sábado, 7 de março de 2009

Há um Passado que merece estar em Ruínas





(por Alexandra Carvalho)






"Palácio onde esteve instalada a escola da Pide-DGS" (1968),
Armando Serôdio, in Arquivo Municipal de Lisboa



Ao passarem hoje em dia por Sete-Rios, ali bem perto do Jardim Zoológico, poucos serão aqueles que ainda se recordarão do que funcionava, em tempos idos, neste edifício em ruínas (o apagamento da memória, também, muito contribuirá para tal!).

Lembro-me de ainda ser miúda e, quando apanhava o autocarro em Sete-Rios, acompanhada pelo meu avô materno, este me contar o que ali funcionara... a Escola Técnica da PIDE/DGS (ETP), criada em 1948 para seleccionar e formar os agentes da polícia política, na sua maioria homens de origem rural, só com a quarta classe.



"Revolução de Vinte e Cinco de Abril de 1974, frente à escola da PIDE-DGS" (25/04/74),
Fotógrafo não identificado
Fotografia adquirida no "Diário de Notícias", in Arquivo Municipal de Lisboa



Em 1972, o edifício da ETP foi alvo de um atentado com "cocktail molotov", sofrendo danos avultados. O edifício foi abandonado em 1974, entrando em ruína... Tendo, actualmente, a vegetação e um parque de estacionamento improvisado ganhado terreno.

Há alguns meses atrás, quando por ali passava ao final do dia, via ali sempre, sentado por entre as ervas, um sem-abrigo a jantar. Tive pena de não ter conseguido (por pudor) fotografá-lo.








quinta-feira, 5 de março de 2009

O Jardim Zoológico




(por Alexandra Carvalho)



"Jardim Zoológico e d'acclimação" - [Material Cartográfico], (1884)
In "Europeana" - Biblioteca Multimédia Online da Europa.


Fotografia de Alan Soric (2005)




O Jardim Zoológico de Lisboa foi, originalmente, inaugurado em 1884 no Parque de São Sebastião da Pedreira, tendo sido o primeiro parque com fauna e flora da Península Ibérica.
Foram vários os seus fundadores, como os Drs. Pedro van der Laan e José Thomaz Sousa Martins e o Baraão de Kessler, que contaram com o apoio de várias personalidades, como o Rei D. Fernando II e pelo conhecido zoólogo e poeta José Vicente Barboza du Bocage.




"Jardim Zoológico, portão de entrada" (1961)
Fotografia de Artur Inácio Bastos, in Arquivo Municipal de Lisboa



"Jardim Zoológico" (1905)
Fotografia de Paulo Guedes, in Arquivo Municipal de Lisboa



Só em 1905 foram inauguradas as novas e definitivas instalações na Quinta das Laranjeiras, tendo beneficiado do talento do arquitecto Raul Lino que desenhou vários espaços para alguns animais.




"Palácio dos Condes de Farrobo, fachada poente sobre o jardim" (?)
Fotografia de Horácio Novais, in Arquivo Municipal de Lisboa


Fotografia de Alan Soric (2005)



Os jardins do Palácio dos Condes de Farrobo, reconstruídos em 1942-1943 ao gosto francês, encontram-se, hoje em dia, separados do Jardim Zoológico (antiga Quinta das Laranjeiras), por uma decorativa teia de balaustrada.

O palácio foi edificado pelo primeiro barão de Quintela. O segundo barão de Quintela e conde de Farrobo fez na propriedade importantes melhoramentos, construindo em 1820 um grandioso teatro para 560 espectadores, com salão de baile revestido de espelhos e, desde 1830, iluminado a gás, o que era uma grande novidade para a época.

Em 1905 o Jardim Zoológico passou a ocupar grande parte dos terrenos, continuando o palácio e a sua zona ajardinada privativa, na posse da família Burnay.
Em 1940 o Estado adquiriu aos herdeiros da condessa de Burnay toda a propriedade rústica e urbana.





"Jardim Zoológico, escadaria, cascata e parque dos veados" (1959)
Fotografia de Arnaldo Madureira, in Arquivo Municipal de Lisboa


Fotografia de Alan Soric (2005)


As inúmeras remessas de animais vindos de África e do Brasil contribuíram para que, ao longo dos anos, o Jardim Zoológico tivesse uma das colecções de animais mais vasta e diversificada. Destacaram-se, na realidade, alguns governadores das ex-províncias ultramarinas no contributo para o enriquecimento da colecção zoológica com exemplares de espécies exóticas, pouco conhecidas e atractivas.

Em 1952, a Câmara Municipal de Lisboa galardoou esta Instituição com a Medalha de Ouro da Cidade.



"Jardim Zoológico de Lisboa, aldeia dos macacos" (?)
Fotografia de Luís Filipe de Aboim Pereira, in Arquivo Municipal de Lisboa


Fotografia de Alan Soric (2005)



A queda do Estado Novo em 1974 e a consequente independência das antigas colónias em África, significou a quebra do forte apoio prestado ao Jardim Zoológico pelas autoridades na diversificação e renovação da colecção animal.

Por esta altura, o número de visitantes também diminuiu de forma substancial e ocorreram cortes radicais dos subsídios estatais. Assim, foi necessário desenvolver e implementar uma nova estratégia de gestão para o Jardim Zoológico, adequando-o aos valores e necessidades da época.



