domingo, 30 de agosto de 2009

"Lisboa Desaparecida"





Fotografia disponível in "Lisboa Desaparecida"




No 3º volume da sua obra "Lisboa Desaparecida", Marina Tavares Dias discorria, entre outros, sobre os arredores de Lisboa... Telheiras, Carnide, Palhavã e Benfica que, nesses outros tempos, ficavam fora de portas da cidade.

Nessa magnífica obra, Marina Tavares Dias ensinou-nos a olhar o Passado, os testemunhos e memórias de um tempo que, à semelhança das grandes capitais europeias, deveríamos, há muito, ter aprendido a saber preservar e partilhar com as gerações vindouras.

"Não se assimila que a cidade é uma mais-valia que todos temos", como dizia a autora, numa entrevista.

Em 1985, eram publicados os primeiros textos da "Lisboa Desaparecida" de Marina Tavares Dias no vespertino "Diário Popular".
Antecedendo as comemorações dos 25 anos sobre essa data, a autora faz prova de saber interligar o Passado e o Futuro, e a sua obra encontra-se também disponível para consulta no blog "Lisboa Desaparecida".

A Marina Tavares Dias o nosso "Muito Obrigada" pelo precioso legado que nos deixou!




sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Quinta Nova da Conceição




Imagem disponível in "Google Earth"



Escondida apenas a alguns minutos do eterno rebuliço da Estrada de Benfica, a Quinta Nova da Conceição fica localizada no Nº 5 da Rua Cidade de Rabat.






Este palacete do século XVIII é um dos raros exemplos das quintas de Verão lisboetas dessa época; tendo sobrevivido ao terramoto de 1755 e pertencido sempre à mesma família, a dos Condes do Bonfim.



Imagem disponível in TopRural



José Francisco de Melo Travassos Valdez, o 4º e último Conde do Bonfim (personagem sobejamente conhecido na Benfica de outros tempos, por servir de testemunha dos casamentos de todas as gentes humildes e sem posses da freguesia), era o avô da actual proprietária desta Quinta.



"Inauguração da Circular sob o viaduto do Calhariz de Benfica,
pelo Conde de Bonfim, a que assistiu o Presidente França Borges"
(1963),
Armando Serôdio
in Arquivo Municipal de Lisboa



Uma vez que a herança desta propriedade se transmitiu sempre na família por via feminina, actualmente, a Dª. Maria Teresa Travassos Saraiva Valdez, converteu este palacete de importante valor histórico na única casa de Turismo de Habitação existente em Lisboa.







Combinando o ambiente do século XVIII com as necessidades do século XXI esta casa de Turismo de Habitação possui apenas três quartos, cada um deles decorado ao estilo da antiga nobreza portuguesa.






De destacar também, entre outras divisões: a Sala de Estar, um magnífico salão com o seu piano de cauda (onde tocou Viana da Mota), a sua harpa e uma grande lareira; a Livraria, construída já no início do século XX pelo último Conde do Bonfim, é uma sala completamente forrada a madeira, onde se encontram exemplares raros e únicos.






No imenso jardim da Quinta Nova da Conceição, encontram-se duas árvores classificadas como "interesse público": uma "araucária" e uma "bela sombra"; tendo esta última sido, ao longo dos séculos, a casinha de brincadeiras de todas as gerações que por ali passaram.








domingo, 23 de agosto de 2009

Fronteiras em Benfica




Desde criança que me habituei a ouvir dizer que até ao Calhariz de Benfica estamos na freguesia de Benfica e, de lá em diante, passamos para a de São Domingos de Benfica.
Mas, para mim, a diferença entre ambas as freguesias nunca foi muito notória, nem tão pouco essa divisão no espaço.

Como conseguir, então, definir de uma forma tão exacta as fronteiras administrativas de duas freguesias através do seu espaço físico, quando não parecem existir fronteiras entre os seus habitantes?






Ao comemorar os seus 50 anos de existência, a Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica decidiu, recentemente, instaurar esta mesma divisão deixando-a bem traçada no terreno, com um marco simbólico à entrada (e saída) da sua freguesia, semelhante aos que vemos por esse Portugal a dentro, quando entramos em alguma povoação. Aproveitando, também, para promover o seu "turismo interno" (como se pode visualizar melhor na foto acima).

As fronteiras administrativas da freguesia de São Domingos de Benfica, tal como hoje as conhecemos, foram delimitadas em conformidade com o Decreto-Lei nº 42.142 de 7 de Fevereiro de 1959 (o qual remodelou administrativamente a Cidade de Lisboa, fixando o número de freguesias em 53), originando a sua divisão da freguesia de Benfica a que pertencera, devido ao crescimento do número dos seus habitantes.





