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sábado, 22 de maio de 2010

1º Passeio Temático: "As Azinhagas"





Benfica não é uma freguesia onde estejamos habituados a ver passar os turistas de máquina fotográfica na mão. Talvez porque já sejam poucos os pontos de interesse a assinalar, talvez porque a própria freguesia e os seus habitantes não os valorizem enquanto tal.

Vivemos intersticialmente ligados aos lugares que habitamos. E estes são feitos das memórias do seu Passado...
Está nas nossas mãos aprendermos com essa memória colectiva dos lugares, com o intuito de os transformarmos em espaços plenos de fruição, dando nova utilização ao nosso património e valorizando-o, em detrimento de construir novos espaços e lugares sem vida, vazios de convívio e solidariedade entre as gentes.



Subindo a Travessa da Granja.
Fotografia de Alexandra Carvalho


Quinta da Granja de Cima.
Fotografia de Alexandra Carvalho




Realizou-se esta manhã, a partir das 10h, o 1º Passeio Temático do nosso "Retalhos de Bem-Fica", tendo como tema de fundo as crónicas de Fausto Castelhano intituladas "Azinhagas - antigos caminhos da freguesia de Benfica".



Caminhando na Quinta da Granja de Cima.
Fotografia cedida por Miguel Ramos e José Lila


Fotografia cedida por Miguel Ramos e José Lila


A nora da Quinta da Granja de Cima.
Fotografia de Alexandra Carvalho



Vista do cimo da Quinta da Granja.
Fotografia cedida por Miguel Ramos e José Lila



Vista do cimo da Quinta da Granja.
Fotografia de Alexandra Carvalho




Num pequeno grupo constituído por 18 pessoas, lá empreendemos caminho rumo à Travessa da Granja, onde fomos brindados com vestígios de um passado rural e uma paisagem digna de sonho (entre-cortada pela modernidade, ali bem perto).


Como turistas, na antiga Estrada do Poço do Chão.
Fotografia cedida por Miguel Ramos e José Lila



Descendo para a Rua República da Bolívia, já com o calor abrasador a fazer-se sentir, alcançámos aquela que noutros tempos foi conhecida por Estrada do Poço do Chão e, seguindo a sua recta final, empreendemos rumo a Carnide.


Carnide - preservado.
Fotografia de Alexandra Carvalho



Carnide - em degradação.
Fotografia de Alexandra Carvalho




Em Carnide, freguesia que nos enche os olhos e os sentidos, onde as memórias do edificado vão sendo melhor preservadas do que noutros pontos da cidade, partimos em busca da Azinhaga da Fonte; e fomos brindados com a passagem por outros pontos importantes de um dos últimos textos de Fausto Castelhano: o Chafariz do Largo do Malvar, a Igreja de S. Lourenço e a Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz.

Como o calor se tornava cada vez mais insuportável e os estômagos da grande maioria de caminheiros começavam a dar horas, demos por concluída esta 1ª parte do trajecto do nosso Passeio, almoçando em grupo no restaurante "Jardim da Luz".

A 2ª parte do percurso será realizada brevemente, em data a ser ainda agendada (posto o que informaremos atempadamente através do blog).



Fausto Castelhano, o nosso guia turístico do 1º Passeio.
Fotografia cedida por Miguel Ramos e José Lila



Ao finalizar esta breve descrição do nosso 1º Passeio Temático, não podia de saudar todos aqueles que participaram no mesmo e que, com a sua simpatia e à vontade, o transformaram num edificante convívio intergeracional.

Especiais palavras de apreço e gratidão também para o nosso Amigo Fausto Castelhano que, fruto das suas interessantíssimas vivências em Benfica e de uma memória prodigiosa, fizeram com que tivéssemos um "guia turístico" mesmo à maneira!
Muito obrigada!




Visualizar mais fotografias do Passeio, aqui.

Um excelente texto sobre alguns dos locais por onde passámos neste 1º Passeio, a descobrir aqui.







sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Concelho de Belém

Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2010)




À procura das memórias d’outros tempos…

(por Fausto Castelhano)



Com a reforma administrativa de 11 de Setembro de 1852, foi extinto o chamado Termo de Lisboa (um vastíssimo território que se estendia a Norte e a Ocidente da Cidade de Lisboa) e criados dois novos concelhos: Belém e Olivais.



