segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Casa do Adro




Fotografia e texto de JCDuarte







Claro que, em havendo um “Adro da Igreja”, teria que haver uma “Casa do Adro”.
... E se dermos com o primeiro, encontrar a segunda é mesmo só uma questão de rodar a cabeça, que lhe fica logo ao lado.

Bem cuidada de paredes, muros e jardim, cujas frondosas sombras falam da idade do edifício, este azulejo (vermelejo? amarelejo?) de singelo que é só pode ser bonito. Pena é que este, como tantos outros por esse país fora, deixem no anonimato o autor do desenho e a fábrica.

No entanto, aqui por estes lados não se deixam os créditos do que têm em mãos alheias. Passear nestas ruas velhas de Benfica de câmara fotográfica na mão, apontando para aqui e para ali, é quase que como ter um cartaz nas costas pedindo indicações. Numa mesma tarde, e com pouco mais de uma hora de intervalo, dois velhotes (que fizeram questão de não se deixar fotografar) trataram de me ir indicando algumas preciosidades do seu bairro. Quer fossem apontados com o boné, tirado para limpar a careca, quer fossem apontados com a bengala, que a outra mão segurava o saco de pão fresco da tarde, não deixaram de me ir dizendo que fosse fotografando antes que no lugar de azulejos, cornijas ou águas furtadas viessem apartamentos, garagens e escritórios.

Não conheço o bairro o suficiente para saber se tem uma “Transportadora Ideal” ou um “Café Central”. E sei que a única “Rua Direita” de Lisboa fica ali para os lados do Paço do Lumiar, agora com o nome de “Qualquer Coisa, Antiga Rua Direita”.
Mas espero que neste bairro de Benfica, bem como em todos os outros, não surjam placas com “Antiga…”, deixando aos seus residentes os tesoiros que possuem e de que se orgulham.




domingo, 5 de setembro de 2010

O Jardim Escola "Carrocel"




Bem perto do "Jardim das Marias", no Nº 682D da Estrada de Benfica, fica o Jardim Escola "Carrocel".

Quando nos deparamos com o actual estado de conservação e utilização da grande maioria das casas testemunhos da memória histórica da freguesia de Benfica, bem podemos dizer que o edifício onde funciona o Jardim Escola "Carrocel" é um verdadeiro oásis.



Fotografia de Alexandra Carvalho



Recentemente, a 18 de Agosto, fruto de alguns trabalhos de pinturas de conservação, foi com alguma surpresa que vimos serem apagados os graffitis de uma das suas fachadas laterais, que tão harmoniosamente conjugavam esta vivenda com o "Jardim das Marias" e o espaço envolvente.



Fotografia de Alexandra Carvalho



Passados alguns dias, o resultado do trabalho do artista de graffiti Nomen e do crew LGN era já visível (ver vídeo mais abaixo), dando nova vida e cor a esta vivenda centenária.

Num desses finais de tarde de uma semana agitada, foi com alegria que me deparei com um casal de pessoas idosas, sentados num dos bancos laterais da vivenda, usufruindo plenamente daquele espaço.
O que me deixou, pelo menos, mais recomposta com o facto da enorme formiga (de que eu tanto gostava) da fachada lateral ter sido apagada.








Gostaríamos de aqui deixar uma palavra de grande apreço à Direcção do Jardim Escola "Carrocel", por tão bem saber conjugar novas formas de arte na preservação de um espaço de utilização comunitária, não deixando assim morrer o mesmo ou votá-lo ao abandono (como, infelizmente, tantos exemplos temos na nossa freguesia), mas transformando-o antes em algo de belo e que dá vida à nossa freguesia!





sábado, 4 de setembro de 2010

Não adianta!




Fotografia de JCDuarte



Não adianta mesmo! Não serve de nada procurar!

Sendo que Lisboa possui, pelo menos, uma igreja por bairro e que, muitos deles, as têm também de outras confissões que não apenas a Católica Apostólica Romana, imagine-se a quantidade de igrejas que por cá existem.
Isto já para não considerar todas aquelas bem antigas que deixaram de ser locais de culto, umas transformadas em armazéns, outras em garagens, outras ainda em condomínios. Acrescente-se ainda aquelas outras mais pequenas, chamadas de capelas, que integram locais privados como palacetes, hospitais, hotéis e, também, centros comerciais.
No entanto, e por mais voltas que possamos dar, apenas existe um “Adro da Igreja”. Com direito a placa toponímica e tudo.

