quinta-feira, 5 de março de 2009

O Jardim Zoológico




(por Alexandra Carvalho)



"Jardim Zoológico e d'acclimação" - [Material Cartográfico], (1884)
In "Europeana" - Biblioteca Multimédia Online da Europa.


Fotografia de Alan Soric (2005)




O Jardim Zoológico de Lisboa foi, originalmente, inaugurado em 1884 no Parque de São Sebastião da Pedreira, tendo sido o primeiro parque com fauna e flora da Península Ibérica.
Foram vários os seus fundadores, como os Drs. Pedro van der Laan e José Thomaz Sousa Martins e o Baraão de Kessler, que contaram com o apoio de várias personalidades, como o Rei D. Fernando II e pelo conhecido zoólogo e poeta José Vicente Barboza du Bocage.




"Jardim Zoológico, portão de entrada" (1961)
Fotografia de Artur Inácio Bastos, in Arquivo Municipal de Lisboa



"Jardim Zoológico" (1905)
Fotografia de Paulo Guedes, in Arquivo Municipal de Lisboa



Só em 1905 foram inauguradas as novas e definitivas instalações na Quinta das Laranjeiras, tendo beneficiado do talento do arquitecto Raul Lino que desenhou vários espaços para alguns animais.




"Palácio dos Condes de Farrobo, fachada poente sobre o jardim" (?)
Fotografia de Horácio Novais, in Arquivo Municipal de Lisboa


Fotografia de Alan Soric (2005)



Os jardins do Palácio dos Condes de Farrobo, reconstruídos em 1942-1943 ao gosto francês, encontram-se, hoje em dia, separados do Jardim Zoológico (antiga Quinta das Laranjeiras), por uma decorativa teia de balaustrada.

O palácio foi edificado pelo primeiro barão de Quintela. O segundo barão de Quintela e conde de Farrobo fez na propriedade importantes melhoramentos, construindo em 1820 um grandioso teatro para 560 espectadores, com salão de baile revestido de espelhos e, desde 1830, iluminado a gás, o que era uma grande novidade para a época.

Em 1905 o Jardim Zoológico passou a ocupar grande parte dos terrenos, continuando o palácio e a sua zona ajardinada privativa, na posse da família Burnay.
Em 1940 o Estado adquiriu aos herdeiros da condessa de Burnay toda a propriedade rústica e urbana.





"Jardim Zoológico, escadaria, cascata e parque dos veados" (1959)
Fotografia de Arnaldo Madureira, in Arquivo Municipal de Lisboa


Fotografia de Alan Soric (2005)


As inúmeras remessas de animais vindos de África e do Brasil contribuíram para que, ao longo dos anos, o Jardim Zoológico tivesse uma das colecções de animais mais vasta e diversificada. Destacaram-se, na realidade, alguns governadores das ex-províncias ultramarinas no contributo para o enriquecimento da colecção zoológica com exemplares de espécies exóticas, pouco conhecidas e atractivas.

Em 1952, a Câmara Municipal de Lisboa galardoou esta Instituição com a Medalha de Ouro da Cidade.



"Jardim Zoológico de Lisboa, aldeia dos macacos" (?)
Fotografia de Luís Filipe de Aboim Pereira, in Arquivo Municipal de Lisboa


Fotografia de Alan Soric (2005)



A queda do Estado Novo em 1974 e a consequente independência das antigas colónias em África, significou a quebra do forte apoio prestado ao Jardim Zoológico pelas autoridades na diversificação e renovação da colecção animal.

Por esta altura, o número de visitantes também diminuiu de forma substancial e ocorreram cortes radicais dos subsídios estatais. Assim, foi necessário desenvolver e implementar uma nova estratégia de gestão para o Jardim Zoológico, adequando-o aos valores e necessidades da época.



"Jardim Zoológico de Lisboa, lago do roseiral" (1959)
Fotografia de Arnaldo Madureira, in Arquivo Municipal de Lisboa






Em 1990 a nova política de gestão adoptada tinha por objectivos a modernização do espaço do Jardim, assim como dos serviços.

