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domingo, 23 de janeiro de 2011

Tabernas, Tascas e Casas de Pasto na Freguesia de Benfica (4)



Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2011)




Ler aqui o Capítulo 1, aqui o Capítulo 2 e aqui o Capítulo 3.






(Capítulo 4)

Por Fausto Castelhano



A camaradagem, a sã convivência à volta d’uns copázios de boa pinga, um mundo maravilhoso que desapareceu!
(Foto Wikipédia)



A Rua Cláudio Nunes não era uma ruela qualquer na Freguesia de Benfica! Além de albergar locais históricos e algumas histórias curiosas, comportava todos os atributos que lhe conferiam o estatuto d’uma das principais artérias da Freguesia e onde o trânsito intenso de pessoas e veículos fluía nos dois sentidos incluindo, claro está, uma das carreiras de passageiros da Empresa de Viação Eduardo Jorge que estabelecia a ligação com a vizinha Amadora através da Estrada dos Salgados. (7)



No início da Rua Cláudio Nunes, nº 5 a 13, o Restaurante/Cervejaria “A Tradicional”. Era aqui, neste mesmo edifício, que a categorizada Casa de Pasto “Na volta cá te espero” dava brado pela excelência de vinhos e petiscos, além de almoços e jantares confeccionados com os melhores produtos existentes no mercado.
(Foto de Fausto Castelhano – Setembro de 2010)



A reconhecida importância desta rua, encontrava-se bem à vista! À excepção de alguns funerais, cuja origem se localizava nas zonas geográficas a Norte da Freguesia de Benfica ou da vizinha Freguesia de Carnide, os incontáveis cortejos funerários, e eram “mais que muitos”, embicavam à Rua Cláudio Nunes e avançavam por ali acima, mais ou menos vagarosamente, ora acompanhados “a penates” ora, anos mais tarde, em viatura automóvel quando este meio de transporte se tornou mais acessível à bolsa de cada um…
Ao longo de décadas, extenso rol de individualidades proeminentes da sociedade portuguesa por ali passaram na derradeira viagem, desde o malogrado atleta Francisco Lázaro (8), ao Padre Cruz (9) ou, ainda, ao notável artista plástico e revolucionário José Dias Coelho (10).

A estirada afigurava-se e, ainda hoje assim é, bastante penosa: uma longa subida em linha recta, não muito acentuada contudo, assaz cansativa. Estava dividida em dois troços distintos, ou seja, o primeiro a findar junto às conhecidas “Escadinhas” e aí, curvando à esquerda e num ângulo bastante aberto, tem inicio a segunda etapa que nos vai conduzir ao portão do Cemitério de Benfica, o antigo Cemitério dos Arneiros como outrora era conhecido…
Actualmente, o cerimonial fúnebre é sempre a esgalhar! “Mandaram às urtigas” o respeito que deveriam merecer todos os cadáveres que, encafuados nas respectivas urnas, ali viajam na sua última passeata por este malfadado mundo daí que, quanto mais rapidamente a familória se desembaraçar da incómoda encomenda, tanto melhor!



A Casa de pasto “Na volta, cá te espero” na Rua Cláudio Nunes, nº 5 a 13. A partir dos finais da década de 60 do século XX, a “Casa” foi mudando de nome: “A tradicional da volta” e hoje, é apenas o vulgar restaurante/cervejaria: “A Tradicional”.
(Foto de Fausto Castelhano - Setembro de 2010)



A confluência da Rua Cláudio Nunes com a Estrada de Benfica adquiria, nestas circunstâncias, uma estupenda relevância… Ali, situava-se um dos pontos de encontro das pessoas que iriam acompanhar os funerais até ao seu último destino…O outro local, e ainda nos dias de hoje assim acontece, mantém-se junto à entrada do Cemitério de Benfica…

Assim, enquanto aguardavam o início da procissão lutuosa, os convivas conversavam ou reviam familiares, amigos e conhecidos de longa data os quais, nestas ocasiões tão dramáticas, sempre vão surgindo, sabe-se lá donde… Pelo meio, abraços efusivos, beijinhos repenicados ou palmadinhas nas costas, sorrisos amistosos e, no fito de festejar reencontros ou reforçando amizades antigas, escapadelas à “Na volta cá te espero” p’ra um copo, sempre bem-vindo, à laia de comemoração! Cafézinho, sumo ou cervejinha fresca, o café “Girassol de Benfica” e a cobiçada esplanada estavam ali à mão de semear p’ró que desse e viesse! (11)

Desta feita, com tanta farturinha de maralhal em constante circulação, os comerciantes da Freguesia de Benfica espreitaram o magnífico furo e, sem peias, não se fizeram rogados: instalaram-se em grande estilo! Além d’outros e variados negócios, um dos sectores de actividade económica mais lucrativa da Rua Cláudio Nunes foi, sem dúvida e ao correr de várias épocas, a restauração: cozinha de gabarito, vinhos de especial qualidade, petiscos de lamber beiça e dedos aproveitando, já se vê, a afluência de muita e muita gente no regresso do derradeiro adeus aos entes queridos que acompanhavam até à morada final: o “Jardim das Tabuletas”!
O vai-vai constante tornava a Cláudio Nunes, uma rua extraordinária, animada e a transbordar de vida… à pala dos mortos!

Espertalhões, os comerciantes valeram-se do extravagante ritual arraigado nos costumes da população lusa desde tempos imemoriais o qual, consiste na visita obrigatória às “capelinhas” após o acto final do evento, isto é, à deposição do esquife na “salgadeira” e às pazadas de terra e torrões a encher a sepultura “em cagulo”, às flores a compor a campa e às habituais choradeiras pelo infausto e fatal desfecho… Por fim, as despedidas mais ou menos apressadas do pessoal que se dignou escoltar o falecido até ao fim da jornada e… ”ala que se faz tarde”… É sempre a despachar!

Nestes actos, impunha-se comedida discrição porém, com insuperável imaginação e classe, a coisa fia muito mais fino nalgumas regiões do país, colocando a fasquia a um nível superior! Com efeito, é a própria família do defunto a assumir a totalidade das despesas, ou seja, fazendo o particular obséquio de oferecer lautos almoços ou jantares, não só a quem se disponibilizou a acompanhar o féretro até à última cena da cerimónia mas, outrossim, aos membros da família e aparentados, amigos, vizinhos ou simples conhecidos…
Gente solidária que nos momentos críticos e dolorosos, irmanados no mesmo sentimento de dor e pesar, se aprestam no apoio moral aos familiares mais chegadinhos de quem partiu de vez p’ra um qualquer mundo desconhecido o qual, desde sempre, ultrapassa o entendimento do ser humano! Verdade, verdadinha, continuamos a aguardar o regresso do primeiro ente fantasmático vindo do Além travestido sob uma imprevisível dimensão, seja corpórea ou espectral p’ra contar, por miúdos, o enigma que está p’ra lá da morte física e desvendar, por fim, como são geridas essas coisas misteriosas do Inferno, Paraíso ou Purgatório…

Bem melhor, só em Salreu, terra natal dos meus pais e hábito comum noutras freguesias do aprasível distrito de Aveiro. O Culto dos Mortos manifesta-se de maneira rara, excêntrica: no dia 2 de Novembro, o “Dia de Finados”, o bom povo glorifica os seus mortos de um modo um bocado arrevesado e, pela manhã cedo, ocupa a “Quinta dos Calados”, paredes-meias com a Igreja Matriz de S. Martinho de Salreu e onde, por simples acaso da sorte ou do azar, recebi o Sacramento do Baptismo…

As gentes simples da região abancam junto às sepulturas e jazigos, cuidam do seu arranjo, comem e bebem saboreando os farnéis num ambiente de piquenique a céu aberto e, se as condições atmosféricas se mostrarem favoráveis e as conversetas decorrerem a contento, a convivência torna-se muitíssimo agradável… Já participei nesta festiva tradição, um pouco estrambótica, é certo, e… adorei!
P’ra terminar o dia em beleza, a reputada “Banda Filarmónica Visconde de Salreu”, avança pela tardinha p´ró concerto, duas ou três peças bem executadas e… termina! O agrado é geral, aplausos, comentários, o trivial…Vem o crespúsculo, anoitece rápidamente e é o regresso ao “cortiço” com o sentimento do dever cumprido… Dali a um ano, haverá mais e talvez melhor!
É assim, afinal isto anda tudo ligado, o povoléu dá o “rabinho e oito tostões” p’ra “dar aos queixos e enfardar à fartazana”, invente-se um qualquer pretexto e… já está!
Vamos parar por aqui com este paleio! A idade já vai pesando e, pelo andar da carruagem, nunca mais chegamos ao fim da subida da Rua Cláudio Nunes a qual, nos dias de hoje, em nada se assemelha àquela via que nós tanto admirávamos nos anos 40/50 do século XX… Perdeu prestígio, irremediavelmente!