Chafariz do Largo do Malvar, Carnide.
(Foto de Fernando Martinez Pozal – Arquivo Municipal de Lisboa - 1952).
Em segundo plano, o muro que, vindo da Estrada do Poço do Chão, contornava a Quinta do Conde de Carnide.



O Concelho de Belém englobava as freguesias de Ajuda, Belém, Benfica, Carnide, Odivelas e, ainda, S. Pedro de Alcântara (extra-muros), S. Sebastião, (extra-muros) e Santa Isabel (extra-muros), ou seja, áreas exteriores à Estrada da Circunvalação. Em 1886, com a expansão da cidade de Lisboa, foi criada uma nova Estrada da Circunvalação a qual, permaneceu até aos dias de hoje. Porém, vários troços foram incorporados na cidade de Lisboa e outros, substituídos por vias mais modernas.



Chafariz do Largo do Malvar, Carnide.
(Foto de João Goulart – Arquivo Municipal de Lisboa).
Em segundo plano, lá está a Igreja de S. Lourenço e, a meio e à esquerda da foto, parte do telhado do Lavadouro Público.




O total da superfície do Concelho de Belém rondava os 63 Km2.

A 18 de Junho de 1885, o Concelho de Belém é extinto mas, durante este período de tempo, Belém conheceu a sua maior autonomia de sempre.



Lavadouro Publico do Largo do Malvar, Carnide.
(Foto de João Goulart – Arquivo Municipal de Lisboa).
O edifício ainda lá está… Aproveitem e vão lá ver… Qualquer dia, arrasam-no…




A Freguesia de Benfica é, então, absorvida pela cidade de Lisboa, mas uma parte, para além da nova Estrada da Circunvalação, passou para o Concelho de Oeiras.
O primeiro presidente do Concelho de Belém, foi a grande figura da cultura portuguesa Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo.



Chafariz do Largo do Malvar, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Domingo passado, logo pela manhãzinha, fomos à procura de algum testemunho que subsistisse, na Freguesia de Benfica, e que nos lembrasse o famoso Concelho de Belém. Farejámos duas zonas que ainda não foram totalmente esfrangalhadas: o núcleo do Calhariz de Benfica com o seu casco antigo e o troço da Estrada da Buraca junto ao Aqueduto e chafariz das Águas Livres e, também, da Quinta do Bom Pastor…Bem nos esforçámos…mas népia.
Não obstante e para o nosso feitio, era impensável acabar o dia de mãos a abanar…Seria um autêntico fracasso e nem ficaríamos de consciência tranquila…

Então, alargámos o nosso raio de acção e rumámos à nossa vizinha Freguesia de Carnide pela qual, nutrimos um carinho muito especial. Eu próprio, nasci na antiga Quinta de Montalegre que se dividia por duas freguesias. Um pedação da sua área pertencia à Freguesia de Benfica e o outro bocado, onde existia a célebre Cascata Monumental, estava incluído na Freguesia de Carnide.



Chafariz do Largo do Malvar, Carnide. Inscrição: "Câmara Municipal de Belém – 1857"
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Demos corda aos sapatos e lá fomos… E, logo à entrada da Freguesia de Carnide (vindos pela Estrada da Correia e do último trecho da Estrada do Poço do Chão) e paredes meias com a velha Igreja de S. Lourenço e o Lavadouro Municipal (já desactivado), exactamente no Largo do Malvar, lá estava a primeira referência ao antigo Concelho de Belém: o vetusto chafariz e, esculpida na pedra, a inscrição: "Câmara Municipal de Belém – 1857"
O local, julgamos, é razoavelmente conhecido da população…
Junto ao murete que contorna o chafariz existia, em tempos não muito recuados, um marco de pedra com uma inscrição semelhante… Pelos vistos, levou sumiço… para sempre…



Igreja de S. Lourenço, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)




E, já que ali estávamos, resolvemos invadir o recinto da Igreja de S. Lourenço onde se encontram, espalhadas um pouco por todo o lado, vários e pedregulhos lavrados (cuja origem se perde na noite dos tempos) e belíssimas lápidas seculares pertencentes ao antigo cemitério de Carnide…



Igreja de S. Lourenço, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



A igreja foi mandada edificar em 1342 pelo bispo de Lisboa, D. João (em honra de S. Lourenço), por Pedro Sanches, chantre da sua Sé. O bispo de Lisboa ofertou-a, depois, ao seu capelão João Dor. A Igreja de S. Lourenço era já Igreja paroquial no Século XIV.



