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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Casa do Adro




Fotografia e texto de JCDuarte







Claro que, em havendo um “Adro da Igreja”, teria que haver uma “Casa do Adro”.
... E se dermos com o primeiro, encontrar a segunda é mesmo só uma questão de rodar a cabeça, que lhe fica logo ao lado.

Bem cuidada de paredes, muros e jardim, cujas frondosas sombras falam da idade do edifício, este azulejo (vermelejo? amarelejo?) de singelo que é só pode ser bonito. Pena é que este, como tantos outros por esse país fora, deixem no anonimato o autor do desenho e a fábrica.

No entanto, aqui por estes lados não se deixam os créditos do que têm em mãos alheias. Passear nestas ruas velhas de Benfica de câmara fotográfica na mão, apontando para aqui e para ali, é quase que como ter um cartaz nas costas pedindo indicações. Numa mesma tarde, e com pouco mais de uma hora de intervalo, dois velhotes (que fizeram questão de não se deixar fotografar) trataram de me ir indicando algumas preciosidades do seu bairro. Quer fossem apontados com o boné, tirado para limpar a careca, quer fossem apontados com a bengala, que a outra mão segurava o saco de pão fresco da tarde, não deixaram de me ir dizendo que fosse fotografando antes que no lugar de azulejos, cornijas ou águas furtadas viessem apartamentos, garagens e escritórios.

Não conheço o bairro o suficiente para saber se tem uma “Transportadora Ideal” ou um “Café Central”. E sei que a única “Rua Direita” de Lisboa fica ali para os lados do Paço do Lumiar, agora com o nome de “Qualquer Coisa, Antiga Rua Direita”.
Mas espero que neste bairro de Benfica, bem como em todos os outros, não surjam placas com “Antiga…”, deixando aos seus residentes os tesoiros que possuem e de que se orgulham.




quarta-feira, 25 de agosto de 2010

"Memórias fantásticas de quando era criança..."




"Ainda moro em Benfica mas tenho memórias fantásticas de quando era criança.

Às vezes depois de almoço arranjava um saco com pão duro e ia com o meu avô à
Mata de Benfica deitar migalhas aos patos. Apanhávamos folhas de amoreira na Av. Grão Vasco para dar aos bichinhos da seda.

Quando o meu avô recebia a reforma levava-me a comer mousse de chocolate (no tempo em que eu ainda gostava de mousse de chocolate) e eu fazia questão de lhe pedir o lenço de pano que ele trazia sempre no bolso para limpar a boca.

Hoje acho que os lenços de pano do meu avô tinham um significado afectivo, é claro que o café tinha guardanapos de papel, mas limpar a boca a um guardanapo de papel depois de um gelado ou de uma mousse de chocolate não sabia ao mesmo.


A primeira vez em que fui ao cinema, acho que ainda nem andava na escola, foi no Turim, para ver a Branca de Neve.


Adorava estar na varanda da sala, montada num cavalo de madeira que na altura todos os miúdos tinham, a ver as pessoas a passar.

O 24, o autocarro, passava (e ainda passa) aqui à porta, e eu achava que tinha o nº 24 porque funcionava até às 24 horas. Apanhei uma grande desilusão quando me explicaram que não era nada por isso.




"Na paragem do autocarro - 2"
Fotografia de JCDuarte


"Na paragem do autocarro - 1"
Fotografia de JCDuarte



Lembro-me da primeira mochila que tive, quando entrei na escola, e de onde a comprei. Foi numa papelaria velhinha que ainda existe ao pé da Igreja de Benfica. Só não me lembro exactamente se a mochila era azul ou amarela.


Uma vez a minha avó comprou-me um conjunto em branco e preto com um padrão de laços. Pedi-lhe para ir logo com a roupa nova vestida e toda a gente olhava para mim na rua.
Hoje, acredito sinceramente que estava muito pirosa e por isso é que as pessoas olhavam, mas na altura senti-me uma princesa.
"


Testemunho de Ana Fernandes, in "As Vossas Memórias de Benfica", na nossa página no Facebook.







terça-feira, 15 de junho de 2010

Vila Ana entra no "Mundial"




Em dia de "entrada em campo" da selecção portuguesa no "Mundial'2010", o Sr. N. (o último morador-inquilino da Vila Ana), como já vem sendo hábito (sobretudo em dias de jogo do Sport Lisboa e Benfica), aproveitou para enaltecer o seu amor ao futebol...



Fotografia de Alexandra Carvalho




... desta feita, com os símbolos das suas 3 paixões.

Acredito que muitos dos nossos leitores e redactores, irão ficar bem contentes, depois de verem uma das faixas que o Sr. N. colocou na sua janela!






quinta-feira, 13 de maio de 2010

Dia da Espiga




(por Alexandra Carvalho)






Fotografias de Alexandra Carvalho (2010)



O Sr. António Cortez tem uma horta "ali para os lados do Colégio Militar, um pouco antes de chegar ao Colombo", como me explica.

Levantou-se bem cedo esta manhã, para conseguir um dos melhores pontos para a sua venda, mesmo em frente à Igreja de Benfica, junto ao quiosque de jornais.

Cada raminho a 1€ e as vendas correm de feição. "Se tivesse trazido mais, ao fim do dia não sobrava nenhuma, pode crer!", explica-me.

E as pessoas passam, param e escolhem... miram e remiram... e não se contentam com o primeiro ramo que o Sr. Cortez lhes propõe e continuam a mexer e remexer, procurando o "melhorzito, que tenha tudo" e lhes traga algo de bom para todo o ano.

O Sr. Cortez sorri quando lhe peço para tirar uma foto e diz-me que com sol seria melhor, que "hoje o dia não está famoso".




Fotografias de Alexandra Carvalho (2010)




Quarenta dias depois da Páscoa, na quinta feira de Ascensão, festeja-se o Dia da Espiga.

A origem deste dia é, contudo, muito anterior à era cristã. Este dia é um herdeiro directo de rituais pagãos, realizados durante séculos, por todo o mundo mediterrâneo, em que grandiosos festivais, de intensos cantares e danças, celebravam a Primavera e consagravam a natureza.
Para os povos arcaicos, esta data, tal como todos os momentos de transição, era mágica e de sublime importância. Nela se exortava o eclodir da vida vegetal e animal, após a letargia dos meses frios, e a esperança nas novas colheitas. Crê-se que esta celebração tenha origem nas antigas tradições pagãs e esteja ligada à tradição dos Maios e das Maias.

A Igreja de Roma, à semelhança do que fez com outras festas ancestrais pagãs, cristianiza depois a data e esta atravessa os tempos com uma dupla acepção: como Quinta-feira de Ascensão, para os cristãos, assinalando, como o nome indica, a ascensão de Jesus ao Céu, ao fim de 40 dias; e como Dia da Espiga, ou Quinta-feira da Espiga, esta traduzindo aspectos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera agrícola e familiar.

O Dia da Espiga celebrava-se, noutros tempos, com um passeio matinal, em que se colhiam espigas de vários cereais, flores campestres e raminhos de oliveira para formar um ramo, a que se chama de espiga.
Segundo a tradição o ramo deve ser colocado por detrás da porta de entrada, e só deve ser substituído por um novo no dia da espiga do ano seguinte. Traz(ia) abastança, sorte e saúde aos donos da morada.

As várias plantas que compõem a espiga têm um valor simbólico profano e um valor religioso.
A simbologia por detrás das plantas que formam o ramo de espiga:

* Espiga – pão;
* Malmequer – ouro e prata;
* Papoila – amor e vida;
* Oliveira – azeite e paz;
* Videira – vinho e alegria e
* Alecrim – saúde e força.