Aliás, originado pelas alterações viárias locais, a artéria foi truncada pelo passeio de peões da Estrada de Benfica acarretando, desde logo, a proibição de trânsito rodoviário a partir desta via daí que, o acesso de veículos à Rua Cláudio Nunes se faça, unicamente e desde alguns anos a esta parte, pela Rua Ernesto da Silva… E apenas no sentido ascendente, ou seja, na direcção do Cemitério de Benfica…

Assim, os inúmeros funerais que, por vezes, até nos dava a insólita sensação de se postarem à espera de vez, jamais passarão por aquela via, salvo se algum desgarrado habitante do Largo Ernesto da Silva ou da Rua dos Arneiros (a antiga Travessa dos Arneiros) resolva “esticar o canelo”…
Então, e aqueles cidadãos que decidem “bater a caçoleta” na Rua da República da Bolívia, a antiga Estrada do Poço do Chão? Esses, em princípio, sobem pela Estrada dos Arneiros de molde a encurtar caminho e tempo, a celeridade é a alma do negócio, e o delicado assunto é arrumado num ápice… Os bichinhos glutões aguardam, sôfregos e de bocarra aberta, a sua vez de entrarem em funções!
Bom, face às profundas modificações ocorridas nestes percursos, pelo menos, a população residente na Rua Cláudio Nunes saiu beneficiada pelo sossego alcançado porém, o comércio local retrocedeu e, como é óbvio, ressentiu-se de modo bastante visível, e… amochou! Mesmo a Cervejaria/restaurante “A Tradicional” onde, noutros tempos, a Casa de pasto “Na volta cá te espero” brilhava a grande altura, acabou por perder todo o seu encanto…

Ao cabo e ao resto, não deixa de ser curiosa a reviravolta “de cabo a rabo” que a Freguesia de Benfica sofreu desde os finais da década de 50 do século XX, mercê da revolução urbanística operada na cidade de Lisboa e, nomeadamente, na Freguesia de Benfica… Actualmente, as carretas funerárias tomam o caminho do Cemitério de Benfica por uma rota que, até à década de 70 do século XX, somente era utilizada quando o “rei fazia anos”, provocando festa rija e animada p’rá miudagem lá do sítio: a Estrada dos Arneiros!

Exactamente, aquela comprida ladeira orlada, à esquerda, pela frondosa mata da Quinta das Palmeiras onde, por exigência dos herdeiros de Guerreiro Galla, aquando da sua transacção p’rá construção civil (meados dos anos 60 do século XX), subsiste um rincão arborizado de eucaliptos e palmeiras lembrando, aos vindouros, a excepcional mancha florestal que ali existia. Este espaço sofreu alguns melhoramentos por parte da autarquia: escadas, caminhos, banco e mesas dedicadas a descanso e lazer, bar que se encontra encerrado… À direita, a Estrada dos Arneiros era ladeada por escassa meia-dúzia de bonitas moradias e pelo valado de protecção daquela que foi a Quinta do Charquinho… Claro, a minha rua! Realmente, quem diria… Há coisas do Diabo!
Agora, é tempo de avançar e iniciar a subida! Assim, logo à entrada da Rua Cláudio Nunes, com o nº 5 a 13, a melhor e mais acreditada “Casa de pasto” da Freguesia de Benfica e que exibia, à porta, uma tabuleta com um nome bastante singular: “Na volta cá te espero” que, mais tarde e sucessivamente, iria emergir como a “Tradicional da Volta” e hoje, apresenta-se como a Cervejaria “A Tradicional”. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades! É sempre assim…
Efectivamente, na volta dos funerais, o amplo espaço da concorrida Casa de pasto “Na volta cá te espero” tornava-se, na realidade, deveras exíguo devido à farta afluência de clientes ávidos de molhar a goela e saborear um petisco que lhe ficasse no goto… e com vontade de voltar! Um negócio das Arábias, mas onde a clientela nunca saía defraudada: vinhos de avantajado calibre, petiscos de alto estofo, além do serviço de almoços e jantares requintados e de encher as medidas primando, sobretudo, pela cuidada confecção… O atendimento cordato completava o cardápio da Casa e concorria p’ra que as boas referências e a sua indesmentível fama se repercutissem longe…



O cidadão Emílio Perez Dominguez, de nacionalidade espanhola e oriundo da Galiza, o fundador e primeiro proprietário da famosa Casa de Pasto “Na volta cá te espero”.
(Foto cedida gentilmente pelo filho João Perez e esposa, Dª. Maria de Lourdes, a “Lourdinhas”)



O primeiro proprietário e fundador da “Na volta cá te espero” foi o Sr. Emílio Perez Dominguez, cidadão espanhol da Galiza, nascido em Rinxels (Província de Pontevedra) em 23/9/1896… Casou em segundas núpcias com Jacinta Lourenço Raimundo, natural do Gavião, onde nasceu a 15/1/1890.

Além da “Na volta cá te espero”, o Sr. Emílio Perez também adquiriu, mais tarde, o célebre “Ferro de Engomar” e um outro estabelecimento do mesmo ramo conhecido como “As portas verdes”, ambos na zona do Calhariz de Benfica/Cruz da Pedra”.
Segundo opinião abalizada do meu querido amigo João Perez (a quem agradeço a preciosa colaboração prestada, assim como à sua gentil esposa, Dª. Maria de Lourdes, a “Lourdinhas”), a Casa de Pasto “Na volta cá te espero” existe, sob a gerência de seu pai, Sr. Emílio Perez Dominguez, desde o longínquo ano de 1928, pelo menos…
O Sr. Emílio Perez manteve a “Na volta cá te espero” até cerca dos anos 60 do século XX e, apesar do próprio nome da Casa causar demasiados engulhos em gentinha de extrema sensibilidade e das próprias autoridades, recusou sempre alterar a designação da famosa Casa de pasto…
Apenas um pormenor de contornos sinistros, mas que é dado como absolutamente verídico: nos aposentos onde, tempos depois, foi instalada a “Na Volta cá te espero” acoitava, como quartel de apoio às suas condenáveis acções, a famigerada “Formiga branca”, nome pelo qual ficou conhecida uma organização semi-clandestina, na realidade uma verdadeira polícia política irregular, gerada na órbita do Partido Republicano Português e, posteriormente, englobando o Partido Democrático e organizações radicais da esquerda republicana… Esta associação de má memória e piores entranhas, desenvolveu a sua criminosa actividade durante a Primeira República Portuguesa e nos anos iniciais da Ditadura Nacional.

Apressemo-nos! Seguimos adiante e vamos atravessar a perpendicular à Rua Cláudio Nunes: a Rua Ernesto da Silva que tomou a designação da antiga Rua do Espírito Santo aquando da implantação da República Portuguesa em 5 de Outubro de 1910…



Central Telefónica dos TLP (actualmente, propriedade da PT-Portugal Telecom) no gaveto da Rua Cláudio Nunes com a Rua Ernesto da Silva.
(Foto de Artur Inácio Bastos - 1961 - Arquivo Municipal de Lisboa)



A bonita “Casa do Adro” da Família Maya: Rua Ernesto da Silva, 18 e 20.
(Foto de Fausto Castelhano - Dezembro de 2010)



Jardim interior da “Casa do Adro”, Rua Ernesto da Silva, 18 e 20 .
(Foto de Fausto Castelhano - Dezembro de 2010)



No gaveto, à nossa mão direita, o edifício dos TLP (nº 12 da Rua Ernesto da Silva) actualmente, pertença da PT-Portugal Telecom. À mão esquerda, a encantadora Casa do Adro (nº 18 e 20 da Rua Ernesto da Silva) da Família Maya e na esquina desta moradia (junto à igreja), a curiosa Vila Dantas Ripamonti, uma jóia valiosa incrustada no meio do casario... Frente à entrada desta Vila, o Adro da Igreja Paroquial de Benfica e, logo na primeira porta, a Capela Mortuária que em 1958 tomou o lugar da antiga Sacristia…



A “Vila Dantas Ripamonti”, uma jóia bem escondida: Rua Ernesto da Silva junto à “Casa do Adro” e nas traseiras da Igreja de Benfica.
(Foto de Fausto Castelhano - 2010)



Pormenor do Adro e ala lateral da Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica numa perspectiva a partir da Rua Ernesto da Silva.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1960 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Os restos mortais de quem aqui faz sala durante o velório e até à chegada do carro funerário, embarca direitinho ao Cemitério de Benfica (se for essa a sua morada final) pela Calçada do Tojal e… pronto! É pertinho!
Ao fundo do Adro e à esquerda com o nº 7, a Cafetaria de Benfica. No mesmo local existia a Fotografia Flórida que, por acaso, fotografou o meu primeiro casamento… Mas, atenção! O prédio que ali está, substituiu um outro bastante mais antigo onde se encontrava instalado, na fachada principal e virado à Estrada de Benfica, o celebrado Café Marijú, o tal “Café esquecido” que tão gratas saudades deixou em todos os que tiveram o grato prazer de o frequentar… O “Café Marijú" manteve as portas abertas até 1961 mas, em 1962, baixou os taipais de modo definitivo… O edifício só foi derrubado em 1963 e substituído pelo prédio que, actualmente, aloja os Estabelecimentos Fica-bem



Moradias “em banda” de um só piso na Rua Cláudio Nunes, nº32 de A a D e respectivo varandim ao longo de todo o comprimento do bonito conjunto. No canto inferior direito, observa-se a entrada (através de um portão em ferro forjado e pequena escada de pedra) de acesso à antiga sede do Clube Futebol Benfica.
(Foto de João H. Goulart - 1961 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Avançamos um pouco mais e paramos junto a um invulgar conjunto de quatro moradias em banda, de um só piso e varandim a todo o comprimento, identificadas pelas letras A a D… A acessibilidade às habitações é feita por uma pequena escada de pedra e portãozinho de ferro forjado com o nº 32 colocado, mesmo no centro das pitorescas casas…

