(por Alexandra Carvalho)
Fotografias de Alexandra Carvalho (2010)
O Sr. António Cortez tem uma horta "ali para os lados do Colégio Militar, um pouco antes de chegar ao Colombo", como me explica.
Levantou-se bem cedo esta manhã, para conseguir um dos melhores pontos para a sua venda, mesmo em frente à Igreja de Benfica, junto ao quiosque de jornais.
Cada raminho a 1€ e as vendas correm de feição. "Se tivesse trazido mais, ao fim do dia não sobrava nenhuma, pode crer!", explica-me.
E as pessoas passam, param e escolhem... miram e remiram... e não se contentam com o primeiro ramo que o Sr. Cortez lhes propõe e continuam a mexer e remexer, procurando o "melhorzito, que tenha tudo" e lhes traga algo de bom para todo o ano.
O Sr. Cortez sorri quando lhe peço para tirar uma foto e diz-me que com sol seria melhor, que "hoje o dia não está famoso".
Fotografias de Alexandra Carvalho (2010)
Quarenta dias depois da Páscoa, na quinta feira de Ascensão, festeja-se o Dia da Espiga.
A origem deste dia é, contudo, muito anterior à era cristã. Este dia é um herdeiro directo de rituais pagãos, realizados durante séculos, por todo o mundo mediterrâneo, em que grandiosos festivais, de intensos cantares e danças, celebravam a Primavera e consagravam a natureza.
Para os povos arcaicos, esta data, tal como todos os momentos de transição, era mágica e de sublime importância. Nela se exortava o eclodir da vida vegetal e animal, após a letargia dos meses frios, e a esperança nas novas colheitas. Crê-se que esta celebração tenha origem nas antigas tradições pagãs e esteja ligada à tradição dos Maios e das
Maias.
A Igreja de Roma, à semelhança do que fez com outras festas ancestrais pagãs, cristianiza depois a data e esta atravessa os tempos com uma dupla acepção: como Quinta-feira de Ascensão, para os cristãos, assinalando, como o nome indica, a ascensão de Jesus ao Céu, ao fim de 40 dias; e como Dia da Espiga, ou Quinta-feira da Espiga, esta traduzindo aspectos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera agrícola e familiar.
O Dia da Espiga celebrava-se, noutros tempos, com um passeio matinal, em que se colhiam espigas de vários cereais, flores campestres e raminhos de oliveira para formar um ramo, a que se chama de espiga.
Segundo a tradição o ramo deve ser colocado por detrás da porta de entrada, e só deve ser substituído por um novo no dia da espiga do ano seguinte. Traz(ia) abastança, sorte e saúde aos donos da morada.
As várias plantas que compõem a espiga têm um valor simbólico profano e um valor religioso.
A simbologia por detrás das plantas que formam o ramo de espiga:
* Espiga – pão;
* Malmequer – ouro e prata;
* Papoila – amor e vida;
* Oliveira – azeite e paz;
* Videira – vinho e alegria e
* Alecrim – saúde e força.
O dia da espiga era também o "dia da hora" e considerado "o dia mais santo do ano", um dia em que não se devia trabalhar. Era chamado o dia da hora porque havia uma hora, o meio-dia, em que em que tudo parava, "as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e as folhas se cruzam". Era nessa hora que se colhiam as plantas para fazer o ramo da espiga e também se colhiam as ervas medicinais. Em dias de trovoadas queimava-se um pouco da espiga no fogo da lareira para afastar os raios.
***
*** Bibliografia utilizada:
OLIVEIRA, Ernesto Veiga. "Festividades Cíclicas em Portugal". Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984. 357 p. (Colecção Portugal de Perto n.º 6).