O dia da espiga era também o "dia da hora" e considerado "o dia mais santo do ano", um dia em que não se devia trabalhar. Era chamado o dia da hora porque havia uma hora, o meio-dia, em que em que tudo parava, "as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e as folhas se cruzam". Era nessa hora que se colhiam as plantas para fazer o ramo da espiga e também se colhiam as ervas medicinais. Em dias de trovoadas queimava-se um pouco da espiga no fogo da lareira para afastar os raios. ***






*** Bibliografia utilizada:

OLIVEIRA, Ernesto Veiga. "Festividades Cíclicas em Portugal". Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984. 357 p. (Colecção Portugal de Perto n.º 6).






domingo, 4 de abril de 2010

"Lisboa cor de rosa e cinza"




"Nasci na Estrada de A-da-Maia em Benfica.
Em Agosto de 1958 mudámo-nos para o Bairro de Santa Cruz. Eu tinha dois anos, a minha irmã 9 meses e o meu irmão viria a nascer nessa casa cor de rosa - o 17 da rua 8 - em 1960.


Lisboa foi para mim, durante muitos anos, aquele Bairro de famílias com filhos, pequena aldeia abrigada e segura, a nossa ilha. E a
Mata, manchazinha de Monsanto ali mesmo ao pé de casa...




Fotografia de Helena Águas



Lisboa eram os jogos da cabra-cega, do elástico e da macaca, as ameixas, os limões e os alperces, os miúdos à chinchada pela calada da noite e o meu pai a espantá-los como pardais, o homem do pitrolino com o seu cavalo e carroça de traquitanas, belo cigano de chapéu de aba larga 'ai Jesus' das criadas (naquele tempo havia criadas, raparigas que moravam connosco como família), o velhote dos gelados no triciclo motorizado há frutas ou chocolate, cone de bolacha normal ou especial e chocmint!, o senhor Vitorino com as hortaliças e sempre uma cenoura para oferecer ao “amigalhaço”, o menino lá da casa, jogos de futebol de portão a portão (e o menino brilhava) muda aos 5 acaba aos 10, limpa-chaminés enfarruscados, grandes cordas e escadotes como na Mary Poppins, a mulher robusta vendia o peixe à porta da cozinha, canasta pesada e grandes saias compridas, o homem do leite, o jarro maior e medidas de quarto, de meio, de litro, e os pregões!!

“Há praí traaapos, jornaais e garraafas para vendeer?”...


“Há figuiinhos maduriinhos! Quem quer fiiigos quem quer almoçaaar?!”...


O “Amoladooore!” de flauta de pã, dizia a minha mãe que o amolador anunciava a chuva


e nós “um dó li tá cara de amendoá um secreto coloreto um dó li tá quem está livre livre está!” e


“um aviãozinho militar atirou uma bomba ao ar a que terra foi parar?” e


“que linda falua que lá vem lá vem/ é uma falua que vem de Belém/ que vem de Belém que vem de Benfica/ é uma falua que lá vem cá fica./ vou pedir ao senhor barqueiro que me deixe passar/tenho filhos pequeninos não os posso sustentar...”


Às vezes rebanhos de ovelhas lá no Bairro. Havia quintas. Na Estrada de Benfica havia eléctricos de duas carruagens e autocarros com entrada atrás, verdes, de dois andares. Eu lá em cima a espreitar por cima dos muros das quintas. Havia uma Quinta das Rosas na Estrada de Benfica...

Helena Águas"







(com um agradecimento muito especial à Lena D'Água, por nos ter deixado aqui partilhar este seu testemunho)




segunda-feira, 1 de março de 2010

O "FóFó"




Se algum mérito teve, a distorcida e tendenciosa reportagem que o "Correio da Manhã" realizou sobre o nosso bairro de Benfica, terá sido, sem dúvida alguma, a de ter permitido que Domingos Estanislau tomasse conhecimento com o "Retalhos de Bem-Fica"... e, assim, tenha iniciado uma colaboração mais directa neste blog comunitário.






Fruto dessa colaboração e parceria, fui ontem de manhã recebida pelo Lau ("nome de guerra" pelo qual é conhecido em toda a freguesia), nas instalações do Clube Futebol Benfica (ou, como continua ainda hoje a ser, carinhosamente, apelidado: "FóFó")... onde, diga-se de passagem (e para minha grande vergonha de bemfiquense), foi a primeira vez, em 34 anos, que entrei.






O Lau havia lançado neste blog, recentemente, um repto a todos os vizinhos e comerciantes de Benfica, a propósito das festas de Junho em Lisboa, das marchas populares e, em particular, do espírito de comunidade que urge reforçarmos em Benfica.

E foi com o intuito de falarmos melhor sobre tudo isso que me desloquei ao "FóFó" (mas sobre isso, falarei melhor num outro post).





Não se sabe ao certo, mas dizem os mais velhos que o Clube Futebol Benfica existe desde 1895, contudo, a sua reorganização apenas se efectua a 23 de Março de 1933, data que se assinala como aniversário do Clube.

A fundação do Clube Futebol Benfica estará, também, em certa medida, ligada à própria Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica, investigação que tem sido levada a cabo pelo nosso amigo Pedro Macieira em colaboração com o Lau.






Excepcionais atletas, campeões do Mundo e da Europa, formaram-se e cresceram no Clube Futebol Benfica: Sidónio e Olivério Serpa, Torcato Ferreira, Fernando Adrião, Livramento e Paulo Bento, entre muitos outros.

Actualmente, praticam-se diversas modalidades neste Clube: Atletismo, Futebol, Futsal, Ginástica, Hóquei-campo, Hóquei de Sala, Hóquei Feminino, Karaté, Natação de Lazer, Patins em Linha, Yoga e Futvolei.

É, também, o Clube Futebol Benfica que tem liderado a organização, ao longo dos tempos, da Marcha Popular da nossa freguesia, a qual era sobejamente conhecida pelo destaque concedido a um burro que a encabeçava, relembrando assim as memórias de ruralidade do nosso bairro.





O Clube Futebol Benfica tem, actualmente, cerca de 3.500 associados e um número de 1.150 atletas.

O importante palmarés desportivo do "FóFó" e, no fundo, o seu contributo histórico para o desenvolvimento do desporto local, estão bem presentes ao longo de todos os corredores e salas que Lau, com um brilhozinho nos olhos, nos foi, gentilmente, mostrando: onde uma colecção infindável de recortes de jornais emoldurados, taças e troféus (nacionais e internacionais) relembram a glória e a mística deste pequeno clube (um dos mais antigos clubes populares de Lisboa).




Inseridos numa área de 28.700 m2, ali bem perto do Mercado de Benfica, encontram-se um campo relvado, um campo de relva sintética, dois ringues e um complexo comercial de 18 lojas.

Para o futuro, o Clube Futebol Benfica tem prevista a construção de uma piscina, dois ginásios, um polidesportivo, um parque de estacionamento e um infantário, como nos conta entusiasmado Lau (o homem que, há longos anos, preside este Clube, o dirigente associativo que acompanha a grande maioria dos jogos dos seus atletas e a quem corre nas veias o bichinho do desporto).





O "FóFó" continua, assim, a desenvolver um importante papel de catalisador desportivo e cultural na freguesia de Benfica. Exercendo, também, por outro lado, um não menos importante papel social, ao receber no seu seio jovens que, voluntariamente, têm que realizar trabalho comunitário, ao abrigo dos programas do Instituto de Reinserção Social.

Muito agradecemos, ao nosso amigo Lau, por esta visita ao Clube Futebol Benfica!



Mais fotografias aqui.





domingo, 21 de fevereiro de 2010

Figuras de Benfica - 5





"Olá Alexa...

Fiz esta pequena biografia de um ilustre benfiquense... Morou na Estrada do Calhariz de Benfica, onde é actualmente a Liga para a Protecção da Natureza... Sempre teve a humildade de evitar protagonismos sociais, chegando a recusar um titulo nobiliárquico, desculpando-se que a nobreza é inerente às pessoas e não a títulos, alegou também nessa ocasião que a sua linhagem era mais antiga do que a linhagem real...