Evidenciando idêntico estilo arquitectónico, a moradia ao lado com o nº 30 e que permaneceu na memória dos habitantes de Benfica, acabou por ter o destino esperado: a total demolição! A gloriosa bandeira negro/rubro que assinalava a sede do carismático Clube Futebol Benfica (p’ra alguns, o Fófó), foi arreada de vez e os Corpos Sociais do clube não adregaram outra alternativa: o Clube Futebol Benfica atafulhou os tarecos na trouxinha, resolveu deitar pernas ao caminho e tentou granjear nova vida na Quinta da Casquilha…



O glorioso estandarte do Clube Futebol Benfica, o emblemático e prestigiado clube da Freguesia de Benfica. (Foto Wikipédia)



As novas instalações do Clube Futebol Benfica na Quinta da Casquilha, junto ao Parque Silva Porto.
(Foto de Artur Goulart - 1961 - Arquivo Municipal de Lisboa)



A popular agremiação desportiva, digna representante da Freguesia de Benfica desenvolvia, no histórico local da Rua Cláudio Nunes, fecunda e dinâmica actividade social… Além dos vários serviços administrativos inerentes ao funcionamento regular do popular clube efectuavam-se, com relativa frequência e no espaçoso salão nobre, animados bailaricos onde o salutar convívio sobressaía, seja nos de Fins-de-semana ou Carnaval, seja nas festividades das Passagens-de-Ano ou Santos Populares…



Arraial de Santo António em Benfica.
(Foto de Armando Serôdio - Arquivo Municipal de Lisboa)




Os extenuantes, persistentes mas, sem dúvida, necessários ensaios da prestigiada “Marcha de Benfica” (12) realizavam-se no próprio salão, afinando “marcações”, cantorias e demais quesitos até à desejada perfeição e a contento do zeloso ensaiador…
Era, exactamente dali, que a “Marcha” abalava carregadinha de entusiasmo e ambição por parte de dirigentes, “marchantes” e população em geral, rumando p’ró desfile na Avenida da Liberdade na noite festiva de Santo António esperando, sempre, que botassem figuraço de excepção e prestigiassem a Freguesia de Benfica tendo em vista, alcançar a melhor qualificação possível… A sensação do desfile, a vendedeira de fruta e hortaliça, Alice Gorjão, montada no burro ajaezado à pinoca, uma alusão às raízes saloias da região… O garbo da Alice Gorjão provocava o delírio da multidão e arrebanhava justos e calorosos aplausos…



1947 - Desfile da Marcha de Benfica em plena Avenida da Liberdade na noite festiva de Santo António faz alusão às raízes saloias da região. De salientar que, outrora, Benfica estendia-se pelas terras do actual Concelho da Amadora, sendo à altura, designado por “Benfica extra-muros”.



Desfile da Marcha de Benfica no Pavilhão dos Desportos/Pavilhão Carlos Lopes.
(Foto de Judah Benoliel - 1955 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Dias depois, a prova dos nove: a renhida maratona no Pavilhão dos Desportos! Finalmente, o esperado tira-teimas perante a arrebatada assistência das claques dos Bairros concorrentes e do qualificado júri que iria elaborara classificação final, sempre debaixo de ruidosos protestos e quesílias, zangas e, quantas vezes, zaragatas a sério! Um espectáculo emocionante dentro doutra acirrada e entusiástica competição!

Os tempos são outros e hoje, a “Marcha de Benfica” desfila sem o tradicional burro que tanto espanto delirante causava nos espectadores da Avenida da Liberdade e a Alice Gorjão, também já abalou deste mundo deixando, certamente, um rasto de imperecível saudade em todos nós…
Como se calcula, o emblemático edifício foi demolido nos primórdios dos anos 60 do XX e, em seu lugar, ergueram mais um vulgaríssimo prédio de habitação sem qualquer menção especial. Fica o registo do sítio exacto e… já é qualquer coisinha!



As “Escadinhas” da Rua Cláudio Nunes que comunica com a Rua dos Arneiros, a antiga Travessa dos Arneiros (Foto de Artur Inácio Bastos - 1961 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Mais um pouco e chegamos às Escadinhas de interligação à Rua dos Arneiros, a antiga Travessa dos Arneiros, e onde a Rua Cláudio Nunes curva à esquerda… E lá ao fundo, no término da fatigante subida, já se avista, nítida e como que a reclamar por nós, “Vá de retro Satanás”, a entrada sombria p’rá “Cidade dos Pés Juntos”…
Na esquina das Escadinhas e com o nº 58 da Rua Cláudio Nunes, uma “Casa de pasto” sem pretensões de monta: balcão ao fundo da dilatada sala e, ocupando este espaço, mesas de ferro onde assentavam tampos em mármore… Clientela firme p’rós vinhos de boa estirpe e petiscos de primeira água, jogos de damas e dominó, matraquilhos e cartas completavam a oferta da loja e entretinha a freguesia que ali se fixava à conversa com os amigos beberricando, de quando em vez, uns copázios de bom vinho… Ora agora pago eu… ora agora pagas tu… Tal como manda a etiqueta!



Matraquilhos, uma tentação! Vai uma partidinha?
(Foto Wikipédia)




“Suecada”! Atenção! cada 4 cruzetas, um copinho de dois…
(Foto Wikipédia)




Enquanto garoto, tantas vezes ali entrei com a recomendação do meu pai, um bom garfo e… melhor copo, graças a Deus, e logo que o nosso apaladado vinho e água-pé que fabricávamos na adega, se esgotava: - “Vai aos Amigos da Uva e não te demores muito! Traz do carrascão, do lote, não te esqueças”! E lá ia, ligeiro, pelo estreito carreirinho por entre as oliveiras atirando, de quando em vez, umas pedradas n’algum pássaro e, rapidamente, atravessava a quinta até junto ao muro do Cemitério… Aí chegado, furava pela abertura existente no valado de delimitação da Quinta do Charquinho e… saltava p’rá Estrada dos Arneiros… Um pouco mais adiante, o largo fronteiro da entrada do Cemitério, isto é, no cimo da Rua Cláudio Nunes… Ia por ali abaixo e… chegava num pulinho!



Jaquinzinhos fritos, um excelente pitéu a “fazer bico” a um “copinho de três”!
(Foto Wikipédia)




Jamais soube o nome da “Casa de Pasto” à beira das Escadinhas, e muito menos do proprietário da mesma porém, logo que transpunha os umbrais, não resistia! Infalivelmente, as minhas pupilas poisavam, fascinadas, no quadro colorido dependurado na parede do lado esquerdo: um enorme cacho de uvas da cor de vinho tinto, duas parras verdes a compor a singela pintura e, em cada bago de uva, uma fotografia, tipo passe… De quem seriam? Boa pergunta!
A composição artística emanava algo que me transcendia em absoluto: em letrinhas perfeitamente desenhadas, rezava assim: “Grupo Excursionista e Jantarista 'Os Amigos da Uva de Benfica'” e, logo por baixo, a data da sua fundação… Então, dava comigo a matutar p’rós meus botões e a remorder entre dentes: - “Gajos estuporados! Estes filhos d’um cabrão devem ser lixados p’rá rambóia!"
Onde se encontrará aquela verdadeira relíquia, uma vez que o edifício foi arrasado?



A Casa da Palmeirana Rua Cláudio Nunes, nº 60, logo a seguir à “Casa de pasto” que exibia no seu interior e na parede do lado esquerdo, o famoso quadro do Grupo Excurcionista e Jantarista “Os Amigos da Uva de Benfica”.
(Foto de Fausto Castelhano)



Olhem! A “Casa da Palmeira” está aqui à nossa ilharga! Quando deambulo por estas bandas lanço, sempre, uma olhar comovido p’rá aquele conjunto magnífico e onde a palmeira lhe dá um toque especialíssimo! Pois é, a “Casa da Palmeira” com o nº 60 da Rua Cláudio Nunes continua a resistir contra ventos e marés! Até um dia… que se vai avizinhando, pouco a pouco! Ali residia, segundo consta, o Sr. Gaspar, “o Seboso”, o dono do “Girassol de Benfica”...

Aproximamo-nos do termo da nossa digressão ao Passado. Daqui até à última paragem, é um esticão razoável… Aos poucos vamos papando todo o caminho e, mal nos damos conta, chegamos ao nº 100 da Rua Cláudio Nunes: a taberna/mercearia do Sr. José Maria Gaspar...