Deste modo, foram criadas áreas de trabalho específicas com objectivos próprios, para melhorar a colecção e o bem-estar animal, a sua alimentação e os cuidados médico-veterinários.
Em paralelo, foram criados serviços comerciais, de marketing, relações públicas e imprensa, de modo a dinamizar o Parque como parceiro privilegiado das empresas.

Promover, junto do público em geral, a educação para a preservação das espécies animais e do seu habitat natural era, também, uma das principais preocupações, que rapidamente mereceu a criação de um serviço próprio, o Centro Pedagógico.




"Jardim Zoológico, dromedário" (1905)
Fotografia de Paulo Guedes, in Arquivo Municipal de Lisboa


Fotografia de Alan Soric (2005)



Hoje em dia, o Jardim Zoológico de Lisboa é um dos mais conceituados parques temáticos do mundo com uma das maiores colecções zoológicas: 2000 animais distribuídos por 364 espécies (54 das quais são EEP's - "Endangered Species Program").

Constituindo um importante espaço onde aliada à conservação e à educação está uma forte componente de entretenimento e diversão.



"Cemitério dos cães no Jardim Zoológico de Lisboa" (1961)
Fotografia de Arnaldo Madureira, in Arquivo Municipal de Lisboa


Fotografia de Francisco Santos









Material consultado para a elaboração deste post:

- Website do Jardim Zoológico de Lisboa
- Foto-biografia sobre o Palácio do Conde de Farrobo











quarta-feira, 4 de março de 2009

Palacete Rústico






Fotografia disponível in IPPAR




Fotografia disponível in IPPAR




No Nº 384 da Estrada de Benfica, na freguesia de São Domingos de Benfica, fica localizado um dos mais belos e misteriosos palacetes da ancestral Benfica.

Desconhecem-se quem foram os primeiros proprietários deste palacete rústico, datado de meados do século XIX, um dos último vestígios de
um momento na História em que algumas importantes famílias da capital procuraram estabelecer a sua residência em zonas da periferia, onde desfrutavam da calma e qualidade do campo.







Há alguns anos atrás, este palacete votado ao abandono serviu de residência a um desses grupos de adolescentes "ocupas" (os quais têm ainda muito que aprender com os movimentos semelhantes no estrangeiro, que chegam até a restaurar e a reabilitar os edifícios em que se instalam).

Para os retirar daquele espaço, apareceu a PSP e, mais tarde, foi instalado um letreiro gigantesco, anunciando que naquele espaço seria instalada brevemente uma qualquer delegação do Ministério da Cultura.






Os anos foram passando, e o palacete por ali continuava, votado ao abandono, sem que qualquer delegação ou sub-delegação cultural ali se instalasse.

Supostamente, este edifício encontrava-se, em 1994, em vias de classificação enquanto Património arquitectónico, abrangido na Zona Especial de Protecção (ZEP) do "Bairro Grandela; Quinta do Beau-Séjour / Quinta das Campainhas".






E por ali continuava em vias de degradação o palacete rústico do século XIX.
Até que, em meados do ano passado, surgiu numa das suas altaneiras janelas um anúncio de venda. Com a crise económico-social, até os proprietários de património arquitectónico, são obrigados a vendê-lo (quando nunca fizeram nada por ele)!...








terça-feira, 3 de março de 2009

A Respigadora







06/08/06



Domingo à tarde. Ar quente e irrespirável e um sol tórrido que lhe queimava a pele.

Descia a Rua Cláudio Nunes a custo, auxiliada pela sua bengala, quando se deparou com dois grandes sacos de entulho. "Lixo" de outros, que renovavam uma qualquer parte de sua casa.

De repente, dei por ela toda entretida a vasculhar um dos sacos.

Pegou num azulejo amarelado pelo tempo, onde ainda se vislumbravam encantadores desenhos traçados a azulão. Virou, revirou e disse com uma voz demasiado comovida, que lhe parecia sair das profundezas do coração: - "Ai, a minha casa vai ficar tão linda!".





Sobre este assunto, ver/ler também:


"As Respigadoras", de Jean-François Millet (1857)

"Les Glaneurs et la Glaneuse", de Agnès Varda (2000)








segunda-feira, 2 de março de 2009

Janelas de Benfica - I








Tenho um fraquinho por janelas, devo confessar!...

