terça-feira, 11 de agosto de 2009

Se as pedras se deixam transportar...




"Si, entre les maisons, les rues, et les groupes de leurs habitants,
il n'y avait qu'une relation toute accidentelle et de courte durée,
les hommes pourraient détruire leurs maisons, leur quartier, leur ville,
en reconstruire, sur le même emplacement, une autre suivant un plan différent;
mais si les pierres se laissent transporter,
il n'est pas aussi faccile de modifier les rapports
qui se sont établis entre les pierres et les hommes."

Maurice Halbwachs, "
La Mémoire Collective" (1950)





"Antiga Fábrica Simões vai dar lugar a 300 habitações
por LUSA
10 Agosto 2009


Mais de 300 habitações deverão nascer na área ocupada pelos edifícios da antiga Fábrica Simões, em Benfica, Lisboa, um espaço degradado que há quase 30 anos aguarda intervenção.

Depois de anos de sucessivas alterações no projecto, e 14 anos após o incêndio que destruiu parte do edifício principal da unidade fabril, a TDF - Sociedade Gestora de Fundos de Investimento Imobiliários (dono da obra) e a Câmara de Lisboa chegaram a acordo sobre a Villa Simões, loteamento a construir entre a Avenida Gomes Pereira e a Estrada de Benfica.

A manutenção da fachada do edifício principal da fábrica, dos anos 20, ficou garantida, assim como a reserva de um corredor para permitir construir um túnel rodoviário a partir da Rua Morais Sarmento, passando por baixo dos edifícios da junta de freguesia e terminando perto do Centro Comercial Fonte Nova.

Segundo o processo, ainda em consulta pública, esta foi uma das condições impostas pela Divisão de Mobilidade e Rede Viária da autarquia para viabilizar o projecto, pois considerou que "a conclusão da CRIL, com os nós das Portas de Benfica e Damaia, poderá representar uma sobrecarga excessiva na Estrada de Benfica".

A Villa Simões prevê a construção de edifícios com um máximo de oito pisos, com comércio ao nível térreo e uma grande praça de uso público."





domingo, 9 de agosto de 2009

E agora algo completamente inesperado...






"Entre Alvalade e as Portas de Benfica" - Deolinda

(Vídeo de Rita Vale)





Uma estória de amor que foi nascendo, na carreira 767 da Carris, até chegarem às Portas de Benfica.

Na forma bem diferente e divertida de cantar em português dos Deolinda.







sábado, 8 de agosto de 2009

O Homem descalço que sorria




Ao certo, ninguém sabia de onde viera ou como por ali aparecera.

Uns diziam que, em tempos, fora muito inteligente e ganhara uma bolsa para vir estudar Engenharia para Portugal, mas depois, fruto das agruras da vida, o seu cérebro descompensara e dera naquele estado meio vegetativo.

Costumava andar descalço e com um impermeável cujo tempo já carcomera a cor, mas não aceitava esmolas nem roupa que lhe quisessem oferecer.

Não falava com ninguém e limitava-se a passar os seus dias deambulando por Benfica, uma vezes sentado junto ao adro da Igreja, outras vezes perto do "Nilo" ou junto ao Mercado.

Apesar do seu ar alheado de tudo e de todos, não raro era vê-lo, aquando das suas deambulações, esboçando um ténue sorriso nos lábios... Como se soubesse que a própria vida não passava de um jogo de marionetas em que só ele compreendia quem puxava os cordelinhos.

Esta tarde, pela segunda vez, encontrei-o junto aos contentores de reciclagem perto do Mercado. Agachado, procurava diligentemente, remexia entre os escombros depositados fora dos contentores. De quando em vez, largava o conteúdo dos sacos, levava as mãos à boca e lambia-as sofregamente, saciando-se com aquilo a que outros chamaram lixo.

Ao passar por ali, não consegui conter a agonia, um misto de náusea, dor e compaixão, ao constatar que, na luta pela sobrevivência, ele fazia lembrar um bicho... mas era, de facto, um homem que ali estava.

Por pudor, não consegui fotografar.







sábado, 1 de agosto de 2009

Janelas de Benfica - IV




A beleza de cada novo dia...



Tinha o cabelo, caído pelos ombros, de uma alvura profunda… e 70 e muitos anos.

Todas as manhãs abria a janela da sua cozinha e ficava por alguns instantes a perscrutar o horizonte, com um ar muito sereno, como se estivesse a admirar a beleza de cada novo dia que se iniciava.

Por vezes, quando olhava na direcção da minha janela, esboçava um sorriso e voltava a perder o seu olhar no infinito.

Passados largos meses, ela nunca mais apareceu àquela janela, que se passou apenas a abrir para uma outra senhora de bata –mais jovem- estender a roupa.

No ano seguinte, começou a aparecer mais roupa estendida à janela... e o som de risos de crianças.






Os prédios em que habitamos são como as pessoas, na sua longa existência...

As próprias pessoas vão transformando os prédios naquilo que eles são, ou que não são.
E a verdade é que os prédios vão sofrendo diversas e sucessivas fases, consoante os seus habitantes se vão regenerando.