sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

"Ulmeiro"





(texto e fotografia de JCDuarte)





“Então, e quanto custa este tripé?”, perguntei regressando da cave.
Tinha-o visto assim que descera, que estava num baú logo ali, emparelhado com balanças, raladores, tigelas metálicas, batedores manuais e outros artefactos de culinária.

Pois a Dª. Lúcia olhou para mim, segurando o tripé, que lho havia passado. E olhou para o tripé. E para mim de novo. E de novo para o tripé, que se mantinha fechado, com as suas deliciosas ponteiras meio redondas, meio aguçadas, ao abrigo de um qualquer acidente.
E quando os nossos olhares se encontraram outra vez, vinha com aquele sorriso que lhe é peculiar:
“Pois, euh, pois então… cinco euros por perna, pode ser?”

Já não sei quando foi a última vez que larguei tamanha gargalhada num alfarrabista, cheio de preciosidades. Incluindo peças soltas, recolhidas aqui e ali, junto com os livros. Acho que nenhuma das pilhas de livros estremeceu o suficiente para que caísse.
Foi assim que saí da velha “Ulmeiro”, ali à Av. do Uruguai, em Benfica, com um belíssimo tripé, dois livros que já não via há muito e que me recordaram o prazer que havia tido em os ler, e um terceiro, que não conhecia, com belos retratos feitos por João Martins, que para além da olhada que já lhe dei, estou a guarda-lo para um momento de calma para com ele me deliciar.

Não conhece o local? Pois não sabe o que tem perdido. Nos livros e outros que aguardam para serem re-descobertos, na simpatia e boa-disposição que a Dª. Lúcia tem para nos dispensar.






quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Podias ser Tu!...




“O nosso quotidiano civilizado está cheio desses seres
que mantendo uma similar aparência física,

se afastaram de tal maneira da humanidade
que perderam o laço comum.

Pelo que estão reunidas as condições objectivas e morais

para a chacina dos homens-lixo.

E essa é já uma prática quotidiana.

Imposta pelas autoridades,

desculpada pela moral pública,

exigida pela economia.”


Leonel Moura, in "Os Homens Lixo" (2000).






(por Alexandra Carvalho)




Ao longo de 14 anos, a Vila Ana e a Vila Ventura chegaram a um estado de abandono e degradação insustentáveis, que o Movimento de Cidadãos tem vindo a divulgar, exigindo que as entidades responsáveis cumpram o necessário para que este património edificado da freguesia de Benfica seja devidamente preservado.

De facto, desde que a Ormandy Portuguesa, Lda., empresa da qual é Director o Dr. Henrique de Polignac de Barros (Presidente da Direcção da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários) adquiriu estas Vilas, em 1997, para além de nunca ter efectuado obras nas mesmas, depois de ter desapossado os inquilinos que se encontravam ilegalmente em regime de sub-aluguer, não voltou a alugar essas fracções; o que permitiu que, durante anos a fio, em particular a Vila Ana tenha vindo a ser "habitada" por sucessivas vagas de indivíduos: - há 3 anos, os indivíduos toxicodependentes que foram expulsos pelos imigrantes da Europa de Leste do prédio embargado junto ao Mercado; - em seguida, os indivíduos toxicodependentes desalojados do antigo Instituto Lusitano, junto à Mata de Benfica, depois deste ter sido demolido; - depois, os imigrantes de origem cigana da Roménia; - mais tarde, algumas pessoas sem-abrigo; - servindo, também, no último ano, o 1º andar de esconderijo esporádico a indivíduos que supostamente furtam transeuntes na Rua Ernesto da Silva.

A ocupação sistemática da Vila Ana por pessoas sem-abrigo, em particular, no piso térreo, tem permanecido mesmo depois desta ter sido entaipada. O que faz com que a situação desta Vila continue periclitante, constituindo um perigo, não só para o edificado, como também para os moradores-inquilinos, para os vizinhos dos prédios contíguos… e para as próprias pessoas sem-abrigo que aí pernoitam.





Filme de Nuno Rocha
(publicado in YouTube por LGlifesgoodPortugal)





João
, Mihail e ...
3 nomes... 3 vidas... uma mesma casa...

João, Mihail e ... são os 3 últimos habitantes "não legais" da Vila Ana...

Cada um com a sua história de vida e um motivo muito peculiar (a ela associado) para ter caído nesta situação de “abandono social”...

Cada um deles desenvolvendo pequenos trabalhos e biscates (no comércio da própria freguesia), para tentar ir remediando a situação em que se encontra…

Cada um deles preocupado, também, com o destino que a Vila Ana e a Vila Ventura terão, o qual estará intrinsecamente ligado à sua própria vida (tal como sucede com a dos Moradores-Inquilinos, a quem eles ajudam a vigiar o que se passa nas Vilas, procurando a segurança de todos).

Há gestos que nos comovem mais do que mil palavras… E hoje, ao final da tarde, tive a oportunidade de ser brindada com um desses gestos.