Torre sineira da Igreja de S. Lourenço, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



A orientação e disposição da igreja é bastante antiga todavia, muito pouco de consegue observar do seu estado primitivo.
Foi remodelada e bem, desde há poucos anos. É um templo alegre possuindo, no seu interior, obras de talha dourada e as paredes encontram-se forradas com azulejos de azul sobre branco alusivos à vida de S. Lourenço.
Na capela-mor da igreja encontram-se inúmeras campas de épocas remotas.
Na frontaria da Igreja de S. Lourenço encontra-se uma inscrição referente à sua fundação e uma pedra com escudo de armas indecifrável e onde está esculpida uma perna com bota de cano alto encimada por uma estrela de seis pontas.



Na frontaria da igreja de S. Lourenço encontra-se uma inscrição relativa à sua fundação.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Igreja de S. Lourenço, Carnide - Pedra com escudo de armas (bastante estranho) colocada na frontaria da igreja. Uma perna com bota de cano alto encimada por uma estrela de seis pontas.
(Foto de Fausto Castelhano - Maio de 2010)




No alto de um cunhal, do lado do sul da igreja, está uma pedra com inscrição em caracteres góticos (talvez do Século XV) que diz: "ESTA SEPULTURA É DE LUÍS D’ABREU E DE TODOS SEUS HERDEIROS".



Martírio de S. Lourenço. Composição historiada, pintada a azul, representando uma cena do martírio de São Lourenço. Este painel integrava o revestimento original da nave Igreja de São Lourenço de Carnide e foi retirado no início do século XX. Dos painéis que integravam esse revestimento, um foi posteriormente colocado num paredão no troço final do Aqueduto das Águas Livres, nas Amoreiras (painel central), tendo os restantes sido guardados no Museu da Cidade.



Belíssimas pedras lavradas pertencentes ao antigo Cemitério de Carnide e que por lá ficaram.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Lápidas tumulares do antigo Cemitério de Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Vasculhámos o local até dizer chega e, dali, continuámos pelo coreto e o sítio primitivo de Carnide (que lindo que está!) até ao Largo das Pimenteiras (onde, agora, está instalada a Junta de Freguesia de Carnide) com o seu pequeno chafariz e um conjunto de pedras com inscrições de origem diversa os quais, estão enquadrados, e ainda bem, num magnífico espaço ajardinado muitíssimo bem cuidado…



Largo das Pimenteiras, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)




Depois, sim… Fomos ao encontro, há muito tempo aprazado, da mais bela memória do Concelho de Belém das redondezas. É profundamente lamentável que, a esta magnífica peça não lhe seja dado um local mais condigno dada a sua importância… Ali, não! Ninguém a topa… por mais que afine o olho…



Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz, Freguesia de Carnide. Encontra-se incrustada no muro de protecção do Convento dos Franciscanos.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)




Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz, Freguesia de Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano - Maio de 2010)



Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz, Freguesia de Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano - Maio de 2010)




O histórico testemunho do Concelho de Belém encontra-se incrustado no muro de protecção do Convento dos Franciscanos, no Largo da Luz, em Carnide… Pois é, mas naquele insólito local, passa completamente ignorado a quem quer que seja…
A inscrição, perfeitamente legível, menciona o Presidente da Câmara Municipal e os Vereadores daquela época: 1862… Reza assim:


"PRAÇA DE NOSSA SENHORA DA LUZ
MANDADA EDIFICAR PELA CAMARA MUNICIPAL DE BELÉM.
SENDO PRESIDENTE JOÃO ANTÓNIO DE SOUZA E VEREADORES MANUEL JOSÉ GONÇALVES. PEDRO AUGUSTO FRANCO. D. SEBASTIÃO DA SILVA PESSANHA. FAUSTINO JOSÉ DE FREITAS. JOSÉ ANTÓNIO CAPUCHO. FRANCISCO EVANGELISTA PACHECO.
1862"



Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz, Freguesia de Carnide com a inscrição onde é mencionada a Vereação da Câmara Municipal de Lisboa no ano de 1862.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Memória alusiva ao Concelho de Belém no Largo da Luz
(Foto de Fausto Castelhano - Maio de 2010)



E pronto… A incursão às memórias do Concelho de Belém, terminou aqui… O malvado estômago começava a dar sinais de si e a reclamar… A roer… a roer…

Maio de 2010

Fausto Castelhano

sábado, 13 de março de 2010

Azinhagas (2)





Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2010)



Ler a 1ª parte aqui.




