(por Alexandra Carvalho)
Naquele bairro, a
Cidade dos Gatos misturava-se todas as manhãs, através do vidro, com a
Cidade dos Homens.
Qual estátua de
divindade egípcia, serena e imperturbável, por detrás da montra, fazia as delícias de todos os que por ali passavam naquelas manhãs agitadas... Roubando-lhes algum tempo aos seus afazeres diários e fazendo-os parar, ficando ali especados, durante largos minutos, embevecidos a admirarem-na. Relembrando-lhes, assim, que a vida tem muito mais do que se lhe diga do que uma simples e constante correria na busca permanente de algo...
Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)
Aparecera naquela rua há cerca de oito meses atrás, completamente encharcado pela água da chuva e com um ar muito adoentado.
Por ali deambulara algumas horas e, provavelmente (devido ao frio que se fazia sentir), havia saído do tubo de escape de um dos carros dos vizinhos, onde, certamente, procurara abrigo. Viram-no passar perto da paragem do autocarro, junto à cafetaria. E não mais souberam o paradeiro de tal gato (à semelhança de tantos outros felinos que nascem, crescem e acabam por morrer nas ruas das cidades).
Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)
No dia seguinte, quando Lúcia abriu a porta da
sua loja, eis senão quando, vislumbrou um vulto dourado a passear-se por cima da bancada central repleta de livros. Sem que ninguém se apercebesse, e aproveitando-se da infinidade de livros aninhados pelo chão como camuflagem, o gatito escapulira-se por entre a porta aberta e ali pernoitara, bem ao quentinho.
Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)
Lúcia apelidou-o de "Salvador". E ele, por ali, foi ficando...
Serenamente, calcorreando os estreitos corredores criados pelas bancadas; onde, também, se costuma esconder airosamente, para realizar investidas a inimigos imaginários, ou apenas para se escapulir às festas carinhosas e aos humanos que ainda temia. Espraiando-se delicadamente ao sol quente das manhãs em cima das molduras antigas e dos livros que compõem a montra daquela livraria-alfarrabista.
Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)
Certo dia, Lúcia descobriu que, afinal de contas,
"Salvador" era uma gatinha (estranho e raríssimo facto para um felino de pelagem completamente laranja)... e diminuindo-lhe o nome pelo qual já respondia, passou a tratá-la por
"Salva".
Nessa altura, foi necessário pensar na esterilização da gatinha
"Salva", devido ao primeiro cio que se aproximava e aos seus frequentes passeios pela rua.
Graças à generosidade de muitos vizinhos, e a uma
iniciativa fora do comum, a
"Salva" foi esterilizada a 22/01/09.
Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)
Não se tratou de nenhum
golpe de publicidade, nem tão pouco de uma imitação de
Dewey, o
famoso gato da Biblioteca americana...
Mas a verdade é que os transeuntes começaram, cada vez mais, a ser atraídos pela pacatez das sestas de
"Salva" na montra daquele alfarrabista.
"Salva" tinha cerca de 7 meses, quando por ali apareceu. Muito franzina e ainda arisca, o mais curioso era o facto de, simultaneamente, ser a gata mais fotogénica que já conheci até hoje... não tendo sequer receio da aproximação da objectiva, apesar de, nessa altura, ainda não se deixar tocar.
Fotografias de Alexandra Carvalho (2009)
Para além de, muito rapidamente, se ter transformado no
"Ai Jesus da Avenida" e vedeta da casa, fazendo as delícias dos clientes e amigos (tendo mesmo constituído
um séquito de fãs que, diariamente, entram na loja apenas para a verem ou
demandarem novas do seu estado),
"Salva" encontrou também
um apaixonado (que chegava mesmo a tentar entrar para procurar a sua amada).
Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)
De início,
"Salva" costumava andar muito
fora e dentro, numa liberdade que espelhava bem a sua alma felina... mas regressando sempre à Casa-Mãe.
Naturalmente, com os seus protectores foi tecendo uma relação de maior proximidade: à Lúcia concedeu o privilégio da autorização para lhe serem feitas as primeiras festinhas, sendo à voz do Zé que mais responde com ternurentos miados e ronronadelas.
O tempo foi passando e
"Salva" cresceu. Fruto de tanto carinho e mimo, tem vindo a tornar-se mais dócil, permitindo mesmo a alguns amigos
fazerem-lhe festas.
Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)
Naquele mundo forrado de utopias passadas - que se transformou no seu -,
"Salva" movimenta-se como se sempre ali pertencera e dele fizesse parte há uma infinidade.
Na cave daquela loja,
onde noutros tempos se lutava por Causas nobres, passou a reinar a gatinha
"Salva", aninhando-se dentro de gavetas de móveis de séculos passados, brincando por entre os trajes guardados num imenso baú... escondendo-se entre as pilhas de livros e as molduras antigas.
Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)
"Salva", a gatinha que apareceu na "
Ulmeiro/Livrarte" quando esta loja está prestes a celebrar o seu 40º aniversário, parece sempre ali ter vivido... e sabido porque aí tinha de regressar.
Por ali apareceu como uma pequena estrela, dando alento e novo ânimo a todos. Comprovando que, quando o Homem quer, tudo é possível... E um pequeno gesto ainda pode ser sinónimo da solidariedade a nascer entre todos (mesmo num bairro onde a vida corre mais veloz e todos nos vamos transformando em perfeitos anónimos).
Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)
A
Cidade dos Homens, naquele bairro, ficou diferente desde a chegada de
"Salva".
Ao alterar as formas, cruzando a imagem daquela pequena gata com a de todos os que paravam a observá-la, o vidro da montra
daquela loja criara como que uma espécie de metamorfose entre a gata e o Homem... transformando a grande maioria dos indivíduos em seres mais afáveis, solidários e humanos.
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Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)
Se tiver curiosidade em visitar a "Ulmeiro/Livrarte" por causa da gatinha "Salva", aproveite também alguns dos seus minutos para ver com mais tranquilidade e atenção esta loja... e pode ser que aí descubra preciosidades que o encantem ou estórias importantes de outros tempos.
Vai ver que não se arrependerá!
A "Ulmeiro/Livrarte" é uma verdadeira caixinha de surpresas!...
De cada vez que lá entramos, descobrimos algo de novo, algo que se encontrava escondido e que as mãos da Lúcia colocaram em relevo, de uma forma muito bela, na montra ou numa estante.
Esta é uma daquelas pequenas pérolas escondidas do comércio local, onde nos voltamos a sentir como que impregnados daquele espírito infantil de tudo ali querer descobrir e ver, de tudo procurar como se se tratassem de pequenos tesouros e mistérios ancestrais.
Mas os maiores tesouros desta Casa, talvez, sejam mesmo a Lúcia e o Zé Ribeiro... que nos recebem sempre com um sorriso no rosto e tantas (mas mesmo tantas) estórias importantes da nossa História, para nos contarem.
O tempo por ali não parece passar, quando nos pomos na conversa e esta flúi livremente, numa amena troca de ideias (e de ideais).
Ali sentimo-nos como que em casa, tamanha é a sensação de serenidade que emana desta "família" (por afinidade)!...