A taberna/mercearia do Sr. José Maria Gaspar, uma agradável raridade na Freguesia de Benfica, agora sob a gerência do Sr. Fernando Gonçalves, sobrinho da esposa do Sr. José Maria Gaspar: Rua Cláudio Nunes, nº 100. A porta do lado esquerdo, a taberna com o nº 100.B e, a porta à direita, a mercearia com o nº 100.A.
(Foto de Fausto Castelhano - Setembro de 2010)



Que me lembre, talvez em 1947, foi aqui onde, pela vez primeira, o meu pai, fumador de cigarros de enrolar, me mandou aos recados: - “Vai ao Gaspar e traz-me uma onça de 'Tabaco Superior' e um livro mortalhas 'Conquistador' mas, toma cautela! Se não houver mortalhas 'Conquistador'… não tragas Zig-Zag”… Pequenito, lá ia, contente por depositarem inteira confiança em dez réis de gente, atalhava pela quinta fora, a distância não me afligia absolutamente nada e, com uma perna às costas, era canja…
Seguramente, 60 anos foram devorados desde então... A esparsos, sempre que percorro estes sítios no intento de desenferrujar as articulações, relanço uma olhadela de raspão, fugidia e quase sem querer, ao pequeno e velho“estaminé”! Pois bem, desta vez, mirei atentamente a fachada da loja e… fiquei extasiado! Está na mesma!
Entrei, apresentei-me e logo informei ao que ia e o que pretendia… Fui acolhido cordialmente pelo Sr. Fernando Gonçalves, o sucessor natural do Sr. José Maria Gaspar… Como imaginava, o Sr. José Maria Gaspar, nascido na Freguesia de Malhada da Serra, concelho de Pampilhosa da Serra, falecera nos idos 80 do século XX e a esposa, natural do mesmo concelho, também já deixara de fazer parte do número dos vivos… O casal não deixou descendência directa porém, o actual proprietário do estabelecimento, o Sr. Fernando Gonçalves, é sobrinho da esposa do antigo dono da loja e, tal como os seus parentes, também viu a luz do dia no Concelho de Pampilhosa da Serra…



O Sr. Fernando Gonçalves, sucessor do Sr. José Maria Gaspar e que consegue manter o cunho, cada vez mais raro, da taberna/mercearia dos idos de 40/50 do Século XX.
(Foto de Fausto Castelhano - 2010)



Enfim, entabulámos um prolongado e animado “bate-papo” que se estendeu por uma manhã inteira e, dias depois, não resisti e voltei…
À primeira vista e volvidos tantos anos, parece que nada mudara: à porta, os mesmos caixotes de fruta e hortaliça, objectos de utilidade doméstica, alguidares de plástico, ratoeiras p’ra caçar ratos e pássaros (que saudades, meu Deus), arrastadeiras p’ra acamados, rolhas de cortiça, bocais e chaminés p’ra candeeiros a petróleo, etc. Uma infinidade de coisas de tempos imemoráveis que raramente se encontram em qualquer loja de comércio tradicional…



Um copázio de tintol, o mata-bicho a meio da manhã (11.35 horas) d’um cliente da taberna/mercearia do Sr. Fernando Gonçalves, o antigo estabelecimento do Sr. José Maria Gaspar.
(Foto de Fausto Castelhano – 17 de Setembro de 2010)


Este freguês optou por uma cervejinha às 10.36 horas da manhã. Ao fundo e encostado ao balcão, o Sr. Fernando Gonçalves.
(Foto de Fausto Castelhano - 24 de Setembro de 2010)



Na mercearia, uma infinidade de produtos do ramo! Não falta nada! Não me cansei de remirar toda aquela ambiência que me fascinou em absoluto… Entraram clientes p’ró mata-bicho, cervejola fresca ou saboreando um copito de vinho, contámos histórias e episódios da nossas vidas, registámos em fotos tão agradável visita à castiça lojinha… Foi-me garantido, firmemente, que aquela vendinha à moda antiga se irá manter assim, nas mesmas condições e tal e qual como no tempo do Sr. José Maria Gaspar onde, no regresso dos funerais no Cemitério de Benfica, os participantes no cerimonial funéreo emborcavam os primeiros baldes de vinho na costumeira peregrinação às capelinhas da ordem…

Despedi-me, emocionado, com a promessa de voltar… Saí, porta fora! Em frente, na ponta do nariz, o sinistro portão do Cemitério de Benfica que nos envolve em justificada inquietação e temor e por onde, mais cedo ou mais tarde, iremos entrar… nas calmas e em respeitoso silêncio…



Eis o sinistro portão do Cemitério de Benfica e a Capela mortuária que tanta e justificada inquietação nos provocam.
(Foto de Fausto Castelhano)



Afora um número cada vez mais elevado de cidadãos, por opção própria ou da respectiva familória, que preferem ser esturricados e reduzidos a cinzas nos fornos crematórios dos Cemitérios dos Olivais ou do Alto de S. João, os restantes entregarão o corpo à terra fria!
Nobres ou plebeus, pobres, ricos ou remediados, jovens, velhos ou crianças, crentes ou hereges, ninguém consegue escapar ao fatal destino e todos vão lá malhar com a carcaça!
O badalo da sineta soará ao aproximar da carreta que, ao atravessar o malquisto e funesto portão estacionará, apenas, por breves momentos… Então, os solícitos “gatos-pingados” da Agência Funerária contratada dirigem-se à Secretaria e, ligeirinhos, tratam de todas as formalidades burocráticas… Depois, sim! Todo o cortejo arrancará em silêncio, direitinho ao coval previamente aberto! É o fim! Será?

A viagem através dos tempos e das memórias (possíveis), das pessoas e dos sítios, termina aqui… Abordámos a temática Tabernas, Tascas e Casas de Pasto na Freguesia de Benfica retornando às décadas de 40 e 50 do século XX. Enquadrámos os locais de maior interesse no espaço físico onde encontravam inseridas balizando, como era o nosso intuito, a área compreendida entre a Igreja de Nossa Senhora do Amparo, a Estrada de Benfica até à Avenida Gomes Pereira e a totalidade da Rua Cláudio Nunes.
Introduzimos um excelente texto enviado pelo nosso amigo Luís Silva (a quem envio os meus agradecimentos) e que, sobremaneira, valorizou este trabalho, o qual se norteou, essencialmente, pelo rigor das datas, sítios e personagens!
Não sei se consegui alcançar os objectivos a que me propus. Permanece essa incógnita mas, pelo menos, esforcei-me dentro das minhas possibilidades.



(FIM)



Uma excelente achega!

(por Luís Silva)



"Uma das tabernas da minha memória situava-se no 702 da Estrada de Benfica, na esquina com a Calçada das Pedralvas onde hoje se encontra um pequeno café que pertence a um familiar, o António, ou Tó, do último proprietário daquele espaço enquanto taberna, que foi (felizmente ainda é vivo, embora bastante adoentado) o senhor Francisco, mais conhecido por Chico da Taberna, na senda do que antes se fazia que era de apelidar as pessoas com o ofício ou local de residência ou trabalho do titular. No caso do Sr. Chico, também servia para o distinguir de outro comerciante que explorava uma pequena mercearia duas portas acima, o Sr. Chico da Mercearia, estabelecimento já desaparecido e hoje ocupado (ou desocupado porque se encontra fechado há tempos) pela Sapataria "Charles".



“O Chico da Taberna” na esquina da Estrada de Benfica, 702 com a Azinhaga das Pedralvas.
(Foto de Artur Goulart - 1961 - Arquivo Municipal de Lisboa)




Desde que me lembro de existir, lembro-me daquela taberna, do seu cheiro característico, dos barris de vinho, do seu balcão em mármore e dos pequenos petiscos que a Dona Cassilda, esposa do Sr. Chico, por lá fazia, especialmente das pataniscas, dos jaquinzinhos, do peixe frito bem como das belas sandes de torresmo ou chourição.
Confesso que não sei desde quando é que ali existia a taberna sem nome estampado, era simplesmente a Taberna do Sr. Chico.
Espaço pequeno, com 3 ou 4 mesitas, era muito frequentado e sempre que por ali entrava, não para consumo própria pois a idade não o permitia, mas para ali fazer recados ao meu pai e ali comprar uma litrada de tinto, branco ou palhete, nunca de lá saía sem um pequeno rebuçado de fruta e sem trazer a boa disposição emanada do seu proprietário.
Se a memória não me atraiçoa, a entrada para a taberna fazia-se por uma porta de madeira semelhante às das típicas dos filmes de cowboys.
Recordo-me com enorme satisfação os dias em que chegavam os fornecedores do vinho, que faziam deslizar os barris do topo das camionetas de caixa aberta, por uma espécie de escada sem degraus.
Para nós, crianças, era uma aventura engraçada e fazíamos figas para que um daqueles barris se escapulisse das mãos hábeis do manobrador e rebolasse pela Estrada de Benfica abaixo... (enfim... pensamentos de criança de quem queria era diversão). Felizmente nunca tal aconteceu.
Os tempos modernizaram-se e o Sr. Chico passou a pequena taberna para o Tó que depois a modernizou e adaptou a um pequeno café / pastelaria.
Sempre conheci o Sr. Chico bem-disposto, alegre e sorridente, com enorme carinho por todas as crianças mesmo aquelas que lhe atazanavam a cabeça quando, a meio das jogatanas da bola, lá entravam aos rodopios para saciar a sede com copos de água.



Azinhaga das Pedralvas.
(Foto de Artur Goulart - 1961- Arquivo Municipal de Lisboa)




No mesmo lado da Estrada de Benfica, um pouco mais abaixo, no nº 696, ainda existe uma pequena mercearia, ou como se chamava antes, um lugar de fruta, cujo proprietário ali se tem mantido estoicamente há vários e longos anos, o Sr. Júlio da fruta. Naquele pequeno estabelecimento, existe um piso inferior, onde antes existia uma adega e se vendia vinho avulso, à garrafa ou ao garrafão, directamente do produtor.