Antigos caminhos da Freguesia de Benfica


(por Fausto Castelhano)


Com este 2º e último apontamento terminamos a incursão às Azinhagas, antigas vias que, no seu todo ou em parte, integravam o território da Freguesia de Benfica.




Azinhaga da Fonte


Com o piso em “macadame”, era um dos principais itinerários de acesso a Carnide. Tinha o seu começo no Nº 458 da Estrada de Benfica, no mesmo local onde tem início a Avenida do Colégio Militar, e desembocava na Rua da Fonte (Largo da Luz) em Carnide, mesmo em frente à Igreja de Nossa Senhora da Luz e paredes meias com os edifícios do Colégio Militar.



Trecho da Azinhaga da Fonte (1960)
João H. Goulart, in Arquivo Municipal de Lisboa



A actual configuração da Avenida do Colégio Militar corresponde, sensivelmente, ao traçado da antiga Azinhaga da Fonte até à zona do Centro Comercial Colombo e do novo Estádio da Luz. Aí, a nova avenida deriva um pouco para a esquerda e vai terminar junto ao chamado Chafariz da Luz (Rua da Fonte).



Trecho da Azinhaga da Fonte (1960)
João H. Goulart, in Arquivo Municipal de Lisboa


Esta oportuna alteração na nova via, permitiu que a instituição Colégio Militar conseguisse alargar os seus domínios e conquistasse espaço onde, outrora, existia a parte final da Azinhaga da Fonte.
Tanto assim é que, foi necessário demolir o último edifício (do lado esquerdo) da Azinhaga o qual, fazia gaveto com a Rua da Fonte (em Carnide, claro está) como se pode observar na foto.


Prédio na esquina da Azinhaga da Fonte com a Rua da Fonte e que foi demolido para permitir que a Avenida do Colégio Militar se desviasse mais para a esquerda em relação ao traçado da Azinhaga da Fonte (1961)
Augusto de Jesus, in Arquivo Municipal de Lisboa


Ao longo da Azinhaga da Fonte e do lado esquerdo (no sentido Benfica-Carnide), existiam várias casas de habitação e quintas de várias dimensões e, entre estas e o murete desta via, corria uma pequena ribeira cujo volume de água, na época das chuvas, era bastante considerável. Este curso de água desaguava junto ao local onde está edificado o Centro Comercial Fonte Nova, na chamada Ribeira de Alcântara (o meu rio, que teimam, injustamente, em chamar de “caneiro”) o qual, atravessava a nossa freguesia desde a fronteira da Estrada Militar na Damaia/Venda Nova.



Chafariz da Rua da Fonte, em Carnide (1960)– Para lá do muro e dos edifícios em segundo plano e que foram demolidos, passava a Azinhaga da Fonte. Agora, nesse espaço, passa a Avenida do Colégio Militar. Do outro lado da Avenida, o complexo do Colégio Militar
Artur Goulart, in Arquivo Municipal de Lisboa



Era aí, na confluência desses cursos de água (junto ao Fonte Nova), que a nossa grande ribeira seguia o seu curso natural em direcção a Sete-Rios e, finalmente, através do Vale de Alcântara, desaguava em pleno rio Tejo.
Do lado direito da Azinhaga da Fonte existiam as seguintes quintas:
Quinta do Luís da Granja, nº 8
Quinta de Montalegre, nº 22 (a quinta onde nasci, com a Cascata Monumental de que muita gente fala mas…nunca a toparam).
Quinta dos Belgas ou de Santo António, nº 24 e 26
Quinta do Alves Martins ou de Santo António, nº 36
Do lado esquerdo:
Quinta da Granja de Baixo, nº 1 e 3
Quinta do Guimarães, nº 11 (Anexa à Quinta Grande)
Quinta do Conde de Carnide nº 13
Quinta das Flores, nº 27
Os números de 1 a 15 e 2 a 22 pertenciam à Freguesia de Benfica. Os números 17 a 24, pertenciam à Freguesia de Carnide.



Azinhaga da Fonte – As ruínas da Cascata da Quinta de Montalegre.
À direita, em segundo plano, um dos edifícios do Colégio Militar.
Foto de Fausto Castelhano (1985)


Pois bem, depois de ansiosas diligências entre matagais e arruinados barracões, conseguimos encontrar o que pretendíamos: o que sobrou da velha Azinhaga da Fonte estava ali, à nossa vista. A placa toponímica lá está, para que não haja engano possível e, além do mais, algumas dessas antigas habitações conseguem resistir e… estão habitadas.