Foi esquecido pela História, embora tenha contribuído muito, e em vários planos, para os destinos da nação... sempre se distinguiu naturalmente em todos os projectos em que se envolveu, é um exemplo de determinação e rectidão que todos deveríamos seguir e recordar... embora não o tenha conhecido, recebi muitos ensinamentos desta ilustre personagem, tenho-lhe portanto muito carinho e respeito...



Com LUZ


GASTÃO



Ah!!! Na fotografia de grupo é o que está sentado ao lado esquerdo do príncipe D. Luís..."







General ALFREDO AUGUSTO FREIRE DE ANDRADE

(1859-1929)



Fotografia gentilmente cedida por Gastão de Brito e Silva



Nasceu em 19 de Dezembro de 1859, na Figueira da Foz, filho do vice almirante Bento Maria Freire d’ Andrade e de Amália Antas Tinoco, casou com Virgínia Pery de Linde de quem teve quatro filhos.

Frequentou, a partir de de 1874, a Escola Politécnica e a Escola do Exército. Cursou ainda a Escola de Minas de Paris, que concluiu, em 1888 tendo-se distinguido como melhor aluno estrangeiro do seu curso.

No fim do curso, em 1889, foi nomeado comissário geral de minas de pedras preciosas e de metais preciosos na província de Moçambique, aproveitando a oportunidade para recolher elementos para a sua carta geológica não só das minas de Moçambique, como também de Rande e de Joanesburgo.

Oficial do Exército na arma de Engenharia. Foi governador interino de Lourenço Marques em 1892 e 1895, comandou a campanha do Transvaal que delimitou a Sul as fronteiras de Moçambique, teve uma heróica actuação em Magul, com um punhado de soldado desbaratou 6500 vátuas impondo-lhes uma derrota avassaladora.



Fotografia gentilmente cedida por Gastão de Brito e Silva



Governador geral de Moçambique desde 1906 e tendo exercido o cargo até 1910, tendo investido durante este período na construção de edifícios públicos, hospitais, faróis e escolas. Dentro destas últimas destacamos a criação da Repartição de Agricultura e Veterinária, a primeira Estação de Investigação Agronómica da província, oficinas mecânicas, entre muitas outras coisas. Realizou pois um conjunto de melhoramentos da província ultramarina mas sem auxílio da metrópole, apoiando-se apenas nos recursos obtidos por uma rigorosa economia na administração da colónia.

Em 1908 tornou-se professor da cadeira de Mineralogia da Escola Politécnica.
Manteve-se no governo de Moçambique até à implantação da República, data em que se demitiu, passando a dedicar-se ao ensino na Escola Politécnica, até perto da data de sua morte.

Entre 1911 e 1913, desempenhou o cargo de director geral das Colónias. Daí subiu à pasta ministerial dos Negócios Estrangeiros, em 1919 foi o delegado português à Conferência da paz em Versalhes em 1919, membro da Comissão dos Mandatos da Sociedade das Nações, presidiu em 1921 a comissão que negociou com África do Sul onde defendeu eficazmente os interesses do País.

Foi também presidente da Companhia dos Carris de ferro de Lisboa, lente da Escola do Exército, professor catedrático de Mineralogia e Geologia na Escola Politécnica de Lisboa, membro da Academia de Ciências de Lisboa, Secretário-Geral do Ministério de instrução Pública, Presidente do Conselho Superior de Instrução Pública, na qual foi empossado em Março de 1914, mantendo-se até 12 de Dezembro desse ano.



Fotografia gentilmente cedida por Gastão de Brito e Silva



Fez ainda parte da Comissão dos Mandatos criada pela Sociedade de Geografia e do Bureau International du Travail junto da Sociedade das Nações.
Recebeu diversas condecorações, nomeadamente a comenda e o colar da Torre-e-Espada, a grã Cruz da Ordem do Império Britânico e a grã Cruz da Ordem da Coroa Bélgica.

Faleceu na sua residência na Estrada do calhariz de Benfica em Lisboa, a 30 de Julho de 1929.





Principal Bibliografia:

•Reconhecimento geológico dos territórios compreendidos entre Lourenço Marques e o rio Zambeze, 1894
•Carta da região mineira de Manica, 1900
•Relatórios sobre Moçambique, 1910
•A questão dos serviçaes de S. Thomé, 1913









quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A 1ª estação de Correios de Benfica




Graças a uma fotografia que nos foi enviada pelo Jorge Resende, conseguimos vislumbrar parte de uma casa antiga de Benfica, sobre a qual tínhamos uma enorme curiosidade...





"Estrada de Benfica" (1961)
Artur Inácio Bastos, in
Arquivo Municipal de Lisboa




"(...)

Os correios mesmo velhos eram ao lado da Vila Ventura. Os velhos eram aí.
Há aquela descida da Calçada do Tojal para a Estrada de Benfica, à direita logo, onde agora há assim uns prédios, aí era um jardim grande, maior do que o da Vila Ventura, e no fim havia uma casa onde era precisamente o correio.
Aí é que era o primeiro correio quando eu fui para lá, era pegado connosco.

Até aí, por acaso, é engraçado porque nessa casa, no primeiro andar dessa casa que tinha o correio em baixo, vivia a Maria Lamas, a escritora
Maria Lamas.
Mas é engraçado, porque não nos era nada! Maria Lamas, ela era casada com um senhor que se chamava Alfredo da Cunha Lamas. O meu pai chamava-se José da Cunha Lamas e não tinham nada
[a ver] um ao outro!
Ela tinha duas filhas, uma de um primeiro casamento… Ela foi casada primeiro com um aviador, Ribeiro da Fonseca, um oficial de aviação. E depois é que casou com esse tal senhor Alfredo da Cunha Lamas, que creio que era não sei bem de que partido, não sei.

(...)

E depois do outro lado, então, era essa Maria Lamas, que tinha 2 filhas, uma do primeiro casamento e outra do segundo.
E a segunda filha, a ‘Bissu’, não sei o nome dela, era a ‘Bissu’. A mais velha não me lembro como se chamava. E a mais nova, que era a ‘Bissu’, essa era Lamas, a outra não, a outra era Ribeiro da Fonseca.
E essa ‘Bissu’ tinha uma coisa que nos fazia uma impressão horrorosa, porque estava a brincar connosco, não é, enfim, nós dávamo-nos… Estava a brincar connosco e, de repente, fazia assim e agarrava
[Encena os gestos, demonstrando impressão] com um olho que saía da órbita e ela tinha que meter o olho lá para dentro… Uma coisa, fazia-nos uma impressão horrorosa! Tínhamos 7, 8 anos, isto faz uma impressão horrorosa, não é… Horrorosa!"


In Entrevista ao Engº. João António Lamas (projecto "Gente de Benfica"), 18/03/08.






terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Figuras de Benfica - 3


Enviado pelo nosso leitor Domingos Estanislau, com a seguinte mensagem:

"Tem se falado aqui tanto no Paraíso de Benfica, que há falta de imagem do prédio remeto-lhe uma breve síntese do Dono, Sr. Manuel Madureira, que foi um grande Sócio deste Clube."






- Manuel Madureira -
O Homem, o amigo, o futebolbenfiquista


(por Domingos Estanislau)



Fotografia gentilmente cedida por Domingos Estanislau




MANUEL ALVES MADUREIRA, nascido em Lisboa em 31.10.22, é a figura do Clube neste Boletim.

Falar do sócio nº 83, cuja filiação data de 31/03/53, tem tanto de difícil quanto de emotivo. O seu carácter naturalmente modesto não empresta à sua biografia os traços evidentes da sua generosa personalidade.

A “Pastelaria Paraíso”, da qual MANUEL MADUREIRA era proprietário, foi durante 31 anos, um prolongamento do CLUBE FUTEBOL BENFICA, ali se alicerçaram amizades e relevantes actos de generosidade. É hoje um local que os mais antigos e os que ali passaram grande parte do seu tempo de lazer, recordam com uma grande saudade.