Também ali se vendia vinho a copo e por vezes ali se juntavam vários fregueses, embora não fosse, por natureza, uma taberna.
Ainda na Estrada de Benfica, no lado contrário, já muito próximo de chegar às Portas de Benfica, existia uma outra taberna, a da Dona Laurinda, que além de servir copos de três e os seus famosos petiscos, se vendia o típico pão alentejano. Recordo-me como se fosse hoje, a figura da Dona Laurinda atrás do fogão, enquanto dava conta da frigideira, respondendo à letra, e bem à letra, a alguns comentários dos clientes que a gostavam de ouvir. Aquele espaço é hoje ocupado por um pequeno café e embora já não pertença à Dona Laurinda, ainda hoje é possível encontrá-la por lá, até porque vive no mesmo prédio.
No inicio da Estrada A-da-Maia, quem vai para o Mercado de Benfica, do lado direito, ao lado de uma padaria, que ainda hoje existe, e da antiga loja da "Singer", já fechada e desocupada, também existia uma taberna que nos anos mais modernos foi adaptada a café / restaurante e hoje, talvez sinais da crise, se encontra encerrada. Ali se vendia vinho a copo, garrafa ou garrafão directamente dos barris. É um espaço que me traz gratas recordações porque, era ali, onde eu e os meus amigos comprávamos os nossos primeiros cigarritos - os mata-ratos."




NOTAS:




(7)

A Estrada dos Salgados


A Estrada dos Salgados começava no entroncamento do final da Calçada do Tojal com a antiga Estrada da Circunvalação ou Estrada Militar. Com as obras da conclusão da CRIL, a parte inicial da Estrada dos Salgados foi completamente destruída, à semelhança da airosa Quinta dos Lilazes, logo à entrada da referida via.



A Estrada da Brandoa começava na Estrada dos Salgados. Em segundo plano, o cabeço e algumas casas da Brandoa.
(Foto de Gil Carlos - 196… - Arquivo Municipal de Lisboa)



A Estrada dos Salgados permitia (e continua a ser assim, mercê de algumas alterações viárias) o acesso à Brandoa através da Estrada da Brandoa e ao lugar de Alfornelos, via Rua de Alfornelos…
A carreira da Empresa Eduardo Jorge com destino à Amadora, seguia o seguinte itinerário: cimo da Rua Cláudio Nunes, à esquerda para a Estrada dos Arneiros, Calçada do Tojal (à direita), cruzamento da Estrada Militar e começo da longa Estrada dos Salgados, Falagueira e Amadora, a antiga Porcalhota...


(8)
Francisco Lázaro


Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.




Francisco Lázaro durante a prova da “maratona”.
(Foto Wikipédia)




Francisco Lázaro (Benfica, Lisboa, 21 de Janeiro de 1891 - Estocolmo, 15 de Julho de 1912) foi um atleta português. Fez parte da primeira equipa olímpica portuguesa nos Jogos Olímpicos de 1912, em Estocolmo, Suécia, onde participou na prova da maratona. Francisco Lázaro desfaleceu durante a prova e veio a falecer poucas horas depois.

(Ver: Francisco Lázaro)



(9)
Padre Cruz


Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.



O Padre Francisco Rodrigues da Cruz.
(Foto Wikipédia)




Jazigo do Padre Cruz no Cemitério de Benfica.
(Foto de Fausto Castelhano)




O Padre Francisco Rodrigues da Cruz, o mais famoso sacerdote oriundo do território daquela que é hoje a diocese de Setúbal, nasceu em Alcochete, a 29 de Julho de 1859 e morreu em Lisboa a 1 de Outubro de 1948.

(Ver: Funeral do Padre Cruz)




(10)
José Dias Coelho


Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.



O artista plástico e dirigente do Partido Comunista Português, José Dias Coelho.
(Foto de Fausto Castelhano)



Túmulo de José Dias Coelho no Cemitério de Benfica.
(Foto de Fausto Castelhano)



José Dias Coelho, artista plástico e dirigente do PCP - Partido Comunista Português, foi assassinado a tiro pela PIDE a 19 de Dezembro de 1961. O funeral, discreto, realizado quase às escondidas, apenas se realizou a 26 de Dezembro.
O assassinato levou o cantor Zeca Afonso a escrever e dedicar-lhe a canção A morte saiu à rua. Da sua vida pessoal merece referência a sua relação com a artista plástica, Margarida Tengarinha. O casal teve três filhas.
Ao optar pela clandestinidade em 1955, põe de parte a sua carreira artística como escultor, que nesse mesmo ano vê os primeiros sinais de reconhecimento público, com duas esculturas para a Escola Primária de Campolide (secções feminina e masculina) e uma grande escultura para a Escola Primária de Vale Escuro, em Lisboa, e dois baixos-relevos, um para o Café Central das Caldas da Rainha e outro para a fábrica Secil.

(Ver: José Dias Coelho)



(11)

A esplanada do “Café Girassol” e o Sr.Gaspar, vulgo, “O Seboso”


O tempo bateu asas e voou vertiginosamente sem nos darmos conta e quando reparámos, contámos mais de cinquenta anos… Desde então, amigos e conhecidos nos instavam p’ra contar como foi a tal história do Café “Girassol de Benfica” e do Sr. Gaspar, “O Seboso”, tal como ficou conhecido na Freguesia de Benfica e arredores. Sempre nos fomos esquivando por este ou aquele motivo mas, a causa mais provável, foi o sentirmos a consciência um pouco pesada pela radical sacanice exercida sobre a pessoa do Sr. Gaspar, vulgo, “O Seboso”… Penso que a sanção aplicada teria sido excessiva e… logo nos arrependemos…

O apodo, um pouco afrontoso, ficou impregnado na mente das gentes de tal modo que, o nome próprio do nosso amigo Gaspar foi-se diluindo aos poucos e… apagou-se… Pessoalmente, já não me lembrava e os companheiros (dos finais dos anos 50 do século XX) que consultei, nada me adiantaram… A sorte bateu-me à porta quando visitei a venda do Sr. José Maria Gaspar, no cimo da Rua Cláudio Nunes… E logo se fez luz: Gaspar! Isso mesmo!

Então, vamos começar pelo princípio, isto é, pela excelência da esplanada do pequeno Café “Girassol de Benfica” que se destacava pelo magnífico posicionamento na zona fulcral da Freguesia de Benfica, ou seja, no gaveto da Estrada de Benfica com a Rua Cláudio Nunes… O estupendo panorama que dali se desfrutava era, na verdade, único e esta importante faceta era inquestionável e reunia o consenso geral da população… Dali, o olhar alongava-se e varria todo o espaço em redor, não só o corre-corre da Estrada de Benfica mas, também, a azáfama da Rua Cláudio Nunes…
Este facto muito concreto, provocava uma certa inveja aos habituais frequentadores de uma outra esplanada localizada a dois passos de distância: a esplanada do Café Marijú!
A ideia de ocupar a esplanada do “Girassol de Benfica” começou a germinar na cachola de alguns amigos contudo, óbice de monta se lhes deparava: a sua fidelíssima clientela, simpáticos velhotes na reforma que se pautavam pela pontualidade… E todas as tardes, a cena repetia-se isto é, mal colocávamos o pé no povoado, as duas ou três mesas encontravam-se, sistematicamente, ocupadas. Que fazer? - “Malta, a Primavera está a despontar, as tardes já estão quentinhas, vamos arrancar e jogar na antecipação”!
Assim foi…

Um belo dia, pela tardinha, chegámos um pouquinho mais cedo e, na maior descontracção, quatro manos sentaram-se a uma mesa da esplanada do "Girassol de Benfica"... Gaspar mirou-nos, aproximou-se de semblante carregado e nem nos deixou respirar. Deu-lhe a travadinha e, brutalmente, agarrou na mesa e levou-a p’ró interior do estabelecimento… Estarrecidos, ficámos ali, no meio da rua, sentados nas cadeiras mas… sem mesa! Nunca tínhamos passado por tamanha vergonha e, claro está, quem transitava na rua e assistiu ao filme, mostrou os dentes… a gozar o prato! Foi, na verdade, um insuportável enxovalho!



A excelência da esplanada do pequeno Café “Girassol de Benfica”. À esquerda e ao fundo, a esplanada do “Café Marijú”.
(Foto de Artur Inácio Bastos - 1961 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Após um breve momento de estupefacção pela reles ousadia do nosso amigo Gaspar, reagimos de modo violento. Abrimos as matracas e soprou um vendaval das mais grosseiras asneiradas e insultos que se possam imaginar e… não escapou mãe nem pai! - ”Vais ver como as pulgas te mordem, meu grande Seboso”… Foi, exactamente, aqui! Lançado por um de nós, Gaspar foi rebaptizado naquele momento! ”Seboso”, pegou de estaca… p’ra sempre!
Jurámos vingança de acordo com a gravosa ofensa que tanto nos molestou! O despautério não iria ficar, certamente, sem resposta firme e digna dos nossos pergaminhos. “O Seboso” ignorava, em absoluto, a qualidade dos “meninos” que lhe saíram na rifa! “O Seboso”, ao enveredar por tão desastrada atitude, colocou-se a jeito!

