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quarta-feira, 10 de março de 2010

A outra Vila Ventura




Em tarde soalheira, por motivos de trabalho, tive que me dirigir ali para os lados da Calçada da Palma de Baixo.
Como chegara com alguma antecedência ao encontro marcado, para "fazer tempo" e aproveitar bem os raios de sol magníficos que se faziam sentir, resolvi seguir em busca de um local sobre o qual já ouvira falar.
Um local sobre o qual já pretendera (sem grande sucesso) aqui escrever no blog, mas que agora, mais do que nunca, fazia todo o sentido colocar urgentemente um post.

Escondido por detrás do enorme "Marriot" e da Universidade Católica, ali bem ao lado da Calçada da Palma de Baixo, esconde-se uma pequena preciosidade, uma verdadeira relíquia encalacrada no tempo e no próprio espaço: o Rossio de Palma.






Por ali caminho, um pouco ao acaso, em busca do tal local...

As pequenas casas térreas e aquele largo onde os estendais comunitários vivem em plena harmonia com um parque infantil fazem-me lembrar de Carnide, apesar de algumas diferenças significativas (sobretudo no número de restaurantes existentes no Rossio de Palma, comparativamente com os da velha Carnide).





Completamente perdida, mas sob o relaxante efeito da doce acalmia que paira sobre aquele largo, acabo por ter que perguntar a uma senhora, sentada a apanhar sol, onde se localizava o motivo da minha demanda.





E ali mesmo ao lado, com saída directa para o pequeno largo e jardim do Rossio de Palma, no final da Rua Antonino e Sá, no Nº 21, freguesia de São Domingos de Benfica, ei-la então... a outra Vila Ventura.






Entro por aquilo que em tempos fora, certamente, um portão e deparo-me com um pequeno pátio, onde, altaneira, a tal Vila Ventura se ergue.
Composta por 5 habitações térreas e 5 outras no primeiro andar, a Vila Ventura é um exemplo da arquitectura do início do século XX (construído no ano de 1906), um exemplo típico do estilo "vila operária".






No lado oposto à Vila, junto ao portão de entrada, 3 outras pequenas habitações ali confluem.






Do primeiro andar de uma das últimas habitações da Vila Ventura, desce uma senhora de avental, muito sorridente.
Depois de tantos trabalhos de campo, o bichinho da curiosidade (que todo o antropólogo possui) permanece sempre cá dentro, o que, verdade seja dita, me tem auxiliado bastante a combater a minha timidez natural e a avançar quase de cabeça em situações como esta...
Dou as boas tardes à senhora e peço-lhe autorização para fotografar os edifícios. Ela aproxima-se de mim, diz que vai apanhar a roupa (seca), mas que podemos ir falando.





Explico-lhe, então, que sou de Benfica, onde, também, existe uma Vila Ventura, que um Movimento de Cidadãos se encontra a tentar preservar para não ser demolida; que lera um artigo a propósito das obras coercivas que tinham sido efectuadas ali na (sua) Vila Ventura e que gostaria de dar a conhecer esta Vila a mais pessoas, pela semelhança dos casos e, sobretudo, pela particularidade de ambas terem os mesmos nomes.

Dª. Inácia sorri e diz-me que não conhece a minha Vila Ventura, mas que, muitas vezes, ali recebem cartas dirigidas a essa outra Vila, que ela e os seus vizinhos acabam por mandar para trás com o carteiro, por não saberem de quem se tratavam esses outros habitantes.

E conta-me, então, como tudo ali começou...
Que as pessoas também se uniram, mas levaram muitos, muitos anos (mais de dez) até conseguirem o que queriam, porque a senhoria ia pagando as multas que a Câmara lhe impunha por não efectuar obras de conservação e nada mais;
Que a senhora que mais lutou pela reabilitação desta outra Vila Ventura, tendo-se até reunido com o Dr. Mário Soares, foi aquela que menos gozou quando as obras foram, de facto, realizadas, dado que faleceu poucos meses depois.