MANUEL MADUREIRA e outros nomes de nomeada do Clube, chegaram a tomar ali decisões importantes para a vida do Clube. Por isso não se consegue falar de MANUEL MADUREIRA e do Paraíso de Benfica sem os relacionarmos com o CLUBE FUTEBOL BENFICA aquele de convívio era apontado por muitos como a Sub-Sede do Clube. Ali conviveram figuras da mais elevada projecção desportiva.

“O MANEL” , foi patrono, foi confidente amigo, quando aflitivamente se deseja um amigo.

MANUEL MADUREIRA, fez parte de várias Direcções do Clube, de Comissões de Obras, de Festas, enfim, deu muito de si ao CLUBE FUTEBOL BENFICA. O clube sempre encontrou em MANUEL MADUREIRA, um sócio interessado nos seus problemas, o FUTEBOL BENFICA muito deve a este homem que é sócio Benemérito.

MANUEL MADUREIRA, pertenceu também ao Executivo da Junta de Freguesia de Benfica.

Aqui fica ao correr da pena o rápido perfil dum homem que nem mesmo o correr dos anos deixou no esquecimento. Soube granjear amizades como poucos se podem orgulhar.

Bem haja MADUREIRA !!!



(Publicado no Boletim do Clube nº 9 de 1989)







quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

“Castiço”, o fabuloso boi de cobrição





Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2010)




(Por Fausto Castelhano)



Augusto Castelhano era um homem bom. Oriundo da região de Aveiro, à beirinha do Antuã e do esteiro de Salreu, cedo emigrara para Lisboa onde fora acolhido por um irmão mais velho, o ti’Manel Castelhano (que se dedicou, com sucesso, à agricultura) e onde também vivia a irmã, a tia Palmira. Ambos viviam na zona de Carnide.

Foi apanhado pelo vendaval da 1ª Guerra Mundial de 1914/1918 e onde a fome, o frio e todas as desgraças que uma guerra possa acarretar, o marcaram para o resto da vida. “Se soubessem o que era fome, até cornos comiam”, dizia ele aos filhos quando, fartos ou enfastiados, deixavam algo no prato. Regressou da Flandres com uns escassos 45 quilitos. Um verdadeiro esqueleto andante. Abandonados à sua sorte pelo governo de então, só regressaram a Portugal muito depois da guerra ter terminado.



França 3 de Novembro de 1917

Fotografia gentilmente cedida por Fausto Castelhano



Depois, casou com a “prometida”, a namorada que namoriscava antes de ter rumado para as lonjuras de França integrado no C.E.P. (Corpo Expedicionário Português).
Fumava cigarro de enrolar: mortalha “Conquistador” e onça de tabaco “Superior”. Era leitor assíduo do "Diário de Notícias" que comprava todos dias. De quando em vez, assobiava a Marselhesa.

Depois, estabeleceu-se como agricultor na Quinta de Montalegre (ou da D. Leonor), em Carnide. Enorme, encostada ao Colégio Militar mas, vinha por ali abaixo até à Estrada da Luz e à Azinhaga dos Soeiros e, por outro lado, até à Azinhaga da Fonte (hoje, Avenida do Colégio Militar).
Era uma quinta fantástica antes de ser abocanhada pela construção do Estádio de S.L.Benfica. As searas de trigo; os dois mil pés de oliveira (azeite de primeira); os campos de aveia; a habitação onde nasceram os filhos, junto à Azinhaga dos Soeiros; a belíssima horta que fornecia todo o género de hortaliças (de excelente qualidade) para todo o lado; os poços, a mina de água, a cascata monumental junto à Azinhaga da Fonte e o caminho ladeado de choupos que nos levava até lá. Foi tudo na voragem.



1941 - Quinta de Montalegre ou da D. Leonor

(Augusto Castelhano com os hortelões na horta. Eu próprio ao colo do tio Augusto.
Em segundo plano, o primeiro do lado esquerdo, é o ti’Conde, o vaqueiro. Em primeiro plano, o primeiro à esquerda é o António Russo - vive na Rua dos Arneiros -; o segundo é o Godinho)

Fotografia gentilmente cedida por Fausto Castelhano




Depois, havia o gado. Bois de trabalho para a lavra, as carroças de transporte da erva, das hortaliças para o mercado, dos molhos ou fardos de palha depois da ceifa, do grão extraído pela debulhadora, etc.
Ah! As vacas leiteiras. Uma bela vacaria com o Sr. Conde, o dedicado vaqueiro de muitos anos. Agora, mungir cerca de 50 vacas, vergado pelos rins, sentado num banquinho junto às tetas da vaca e levando, de vez em quando, uma vergastada nas ventas quando o animal resolvia sacudir as moscas com o rabo, era tarefa bastante árdua. Duas ordenhas diárias com início às duas da matina e depois do almoço, às 14 horas.

Esta vida nos campos, na agricultura e toda a actividade inerente a esta actividade, não era nenhum “mar de rosas” e estava muito condicionada pelos caprichos da mãe natureza, pelas agruras do tempo incerto, do calor e das chuvas, das geadas e do frio…

Augusto Castelhano enviuvou cedo e depois voltou a casar levando, consigo, quatro rebentos do primeiro matrimónio e, deste novo enlace, resultaram mais quatro rapazes. Depois, por desavenças com a dona da quinta, zarpou e estabeleceu-se numa outra herdade, com muito piores condições, na área da freguesia de Benfica.

Homem de grandes brios, tinha um enorme orgulho na excelente água-pé que fabricava com uva da região de Torres Vedras e que batia aos pontos, por larga margem, toda aquela que existia nas quintas em redor e que, por vezes, não passava de uma miserável zurrapa.
Porém, onde ele não transigia, era no gado leiteiro. Frequentemente visitava as Feiras da Malveira (onde, numa casa de pasto, almoçava grão com bacalhau, sempre), da Moita e do Pinhal Novo, onde tentava adquirir os melhores exemplares que por ali aparecessem através dos comerciantes de sua inteira confiança. E vinham, na maioria das vezes, à experiência. Se, porventura, produziam abaixo da fasquia de 20 a 25 litradas de leite, eram logo recambiadas. Comer e não produzir, não encaixava.



1948 – Quinta do Charquinho

(Augusto Castelhano com o “Castiço”, o fabuloso boi de cobrição)

Fotografia gentilmente cedida por Fausto Castelhano



Todavia, onde Augusto Castelhano se perdia de amores era com o “boi de cobrição”. Era uma cisma que lhe estava entranhada na cachimónia. E se eles custavam uma nota preta…Alimentados com rações de excepção levavam uma rica vida. Folgada, os mariolas…Perigosos, marravam que se fartavam…Escoucinhar a torto e a direito, era com eles e só acalmavam quando lhes cheirava a fêmea por perto. Ficavam logo de focinheira no ar. Para os dominar com uma certa segurança furavam-lhes o focinho com um ferro em brasa e logo, sem contemplações, era-lhes colocado um arganel metálico. Aí era presa uma corda ou uma arreata de couro. Só com estas condições, muito bem estudadas, se podia dominar tão perigosos animais...

Mas o “Castiço”, entre todos, foi um boi de cobrição de excepção, de altíssimo gabarito e com um notável desempenho que a todos deixava de bocarra aberta. A fama do “Castiço” chegou longe e Augusto Castelhano fazia-se cobrar de acordo com a extraordinária eficácia de tão belíssimo animal. Cinquenta escudos por cada fecundação garantida, na década de 40 do século XX, era uma boa maquia. Durante alguns anos e pela constante e renovada afluência de clientela, a verba acumulada, “à pala” do extraordinário “Castiço” foi, deveras, muito significativa.