"Jardim Zoológico de Lisboa, lago do roseiral" (1959)
Fotografia de Arnaldo Madureira, in Arquivo Municipal de Lisboa






Em 1990 a nova política de gestão adoptada tinha por objectivos a modernização do espaço do Jardim, assim como dos serviços.

Deste modo, foram criadas áreas de trabalho específicas com objectivos próprios, para melhorar a colecção e o bem-estar animal, a sua alimentação e os cuidados médico-veterinários.
Em paralelo, foram criados serviços comerciais, de marketing, relações públicas e imprensa, de modo a dinamizar o Parque como parceiro privilegiado das empresas.

Promover, junto do público em geral, a educação para a preservação das espécies animais e do seu habitat natural era, também, uma das principais preocupações, que rapidamente mereceu a criação de um serviço próprio, o Centro Pedagógico.




"Jardim Zoológico, dromedário" (1905)
Fotografia de Paulo Guedes, in Arquivo Municipal de Lisboa


Fotografia de Alan Soric (2005)



Hoje em dia, o Jardim Zoológico de Lisboa é um dos mais conceituados parques temáticos do mundo com uma das maiores colecções zoológicas: 2000 animais distribuídos por 364 espécies (54 das quais são EEP's - "Endangered Species Program").

Constituindo um importante espaço onde aliada à conservação e à educação está uma forte componente de entretenimento e diversão.



"Cemitério dos cães no Jardim Zoológico de Lisboa" (1961)
Fotografia de Arnaldo Madureira, in Arquivo Municipal de Lisboa


Fotografia de Francisco Santos









Material consultado para a elaboração deste post:

- Website do Jardim Zoológico de Lisboa
- Foto-biografia sobre o Palácio do Conde de Farrobo











quarta-feira, 4 de março de 2009

Palacete Rústico






Fotografia disponível in IPPAR




Fotografia disponível in IPPAR




No Nº 384 da Estrada de Benfica, na freguesia de São Domingos de Benfica, fica localizado um dos mais belos e misteriosos palacetes da ancestral Benfica.

Desconhecem-se quem foram os primeiros proprietários deste palacete rústico, datado de meados do século XIX, um dos último vestígios de
um momento na História em que algumas importantes famílias da capital procuraram estabelecer a sua residência em zonas da periferia, onde desfrutavam da calma e qualidade do campo.







Há alguns anos atrás, este palacete votado ao abandono serviu de residência a um desses grupos de adolescentes "ocupas" (os quais têm ainda muito que aprender com os movimentos semelhantes no estrangeiro, que chegam até a restaurar e a reabilitar os edifícios em que se instalam).

Para os retirar daquele espaço, apareceu a PSP e, mais tarde, foi instalado um letreiro gigantesco, anunciando que naquele espaço seria instalada brevemente uma qualquer delegação do Ministério da Cultura.






Os anos foram passando, e o palacete por ali continuava, votado ao abandono, sem que qualquer delegação ou sub-delegação cultural ali se instalasse.

Supostamente, este edifício encontrava-se, em 1994, em vias de classificação enquanto Património arquitectónico, abrangido na Zona Especial de Protecção (ZEP) do "Bairro Grandela; Quinta do Beau-Séjour / Quinta das Campainhas".






E por ali continuava em vias de degradação o palacete rústico do século XIX.
Até que, em meados do ano passado, surgiu numa das suas altaneiras janelas um anúncio de venda. Com a crise económico-social, até os proprietários de património arquitectónico, são obrigados a vendê-lo (quando nunca fizeram nada por ele)!...








terça-feira, 3 de março de 2009

A Respigadora







06/08/06



Domingo à tarde. Ar quente e irrespirável e um sol tórrido que lhe queimava a pele.

Descia a Rua Cláudio Nunes a custo, auxiliada pela sua bengala, quando se deparou com dois grandes sacos de entulho. "Lixo" de outros, que renovavam uma qualquer parte de sua casa.

De repente, dei por ela toda entretida a vasculhar um dos sacos.

Pegou num azulejo amarelado pelo tempo, onde ainda se vislumbravam encantadores desenhos traçados a azulão. Virou, revirou e disse com uma voz demasiado comovida, que lhe parecia sair das profundezas do coração: - "Ai, a minha casa vai ficar tão linda!".





Sobre este assunto, ver/ler também:


"As Respigadoras", de Jean-François Millet (1857)

"Les Glaneurs et la Glaneuse", de Agnès Varda (2000)








segunda-feira, 2 de março de 2009

Janelas de Benfica - I








Tenho um fraquinho por janelas, devo confessar!...

E esta, no nº 576 da Estrada de Benfica, chama-me sempre a atenção, quando por ali passo.

As flores artificiais de plástico conferem-lhe um ar kitsch quanto baste, apesar de tudo, acabam por a transformar numa janela alegre, para a qual até nos dá um certo gosto olhar.

Por detrás da janela, no interior, de cada um dos seus lados, dois pequenos bancos ordenadamente colocados, fazem com que os meus pensamentos devaneiem sempre sobre os rostos de quem nelas se sentará, nas tardes soalheiras.

Gosto de janelas que nos deixam vislumbrar pequenos momentos de uma vida alheia, como se se tratasse de uma tela onde o nosso lirismo tudo pode inscrever.