A placa toponímica da Azinhaga da Fonte ainda lá está.
Foto de Fausto Castelhano (2010)


O pouco que resta da antiga Azinhaga da Fonte
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Assim, e antes que arrasem, definitivamente, o pequeno troço da Azinhaga que ainda consegue subsistir, por um casualíssimo prodígio, tratámos de obter os respectivos registos fotográficos.
O que resta da antiga via está bloqueada entre a 2ª Circular (do lado de Benfica) e, da parte correspondente a Carnide, o troço existente termina entre algumas velhas habitações e altos muros que não conseguimos descortinar a quem pertencem. De qualquer modo, não tem saída.



Troço da Azinhaga da Fonte do lado de Carnide
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Apesar do que nos foi dado observar, com muita curiosidade e deleite, tínhamos que nos apressar. Provavelmente, um dia voltaremos com mais vagar…Mas, a extraordinária odisseia não terminava ali…
Próximo investida: Rua dos Soeiros…



Azinhaga da Fonte do lado de Benfica – Ao fundo, o topo do Estádio do Sport Lisboa e Benfica
Foto de Fausto Castelhano (2010)





Rua dos Soeiros


A antiga Rua dos Soeiros começava no Nº 360 da Estrada de Benfica, no sítio da Cruz da Pedra, um pouco antes do Hospital da Cruz Vermelha (para quem vem de Benfica) e terminava no Nº 177 da Estrada da Luz. Assim, metemos os “cascos” p’rá Estrada da Luz, agora com prédios gigantescos e, mais ou menos defronte das chamadas “Torres de Lisboa”, lá estava a placa que nos assinalava a antiga Rua dos Soeiros. A velha casa de gaveto (da Estrada da Luz com a Rua dos Soeiros) onde vivia a D. Isaura (tia das minhas irmãs do primeiro matrimónio do meu pai), foi completamente arrasada, tal como tudo quanto por ali existia, casas, quintas e quintarolas. Por ali acima, dum lado e doutro da Rua dos Soeiros, procederam a uma radical alteração. Fiadas de enormes prédios e ausência de qualquer sentido estético, tipo gaiola, claro está...



Estrada Luz, 181. Esta casa fazia esquina com a Rua dos Soeiros (do lado direito). Nela vivia a Dª. Isaura, tia das minhas irmãs (do primeiro matrimónio do meu pai).
João H. Goulart (1967), in Arquivo Municipal de Lisboa



Ao cimo da rampa, quando a estrada curva à esquerda e onde existia um portão que dava entrada para a Quinta de Montalegre, a Rua dos Soeiros muda de nome. Assim, se vão perdendo, aos poucos, a memória desses lugares que me eram tão queridos.



Rua dos Soeiros - Quinta do Bensaúde
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Então, aparece-nos a Rua de João de Freitas Branco a qual, abocanhou um bom pedação da Quinta de Montalegre porém, à esquerda, o velho itinerário estava lá, quase todo inteirinho todavia, crismado de Rua João Hogan. E lá estavam os velhos muros das quintas, a do Bensaúde, à esquerda e, à direita, apenas restaram as ruínas das Quintas de Montalegre e do Zé Antunes. A casa onde nasci (e os meus irmãos) já não existe, nem o poço, o grande tanque junto à horta…Nada!
Mais abaixo, no grande espaço da quinta de Montalegre (ou da Dª. Leonor) e defronte do Centro Comercial Colombo, o novo Estádio do Sport Lisboa e Benfica (a "Catedral"), inaugurado em 25 de Outubro de 2003. Este, veio substituir o antigo Estádio da Luz o qual, tinha sido aberto ao público no dia 1 de Dezembro de 1954.



Entrada da Quinta com a inscrição de 1787 e um belíssimo painel de azulejos
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Um pouco mais à frente, o infalível camartelo encarregou-se da avassaladora missão e…arrasou tudo. Estão a florescer, como cogumelos, urbanizações a preços proibitivos…Sem espaços verdes, zonas de lazer e…tudo o mais…À fina!