Curiosamente, e ao contrário daquilo que eu imaginava, este adro não fica fronteiro à igreja. Também seria difícil, já que mesmo em frente à sua porta principal fica uma artéria importante e velha na cidade. E não sei qual a mais antiga: se a igreja se a estrada.
Assim, este adro fica “de ladecos”, contíguo à parede sul do templo e está vedado ao trânsito automóvel, excepto o funerário. (Curioso: apesar da escassez de lugares na zona, neste caso todos respeitam a proibição de estacionar no passeio! Será que têm receio de bloquear o seu próprio funeral?).
Falta referir a localização do único “Adro da Igreja” de Lisboa: Benfica, pois então!



Fotografia e texto de JCDuarte




Pode consultar informação histórica sobre o Adro da Igreja neste excelente post do nosso amigo Fausto Castelhano.






sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O "Jardim das Marias"



21/01/08

Originalmente publicado in "Palavras & Imagens"






"Sim, o homem é o seu próprio fim. E é o seu único fim.
Se quer ser qualquer coisa, tem de ser nesta vida. (...)
Os conquistadores são os que podem mais.
Mas não podem mais do que o próprio homem quando ele o quer."

Albert Camus, in "O Mito de Sísifo"





Fotografias de Alexandra Carvalho



De início, era um simples terreno vazio, que sobrara entre dois quarteirões de prédios de ruas vizinhas.
Nenhuma entidade responsável se decidira a fazer o que quer que fosse pelo dito cujo terreno. Até que os moradores vizinhos se uniram e meteram mãos à obra, transformando aquele espaço-de-ninguém num aprazível jardim comunitário.

Sabia da sua existência, mas nunca por ali havia passado...
Esta manhã, para encurtar caminho até à paragem de autocarro, decidi ir por ali. E o espanto foi imenso, quando vi o tamanho e a beleza daquele lugar.



Fotografia de Alexandra Carvalho



Comecei a tirar algumas fotos. Até que uma senhora, que por mim, passou indicou-me um outro local escondido naquele jardim, que "esse sim, merece a pena ser fotografado!", segundo as suas palavras.

Uma senhora de bata aos quadrados azuis e olhar terno de menina, sentada numa esplanada improvisada, dava de comida a uma gata, um dos dois felinos que habitam aquele jardim, segundo viria a descobrir mais tarde.




Fotografias de Alexandra Carvalho



Pausa na minha atribulada e atrasada manhã, para uma conversa com mais uma dessas pessoas que aqui no blog vou "coleccionando" (no bom sentido do termo, pelas suas interessantes histórias - ou momentos - de vida).
À despedida transmito-lhe os meus sinceros parabéns (extensivos a todos os seus vizinhos) pelo excelente trabalho que ali realizaram...
E prometo (a mim própria) ali regressar, muitas e muitas vezes, quando me apetecer desanuviar e pensar que me encontro longe do rebuliço da cidade.



Fotografia de Alexandra Carvalho



Surgiram nos E.U.A., durante os anos 70, quando um movimento de habitantes começou colectivamente a recuperar determinados espaços urbanos, dentro dos seus bairros, votados ao abandono, transformando-os em "jardins comunitários".
Cada um desses jardins cristalizava as aspirações do grupo de cidadãos que estivera na sua origem.

A primeira vez que vi algo semelhante a este jardim foi em Bayonne (França), num terreno junto ao rio, cedido pela Mairie, para que os habitantes mais desfavorecidos e excluídos de um determinado bairro da cidade pudessem ali ocupar os seus tempos livres.
O conceito era mais compartimentado e menos colectivo do que este jardim de Lisboa, uma vez que, em Bayonne, cada habitante tinha direito a uma pequena parcela de terreno, protegida com vedação... "rivalizando" cada um deles entre si, de modo a transformar a sua parcela em algo mais belo do que a do vizinho.

Espaços de solidariedade e troca, expressão de uma vitalidade social que ainda não está perdida nas grandes cidades...
Gostei deste conceito comunitário!


Mais informações sobre o "Jardim das Marias" aqui e aqui.






quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Paredes que Falam (3)




"Velharias"


Velharias
Fotografia de JCDuarte



"Ainda que possa aparentar o contrário, tanto estas letras aqui pintadas são originais como a fotografia foi feita agora.
E, a menos que esteja enganado, estas letras estão aqui pintadas desde 1975, ou parecido. Uma velharia para um graffity, convenhamos.

O que me leva a perguntar se o dono deste prédio, ali em Benfica, será coleccionador ou comerciante de antiguidades e estará a guardar esta pintura com intuitos de a vender por bom preço."





Fotografia e texto de JCDuarte (mais um amigo que se juntou ao "Retalhos de Bem-Fica" como redactor-fotógrafo).