Acertámos p’ra um sábado de madrugada e não consigo precisar quem se lembrou da inconcebível, quão contundente desforra… Assim, pela noite fora, preparámos a devida retaliação a qual, exigia que fosse cousa de espantar e que perdurasse na memória das gentes de Benfica… Balde, brocha de cabo comprido e própria p’ra caiar paredes e material de pintura… - ”Coragem malta! Mãos à obra e quem se escusar, é um ganda maricas”! Ninguém deu de frosques, todos se comportaram à altura do delicadíssimo assunto e… ainda bem!
Então, muito depois da meia-noite de sábado, e sob elevados cuidados p’ra não levantar qualquer suspeita, arrancámos pela Estrada do Poço do Chão, Largo Ernesto da Silva, passámos o cruzamento da Travessa dos Arneiros, mais um pulinho e pronto! A primeira equipa organizada de “graffiteiros na Freguesia de Benfica” encontrava-se preparadísisma p’ra agir em conformidade! Habituados a pinchar muros e paredes noutras andanças, avançámos e todo o trabalho de pintura se resumiu a meia dúzia de segundos, sem qualquer preocupação artística…
Penámos a valer, o pivete nauseabundo exalado incomodava as nossas sensíveis pituitárias porém, a raiva com que executámos a tarefa, conseguiu ultrapassar todas as barreiras… Montras, porta e ombreiras do "Girassol de Benfica" apresentavam-se bem aviadas, graças a Deus! Trabalhinho exemplar!
Benfica dormia a sono-solto, ninguém viu ou ouviu! Desandámos dalí p’ra fora no meio de risada geral, direitinhos ao aquartelamento: a Quinta do Charquinho!

Pela manhã, cedinho, frente ao "Girassol de Benfica" e do outro lado da rua, aprumadinhos, aguardámos a chegada do Sr. Gaspar, “O Seboso” na abertura do estabelecimento… O material agarrara bem, tal como se previra! A caldeirada fora preparada com mão de mestre!
Os transeuntes olhavam os arabescos ali escarrapachados, dignos de Picasso ou Miró mas, rapidamente, metiam as mãos nas ventas e desviavam-se… O cheirete repugnante tombava o mais afoito!
Aí vem ele… O homem ficou aterrado! Balbuciou qualquer ameaça ou praga na nossa direcção e… foi tudo…
Toda a porcaria mal-cheirosa foi removida à mangueirada… Montras, porta e fachada da loja, desinfectadas… Trabalho extenuante e muito desagradável, estamos em crer…
Nunca mais nos encarámos cara a cara e tentámos, dali p’ró futuro, passar bem ao largo!

O “Girassol de Benfica” mudou de ramo, a esplanada desapareceu!
O Sr. Gaspar, “O Seboso” já bateu a bota! Que descanse em Paz!
Ah! A substância utilizada na pintura e que existe por todo o lado em quantidades colossais! Claro, matéria orgânica de primeiríssima qualidade, oriunda dos trabalhadores rurais da Quinta do Charquinho! Depósito: o sanitário ao ar livre junto à horta da quinta, resguardado de olhares indiscretos por renques de caniços… No seu interior, um simples buraco aberto no solo e tábua que facilite o acto culminante das necessidades fisiológicas de cada um!
Pronto! Esta história bizarra que não dignificou ninguém, está contada como, realmente se passou. Está desfeita a curiosidade de quem me rogou que a desvendasse de uma vez por todas!



(12)


A “Marcha de Benfica”



A “Marcha Popular de Benfica” iniciou-se em 1934. É um dos bairros de Lisboa que tem mantido a mesma figura feminina desde o início dos desfiles e que tanto caracteriza a Freguesia de Benfica: as “saloias”.


Jovem marchante da Marcha Popular de Benfica nas Comemorações do VIII Centenário da Tomada de Lisboa aos Mouros no Pavilhão dos Desportos/Pavilhão Carlos Lopes.
(1947 - Foto do Arquivo Municipal de Lisboa)



Actuação da Marcha de Benfica no Pavilhão dos Desportos/ Pavilhão Carlos Lopes.
(Foto de Judah Benoliel - 1950 - Arquivo Municipal de Lisboa)




A Marcha de Benfica já arrebatou 3 primeiros prémios: 1935, 1940 e 1989 além d’outras classificações de incontestável mérito. A Marcha de Benfica, continua a ser organizada pelo Clube Futebol Benfica.



Casa de pasto


Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.



Casa de Pasto é uma denominação muito comum até o final do século XIX, tanto em Portugal como no Brasil, e que se refere aos estabelecimentos que serviam almoços e jantares.
O termo “pasto” é arcaísmo da língua portuguesa, derivado de repas (francês) e do latim pastus, que se referia a qualquer tipo de alimento.
A casa de pasto é uma mistura entre uma taberna e um restaurante de petiscos. Serviam, também, refeições ligeiras ao longo do dia, e claro está, acompanhadas de vinho ou cerveja.
Com a influência francesa em ambos os países, a denominação de restaurante ("réstaurer" = restaurar - "réstaurant" = restaurador) passou a substituir aquele antigo termo todavia, em Portugal ainda seja utilizado.







segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Gente de Benfica - IV




Entrevista realizada no âmbito do Projecto "Gente de Benfica"
(todos os direitos de utilização reservados em nome dos entrevistados - Maria Luísa e Fernando Carril - e da antropóloga responsável pelo projecto - Alexandra Carvalho).




Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)





[clicar no gravador para ouvir a entrevista de 23/07/09,
integrada no Projecto "Gente de Benfica"]






Maria Luísa (90 anos) e Fernando Carril (84 anos)… 55 anos de vida em Benfica.

Ela, nascida em 1920, na freguesia de Santa Isabel, diz nunca ter gostado de Benfica, por se lembrar com muita saudade de Campo de Ourique e da Rua Maria Pia, onde viveu durante muito tempo.

Ele, nascido na Rua da Prata. Não chegou a conhecer a sua mãe, que morreu tinha ele apenas 22 meses. Este facto viria a marcar não só o percurso de vida do seu pai, como também o seu próprio percurso, fazendo com que nunca estabelecesse laços emocionais a propósito de gostar ou não do local em que habitava (por ter andado quase sempre feito andarilho de um lado para o outro).

Quis o destino que ela e ele se cruzassem na estação dos CTT dos Restauradores, onde trabalharam durante 40 anos.
Em 1949 uniram as suas vidas pelo matrimónio e foram viver para a Penha de França, de onde saíram em 1955, com uma filha de 5 anos, rumo à freguesia de Benfica.

Benfica, nessa altura, era fora de portas… Mas Benfica, nessa altura, já se estava a transformar…

Maria Luísa e Fernando foram morar para um prédio novo, acabado de construir, na Rua Cláudio Nunes.
Rua assaz movimentada, com trânsito em dois sentidos, ligando directamente à Estrada de Benfica. Pela Rua Cláudio Nunes passavam, a essa época, os autocarros que iam para a Amadora e havia sempre pessoas a venderem na rua, com carrinhos. Esta era a principal via de acesso ao cemitério, vinda da Estrada de Benfica.

Nas traseiras do seu prédio, existia ainda uma grande quinta [do Tojalinho], onde se ia comprar leite e buscar água de um poço, ali existiam também três moinhos de vento.

Na Rua Cláudio Nunes, em Junho, era hábito os moradores irem ver a marcha popular sair do "Fófó", quando este tinha a sua sede do lado direito de quem sobe a rua.
E aos domingos ía-se até à Mata de Benfica, onde havia os balouços e o escorrega, e havia até quem levasse comida e por ali almoçasse. "Nesse tempo aquilo era muito visitado", relembra Fernando.

Era na Mercearia do Sr. Octávio, junto à Igreja, que se abasteciam e lhes entregavam as compras em casa; tal como a padeira que, nessa época, ainda vinha entregar à porta.
No entanto, fruto dos seus horários de trabalho, a vida social de Maria Luísa e Fernando Carril fazia-se mais nos Restauradores, perto do emprego.
Só depois de reformados, com mais tempo disponível, se começaram a dar com as pessoas da freguesia. "Agora até parece que há mais conhecimento nosso com as pessoas (...) passámos a conviver mais porque temos mais tempo e porque há muito mais gente, isto é mais povoado.”, diz Fernando, lembrando que não passa agora um dia em que não parem inúmeras vezes ao descer a sua rua, conversando com este ou aquele vizinho.

O comércio desenvolveu-se bastante e já não é necessário, como antigamente, irem à Baixa à procura de algo. Em compensação, ambos relembram com uma certa mágoa que muitas das lojas que têm fechado na rua em que habitam, não voltam a abrir "(...) porque ninguém lhes pega".

"Entretanto isto foi-se tudo modificando, as quintas acabaram, os transportes mudaram com o aparecimento dos autocarros e isto modificou-se tudo. (...) Tudo se transformou, a meu ver, para pior! (...) Porque as pessoas são outras...", explica Maria Luísa. "... E a vida é outra também!", complementa logo em seguida Fernando.





