhado angariando, à sua volta, inúmeros amigos, sobretudo entre os comerciantes que operavam no antigo Mercado da Ribeira…
Fascinado pelo mar, Almeida e Sousa conseguiu, após demoradas diligências com entidades oficiais, que a Administração do Porto de Lisboa lhe concedesse uma pequena parcela da duna contígua ao areal da Margem Sul entre a Trafaria e a antiga praia da Cova do Vapor: Santo António da Caparica… Mediante, claro está, o pagamento de renda anual devidamente estipulada…



Férias em Santo António da Caparica na casa de praia de Manoel d’Almeida e Sousa.
Maria Helena com 17 meses nas escadinhas de acesso ao areal (Julho de 1967).
(Foto de Fausto Castelhano)



Sítio verdadeiramente privilegiado, Almeida e Sousa resolveu, no início da década de 30 do século XX, construir uma típica moradia de veraneio em madeira alicerçada com colunas de cimento armado! Cave composta de várias divisões, cozinha e poço; quartos de dormir, cozinha e sala de jantar no piso superior; o sótão, espaçoso e munido de clarabóias no telhado era, para mim, um excepcional quarto de dormir! Varandim em madeira e, nas traseiras, pequena escada de acesso directo ao areal… A água distava cerca de 30 metros…



Manoel d’Almeida e Sousa em 1923, estupendo jogador de futebol do CIF - Clube Internacional de Futebol. (Foto cedida gentilmente pela família de Almeida e Sousa)



Almeida e Sousa obteve carta de marear, adquiriu barco e todos os apetrechos inerentes à faina da pesca… e não faltaram as fartas pescarias com amigos ou familiares… Mão certeira p’rá cozinha: célebres as caldeiradas de peixe e os ensopados de borrego regados a vinhos de qualidade…




Manoel d’Almeida e Sousa, sócio e nadador de grande fôlego do Grupo Sport Cruz Quebradense - 10 de Abril de 1931.
(Documento cedido gentilmente pela família de Almeida e Sousa)



Na manutenção da casa de praia e logo que a Primavera se fazia anunciar, Almeida e Sousa recorria ao auxílio dos amigos os quais e de bom grado, participavam em todas as tarefas necessárias ao bom andamento dos trabalhos… Recompensados e nem outra cousa seria de esperar, através de lautos almoços e jantares…
Viagem a partir de Benfica no Ford Prefect, automóvel de que muito se orgulhava (2), até ao Cais Fluvial de Belém e estacionamento do carro no parque adjacente, ainda grátis… Embarque no cacilheiro até à Trafaria e, na praia-mar, a viagem era completada na camioneta da carreira até Santo António da Caparica. Algumas dezenas de metros pelo pinhal e chegávamos ao nosso destino: o Pica-galo como fora baptizado… Na baixa-mar o caso mudava completamente de figura! O trajecto fazia-se a butes ao longo do areal… Um pedação! Era assim! Realmente, um convívio bastante saudável onde imperava a pura e sã camaradagem, mas onde se trabalhava no duro pelo profundo afecto que todos dedicavam ao amigo e companheiro de excepção Almeida e Sousa!



Manoel d’Almeida e Sousa (o segundo na primeira fila), treinador da equipa de Luta Greco-romana do Ginásio Clube Português na década de 40 do século XX.
(Foto gentilmente cedida pelos familiares de Almeida e Sousa)



No mês de Julho de 1967 alugámos a casa de praia a Almeida e Sousa e de facto, fruímos de belíssimas férias e onde o sol e a magnífica temperatura contribuíram, grandemente, para que tal nos enchesse de insuperável satisfação…
Durante longuíssimos anos, Manoel d’Almeida e Sousa revelou-se um desportista verdadeiramente ecléctico e de invulgares atributos: futebolista estupendo no CIF (Clube Internacional de Futebol) onde praticou a modalidade na década de 20 do século passado e, na década de 30, alinhando pelo Sport Clube Cruz Quebradense, evidenciou-se como pujante nadador de longa distância! O seu fôlego inesgotável destacava-se nas provas onde competia…



Manoel d’Almeida e Sousa, um grande campeão de Luta Greco-romana na festa de homenagem promovida pelo seu clube: o Ginásio Clube Português.
(Foto gentilmente cedida pelos familiares de Almeida e Sousa)



Porém, representando o consagrado Ginásio Clube Português, foi na modalidade de Luta Greco-romana (3) que Manoel d’Almeida e Sousa sobressaiu, sobremaneira, como atleta de craveira superior de âmbito nacional onde alcançou altíssimas performances!
Mais tarde e como conceituado treinador de méritos firmados, orientou os atletas que compunham a equipa de Luta Greco-romana do Ginásio Clube Português.
No culminar de insuperável e brilhante carreira como atleta e treinador, o Ginásio Clube Português promoveu uma justíssima e bonita festa de homenagem a Manoel d’Almeida e Sousa…



Uma das últimas fotos de Manoel d’Almeida e Sousa (por detrás do noivo) no casamento do nosso sobrinho, Fernando Castelhano Monteiro, em 21 de Março de 1976.
(Foto cedida pela família de Almeida e Sousa)


Manoel de A’Almeida e Sousa e Maria Manuela Castelhano no casamento de Fernando Castelhano Monteiro e Emília.
(Foto gentilmente cedida pela família de Almeida e Sousa)



Manoel d'Almeida e Sousa, ilustre cidadão da Freguesia de Benfica, faleceu no dia 4 de Abril de 1979 com a idade de 85 anos.
A Farmácia União continuou na posse da família de Almeida e Sousa durante alguns anos sob a gerência da esposa, Sra. Dª. Belmira e da filha, a Sra. Dª. Leonor. Mais tarde, mudou de mãos e hoje, os proprietários são outros. O visual exterior da Farmácia União alterou-se e as portas e janelas em madeira foram substituídas por outros materiais, nomeadamente, alumínio! O reclamo, luminoso, todo catita, chama a atenção do cliente!