Com a idade, “Castiço” amochou e perdeu qualidades, esgotado, coitado. Assim, foi despachado p’ró talho, p’ra bifes. Entretanto, vieram outros para a mesma função mas, como aquele possante bicharoco, jamais houve algum que lhe chegasse aos cascos. Uma imensa, imensa saudade…

A quinta, que tão boas recordações nos deixou pela vida fora foi, paulatinamente, declinando a partir da década de 60 do século passado devido, sobretudo, à mecanização dos trabalhos agrícolas, aos novos meios de produção mas, também, a doença grave de Augusto Castelhano. Vendeu tudo. Alfaias agrícolas, as pipas do vinho e a prensa, o gado. Abalou para a terra que o viu nascer contudo, a saúde atraiçoou-o aos poucos. Foi piorando cada vez não obstante, sempre que pressentia o padre Canelas (o pároco da freguesia) a rondar-lhe a casa, a convite da esposa Augusta, exaltava-se e praguejava bravamente. Resistiu estoicamente, e até ao último sopro, que lhe fosse ministrado o sacramento da Extrema-Unção. Por fim cedeu e… apagou-se serenamente.
É até é de presumir que, o derradeiro pensamento de Augusto Castelhano antes de entregar a alma ao Criador, fosse para o seu querido e fabuloso “Castiço”, que ele tanto adorava, o boi de cobrição que espantava o mundo com as suas inesgotáveis façanhas e que lhe enchia o peito de tanto e merecido orgulho…
Penso que foi o último dos grandes “bois de cobrição” que Benfica teve a honra de acolher no seu regaço e que pisou terra da nossa freguesia. E bem se pode orgulhar do nosso insaciável “Castiço” pois este, jamais deixou os seus créditos por mãos alheias. Guardemos, pois, a sua memória…








sábado, 30 de janeiro de 2010

Figuras de Benfica - 1





"VICENTE CALEYA RIBEIRO

Figura inolvidável na vida do Clube



Imagem gentilmente cedida por Domingos Estanislau



Figura inolvidável na vida do Clube bem merece ser recordado apesar de nos ter deixado há cerca de 10 anos.


Caleya Ribeiro foi durante a sua vida um apaixonado do Clube. Viveu intensamente os problemas e os êxitos do Futebol Benfica. Este Clube fez parte integrante da sua família. Aqui ganhou amizades, respeito e admiração de todos. Os tempos eram outros e para além dos méritos incontestáveis daquele homem, o Futebol Benfica era ou foi o paradigma de um Clube em que os laços de sã convivência e amizade se frutificavam com uma simplicidade muito grande e Caleya Ribeiro dotado de grande sensibilidade humana e de grande carácter fazendo jus a esses predicados soube durante a sua existência merecer o respeito e a amizade de todos aqueles que com ele tiveram o privilégio de lidar de perto.


Pertencendo a uma família de recursos económicos fora do vulgar, bem colocado na sociedade da altura, este homem viveu o Clube com empenho, devoção, sempre preocupado com o presente e o futuro, ajudando de forma efectiva monetariamente tanto a Colectividade como qualquer sócio ou atleta que ele se apercebesse que tinha dificuldades.


Era um homem inteligente e com uma visão extraordinária das coisas. Prestou relevantes serviços ao Clube quer como dirigente quer como simples associado. Faleceu aos 98 anos, com alguma mágoa, porque revelou muitas vezes que gostaria de viver até ao ano 2000 para completar 100 anos de vida. Serviu o Clube durante sete décadas de forma muito empenhada e dedicada. Para ele o Futebol Benfica era intocável, defendeu sempre os interesses do Clube com mestria e saber e foram poucas as vezes que não levou de vencida os seus desígnios em benefício da colectividade.


Foi durante a sua juventude atleta de futebol do Clube. Apresentava-se nos jogos no seu carro próprio mas com motorista particular, se hoje é um luxo o que não seria naquela época, mas esse status não lhe dava qualquer primazia sobre qualquer outro porque Caleya sabia distinguir bem as coisas. Depois de abandonar a actividade desportiva dedicou-se de alma e coração ao seu Clube e como já atrás ficou dito prestou brilhantes serviços ao Clube e sempre de forma desinteressada.

A exigência que punha na sua acção era extensiva ao campo desportivo. Era digamos quase insaciável, isto é, mesmo ganhando exigia sempre mais, mas era uma exigência salutar e compreendida por todos porque adornava os seus actos e exigências com educação e diplomacia.


Fica para a história a cena do stick em Vigo (Espanha). Em 1949 o Futebol Benfica participa num Torneio Internacional de Hóquei em Campo naquela cidade espanhola cujo troféu em disputa foi um stick em cobre banhado a prata. No final à boa maneira dos nossos nuestros hermanos quiseram entregar a miniatura do referido stick ao capitão da equipa do nosso Clube e Caleya Ribeiro fazendo prevalecer a justiça conseguiu agarrar no Troféu em disputa e passá-lo às mãos dos nossos valorosos hoquistas, proclamando: “defendem-no, foi ganho com o vosso suor”. E o stick veio para Portugal e faz parte do nosso espólio desportivo. Aqui está pois a forma decidida e eficiente de resolver o problema a favor do Clube mas com toda a justiça e em defesa da verdade desportiva.


Caleya Ribeiro foi também dirigente da Federação Portuguesa de Futebol e foi o principal dirigente desportivo deste País que influenciou as autoridades estatais a criar o Centro de Medicina Desportiva a fim de que todos os desportistas tivessem acesso aos cuidados médicos, muitas vezes os atletas do Clube por força do nome de Caleya Ribeiro e pela sua acção nesta área foram beneficiados sendo inspeccionados antes dos outros.


Para que a história não esqueça este homem e este futebolbenfiquista de grande estirpe aqui fica este apontamento que peca por defeito, mas não deixa contudo de pôr em destaque o homem, o dirigente e a pessoa.


A história do Clube Futebol Benfica jamais esquecerá VICENTE CALEYA RIBEIRO."



(Publicado no jornal do Clube em Setembro de 2007 – por Domingos Estanislau)





quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

"Benfica, o meu Bairro"



Por Domingos Estanislau
(Presidente do Clube Futebol Benfica - 'Fófó').



"Sou um adoptado.
Nasci em Ferragudo, Concelho de Lagoa, Distrito de Faro. Sou portanto um algarvio e não renego a satisfação de ser algarvio.


Vim para Lisboa muito cedo, fixei-me em Benfica por força das circunstâncias, razões familiares, por isso, ao longo de mais de cinquenta anos que vivo em Benfica, posso dizer que este é o meu bairro.

Esta é portanto a minha terra por adopção. A terra que conheci e em que todos, quando aqui cheguei, nos conhecíamos.


A vida era diferente, Benfica era uma terra de operários.


Nas Pedralvas havia uma Metalúrgica e a Fábrica de Tintas Atlantic; nas traseiras do campo do Futebol Benfica, onde se situa hoje a urbanização conhecida pelos Jardins de Benfica, existia mais outra metalúrgica, esta conhecida por
Metalúrgica de Benfica.

Habitualmente a população orientava-se, em termos de horários, pelos toques das sirenes das fábricas aqui existentes.


Era uma comunidade saudável a de Benfica. Todos nos conhecíamos e a amizade proliferava como as papoilas, quando era tempo delas, nos campos verdejantes que, por essa altura, ainda existiam em Benfica.


Ainda hoje tenho nos ouvidos o tinlintar dos trolers dos eléctricos quando circulavam pela Estrada de Benfica e davam a volta entre a Garagem 'Benficauto' e a Escola 124 que hoje, a título precário, pertence ao
Clube Futebol Benfica.

Benfica tinha características muito especiais, dizia-se muitas vezes, quando por este ou aquele motivo nos ausentávamos por uns dias, que ao regressarmos sentíamos uma alegria enorme ao ver os sinos da igreja.

Os sinos eram uma referência para o regresso, significava que estávamos de volta ao local pelo qual nutríamos uma paixão enorme.

Este era um sentimento comum à população deste Bairro que foi perdendo esta paixão à medida que o cimento foi substituindo as hortas e as indústrias que por aqui existiam.


A década de 60 foi determinante, muitas pessoas que aqui moravam partiram para a Amadora e Queluz, que se desenvolviam a olhos vistos, cujas rendas das casas só porque eram mais baratas 50 escudos determinavam esse êxodo.