Benfica, essa outra, já existia desde Julho de 1885, tendo, antes disso, pertencido ao concelho de Belém.









sábado, 22 de agosto de 2009

Biblioteca Museu República e Resistência








A Biblioteca Museu República e Resistência encontra-se, desde 1993, instalada no edifício da antiga Escola Primária do Bairro Grandela; dedicando-se, ao estudo e à investigação da História Contemporânea Portuguesa, em permanente articulação com as Universidades e as Associações Culturais.

Devido ao acréscimo do seu espólio, assim como à multiplicidade de iniciativas que dinamiza, tornou-se necessário ampliar o espaço disponível para esta Biblioteca, possuindo a mesma outro espaço no Bairro Social do Rêgo, junto à Av. das Forças Armadas (onde foram instaladas uma área destinada a exposições, três espaços para leitura, um anfiteatro com cerca de 80 lugares, um cyber-café, um restaurante, uma mini-loja e gabinetes para a administração e serviços).






Da última vez que estivéramos no Bairro Grandela, o espaço da Biblioteca Museu República e Resistência encontrava-se completamente enfaixado de lonas de obras.

Foi por isso com muito agrado que, esta manhã, nos apercebemos que as obras, finalmente, terminaram e que a Biblioteca já tem na porta o seu novo horário de Verão.

Numa freguesia tão populosa como a de Benfica, é, verdadeiramente, lamentável que algumas promessas não tenham sido cumpridas, que outras infraestruturas não tenham sido re-aproveitadas enquanto equipamentos culturais para a população e que os moradores continuem a ter que se deslocar à freguesia vizinha em busca de um pouco de cultura!...







sexta-feira, 21 de agosto de 2009

"Salva", a gatinha dourada





"The city of cats and the city of men
exist one inside the other,
but they are not the same city".

(Italo Calvino, in "As Cidades Invisíveis")




(por Alexandra Carvalho)



Naquele bairro, a Cidade dos Gatos misturava-se todas as manhãs, através do vidro, com a Cidade dos Homens.

Qual estátua de divindade egípcia, serena e imperturbável, por detrás da montra, fazia as delícias de todos os que por ali passavam naquelas manhãs agitadas... Roubando-lhes algum tempo aos seus afazeres diários e fazendo-os parar, ficando ali especados, durante largos minutos, embevecidos a admirarem-na. Relembrando-lhes, assim, que a vida tem muito mais do que se lhe diga do que uma simples e constante correria na busca permanente de algo...


Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)


Aparecera naquela rua há cerca de oito meses atrás, completamente encharcado pela água da chuva e com um ar muito adoentado.
Por ali deambulara algumas horas e, provavelmente (devido ao frio que se fazia sentir), havia saído do tubo de escape de um dos carros dos vizinhos, onde, certamente, procurara abrigo. Viram-no passar perto da paragem do autocarro, junto à cafetaria. E não mais souberam o paradeiro de tal gato (à semelhança de tantos outros felinos que nascem, crescem e acabam por morrer nas ruas das cidades).

Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)


No dia seguinte, quando Lúcia abriu a porta da sua loja, eis senão quando, vislumbrou um vulto dourado a passear-se por cima da bancada central repleta de livros. Sem que ninguém se apercebesse, e aproveitando-se da infinidade de livros aninhados pelo chão como camuflagem, o gatito escapulira-se por entre a porta aberta e ali pernoitara, bem ao quentinho.

Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)



Lúcia apelidou-o de "Salvador". E ele, por ali, foi ficando...

Serenamente, calcorreando os estreitos corredores criados pelas bancadas; onde, também, se costuma esconder airosamente, para realizar investidas a inimigos imaginários, ou apenas para se escapulir às festas carinhosas e aos humanos que ainda temia. Espraiando-se delicadamente ao sol quente das manhãs em cima das molduras antigas e dos livros que compõem a montra daquela livraria-alfarrabista.



Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)


Certo dia, Lúcia descobriu que, afinal de contas, "Salvador" era uma gatinha (estranho e raríssimo facto para um felino de pelagem completamente laranja)... e diminuindo-lhe o nome pelo qual já respondia, passou a tratá-la por "Salva".


Foto e concepção gráfica de Alexandra Carvalho para o "Bazar dos Ronrons" (2009)



Nessa altura, foi necessário pensar na esterilização da gatinha "Salva", devido ao primeiro cio que se aproximava e aos seus frequentes passeios pela rua.