Vídeo de Alexandra Carvalho (2010)









quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O Casal dos Arneiros





Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2013)




(por Fausto Castelhano) 


Os antigos sítios e lugares da Freguesia de Benfica



Os antigos sítios e lugares da Freguesia de Benfica Sempre que pesquisamos lugares ou sítios, mormente relacionados com os povoados mais antigos da Freguesia de Benfica, tropeçamos, frequentemente com o termo Arneiro ou Arneiros: Rua dos Arneiros (antiga Travessa dos Arneiros), Estrada dos Arneiros, Casal dos Arneiros, Moinho dos Arneiros e, até mesmo, o novo Cemitério dos Arneiros, designação inicial atribuída ao actual Cemitério de Benfica aquando da sua construção no ano de 1869 devido à extinção, como se sabe, tanto do Cemitério de Benfica, localizado no adro ocidental da Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Amparo de Benfica como, também, do antigo Cemitério de Carnide onde os enterramentos se efectuavam tanto no interior do templo, como ao redor da Igreja de S. Lourenço de Carnide. Cemitério dos Arneiros para onde foram transladadas, um pouco atabalhoadamente, segundo se constou, as ossadas, lápidas e alguns jazigos dos cemitérios paroquiais atrás referidos.


Cemitério dos Arneiros (amarelo); Quinta das Palmeiras, antiga Quinta do Poço Chão (verde tracejado); 1 -Moinho dos Arneiros; 2 - Casal dos Arneiros; 3 - Estrada dos Arneiros; 4 - Travessa dos Arneiros, actual Rua dos Arneiros; 5 - Rua Cláudio Nunes, antiga Rua da Surrada; 6 - Calçada do Tojal; 7 - Estrada Militar (Estrada da Circunvalação); 8 - Posto de Limpeza Camarário do 10º Distrito; 9 - Estrada do Poço do Chão; 10 - Estrada da Correia; 11 - Capela do Cemitério; 12 - Cruzamento do Caliça (Carta Topográfica Militar de Portugal, 1928 - Serviços Cartográficos do Exército).


Documento 1 - Termo (6/11/1900) que assina Maria da Conceição Pinto Leão de Oliveira, obrigando-se às condições com que lhe foi adjudicado o arrendamento da casa do Casal dos Arneiros, em Benfica, para o Posto de Limpeza do 10º Distrito (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa) 


Recorrendo ao "Livro das Almas, Actas das Visitas Pastorais, Contas das Irmandades ou Eleições dos Irmãos", recolhem-se preciosos dados sobre o número exacto de fogos e residentes que constavam nos sítios ou lugares da área territorial da Freguesia de Benfica no decorrer dos séculos XVIII e XIX, tal como vem mencionado no livro “Benfica através dos tempos” do Padre Álvaro Proença. E assim, entre os núcleos populacionais que integravam a Freguesia de Benfica deparamos, mais uma vez, não só com a anotação do tal Casal dos Arneiros mas, também, o registo do número de habitações que ali existiam desde o século XVIII: em 1790, 3 fogos; em 1813 e 1834, 4 fogos e, em 1856, 3 fogos. E na página 30 da mesma publicação na descrição da Ribeira de Alcântara: “O grande caneiro que passa sob a Avenida de Ceuta leva, para o rio Tejo, todas as águas da encosta de Monsanto e de uma grande bacia formada a partir dos limites da antiga Porcalhota, pela Serra do Marco, Arneiro, Carnide e Cruz da Pedra, de um lado e, do outro, pelo Moinho da Atalaia, Calhariz e Serra de Monsanto, como atrás escrevemos”.



Documento 2 - Escritura (25/8/1915) de expropriação da propriedade denominada Casal dos Arneiros pertencente a Ana Elvira Pinto Leão de Oliveira (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa). 


Cá está, novamente, a referência ao Arneiro. Ora, a premência de resolução do intrigante enigma voltou à baila quando, recentemente, resolvemos revisitar a velhinha Estrada dos Arneiros de fagueira memória e, desde então, uma insistente curiosidade foi crescendo, crescendo e jamais nos largou a labita… Afinal de contas, qual a zona geográfica do território da Freguesia de Benfica onde se encontrava, realmente, o malfadado Casal dos Arneiros? Mistério intrincado e que urgia deslindar de uma vez por todas arredando, assim, uma realíssima preocupação que nos atormentava a mente sempre que tal assunto nos surgia…



Documento 3 - Escritura (23/3/1920) de expropriação do Casal dos Arneiros (moinho e terreno anexo) para alargamento do Cemitério de Benfica (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa) 


Assim, desatámos a espiolhar a questão um pouco mais a fundo e, quando tal acontece, amiúde somos premiados com algo de muito extraordinário e que nos pode surpreender agradavelmente… Foi o caso… O paradeiro do Casal dos Arneiros que procurávamos com tamanho denodo desde infindável tempo emergia, por fim, à claridade, após tantos e tantos anos decorridos de busca incessante que, por muito pouco, quase a soterravam de modo definitivo. Melhor, muito melhor: além do Casal dos Arneiros aparecia, também e à laia de brinde, a localização do moinho de vento dos Arneiros, estrutura tradicional da região saloia e de cuja efectiva existência ignorávamos em absoluto… Assim, descortinámos quatro valiosos documentos, além de soberba planta topográfica onde sobressaíam elementos essenciais com os quais, seria possível localizar de modo muito satisfatório, tanto o Casal dos Arneiros, como o moinho do mesmo nome, tal o magnífico espólio conseguido nas intensas pesquisas levadas a bom termo nos Arquivos da Câmara Municipal de Lisboa. Vejamos, então, o 1º Documento datado de 6 de Novembro de 1900 e que rezava assim: “Termo que assina Maria da Conceição Pinto Leão de Oliveira, obrigando-se às condições com que lhe foi adjudicado o arrendamento da casa do Casal dos Arneiros, em Benfica, para o Posto de Limpeza do 10º Distrito”.



Documento 4 - Escritura (23/6/1925) de expropriação de um moinho a Manuel Joaquim da Silva devido ao alargamento do Cemitério de Benfica (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa) 


O 2º Documento menciona a Escritura de expropriação do Casal dos Arneiros, em Benfica, a Ana Elvira Pinto Leão de Oliveira e tem a data de 25 de Agosto de 1915. O 3º Documento faz menção à Expropriação do Casal dos Arneiros (moinho e terreno anexo) para alargamento do Cemitério de Benfica e tem aposta a data de 23 de Março de 1920 e continha, como anexo, uma planta topográfica onde se inscrevem: o Casal dos Arneiros e o Moinho dos Arneiros, a Estrada Militar da Nova Circunvalação, a Rua Cláudio Nunes e a Travessa dos Arneiros, a Quinta do Vale Tareja, a Quinta do Sarmento e a Quinta do Charquinho.



Planta Topográfica 4P/1: 1 - Moinho dos Arneiros de Manuel Joaquim da Silva; 2 - Casal dos Arneiros; 3 - Quinta do Sarmento (Quinta do Bom-Nome); 4 - Quinta do Charquinho; 5 - Posto de Limpeza do 10º Distrito; 6 - Vale Tareja; 7 - Quinta das Palmeiras (antiga Quinta do Poço do Chão; A (laranja)- Caminho de acesso ao Casal e ao Moinho dos Arneiros; B (amarelo)- Estrada dos Arneiros; C (azul)- Travessa dos Arneiros (actual Rua dos Arneiros; D (rosa)- Rua Cláudio Nunes (antiga Rua da Surrada; E (verde)- Calçada do Tojal (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa) 


O 4º Documento, datado de 23 de Junho de 1925 regista a Escritura de expropriação de moinho a Manuel Joaquim da Silva devido a alargamento do Cemitério de Benfica. Ora, perante à documentação exposta, constatou-se que o processo de expropriação do Casal dos Arneiros, Moinho dos Arneiros e dos terrenos anexos visava, exclusivamente, a ampliação do Cemitério de Benfica, cujo espaço bastante exíguo se tornara insuficiente face às prementes necessidades sentidas pelas populações de Benfica e Carnide. Assim, e dando seguimento às justas reclamações das comunidades, as entidades oficiais avançaram, então, com o primeiro alargamento do Cemitério de Benfica, o chamado 4º Cemitério de Lisboa e cujas obras terão lugar na transição das décadas de 20/30 do século XX. Pela análise da Planta Topográfica 4P anexada ao 3º Documento, verificam-se alguns detalhes dignos do maior apreço e confirma-se, também, a notória exiguidade do espaço abarcado pelo primitivo Cemitério de Benfica em comparação com a área do actual cemitério depois dos dois alargamentos, ou seja, a ampliação que estamos a examinar e a posterior dilatação ocorrida em 1959.



Extracto da Planta Topográfica 4P/2: 1 - Moinho dos Arneiros; 2 - Casal dos Arneiros; 3 - Quinta do Sarmento (Quinta do Bom-Nome); 4 - Quinta do Charquinho; 5 - Posto de Limpeza do 10º Distrito; 6 - Capela do Cemitério de Benfica; 7 - Entrada secundária do Cemitério de Benfica; 8 - Entrada principal do Cemitério de Benfica; 9 - Quinta das Palmeiras, antiga Quinta do Poço do Chão; 10 - Quinta do Vale Tarejo; 11 - Estrada da Circunvalação (Estrada Militar); A (laranja)- Caminho de acesso ao Casal e Moinho dos Arneiros; B (amarelo)- Estrada dos Arneiros; C (azul)- Travessa dos Arneiros (actual Rua dos Arneiros; D (rosa)- Rua Cláudio Nunes, antiga Rua da Surrada (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa) 


Sensivelmente no sentido Sul/Norte encontrava-se a extrema que dividia o antigo Cemitério de Benfica e os domínios do Casal dos Arneiros, ou seja, entre o topo da rampa da Estrada dos Arneiros (confluência com a Travessa dos Arneiros) e a Estrada Militar. Assim, entre os dois espaços referidos existia o caminho de acesso ao Casal dos Arneiros, isto é, interligando a velha Estrada dos Arneiros com a Estrada Militar ou Estrada da Circunvalação e numa extensão que rondava 120 metros.