A inscrição de 1787 no portal da quinta
Foto de Fausto Castelhano (2010)



É a tal modernidade que nos andam a impingir a toda a hora, no seu magnífico esplendor…Por ali, o cimento armado é rei e senhor: é o chamado Alto dos Moinhos, servida pela respectiva estação do Metropolitano. No seu interior, alojaram o Museu da Música. Ao menos, valha-nos a louvável iniciativa…Pela raridade, às vezes somos surpreendidos que… nem queremos acreditar!



O magnífico painel de azulejos, no interior da quinta. O portão estava escancarado… Não perdemos a oportunidade.
Foto de Fausto Castelhano (2010)



O empedrado de basalto, tão característico destes fabulosos caminhos, fora substituído por alcatrão.
A agradável caminhada ao longo do percurso foi, na verdade, um encantamento que não vamos esquecer tão depressa. O chilrear da passarada, as milheirinhas, os pintassilgos e um casal de melros, deram-nos as boas vindas…Estamos na época de acasalamento e em plena construção dos ninhos... Uma maravilha… Meus amigos, vão lá e observem a amenidade, o pitoresco dos sítios de tempos que já não voltam mais...



Portão de quinta na Rua dos Soeiros
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Com uma sorte fantástica, deparámos com o portão da Quinta do Bensaúde escancarado e, logo ali, zás! Um extraordinário painel de azulejos, muitíssimo bem conservado… Lindíssimo…
O trajecto da Rua dos Soeiros, perdão, Rua João Hogan, bastante aprazível, é um pouco compridote, mas ainda bem que assim é… Desfrutámos, à farta, a amenidade duma ambiência única... Com muita pena nossa, tem o seu termo num verdadeiro descampado, virado para a Cruz da Pedra e no cruzamento com a Azinhaga do Ramalho.



Rua Cidade de Rabat, 5 (Antiga Rua dos Soeiros) - Quinta Nova da Conceição
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Assim, aproveitámos a vizinhança da Azinhaga do Ramalho e fomos deitar uma olhadela ao que restava do velho caminho…
Mas, primeiramente, apontámos a mira para o outro lado da Rua dos Soeiros, isto é, o trajecto que, iniciando-se na Estrada de Benfica, arrancava por ali acima até à Quinta de Montalegre…Passei por ali, milhares de vezes, de eléctrico ou a pé ou, um pouco mais tarde, utilizando o autocarro, a caminho da Escola Pedro de Santarém, da Escola Industrial Machado de Castro, das Oficinas Gerais de Material Aeronáutico de Alverca ou do Aeródromo Base nº1, depois de frequentar a Escola Militar…
Para nossa surpresa usurparam, indecentemente, o nome à Rua dos Soeiros que, agora, tomou uma nomenclatura muito mais pomposa. Nem mais! Rua Cidade de Rabat…Assim mesmo…Sim, senhor! Gente espertalhona, minada de ideias mirabolantes que conseguem sacar das profundezas da cacholeira e que, por bastas vezes, têm destes desaforos…sabe-se lá por mor de quem!



Rua Cidade de Rabat (Antiga Rua dos Soeiros)
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Porém, observámos uma outra fantasia…A antiga via (a actual Rua Cidade de Rabat), percurso natural de mercadorias, gado, carroções carregadinhos de produtos agrícolas ou hortícolas e de toda uma infatigável actividade rural, nem sequer tem ligação directa com a Estrada de Benfica. A rua foi trancada, em definitivo, pelo passeio que, por mero acaso, pavimentaram em calçada portuguesa…Vá lá… Podia ser muito pior…



Rua Cidade de Rabat (Antiga Rua dos Soeiros) – Uma casa de tempos muito antigos
Foto de Fausto Castelhano (2010)



E pronto, palmilhámos a Rua Cidade de Rabat a qual, corresponde ao início do antigo caminho da Rua dos Soeiros… A Quinta Nova da Conceição ainda lá está com o Nº 5, alguns edifícios antigos permanecem intactos, embora degradados… Logo ali, obtivemos os respectivos registos. Galgámos a rua até ao desvio do Alto dos Moinhos e fomos lá acima. Ao ponto mais elevado do local! O magnífico panorama que dali se desfruta em toda a sua extensão é, na verdade, magnífico…Depois, foi sempre a descer…Um pouco extenuados pelo valente estirão, retornámos a Benfica, o último destino da nossa romagem…




Azinhaga do Ramalho


Vamos, então, retornar um pouco à Azinhaga do Ramalho a qual, tinha o seu começo na Estrada da Luz, nº 71 e terminava, sensivelmente, a meio da Rua dos Soeiros. Este trecho da Azinhaga do Ramalho (que tinha início a partir da Estrada da Luz) foi literalmente desmantelado e a totalidade do espaço circundante está ocupado por diversas urbanizações, de gosto muito duvidoso, e que não acrescentaram nada de novo.