Estrada de Benfica, 592 e 594 - o novo visual da Farmácia União.
(Foto de Fausto Castelhano - 2011)



No interior, armários, vitrinas e balcão em madeira pintada de branco e que lhe davam um certo cariz que nos encantava, já não existem! O estabelecimento, acompanhando os novos tempos, modernizou-se e é semelhante a qualquer outro do ramo: insípido!



Estrada de Benfica, 592 e 594 - a Farmácia União e o letreiro luminoso, modernaço…
(Foto de Fausto Castelhano - 2011)



Evocar condignamente a memória do amigo e cidadão exemplar Manoel d'Almeida e Sousa tal como ele a merece e que à muito lhe era devida foi a nossa preocupação original… Com os elementos disponíveis, afincada pesquisa e tendo por meta a objectividade e o rigor, creio que chegámos a bom porto além de corrigir, claro está, uma atoarda absolutamente descabida que lhe é dirigida no texto de A.L. Antunes… Colocar as coisas no seu devido lugar, isto é, “dar o seu a seu dono” foi um óptimo exercício que nos satisfez plenamente e perpetua, aos vindouros da nossa comunidade, a memória de um vulto de invulgares qualidades…



Manoel de Almeida e Sousa, o dono da Farmácia União em 1973.
(Foto gentilmente cedida pela família de Almeida e Sousa)



"Jogador de pau", como atributo principal do dono da Farmácia União é, com efeito, demasiado escasso para a dimensão da saudosa e emérita personagem que foi Manoel d’Almeida e Sousa, figura grada que muito enobreceu a Freguesia de Benfica!





NOTAS


(1)- A Farmácia Sousa estava localizada no Calhariz de Benfica, isto é, na Estrada de Benfica junto à antiga Esquadra da PSP - Polícia de Segurança Pública. O proprietário de Farmácia Sousa e, também, das Farmácias União de Marinhais e União de Benfica, era o Sr. José Pereira de Sousa Júnior o qual, na década de 30 do século passado, a vendeu ao Sr. Manoel d’Almeida e Sousa.
No 1º andar do prédio onde se localizava a antiga Esquadra da PSP, estava instalado o consultório do conhecido médico Dr. Diamantino Lopes.

(2)– Os automóveis Ford Prefect foram construídos pela Ford Motor Company entre 1938 e 1961.

(3)- A Luta Greco-romana note-se, está presente desde os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna em 1896…




Agosto de 2011
Fausto Castelhano








domingo, 13 de fevereiro de 2011

Figuras de Benfica - 6





(por Fausto Castelhano)



Dick, gatarrão inesquecível!



Fotografia de Fausto Castelhano




Digno representante da raça Felis Silvestris Catus, também conhecida como gato caseiro, gato urbano ou gato doméstico, Dick era um animal da família dos Felídeos, muito popular como animal de estimação. Ocupando o topo da cadeia alimentar, é um predador natural de diversos animais, como roedores, pássaros, lagartixas e alguns insectos.

Todavia, Dick revelou-se um gatarrão de altíssimo gabarito. Extremamente inteligente, arrogante, bonito e vaidoso, ágil e muito independente. Sempre pronto a uma qualquer malfeitoria, tornou-se um corrécio de primeiríssima ordem. Apenas obedecia à dona, a Paula Maria que nutria, pelo Dick, uma ilimitada estima e carinho!

Em resposta a qualquer ralho, Dick, o descarado fuzilava-nos com um penetrante olhar das suas pupilas esverdeadas e, não poucas vezes, atacava! Na retribuição a qualquer afago estendia, imediatamente, as garras afiadas e ameaçador, eriçava o pelo até ao rabo e mordia! Um perigo iminente! Se não se pisgava a tempo, levava um bruto safanão nas ventas p’rá aprender e no intuito de o tornar um tareco sociável. Jamais conseguimos alcançar esse objectivo! Um safado!



Fotografia de Fausto Castelhano



Dick nasceu na Estrada de Benfica em 1982, exactamente na “Papelaria Popular” e era filho da gata de estimação do Sr. Capelo e da Dª. Nazaré.

Pequerrucho, já vinha mal habituado quando mudou de residência para a Rua Manuel Múrias, 11 r/c Esquerdo, em Benfica.
A Paula Maria, aí nasceu a 19 de Dezembro de 1966.

Alimentado a carne fresca fornecida pelo talho do Sr. Virgolino, paredes meias com a "Papelaria Popular", Dick tornou-se um guloso incorrigível. Só chicha e, se possível, crua! O bichinho, possante e de pelo luzidio, encorpou e atingiu, nos seus tempos áureos, a magnífica performance de 6 Kg bem pesados…



Fotografia de Fausto Castelhano



Dormia na cama, aos pés da dona e, quando a Paula Maria se arrumou a trouxa, levou-o consigo. Foi um alívio, mas sentimos, enormemente, a falta do malandrão. Quando resolvíamos visitar a Paula Maria, lá estava o desenvergonhado a mirar os intrusos.

Já velhinho, manteve sempre a mesma postura altiva. Foi um gato do “caraças”, benza-o Deus.



Fotografia de Fausto Castelhano



Faleceu no ano 2000, poucos dias depois do nascimento do João Tomás, o filho da Paula Maria. Esperou que alguém tomasse o seu lugar!

Com as honras devidas a tão extraordinário personagem, foi sepultado na encosta de S. Marcos, concelho de Sintra. Paz à sua alma!





Ler as estórias de outros gatos dignos de renome em Benfica, aqui e aqui.