quarta-feira, 2 de setembro de 2009

As (novas) Hortas de Benfica




À semelhança doutros tempos, a ruralidade de Benfica desponta ainda em algumas "ilhas verdes", escondidas pelos meandros da freguesia...




Fotografia de António Pedro Ferreira


"Há 25 anos que Fernando Mendes, agente da PSP, tem uma horta a dois passos do Colombo, com vista para o Estádio da Luz". (*)




Fotografia de António Pedro Ferreira


"Estrada de Benfica. Há quase 30 anos que António Barroqueiro e outros seis hortelãos amanham uma ilha de verde encaixada entre duas fileiras de prédios (...) meio hectare de terreno, onde há de tudo, como no campo - incluindo convívio." (*)





Um excelente artigo de Katya Delimbeuf, publicado na Revista "Única", a ler na íntegra aqui.






(*) Texto de Katya Delimbeuf




segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Gente de Benfica - III





Fotografia da autoria de Luís Resende




Jorge Resende, 62 anos, nascido na véspera de Natal, no 1º andar do Nº 13 do Largo Ernesto da Silva, passou grande parte da sua infância e juventude na freguesia de Benfica.

O seu avô materno era vigilante da Escola Normal de Lisboa (hoje Escola Superior de Educação de Lisboa), tendo à falta dum ordenado, a permissão de instalar nos terrenos anexos as habitações para a sua numerosa família e os seus gados. Manuel, seu avô, alcunhado de "Pastor" era muito respeitado em Benfica desses tempos; vivia da exploração leiteira e vendia leite e queijos de porta a porta, como era costume à época.

Jorge Resende foi filho de operários: o seu pai laborou na Fábrica Grandella (Empresa de Fiação e Tecidos de Benfica) e a sua mãe na Fábrica Simões, à porta da qual Jorge se lembra de a ir esperar.

Da Fábrica Simões & Companhia Limitada Jorge Resende relembra, com uma réstia de saudade infantil embargada nas suas palavras, a importância de que se revestiam as festas de Natal promovidas pela mesma. Onde o "Patrão Gabriel" e o "Patrão Simões", como benesse da consoada, ofereciam, com toda a pompa e circunstância (nas quais se incluía o direito a uma visita ao alfaiate), roupas novas aos operários e às suas famílias.

Só muitos anos mais tarde, Jorge Resende teve consciência da exploração laboral praticada pela Fábrica Simões, onde, apesar disso, de uma forma dir-se-ia quase paternalista, os patrões "estimulavam a aprendizagem no refeitório da Fábrica, para os operários obterem o diploma da quarta classe (...) Havia equipas desportivas (...) e cerca de 1954, nos terrenos do refeitório, nasceu uma creche para os filhos dos operários (...)".
Mas, para quem, em criança, apenas teve como brinquedo um cavalo de cartão, que pertenceu à Família Lobo Antunes (oferecido, assim, em segunda mão por uma das suas criadas), as festas de Natal promovidas pela Fábrica Simões, eram, de facto, uma benesse dos céus.

Por entre as lembranças dos importantes marcos do comércio local (como a mercearia "Vale do Rio", a "Adega dos Ossos", o "Paraíso de Benfica" e a Foto "Nice"), das idas a pé até à Feira da Luz em Carnide e à praia em Algés, das "casas muito bonitas" que os seus olhos fotografavam e de alguns dos personagens da Benfica desses tempos; o discurso de Jorge Resende é entre cortado pelos momentos de índole mais pessoal, como o da emigração dos seus tios (com quem viveu grande parte da sua infância, primeiro em Benfica e, mais tarde, na Venda Nova) para o Canadá, no final dos anos 50, ou o do seu insucesso escolar e ingresso no mundo do trabalho ainda adolescente com treze anos e meio.

Em 1958, Jorge Resende regressa a Benfica com a sua família, para habitar uma casa no novo Bairro de Santa Cruz, gerido pela Caixa de Previdência.
É, precisamente, neste bairro de "casas económicas" que Jorge Resende mais sentiu a cisão social que existia na freguesia, ou seja, "(...) entre as duas partes do Bairro, ou seja, os moradores do Bairro da parte de trás da Mata estavam ligeiramente deslocados de Benfica, como se de um gueto se tratasse. E havia um pormenor interessante na arrumação social até dentro de cada rua. (...) dum lado construíram uma banda de casas (...) que ou por acaso ou fatalidade, eram habitadas geralmente por agregados mais modestos. Do outro lado da rua, construíram vivendas com bastantes divisões, geminadas, em que os moradores geralmente eram de profissões ou liberais ou quadros de empresas, funcionários do Estado, “gente bem”, e que dava a impressão que estavam ali para, com os seus exemplos de vida, também servirem para “educar” os pobres que lhes calharam em frente das suas portas."

Em criança, Jorge Resende desejava ser professor primário, pois via naquela profissão "(...) uma forma de mudar de lugar constantemente, qual caixeiro viajante ou saltimbanco que andava de terra em terra (...)"... Acabou por trabalhar, mais de 30 anos, como Controlador Planeador de Escalas de Tripulantes de Voo na TAP, onde os seus sonhos continuaram a voar.

A sua história de vida é o fiel retrato de uma época, vivida pelas classes mais baixas, do operariado, na freguesia de Benfica. É, sobretudo, a história de um homem cujas agruras de uma vida difícil lhe incutiram, desde muito cedo, um forte sentido crítico perante as diferenciações sociais existentes e contra elas, mais tarde, tentou activamente lutar.