Graças à generosidade de muitos vizinhos, e a uma iniciativa fora do comum, a "Salva" foi esterilizada a 22/01/09.

Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)



Não se tratou de nenhum golpe de publicidade, nem tão pouco de uma imitação de Dewey, o famoso gato da Biblioteca americana...
Mas a verdade é que os transeuntes começaram, cada vez mais, a ser atraídos pela pacatez das sestas de "Salva" na montra daquele alfarrabista.

"Salva" tinha cerca de 7 meses, quando por ali apareceu. Muito franzina e ainda arisca, o mais curioso era o facto de, simultaneamente, ser a gata mais fotogénica que já conheci até hoje... não tendo sequer receio da aproximação da objectiva, apesar de, nessa altura, ainda não se deixar tocar.


Fotografias de Alexandra Carvalho (2009)



Para além de, muito rapidamente, se ter transformado no "Ai Jesus da Avenida" e vedeta da casa, fazendo as delícias dos clientes e amigos (tendo mesmo constituído um séquito de fãs que, diariamente, entram na loja apenas para a verem ou demandarem novas do seu estado), "Salva" encontrou também um apaixonado (que chegava mesmo a tentar entrar para procurar a sua amada).


Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)



De início, "Salva" costumava andar muito fora e dentro, numa liberdade que espelhava bem a sua alma felina... mas regressando sempre à Casa-Mãe.

Naturalmente, com os seus protectores foi tecendo uma relação de maior proximidade: à Lúcia concedeu o privilégio da autorização para lhe serem feitas as primeiras festinhas, sendo à voz do Zé que mais responde com ternurentos miados e ronronadelas.

O tempo foi passando e "Salva" cresceu. Fruto de tanto carinho e mimo, tem vindo a tornar-se mais dócil, permitindo mesmo a alguns amigos fazerem-lhe festas.


Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)



Naquele mundo forrado de utopias passadas - que se transformou no seu -, "Salva" movimenta-se como se sempre ali pertencera e dele fizesse parte há uma infinidade.

Na cave daquela loja, onde noutros tempos se lutava por Causas nobres, passou a reinar a gatinha "Salva", aninhando-se dentro de gavetas de móveis de séculos passados, brincando por entre os trajes guardados num imenso baú... escondendo-se entre as pilhas de livros e as molduras antigas.

Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)


"Salva", a gatinha que apareceu na "Ulmeiro/Livrarte" quando esta loja está prestes a celebrar o seu 40º aniversário, parece sempre ali ter vivido... e sabido porque aí tinha de regressar.

Por ali apareceu como uma pequena estrela, dando alento e novo ânimo a todos. Comprovando que, quando o Homem quer, tudo é possível... E um pequeno gesto ainda pode ser sinónimo da solidariedade a nascer entre todos (mesmo num bairro onde a vida corre mais veloz e todos nos vamos transformando em perfeitos anónimos).


Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)


A Cidade dos Homens, naquele bairro, ficou diferente desde a chegada de "Salva".

Ao alterar as formas, cruzando a imagem daquela pequena gata com a de todos os que paravam a observá-la, o vidro da montra daquela loja criara como que uma espécie de metamorfose entre a gata e o Homem... transformando a grande maioria dos indivíduos em seres mais afáveis, solidários e humanos.



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Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)


Se tiver curiosidade em visitar a "Ulmeiro/Livrarte" por causa da gatinha "Salva", aproveite também alguns dos seus minutos para ver com mais tranquilidade e atenção esta loja... e pode ser que aí descubra preciosidades que o encantem ou estórias importantes de outros tempos.
Vai ver que não se arrependerá!

A "Ulmeiro/Livrarte" é uma verdadeira caixinha de surpresas!...

De cada vez que lá entramos, descobrimos algo de novo, algo que se encontrava escondido e que as mãos da Lúcia colocaram em relevo, de uma forma muito bela, na montra ou numa estante.

Esta é uma daquelas pequenas pérolas escondidas do comércio local, onde nos voltamos a sentir como que impregnados daquele espírito infantil de tudo ali querer descobrir e ver, de tudo procurar como se se tratassem de pequenos tesouros e mistérios ancestrais.

Mas os maiores tesouros desta Casa, talvez, sejam mesmo a Lúcia e o Zé Ribeiro... que nos recebem sempre com um sorriso no rosto e tantas (mas mesmo tantas) estórias importantes da nossa História, para nos contarem.
O tempo por ali não parece passar, quando nos pomos na conversa e esta flúi livremente, numa amena troca de ideias (e de ideais).

Ali sentimo-nos como que em casa, tamanha é a sensação de serenidade que emana desta "família" (por afinidade)!...