E continua...
- "Até falei ali com o dono daquela loja da esquina, sobre o seu blog. Porque ele é que se lembra bem como Benfica era nesses outros tempos. Imagine que ele até se lembra e tem fotografias das cheias de 1967! Que aquilo foi uma coisa horrível, mesmo aqui na nossa rua, ficou tudo inundado. Mas não se podia falar... até hoje não se sabe bem o número exacto de pessoas que morreram. Mas nunca se ouve falar sobre isso, é como se nem sequer tivesse existido!"
Depois desta conversa, há alguns meses atrás, confesso a minha total ignorância sobre este assunto (em parte, devido a ainda nem sequer ser nascida a essa data), o que me deixou com muita curiosidade por investigar mais.
Cheias de Lisboa, 1967
(Vídeos RTP)
Enviado por hertzonline
A chuva atingiu entre as 19h00 e a meia-noite do dia 25 de Novembro as zonas baixas dos quatro concelhos da Grande Lisboa (Lisboa, Loures, Odivelas, Vila Franca de Xira e Alenquer), mas só na manhã seguinte é que os portugueses se depararam com a verdadeira dimensão da tragédia.
As cheias arrastaram carros, árvores, animais e destruíram pontes, casas e estradas. Prédios destruídos, condutas rebentadas, avenidas transformadas em rios foram algumas das consequências das cheias que fizeram com que a região da Grande Lisboa ficasse irreconhecível. As comunicações foram interrompidas e os transportes públicos ficaram paralisados.
Urmeira, Póvoa de Santo Adrião, Frielas - povoações da bacia do rio Trancão -, e a Quinta dos Silvados, em Odivelas, foram os aglomerados urbanos mais atingidos. As casas eram de madeira e centenas de moradores foram engolidos pelas águas.
Lisboa, por seu turno, ficou irreconhecível. A Avenida de Ceuta, em Alcântara, esteve submersa e o mar de lama desceu até à Avenida da Índia. Na Praça de Espanha e na Avenida da Liberdade, só se passava de barco e, na estação de caminhos-de-ferro, centenas de pessoas ficaram retidas nas carruagens porque a água submergiu as linhas.
Além das circunstâncias naturais, a acção humana também contribuiu para agravar ainda mais a catástrofe, devido à construção que impermeabilizou os solos e desviou cursos de água.
A falta de limpeza de vegetação junto aos rios e ribeiras fez com que «entupissem», sem conseguir escoar o caudal e transbordassem, levando toneladas de entulho, lixo e detritos arrastados na torrente de água, que destruíam tudo à sua passagem.
No dia seguinte, os meios de socorro revelaram-se incapazes de prestar o apoio às populações atingidas. Testemunhos da época apontam a falta de eficácia do socorro aos sobreviventes e a tentativa do regime de Salazar de impedir que a opinião pública se apercebesse da dimensão real da tragédia.
Os dados oficiais controlados pela censura apontaram para 250 vítimas mortais. Só após a Revolução de Abril é que os especialistas procuraram repor a verdade dos números. O rigor nunca será alcançado, mas estima-se que mais de 700 pessoas tenham morrido durante as inundações e cerca de 1100 tenham ficado desalojados em Lisboa, Loures, Odivelas, Vila Franca de Xira e Alenquer.
As cheias denunciaram a pobreza em que as populações da Grande Lisboa viviam: a maioria das vítimas habitava em barracas construídas nos leitos de cheias.
Perceber que o regime escondia a gravidade da situação, para além de não conseguir auxiliar devidamente os sobreviventes, conduziu a que muitos estudantes das associações académicas a colocarem-se em campo, ajudando as vítimas.
Foi o despertar político de muitos estudantes. Como recorda Mariano Gago "(... ) com as cheias de 1967 e com a participação na movimentação dos estudantes de Lisboa no apoio às populações (morreram centenas de pessoas na área de Lisboa e isso era proibido dizer-se). Só as Associações de Estudantes e a Juventude Universitária Católica é que estavam no terreno a ajudar as pessoas a tirar a lama, a salvar-lhes os pertences, juntamente com alguns raros corpos de bombeiros e militares. Talvez isso, tenha sido um dos primeiros momentos de mobilização política da minha geração." *
Durante os dias a seguir às inundações, as redacções dos jornais receberam telegramas e telefonemas com orientações sobre o que se deveria escrever: qualquer referência ao movimento de solidariedade dos estudantes universitários de Lisboa seria, por exemplo, riscado pelo lápis azul da censura.
O regime salazarista tentou minimizar os impactos das chuvas, mas as suas repercussões atravessaram fronteiras e desencadearam um movimento de solidariedade internacional. Chegaram donativos dos governos britânico e italiano, do Principado do Mónaco e até o chefe do Estado francês, o general De Gaulle, contribuiu com uma "dádiva pessoal" de 30 mil francos (900 euros, no câmbio da época). O apoio em meios sanitários veio de França, Suíça e sobretudo de Espanha, que ofereceu mil doses de vacina contra a febre tifóide.
Artigos e blogs consultados para elaborar este post:
- CATULO, Kátia. "Nunca choveu tanto como em 67", in Jornal "Diário de Notícias", 25/11/07.
- CATULO, Kátia. "Cheias de 1967", in Jornal "Diário de Notícias", 25/11/07.
- CATULO, Kátia.
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- LUSA
- Casos de Estudo: As Cheias de Novembro de 1967 em Lisboa.
- As Cheias de 1967, Câmara Municipal de Odivelas.
- As Cheias de 1967, por Miguel Cardina.
- Testemunho sobre as Cheias de 1967.