Apesar das agruras provocadas por uma vida modesta, Jorge Resende recorda com carinho uma "vila" de Benfica agradável, "(..) uma lista enorme de gente simples, humilde, entrosados com outros de posições económico-sociais diferentes, mas que conviviam, como se Benfica fosse um pátio em que todos se conheciam."
Uma Benfica que "(...) começou a desaparecer no início dos anos sessenta, com a construção desenfreada de novos prédios (...)", mas que ele próprio gostaria de ver transposta para "(...) uma exposição de fotografias que “falem” de tempos passados, e que muitas e muitas obras nasçam que possam marcar o futuro daquela freguesia."

Actualmente, reformado, Jorge Resende, juntamente com aquela que, há muitos anos atrás, lhe vendeu uma entrada vitalícia para a Festa do Avante, contempla agora a sua neta de 1 ano crescer na ilha da Madeira. Onde o gosto pela leitura o continua a comandar para que se dedique, ainda, a redigir as memórias da sua família para as gerações vindouras.




Pode ler esta história de vida na íntegra aqui (a qual faz parte de um projecto mais abrangente que desenvolvemos numa rubrica intitulada "Gente de Benfica").






domingo, 30 de agosto de 2009

"Lisboa Desaparecida"





Fotografia disponível in "Lisboa Desaparecida"




No 3º volume da sua obra "Lisboa Desaparecida", Marina Tavares Dias discorria, entre outros, sobre os arredores de Lisboa... Telheiras, Carnide, Palhavã e Benfica que, nesses outros tempos, ficavam fora de portas da cidade.

Nessa magnífica obra, Marina Tavares Dias ensinou-nos a olhar o Passado, os testemunhos e memórias de um tempo que, à semelhança das grandes capitais europeias, deveríamos, há muito, ter aprendido a saber preservar e partilhar com as gerações vindouras.

"Não se assimila que a cidade é uma mais-valia que todos temos", como dizia a autora, numa entrevista.

Em 1985, eram publicados os primeiros textos da "Lisboa Desaparecida" de Marina Tavares Dias no vespertino "Diário Popular".
Antecedendo as comemorações dos 25 anos sobre essa data, a autora faz prova de saber interligar o Passado e o Futuro, e a sua obra encontra-se também disponível para consulta no blog "Lisboa Desaparecida".

A Marina Tavares Dias o nosso "Muito Obrigada" pelo precioso legado que nos deixou!




sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Quinta Nova da Conceição




Imagem disponível in "Google Earth"



Escondida apenas a alguns minutos do eterno rebuliço da Estrada de Benfica, a Quinta Nova da Conceição fica localizada no Nº 5 da Rua Cidade de Rabat.






Este palacete do século XVIII é um dos raros exemplos das quintas de Verão lisboetas dessa época; tendo sobrevivido ao terramoto de 1755 e pertencido sempre à mesma família, a dos Condes do Bonfim.



Imagem disponível in TopRural



José Francisco de Melo Travassos Valdez, o 4º e último Conde do Bonfim (personagem sobejamente conhecido na Benfica de outros tempos, por servir de testemunha dos casamentos de todas as gentes humildes e sem posses da freguesia), era o avô da actual proprietária desta Quinta.



"Inauguração da Circular sob o viaduto do Calhariz de Benfica,
pelo Conde de Bonfim, a que assistiu o Presidente França Borges"
(1963),
Armando Serôdio
in Arquivo Municipal de Lisboa



Uma vez que a herança desta propriedade se transmitiu sempre na família por via feminina, actualmente, a Dª. Maria Teresa Travassos Saraiva Valdez, converteu este palacete de importante valor histórico na única casa de Turismo de Habitação existente em Lisboa.







Combinando o ambiente do século XVIII com as necessidades do século XXI esta casa de Turismo de Habitação possui apenas três quartos, cada um deles decorado ao estilo da antiga nobreza portuguesa.






De destacar também, entre outras divisões: a Sala de Estar, um magnífico salão com o seu piano de cauda (onde tocou Viana da Mota), a sua harpa e uma grande lareira; a Livraria, construída já no início do século XX pelo último Conde do Bonfim, é uma sala completamente forrada a madeira, onde se encontram exemplares raros e únicos.






No imenso jardim da Quinta Nova da Conceição, encontram-se duas árvores classificadas como "interesse público": uma "araucária" e uma "bela sombra"; tendo esta última sido, ao longo dos séculos, a casinha de brincadeiras de todas as gerações que por ali passaram.








domingo, 23 de agosto de 2009

Fronteiras em Benfica




Desde criança que me habituei a ouvir dizer que até ao Calhariz de Benfica estamos na freguesia de Benfica e, de lá em diante, passamos para a de São Domingos de Benfica.
Mas, para mim, a diferença entre ambas as freguesias nunca foi muito notória, nem tão pouco essa divisão no espaço.

Como conseguir, então, definir de uma forma tão exacta as fronteiras administrativas de duas freguesias através do seu espaço físico, quando não parecem existir fronteiras entre os seus habitantes?






Ao comemorar os seus 50 anos de existência, a Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica decidiu, recentemente, instaurar esta mesma divisão deixando-a bem traçada no terreno, com um marco simbólico à entrada (e saída) da sua freguesia, semelhante aos que vemos por esse Portugal a dentro, quando entramos em alguma povoação. Aproveitando, também, para promover o seu "turismo interno" (como se pode visualizar melhor na foto acima).

As fronteiras administrativas da freguesia de São Domingos de Benfica, tal como hoje as conhecemos, foram delimitadas em conformidade com o Decreto-Lei nº 42.142 de 7 de Fevereiro de 1959 (o qual remodelou administrativamente a Cidade de Lisboa, fixando o número de freguesias em 53), originando a sua divisão da freguesia de Benfica a que pertencera, devido ao crescimento do número dos seus habitantes.





Benfica, essa outra, já existia desde Julho de 1885, tendo, antes disso, pertencido ao concelho de Belém.