Benfica, por essa altura, começou a perder determinadas características mas, para mim, continuou a ter um encanto especial e mítico e ainda hoje gosto de viver em Benfica, por isso sendo algarvio de nascença, situação que não renego, como já disse, sinto-me naturalmente um cidadão de Benfica."





Gostaria de aqui deixar um agradecimento muito especial ao Sr. Domingos Estanislau, que se tornou, recentemente, leitor do nosso blog e nos deu a honra de colaborar no mesmo com este seu testemunho (e muitas outras surpresas que por aí se avizinham).

Muito obrigada, também, pela divulgação que fez no seu blog pessoal do "Retalhos de Bem-Fica"!




quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Vestígios do Natal - 4




A Dª. E. ia passar a noite de Natal sozinha (só se encontrando com a família no dia seguinte).

Convidei-a para passar o Natal connosco, mas não quis.

Este final de tarde, antes da consoada, passei por lá, para lhe dar um beijinho de boas festas, oferecer um bolo-rainha e deixar umas mantinhas para os gatos se aquecerem.





terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A "Mãe-Coragem"








Quando por ali passei esta manhã, vislumbrei-a no seu jardim, atarefada, limpando as folhas que teimavam em tombar com o vento cortante que fazia.
Alheada nos meus pensamentos hesitei e prossegui em frente. Depois parei, voltei para trás e dei comigo a dizer-lhe: - "Bom dia! A senhora mora aqui?"

Nessa altura, começou a chover e ela convidou-me para entrar. Ficámos ali, na soleira da porta, no hall que dá acesso a todos os andares. Chão em mosaico antigo desenhado a cor bordeaux e branca, escadas de madeira envelhecida e tectos ricamente trabalhados.

Falámos, durante mais de duas horas, sobre Benfica, a Vila Ana e da Vila Ventura, os animais e sobre a vida em geral.
A dada altura, quis mostrar-me o seu quintal, nas traseiras.

Enquanto colhia algumas ervas aromáticas nas traseiras, convidou-me a voltar num outro dia, para me mostrar o interior da sua casa, com mais tempo e tranquilidade.

E, no final, à despedida, não se conteve e disse-me: - "Foi bom encontrá-la, assim, no Natal... ficarmos amigas e podermos falar!"







A "Mãe-Coragem" é uma das habitantes da Vila Ventura, situada no nº 674 da Estrada de Benfica.

A Vila Ana e a Vila Ventura são património de interesse municipal, por serem 'Casas do Brasileiro', representativas de uma época e de um tipo de construção muito característico... mas continuam há largos anos votadas à degradação pelos seus proprietários.

Em 2010, a Vila Ventura fará 100 anos. Idade que a Vila Ana (onde viveu Spínola em criança) já alcançou, como nos dizia, esta manhã, a "Mãe-Coragem".

Depois da nossa "luta" por descobrir o que, realmente, se passava com estas casas, junto das instâncias competentes, conseguimos que fosse efectuada uma vistoria a ambas, a qual manifestou a intenção de ir intimar os seus proprietários à conservação das mesmas.

Desde então, a situação permanece idêntica, se não (bem) pior!...
Até quando?







Como os interesses económicos (e imobiliários) eram outros, ali bem ao lado, nas traseiras da Vila Ana e da Vila Ventura, foi, há algum tempo atrás, construído um bloco de prédios modernos, à frente do qual se ergueu rapidamente um bonito jardim (apenas visível para os habitantes dos citados prédios).






Enquanto isso, o interior da Vila Ana, de janelas bem abertas a quem por ali passe, encontra-se neste estado avançado de putrefacção.

Porque não deixarmos, por breves momentos, de lado os interesses (económicos) que, verdadeiramente, movem este mundo e pensarmos em soluções concretas e mais humanistas, no que diz respeito à recuperação dos imóveis de interesse histórico para a nossa cidade (ainda que com proprietários particulares)?!





sábado, 5 de dezembro de 2009

A Drogaria




(por Alexandra Carvalho)





"Droga designava primitivamente toda a substância orgânica ou inorgânica
empregada como ingrediente de tinturaria, química ou farmácia.


De droga formou-se drogaria.


É interessante seguir ao longo do tempo

a evolução semântica de palavra drogaria.


Drogaria significava inicialmente uma colecção de drogas.

De colecção de drogas passou a designar o local onde se guardavam as drogas

e, finalmente, o comércio de drogas.


Actualmente chamamos drogaria ao estabelecimento comercial

onde se vendem medicamentos e outros produtos acabados,

como cosméticos e perfumarias, prontos para serem usados".


In "Liguagem Médica - Droga, Fármaco, Medicamento, Remédio"





Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)


Ao passarmos pela montra do Nº 692A da Estrada de Benfica, jamais imaginaríamos que nos encontrávamos perante uma das mais antigas Drogarias da freguesia de Benfica.

Entramos e ficamos deslumbrados com a infinidade de produtos diligentemente arrumados nas paredes-montra que forram toda a loja.
Aí descobrimos o restaurador Olex, o sabonete Feno, o Ach Brito e a famosa pasta medicinal Couto - uma série de produtos de outros tempos, que hoje continuam a fazer a mística de jovens que nunca os conheceram ou utilizaram sequer (desde a abertura da loja "A Vida Portuguesa" de Catarina Portas), mas também a de "(...) clientes que repetem e só querem aqueles produtos antigos", como nos diria o proprietário desta Drogaria.

Procurámos esta loja por outros motivos (pessoais), mas não resistimos a fazer uma mini-entrevista com os seus proprietários, para aqui deixar o testemunho neste blog.



Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)



Aí estabelecidos desde 5 de Maio de 1962, o Sr. Fernando e a Dª. Natália são os anfitriões, que nos recebem com uma simpatia inigualável.
Ela com o seu sorriso de menina, a desenhar-lhe o rosto de bondade. Ele com os seus olhos azuis marejados de lágrimas, sempre que se emociona.

O Sr. Fernando e a Dª. Natália trabalham nesta Drogaria há 47 anos, a qual tem ainda muitos clientes regulares das imediações, assim como dos Bairros das Pedralvas, Charquinho e Santa Cruz.

Clientes que se habituaram a encontrar nesta loja tudo aquilo de que necessitam, sobretudo, ao nível do factor humano, como nos explica o Sr. Fernando: "(...) o cliente aqui fala connosco, nos supermercados fala com as prateleiras. E então a pessoa sempre se abre, sempre conta o passado dela, sempre conta a vida dela, sempre desabafa connosco e, praticamente, é como uma família!"



Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)


O aparecimento de alguns supermercados na zona e o início das obras para construção da CRIL ali mesmo, às Portas de Benfica (com a consequente demolição do Bairro das Fontaínhas e do Bairro da Azinhaga dos Besouros), "roubaram" muitos clientes ao Sr. Fernando e à Dª. Natália.

Mas não é por isso que eles não vêem com bons olhos as mudanças que têm ocorrido na freguesia. Consideram Benfica melhor e mais desenvolvida do que noutros tempos e relembram com entusiasmo o facto dos terrenos por detrás da sua loja, onde outrora existiu a Fábrica de Tintas Atlantic, terem dado origem à construção de 52 prédios.



"Fernando Figueiredo, dono de uma drogaria em Benfica
onde ainda se vende a pasta medicinal Couto que comemora o seu 75º aniversario"
Fotografia de Mário Cruz (Lusa), 07/04/07, disponível in "Fotos Lusa"



Duas ou três das restantes Drogarias que ainda existiam em Benfica, com quem era hábito trocarem os seus produtos (numa forma de comércio bastante saudável e sem quaisquer rivalidades), fecharam, por morte dos seus proprietários.

Mas a sua Drogaria ali permanece... uma das últimas e das mais antigas.