Extracto da Planta Topográfica 4P/3. O Casal dos Arneiros, o Moinho dos Arneiros de Manuel Jaquim da Silva e o caminho de acesso que existia entre a Estrada dos Arneiros e a Estrada Militar (Documento do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa) 


Depois do primeiro alargamento e a consequente absorção do Casal dos Arneiros, moinho e terrenos anexos, a fronteira do Cemitério de Benfica deslocou-se para Este, isto é, colidindo com os limites da Quinta do Charquinho, mas e ao mesmo tempo, seria suprimida definitivamente, qualquer ligação entre a Estrada dos Arneiros e a Estrada Militar. Assinale-se também, que o 1º Alargamento do Cemitério de Benfica e do Posto de Limpeza camarário contaram, ainda, com uma parcela de terreno retirado à Quinta do Charquinho através de Escritura de Cedência de 30/12/1930. Na Planta 4P/1 observam-se as conhecidas Estrada da Militar ou Estrada da Circunvalação, a Calçada do Tojal e os dois acessos, quer à Quinta do César (mais tarde, Quinta das Pedralvas), quer à Estrada da Circunvalação (cruzamento do Caliça). Evidencia-se, também, a Rua Cláudio Nunes e a Travessa dos Arneiros (actual Rua dos Arneiros), a Estrada dos Arneiros (com a conexão à Estrada Militar através do Casal dos Arneiros e o final da citada artéria com a Calçada do Tojal), a Quinta do Vale Tareja e, ainda, a Quinta das Palmeiras, a Quinta do Charquinho e a Quinta do Sarmento.



Início da Rua 8 no Cemitério de Benfica desde o portão secundário ao cruzamento com Rua 7 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


No extracto da Planta Topográfica 4P/2, além de parte das áreas da Quinta do Charquinho e Quinta do Sarmento, surge-nos o Casal dos Arneiros e o Cemitério de Benfica onde são visíveis, tanto a entrada principal e o portão secundário (junto ao caminho de acesso ao Casal dos Arneiros), como os dois pequenos edifícios de apoio (Serviços Administrativos) e, no termo da pequena alameda e no enfiamento do portão principal, a indicação da emblemática capela do cemitério.



Panorâmica da Rua 8 obtida a partir do cruzamento com a Rua 7, o ponto mais elevado do Cemitério de Benfica (Foto de Fausto Castelhano, 2013) 



Enfim, no recorte da Planta topográfica P4/3, a imagem revela-nos o caminho entre a Estrada dos Arneiros e a Estrada Militar (Estrada da Circunvalação) e verificamos, também, que o pequeno conjunto de fogos do Casal dos Arneiros localizava-se, aproximadamente, a meio do percurso mencionado. Ora, um pouco adiante e já bastante próximo da Estrada Militar, encontrava-se o altaneiro Moinho dos Arneiros e onde, certamente seriam moídos os cereais colhidos nas inúmeras herdades ao seu redor, nomeadamente, algumas culturas cerealíferas tradicionais da região, tais como, o trigo e o milho. Assim sendo e no intuito de confirmar a localização mais ou menos exacta do Casal dos Arneiros após a minuciosa abordagem da palpitante documentação obtida, deslocámo-nos ao Cemitério de Benfica. Então, recorrendo à quadrícula dos seus arruamentos insertos na Planta Topográfica 4P, iniciámos a nossa visita pelo Rua 8 (sentido Sul/Norte), ou seja, a linha de fronteira virada ao Nascente geográfico do primitivo Cemitério dos Arneiros e onde outrora existiu o respectivo muro de protecção. Assim, por entre a harmoniosa fileira de jazigos de ambos os lados da Rua 8, percorremos o curto trajecto de acentuada inclinação desde o portão secundário (situado no início da Rua João Ortigão Ramos, troço da antiga Estrada dos Arneiros) até ao seu términus, isto é, o cruzamento (na perpendicular) com a Rua 7 (Este/Oeste) e onde pontifica o memorial ao pintor/escultor Francisco Santos.



Memorial ao pintor/escultor Francisco Santos erguido no cruzamento da Ruas 7 e Rua 8 do Cemitério de Benfica, isto é, no local de maior altitude do Cemitério de Benfica 
(Foto de Fausto Castelhano) 


Aqui, abre-se um espaço planáltico de alguma dimensão (a Leste) e cuja superfície, anterior ao primeiro alargamento do cemitério, encontrava-se inserido nos antigos domínios, tanto do Casal dos Arneiros, como do chamado moinho de vento dos Arneiros. Trata-se, seguramente, de um dos cerros de cota mais elevada existente nas cercanias do centro histórico da Freguesia de Benfica, mesmo em confronto com a alta colina onde se ergue o palacete da Quinta da Granja de Cima.



A Rua 7 desde o cruzamento da Rua 8 (o ponto culminante em altitude do Cemitério de Benfica) até à capela do Cemitério de Benfica 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Observando a configuração do espaço em questão, constata-se que a cerca de dez metros na direcção Norte, o terreno vai precipitar-se abruptamente sobre a Estrada Militar e a Urbanização de Alfornelos e a Este, após breve declive e galgados à volta de 40 metros, uma profunda ravina abre-se ao encontro das Urbanizações da Quinta do Bom-Nome (antiga Quinta do Sarmento) e Quinta do Charquinho. O local, que poderíamos com toda a propriedade baptizar de Cerro ou Cabeço dos Arneiros, oferece-nos ampla e magnífica panorâmica até onde a vista pode alcançar num raio superior a 200º, desde o Casal de Cambra, Brandoa e Alfornelos, o Alto de Odivelas e o Casal Falcão, Urbanizações de Carnide, Bom-Nome e Charquinho, Estádio da Luz e C. C. Colombo, Alto dos Moinhos, etc. Bafejado pelos ventos predominantes que no local sopram dos quadrantes Norte e Noroeste, Manuel Joaquim da Silva não poderia escolher sítio mais favorável para construir o seu moinho de vento, justamente no prolongamento da Rua 7 orientado ao Nascente, ou seja, além da linha de fronteira do cemitério, tal como se poderá confirmar com a imprescindível ajuda, tanto da Planta Topográfica 4P/1, como na Carta Topográfica Militar de Portugal, 1928. Assinale-se, ainda, que a capela do cemitério localiza-se no extremo oposto da Rua 7, precisamente no sentido do Poente.



Panorâmica obtida próxima do cruzamento da Rua 8 com a Rua 7 do Cemitério de Benfica: Odivelas, Pontinha, Casal Falcão, Alfornelos 
(Foto Fausto Castelhano, 2013) 


Pois bem, chegados aqui podemos asseverar com escassa margem de erro que o fugidio Casal dos Arneiros, pequeno aglomerado de fogos onde alguns habitantes decidiram fixar as suas residências situava-se, aproximadamente, a meio do antigo caminho que ligava a Estrada dos Arneiros à Estrada Nova da Circunvalação, tal como já fora mencionado anteriormente. E, quanto ao obscuro Moinho dos Arneiros comprovara-se que se erguia, efectivamente, nas cercanias do ponto mais elevado do Cemitério de Benfica.



Panorâmica parcial de Carnide e Urbanização da Quinta do Bom-Nome 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


A finalizar acrescentamos apenas, uma breve nota: ao procurar o significado da palavra Arneiro, deparamos com a seguinte indicação: “local arenoso, estéril”. Então, saltou-nos uma pertinente dúvida com foros de alguma consistência. Afinal, ao cabo e ao resto e entre tanto espaço disponível no enorme território da Freguesia de Benfica, provavelmente a escolha do local onde seria implantado o futuro Cemitério de Benfica não seria, convenhamos, fruto de um mero acaso. Será que tal preferência recaiu em solos onde a escassa aptidão agrícola saltava à vista? 
O agricultor Augusto Rodrigues Castelhano, que cultivou a Quinta do Charquinho desde 1945 até 1960, sempre se lamentou: “lá p’ra cima (e referia-se às malfadadas terras limítrofes ao cemitério) a colheita não dá nem p’rá lavra e muito menos p’rá sementeira”. E a mesmíssima situação ocorria nas parcelas superiores da Quinta do Sarmento… Ali, trigo jamais medrou…Apenas raquíticas espigas de aveia…e um matagal de cardos espinhosos! E pronto, termina aqui a incursão em torno do enigmático Casal dos Arneiros e do seu moinho de vento engolidos, sem qualquer apelo nem agravo, pelo impreterível 1º Alargamento do Cemitério de Benfica. Apesar da localização exacta do Casal dos Arneiros se esfumarem, pouco a pouco, devido ao inexorável turbilhão do tempo, ainda assim tornou-se possível recuperar as suas coordenadas quando tal já se julgariam perdidas para sempre.