(por Alexandra Carvalho)
Benfica de outros tempos é descrita como uma localidade onde as quintas se seguiam umas às outras: a verdadeira horta de Lisboa. Entre as quintas mais famosas encontravam-se a das
Pedralvas, Tojal e Charquinho.
Depois da fundação da nacionalidade, toda a zona do termo da cidade de Lisboa ficou habitada por rurais mouros que aí se mantiveram, sujeitos à dominação cristã.
O termo de Lisboa foi o lugar de fixação do "velho saloio" realizada sobretudo em tempos de D. João I, até como recompensa pela maneira como os seus habitantes haviam colaborado e lutado pela defesa de Lisboa contra Castela. Muitas terras reais foram então distribuídas por doação.
A presença muçulmana fez-se notar em Benfica sobretudo pelas características "saloias" que os habitantes manifestavam até ao século XVIII.
O "saloio" deriva do
"çahroi" (= habitante do campo), designação dada com desdém pelos mouros aos habitantes dos arrabaldes.
Também os colonos francos e flamengos, aí chegados na época do povoamento, contribuíram para a formação do tipo clássico do "saloio".
Sendo o "saloio" descendente do moçárabe, foi da cultura arábica que herdou muitos dos seus usos e costumes, inclusive a arquitectura, como se nota nas formas e proporções daquele que é o seu tecto habitual:
"Imprimia o Saloio à sua habitação a robustez física e de carácter que o individualizaram. Sendo evidente que a casa saloia se insere no tipo de casa tradicional do Sul do País, ela possui um quê distintivo que logo a singulariza na Estremadura."
Maria Micaela Soares, in 'A Mudança na Cultura Saloia', Artigo inserto em "Loures, Tradição e Mudança" (vol. I, pág. 170. Loures, 1986).
A construção saloia, habitualmente com o seu lagar, fornos, adega, estábulos e curral, reflecte sobretudo a actividade agrícola do homem "saloio", que continua como os seus antepassados a ser o
"çahroi" da época muçulmana, isto é, o trabalhador do campo.
Os "saloios" de Benfica deslocavam-se a Lisboa para venderem frutos, legumes e flores. Sendo às
Portas de Benfica que se efectuava a pesagem dos produtos que entravam na cidade, servindo este edifício como ponto de apoio para a cobrança do imposto atribuído à entrada de mercadorias em Lisboa.
Com a inauguração do Aqueduto, surgiram algumas das profissões mais típicas da cidade de Lisboa, como as lavadeiras e os famosos aguadeiros.
Estes últimos, na sua maioria de origem galega, carregavam barris de água que vendiam a quem passava pelas ruas de Lisboa. Abasteciam-se nos vários chafarizes (entre os quais
o de Benfica), sendo também obrigados a dar auxílio à população em caso de incêndio.
A designação "alfacinha" que, tradicionalmente, se atribuía aos lisboetas ficou como uma ténue lembrança de uma época há muito desaparecida e que evoca a proximidade rural da cidade e dos tempos de lazer dos seus habitantes.
Os saloios de Benfica eram, em suma,
“figuras típicas (…) que circulavam por toda a cidade", tal como as varinas da Madragoa e os fadistas da Mouraria, de acordo com
Graça Índias Cordeiro.
"Figuras" que deram, posteriormente, origem a identidades culturais concebidas, através das especificidades de cada freguesia (incluindo a de Benfica), em diversos planos, relacionais e simbólicos; que, a um nível mais global, contribuíram para a construção identitária de uma cidade popular, pitoresca e bairrista (da qual as
Marchas Populares são
o exemplo-vivo).