Perante o meu fascínio com a máquina registadora da Drogaria, o Sr. Fernando aproveita para contar que, há uns anos atrás, lhe apareceram ali na loja uns jornalistas, a querer filmar tudo e "(...) até me fizeram subir e descer ali as escadas várias vezes". Depois, o artigo saiu em alguns jornais, que o Sr. Fernando ainda guarda religiosamente (e dos quais aqui publicamos algumas das fotografias recolhidas nessa época).

Muitos dos seus clientes costumam dizer-lhe "Ah, não feche isto, não feche porque faz muita falta!".
Mas, quando o interrogamos sobre o futuro do seu negócio e se algum dos seus descendentes retomará o que iniciaram, o Sr. Fernando diz-nos: "(...) A minha filha tem o seu emprego, não é?! Trabalha na Carris já há uns anos, ainda era solteira. Os meus netos querem estudar e não é para depois trabalharem num balcão de drogaria. Nem eu gostava, para já! E agora para o futuro, eu já disse à minha mulher, em chegando aos 75 anos, eu tenho 73... não vou morrer aqui, não é?!"



Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)



Nesta freguesia que, há 47 anos atrás, também escolheram para residir, a Dª. Natália relembra que o espírito da vida de bairro já não é o mesmo: "(...) Mas não é como era! Mudou. É que, realmente, é lógico que as coisas aconteçam assim. Porque dantes era, realmente, as pessoas que foram aqui muitos anos habituadas. (...) elas acabaram, realmente, coitadas, por morrer, e os filhos já não continuaram os hábitos dos pais. E então já se tornou muito diferente. Porque enquanto dantes não havia tantos carros para se deslocarem, havia mais convívio, com essas pessoas de mais idade. Agora não! Cada um tem o seu carro, vão se expandir para onde querem e lhes apetece. É muito diferente! Nesse aspecto é que é muito diferente! Já não há o convívio, nem aquela amizade que havia."

Ainda assim, Dª. Natália não trocaria esta freguesia por outro local, como nos conta: "Eu gosto muito de Benfica! A minha filha vive em Vale de Milhaços e eu quando lá vou, ela até tem uma casa grande, que um dia que uma pessoa necessite realmente pode ir para lá... mas eu digo que tirem-me tudo menos a minha casa de Benfica!"



"Fernando Figueiredo e a mulher, donos de uma drogaria em Benfica
onde ainda se vende a pasta medicinal Couto que comemora o seu 75º aniversario"

Fotografia de Mário Cruz (Lusa), 07/04/07, disponível in "Fotos Lusa"



A Drogaria do Sr. Fernando e da Dª. Natália constitui um dos últimos redutos do comércio tradicional de bairro, na freguesia de Benfica.

Um espaço muito especial a ser visitado, em particular pela atenção e simpatia com que somos recebidos!





quarta-feira, 2 de setembro de 2009

As (novas) Hortas de Benfica




À semelhança doutros tempos, a ruralidade de Benfica desponta ainda em algumas "ilhas verdes", escondidas pelos meandros da freguesia...




Fotografia de António Pedro Ferreira


"Há 25 anos que Fernando Mendes, agente da PSP, tem uma horta a dois passos do Colombo, com vista para o Estádio da Luz". (*)




Fotografia de António Pedro Ferreira


"Estrada de Benfica. Há quase 30 anos que António Barroqueiro e outros seis hortelãos amanham uma ilha de verde encaixada entre duas fileiras de prédios (...) meio hectare de terreno, onde há de tudo, como no campo - incluindo convívio." (*)





Um excelente artigo de Katya Delimbeuf, publicado na Revista "Única", a ler na íntegra aqui.






(*) Texto de Katya Delimbeuf




segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Gente de Benfica - III





Fotografia da autoria de Luís Resende




Jorge Resende, 62 anos, nascido na véspera de Natal, no 1º andar do Nº 13 do Largo Ernesto da Silva, passou grande parte da sua infância e juventude na freguesia de Benfica.

O seu avô materno era vigilante da Escola Normal de Lisboa (hoje Escola Superior de Educação de Lisboa), tendo à falta dum ordenado, a permissão de instalar nos terrenos anexos as habitações para a sua numerosa família e os seus gados. Manuel, seu avô, alcunhado de "Pastor" era muito respeitado em Benfica desses tempos; vivia da exploração leiteira e vendia leite e queijos de porta a porta, como era costume à época.

Jorge Resende foi filho de operários: o seu pai laborou na Fábrica Grandella (Empresa de Fiação e Tecidos de Benfica) e a sua mãe na Fábrica Simões, à porta da qual Jorge se lembra de a ir esperar.

Da Fábrica Simões & Companhia Limitada Jorge Resende relembra, com uma réstia de saudade infantil embargada nas suas palavras, a importância de que se revestiam as festas de Natal promovidas pela mesma. Onde o "Patrão Gabriel" e o "Patrão Simões", como benesse da consoada, ofereciam, com toda a pompa e circunstância (nas quais se incluía o direito a uma visita ao alfaiate), roupas novas aos operários e às suas famílias.

Só muitos anos mais tarde, Jorge Resende teve consciência da exploração laboral praticada pela Fábrica Simões, onde, apesar disso, de uma forma dir-se-ia quase paternalista, os patrões "estimulavam a aprendizagem no refeitório da Fábrica, para os operários obterem o diploma da quarta classe (...) Havia equipas desportivas (...) e cerca de 1954, nos terrenos do refeitório, nasceu uma creche para os filhos dos operários (...)".
Mas, para quem, em criança, apenas teve como brinquedo um cavalo de cartão, que pertenceu à Família Lobo Antunes (oferecido, assim, em segunda mão por uma das suas criadas), as festas de Natal promovidas pela Fábrica Simões, eram, de facto, uma benesse dos céus.

Por entre as lembranças dos importantes marcos do comércio local (como a mercearia "Vale do Rio", a "Adega dos Ossos", o "Paraíso de Benfica" e a Foto "Nice"), das idas a pé até à Feira da Luz em Carnide e à praia em Algés, das "casas muito bonitas" que os seus olhos fotografavam e de alguns dos personagens da Benfica desses tempos; o discurso de Jorge Resende é entre cortado pelos momentos de índole mais pessoal, como o da emigração dos seus tios (com quem viveu grande parte da sua infância, primeiro em Benfica e, mais tarde, na Venda Nova) para o Canadá, no final dos anos 50, ou o do seu insucesso escolar e ingresso no mundo do trabalho ainda adolescente com treze anos e meio.

Em 1958, Jorge Resende regressa a Benfica com a sua família, para habitar uma casa no novo Bairro de Santa Cruz, gerido pela Caixa de Previdência.
É, precisamente, neste bairro de "casas económicas" que Jorge Resende mais sentiu a cisão social que existia na freguesia, ou seja, "(...) entre as duas partes do Bairro, ou seja, os moradores do Bairro da parte de trás da Mata estavam ligeiramente deslocados de Benfica, como se de um gueto se tratasse. E havia um pormenor interessante na arrumação social até dentro de cada rua. (...) dum lado construíram uma banda de casas (...) que ou por acaso ou fatalidade, eram habitadas geralmente por agregados mais modestos. Do outro lado da rua, construíram vivendas com bastantes divisões, geminadas, em que os moradores geralmente eram de profissões ou liberais ou quadros de empresas, funcionários do Estado, “gente bem”, e que dava a impressão que estavam ali para, com os seus exemplos de vida, também servirem para “educar” os pobres que lhes calharam em frente das suas portas."

Em criança, Jorge Resende desejava ser professor primário, pois via naquela profissão "(...) uma forma de mudar de lugar constantemente, qual caixeiro viajante ou saltimbanco que andava de terra em terra (...)"... Acabou por trabalhar, mais de 30 anos, como Controlador Planeador de Escalas de Tripulantes de Voo na TAP, onde os seus sonhos continuaram a voar.

A sua história de vida é o fiel retrato de uma época, vivida pelas classes mais baixas, do operariado, na freguesia de Benfica. É, sobretudo, a história de um homem cujas agruras de uma vida difícil lhe incutiram, desde muito cedo, um forte sentido crítico perante as diferenciações sociais existentes e contra elas, mais tarde, tentou activamente lutar.