A meio da nossa conversa, vindo de uma das pequenas habitações em frente à Vila, ouve-se o barulho de alguém a mexer, por detrás de uma porta. Dª. Inácia, estrategicamente, coloca-se entre mim e o campo de visão de quem quer que nos estivesse a olhar por detrás dessa porta.





Dª. Inácia, 75 anos, olhar vivo e de bem com a vida, mora na sua Vila Ventura há já quase 5 décadas.

Depois de mais algumas fotografias, despeço-me de Dª. Inácia, agradecendo-lhe por aquele bocadinho de conversa e prometendo que ali regressarei, para lhe dar conhecimento de viva voz, caso tenhamos sucesso nos intentos em relação à nossa Vila Ventura.

Ao sair da Vila, enquanto fotografo o largo, sou interpelada por uma senhora de meia idade, que, ao ver-me com a máquina fotográfica na mão, e tendo estado a falar com a outra senhora a quem perguntara o paradeiro da Vila, me pergunta que género de trabalho estou a fazer.
E é assim que acabo por conhecer a Dª. Carmelita (nora da Dª. Inácia), que trabalhou, durante muitos anos, na Av. Gomes Pereira.

Dª. Carmelita fala-me sobre como aquela zona era em tempos que já lá vão: das quintas e hortas que ali existiam em vez dos grandes prédios; do palacete demolido pelo próprio dono no pós-25 de Abril, local onde hoje apenas jaz um matagal e ruínas...
E dos problemas de conservação de que, actualmente, a Vila Ventura continua a padecer... porque o tempo passa e os proprietários continuam a não realizar obras de conservação, apesar das obras coercivas a que foram obrigados há alguns anos atrás.







Conclusão



A outra Vila Ventura que hoje visitei é um exemplo típico das "vilas operárias" da cidade de Lisboa, sendo pertença de particulares.
Apesar desta não se encontrar incluída nos “Planos de Pormenor para as Áreas de Intervenção da Divisão de Reabilitação Urbana – Pátios e Vilas” (1993), nem tão pouco constar no "Inventário Municipal de Património", anexo ao PDM de Lisboa, há alguns anos, nesta Vila Ventura, os seus proprietários foram obrigados a efectuar obras coercivas (o que consideramos muito bem, e até, que deveria ser revisto se não deveriam ser efectuadas mais obras de manutenção, à data actual).

Ora, no caso da Vila Ana e da Vila Ventura, ambas constam no ""Inventário Municipal de Património", anexo ao PDM de Lisboa (respectivamente sob os artigos 08.04 e 08.05) e nos “Planos de Pormenor para as Áreas de Intervenção da Divisão de Reabilitação Urbana – Pátios e Vilas: Vila Ana e Vila Ventura” (1993); tendo sido definidas pela Deliberação nº 366/CM/94 da Câmara Municipal de Lisboa na listagem de “Pátios e Vilas” da cidade de Lisboa.

Não sendo um exemplo primordial do conceito de "vilas operárias" (vide in autores como Arqº. Nuno Teotónio Pereira), a inovação existente, enquanto exercendo essas funções, prende-se com o próprio facto do conceito de residência plurifamiliar se ter aplicado a duas Vilas do estilo vivenda (uma vez que, de vivendas de veraneio, ambas as Vilas se constituíram como habitações plurifamiliares, alugadas às classes sociais mais modestas, trabalhadores diversificados e, também, a operários da Fábrica Simões).

O que nos leva a perguntar o seguinte:

- Porque se tem prolongado infindavelmente o estado de abandono e degradação da Vila Ana e da Vila Ventura?

- Porque não foram já os seus proprietários, devidamente, obrigados a realizarem obras coercivas (em vez de, apenas, se lhes dar conhecimento de que se vai intimá-los a fazerem obras)?