E esta, no nº 576 da Estrada de Benfica, chama-me sempre a atenção, quando por ali passo.

As flores artificiais de plástico conferem-lhe um ar kitsch quanto baste, apesar de tudo, acabam por a transformar numa janela alegre, para a qual até nos dá um certo gosto olhar.

Por detrás da janela, no interior, de cada um dos seus lados, dois pequenos bancos ordenadamente colocados, fazem com que os meus pensamentos devaneiem sempre sobre os rostos de quem nelas se sentará, nas tardes soalheiras.

Gosto de janelas que nos deixam vislumbrar pequenos momentos de uma vida alheia, como se se tratasse de uma tela onde o nosso lirismo tudo pode inscrever.








domingo, 1 de março de 2009

Gente de Benfica - II








Tinha o rosto duro e queimado pelo sol, deformado por feridas antigas encrostadas.
Do braço e perna do lado direito do seu corpo apenas possuía a metade superior, e andava para todo o lado numa cadeira de rodas.

Ao fim da tarde, costumava estar junto à igreja a pedir esmola e conversava com quem vinha da missa, com quem levava os netos à catequese e com os lojistas, interessando-se pelas suas vidas e gracejando com respeito quando a situação se proporcionava a tal.

A forma como o Sr. M falava, o cuidado que colocava nas palavras e os termos que utilizava, denotavam uma pessoa inteligente e com alguma instrução. Pelo que, alguns vizinhos começaram a oferecer-lhe livros e revistas, para que ele lesse e se distraísse um pouco no antigo colégio degradado em que dormia.

Inúmeras vezes, era, também, possível encontrá-lo perto do terreno abandonado de um prédio embargado, onde se sabia que todos os toxicodependentes daquela zona deambulavam.

Na rudeza do seu aspecto ressaltava o facto de andar sempre acompanhado por uma cadela, uma jovem rafeira, arraçada de podengo, de focinho meigo, olhos doces e tristes, que seguia a sua cadeira de rodas diligentemente para todo o lado.
Por vezes, a altas horas da noite, lá ia ele, pelo meio da Estrada de Benfica, na sua cadeira de rodas, transportando-a ao colo, abraçada a ele.

Os dois passavam as manhãs a pedir esmola, à porta do Café "Monalisa", na Estrada-a-Damaia, servindo de atracção para as caridosas senhoras de idade daquele bairro (as quais acabariam por auxiliá-lo para que a cadelinha Meg fosse esterilizada no veterinário local).

No dia 10/02/06, a Meg desapareceu... supostamente, como constava na zona, roubada por ciganos que vendiam no Mercado de Benfica.

Naquele bairro, gerou-se, então, uma onda de solidariedade como tal nunca fora visto. E diversas pessoas se disponibilizaram a procurar a cadelinha, durante semanas a fio.

No dia 04/03/06, a Meg foi resgatada (ou melhor, adquirida em troca de dinheiro) de um ferro-velho num bairro social perto da Alta de Lisboa, regressando para junto do seu dono.

A estória de vida do Sr. M era bem conhecida de alguns autóctones, que se interessaram por saber como ficara naquele estado físico.

Uma história, porém, tem sempre 2 lados!
E o melhor desses lados nem sempre é aquele como a história termina. Ambos podem ser ambivalentes, dúbios e pouco transparentes, induzindo-nos em erro sobre a escolha de qual das melhores probabilidades de uma história acabar.

Em Abril de 2006, o Sr. M foi internado no Hospital Amadora-Sintra com sintomas de hepatite.
Certa noite, em Junho de 2006, regressou a casa dos seus pais num estado muito crítico; vindo a falecer a 06/06/06, minado pelas inúmeras doenças que tinha e com um tumor no fígado como causa de morte.

O Sr. M tinha 38 anos…
A sua estória nunca foi bonita... fruto de tanto engano, para poder sobreviver no mundo em que viveu.
Todavia, prefiro continuar a recordá-lo apenas por aqueles momentos que, em determinada altura, nos pareceram belos e simples, como na fotografia tirada no dia em que a cadelinha Meg lhe foi devolvida.