Apesar das agruras provocadas por uma vida modesta, Jorge Resende recorda com carinho uma "vila" de Benfica agradável, "(..) uma lista enorme de gente simples, humilde, entrosados com outros de posições económico-sociais diferentes, mas que conviviam, como se Benfica fosse um pátio em que todos se conheciam."
Uma Benfica que "(...) começou a desaparecer no início dos anos sessenta, com a construção desenfreada de novos prédios (...)", mas que ele próprio gostaria de ver transposta para "(...) uma exposição de fotografias que “falem” de tempos passados, e que muitas e muitas obras nasçam que possam marcar o futuro daquela freguesia."

Actualmente, reformado, Jorge Resende, juntamente com aquela que, há muitos anos atrás, lhe vendeu uma entrada vitalícia para a Festa do Avante, contempla agora a sua neta de 1 ano crescer na ilha da Madeira. Onde o gosto pela leitura o continua a comandar para que se dedique, ainda, a redigir as memórias da sua família para as gerações vindouras.




Pode ler esta história de vida na íntegra aqui (a qual faz parte de um projecto mais abrangente que desenvolvemos numa rubrica intitulada "Gente de Benfica").






quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"Foram muitos anos de vivência de Benfica. Tanta memória..."




Como dizia, há alguns meses atrás, um dos aspectos mais importantes no mundo dos blogs é, na verdade, o facto destes constituírem verdadeiros espaços de partilha... Espaços onde, em tempo quase real, podemos aprender bastante uns com os outros.

A esse nível, tem sido muito interessante a troca (e, sobretudo, a aprendizagem) permanente que tenho mantido com alguns dos nossos leitores, assim como as dúvidas mais quotidianas que me têm sido colocadas por e-mail por algumas pessoas que chegam a este blog quando partem em busca de alguma outra informação mais específica sobre a freguesia de Benfica (seja porque aqui estão a pensar comprar casa, seja porque se encontram a realizar um trabalho universitário ou outro).

Ontem recebi um e-mail que me tocou profundamente.
Um e-mail que fala de memórias de outros tempos, de uma Benfica que não cheguei a conhecer, mas com o qual penso que todos aqueles que viveram a sua infância nesta freguesia encontrarão muitos pontos em comum.

Com a devida autorização do autor deste e-mail (o Sr. Jorge Resende), e uma palavra amiga de sincero agradecimento pela sua partilha, aqui publico hoje o seu texto.
Segundo as suas próprias palavras, foi "escrito de jacto"; em nosso entender, foi redigido com a emoção que as memórias daquilo que vivemos sempre nos trazem, constituindo, por isso mesmo, um importante testemunho das muitas histórias de vida que por Benfica têm passado.

Logicamente que, muito em breve, iremos também aqui publicar uma entrevista mais alongada com o Sr. Jorge Resende, integrada no nosso sub-projecto "Gente de Benfica".



...........................



"Entrei neste blog sobre Benfica, porque gosto de procurar imagens relativas à Vila onde nasci. E fico com uma pena muito grande por ainda não se ter feito uma exposição de fotografias sobre Benfica do antigamente!


(...)

Chamo-me Jorge Benjamim Gomes Resende. Hoje habito na Madeira, estou reformado, mas nasci em 1946 no Largo Ernesto da Silva, no primeiro andar do pátio do número 13 ou 15, num quarto alugado pelos meus pais, tendo-me mudado para as águas furtadas do prédio número 11 ao lado.




Fotografia de Jorge Resende




Deixei Benfica em 1950, e durante 8 anos vivi na Venda Nova, na Rua do cinema, Rua Carlos Amaro de Matos, tendo voltado em 1958 a Benfica, para habitar uma moradia no recém inaugurado Bairro de Santa Cruz, de onde saí em 1979 e jamais voltar a viver em Benfica, hoje bastante descaracterizada, nada que se identifique com a Benfica dos seus tempos áureos. Quanta memória...

Dizia o Sr. Lamas que estava a escrever a sua memória, acredito que sobre Benfica ele tenha imensa memória.

O meu avô materno foi durante muitos anos vigilante da Escola do Magistério Primário, nada recebendo de ordenado pois lhe permitiram erguer naqueles terrenos casa de habitação e estábulos para gado, fonte de receita da sua família, filhas (minha mãe), minha avó, e mais tarde meu pai e crianças aí nascidas como o meu irmão mais velho.

Os meus pais e minha avó foram operários no Grandela e a minha mãe, sua mãe e irmãs foram operárias na Fábrica Simões na Gomes Pereira, frente à qual habitava um professor primário de nome André que foi professor de António Lobo Antunes, como ele descreveu nas suas crónicas, e foi também meu professor até à quarta classe, na escola da Venda Nova. Por tudo isto, foram muitos anos de vivência de Benfica. Tanta memória...

A Gomes Pereira e as suas vivendas, a Escola Normal, a sede do Benfica hoje Junta de Freguesia, onde vi o meu primeiro filme projectado ao ar livre, a Avenida Grão Vasco onde eu e os meus irmãos íamos apanhar folhas de amoreira para colocar em caixas de sapatos com bichos da seda e comer as amoras...
A
Igreja de Benfica onde fui baptizado, onde os meus pais se casaram mas da qual não fiquei cliente... O Parque Silva Porto, onde brinquei e para onde ia estudar, bem como para a Pastelaria em frente da Igreja, o "Paraíso de Benfica".....
E o campo do Futebol Benfica, onde hoje é a Pastelaria Nilo...

A
grande moradia dos avós dos Lobo Antunes, e a outra casa destes na Travessa da Era, ao lado da Travessa do Vintém, junto ao Largo Ernesto da Silva...

E o palacete junto à Travessa do Rio, que pertenceu a uma família de apelido Baena, ao lado do prédio onde foi a Junta de Freguesia antes de se ter mudado para a Gomes Pereira - palacete esse frente ao palacete do que foi o Centro de Saúde, na Estrada de Benfica, no início da Gomes Pereira... Sempre que ali passava, olhava para o palacete e imaginava vivências antigas, talvez recheado ainda de móveis, enfim, fantasias de criança que Benfica soube criar. Tanto para dizer...



"Palacete do Visconde Sanches de Baena" (1960),
Armando Serôdio, in Arquivo Municipal de Lisboa



E a casa do Senhor Santos, o penhorista, na Grão Vasco onde hoje fica a Pastelaria Lua de Mel, e onde eu ia, envergonhado com a minha mãe negociar empréstimos que as condições económicas eram tão débeis...




"Av. Grão Vasco, Nº 13 a 17" (s/data),
Arnaldo Madureira, in Arquivo Municipal de Lisboa



Benfica, Benfica, que um dia gostaria de ver em livro, pois acredito que ainda se vá a tempo de recuperar a memória.
Ao dispôr, não com fotografias porque os rendimentos daquela época e desta família não suportavam a despesa com máquina fotográfica. Tudo está na minha memória, no meu coração. Na minha casa do Bairro de Santa Cruz ainda vive o meu irmão mais velho.

(...)

Anexo duas ou três fotos engraçadas. Uma será do Largo Ernesto da Silva Nº 11 onde morei no topo do prédio, águas furtadas, prédio que ainda existe, o outro é do referido palacete na esquina da Travessa do Rio, que hoje dá para um parque de estacionamento.



"Estrada de Benfica" (s/data),
[a aguardar referência ao autor], in Arquivo Municipal de Lisboa



E a outra é do prédio que ficava em frente do atrás referido, e que no primeiro andar teve um fotógrafo, Foto NICE, que durante décadas fotografou ,conjuntamente com a
Foto Águia de Ouro, os pequenos e graúdos de Benfica.
O pouco de Benfica antiga que ainda resta precisava de ser fotografado."
***




*** Texto da autoria de Jorge Resende.