Azinhaga do Ramalho, Nº3 junto à Estrada da Luz (1971)
Nuno Barros Roque da Silveira, in Arquivo Municipal de Lisboa



Portanto, da vertente virada para a Estrada da Luz, tirámos o cavalinho da chuva pois, não havia nada a fazer. Assim, explorámos do outro lado deste velho caminho, isto é, pelo desvio que, da Rua dos Soeiros, nos introduz na Azinhaga do Ramalho. Talvez a sorte nos batesse à porta. E lá fomes, a “mata cavalos”…



Azinhaga do Ramalho – Os muros das quintas (do lado esquerdo)
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Na “ganga da maviosa” e sobre o empedrado original, percorremos a antiga e encantadora azinhaga, estreitinha, serpenteando por entre velhos barracões arruinados e pelos característicos muros das quintas… Abruptamente, deparámos com o final do percurso junto ao portão da Quinta do Furão. Não existe saída possível… Ali, num pequeno terreiro sobre a Estrada da Luz e a Estrada das Laranjeiras, matagal e uma belíssima lixeira! Um mimo…



O empedrado original da Azinhaga do Ramalho
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Resolvemos continuar… O fim de tarde aproximava-se...



Azinhaga do Ramalho – Portão da Quinta do Furão
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Travessa da Granja


Depois da Rua Cidade de Rabat (Rua dos Soeiros), conseguimos aguentar a pedalada…O melhor que nos foi possível!
A Estrada de Benfica é demasiado custosa após tantos quilómetros no papo! Porém, tinha que ser e… já! Ou era agora, ou então, jamais nos iríamos enfiar, novamente, em tamanha enrascada! Assim, lográmos perfazer o trajecto que nos restava da Estrada de Benfica até à Travessa da Granja.


A placa toponímica da Travessa da Granja, ainda permanece.
Foto de Fausto Castelhano (2010)



A Travessa da Granja iniciava-se no Nº 464 da Estrada de Benfica, um pouco antes da Azinhaga da Fonte e, através do seu empedrado de basalto, ladeada pelos muros das Quintas da Granja de Baixo e da Quinta da Granja de Cima, dava acesso directo à Quinta da Granja de Cima e ao palacete da Família Canas.



Travessa da Granja, a caminho da Quinta da Granja de Cima
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Nos dias de hoje, ainda persiste um pequeno troço da dita travessa (devidamente assinalada) que, na realidade, possuía as características essenciais que definem uma azinhaga. Agora, esta via começa na Rua Dr. José Baptista de Sousa e no cruzamento com a Rua Mestre Lima de Freitas. Localiza-se exactamente, nas barbas da nossa Associação de Artes e Cultura – Stimuli/Unisben.



Empedrado original da Travessa da Granja
Foto de Fausto Castelhano (2010)



O empedrado primitivo ainda se mantém. Meu pai e eu próprio, algumas vezes, trilhámos este caminho com o objectivo de negociar a compra da forragem para o nosso gado leiteiro.



Travessa da Granja
Foto de Fausto Castelhano (2010)


A velha nora da Quinta da Granja de Cima com inscrição de1919 gravada na pedra duma das colunas
Foto de Fausto Castelhano (2010)



E pronto, a viagem ao passado, no que às azinhagas diz respeito, terminou. Cansados, mas com um sentimento de indefinível prazer e do dever cumprido. Fizemos o melhor que pudemos e soubemos respeitando, acima de tudo, o rigor dos sítios e das alterações que, entretanto e ao longo de décadas, alteraram profundamente e de modo irreversível, a fisionomia da nossa freguesia. Esperamos, sinceramente, que estes singelos apontamentos contribua para um conhecimento mais preciso da nossa terra e que, entusiasme os nossos amigos e amigas a que, um dia qualquer, partam à aventura pelos caminhos e lugares de tempos remotos que, felizmente, na nossa Freguesia de Benfica e, também, na Freguesia de Carnide, estão à nossa espera…


Com um abraço de muita amizade

Fausto Castelhano