Enquanto falávamos sobre a situação das Vilas e os antigos moradores de renome das mesmas, o Sr. Zé sacou da sua carteira e disse com orgulho:

- “Querem ver uma coisa que eu guardo sempre comigo e que toda a gente me pede para lhes mostrar?”

E eis senão quando me mostra o folheto da nossa Acção de Natal pelas Vilas, que guarda religiosamente dobrado e muito bem estimado.

O gesto do Sr. Zé tem ainda mais significado na medida em que este folheto, que ele tem guardado, foi criado especialmente para juntar às ofertas de géneros alusivos ao Natal que fizemos aos 3 Moradores-Inquilinos e aos 3 indivíduos sem-abrigo das Vilas.

Na grande maioria das vezes não temos ideia do impacto de certas coisas pequenas que fazemos e de como as mesmas podem ter um significado grandioso para o quotidiano daqueles que as viveram!...

A história que hoje ouvi da boca do Sr. Zé (há 6 anos nesta condição de “sem-abrigo”) é uma história triste, de quem, no entanto, ainda não perdeu a capacidade de sonhar. Uma história pautada com alguns importantes reencontros (assemelhando-se muito à do filme de ficção acima), mas, também, de muitas perdas inestimáveis...

Mas é, sobretudo, uma história que, de um momento para o outro, podia acontecer a qualquer um de nós!...






O Movimento de Cidadãos pela preservação da Vila Ana e da Vila Ventura considera que todos os seres humanos independentemente da sua condição sócio-económica têm direito à felicidade, ao amor, à ternura e, sobretudo, ao bem-estar de um lar.
Independentemente dos motivos que fizeram com que cada uma destas pessoas tivesse caído na situação em que se encontra (ou do que na mesma experimentaram), cada ser humano é único, e todos merecem ser tratados com a dignidade que as constituições e os direitos humanos lhes conferem. Antes de serem "sem abrigo" são pessoas!

Pelo que gostaríamos de, publicamente, aqui deixar o apelo às instâncias competentes para que a situação do João, Mihail e não seja esquecida, no desenvolvimento do processo inerente à realização das obras de conservação na Vila Ana e na Vila Ventura.









terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

É ver para crer!...




(por Alexandra Carvalho)



Depois de um longo e perigoso Verão, esta tarde as fachadas principais e as traseiras da Vila Ana e da Vila Ventura foram integralmente desmatadas, por ordem do seu proprietário.





Fotografias de Alexandra Carvalho (2011)




O Movimento de Cidadãos pela preservação da Vila Ana e da Vila Ventura saúda esta iniciativa, que considera extremamente positiva.

Continuando, todavia, a aguardar mais desenvolvimentos sobre este caso, em particular no que diz respeito ao cumprimento da intimação para a realização de obras de conservação nestes dois imóveis, património histórico da freguesia de Benfica.








segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

GUTA NAKI ao vivo no Teatro Turim (4 de Março)





Direitos de autor do poster: Teatro Turim (2011)



Os "Guta Naki" (grupo composto por Cátia Pereira - voz -, Dinis Pires - baixo e melódica - e Nuno Palma - guitarra, teclados e programações -, com Namora Caeiro nas animações e vídeo) vão apresentar-se ao vivo, no próximo dia 4 de Março, às 22h, no Teatro Turim, no 1º "Sagres ao Vivo".

Os "Guta Naki", recentes vencedores do Restart Resound Fest 2009, tocam um pop-rock de base electrónica, cantado em português.

Compre já, ou reserve o seu bilhete (21 760 66 66) antes que esgote!...



domingo, 20 de fevereiro de 2011

“Em busca da Euterpe de Benfica” ou um Ponto de Encontro!





O meu avô Eugénio Germano Baptista, homem muito atento ao mundo que o rodeava e um republicano convicto, falecido em 1992, com 93 anos - deixou um espólio documental e fotográfico sobre a “Sociedade Euterpe de Bemfica”, de que tinha sido secretário, director e músico. Sociedade na qual também já o meu bisavô João Germano Baptista, falecido em 1930, tinha sido tesoureiro, secretário, director, e presidente, e também músico da banda.

Face a essa documentação, procurei saber mais sobre essa Sociedade, fundada em 1859 em Benfica – encontrei o blogue "Retalhos de Bem-Fica", e tentei obter alguma informação das memórias da Euterpe. Em boa hora o fiz, porque desde essa altura consegui recolher muita informação devido à disponibilidade da Alexandra e a vários leitores do "Retalhos de Bem-Fica".

A partir desse momento uma série de informações surgiram em catadupa – e, graças ao espólio do meu avô materno, Eugénio Germano Baptista, comecei a ocupar algum espaço daquele interessante e útil blogue, com alguma documentação e fotos, que são de facto parte da história de Benfica no começo do século XX.



Restaurante "David da Buraca", onde funcionou a primeira sede da Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica
Fotografia de Pedro Macieira (2010)


Placa existente no Restaurante "David da Buraca", com menção à fundação da Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica
Fotografia de Pedro Macieira (2010)



Pela simpática participação no "Retalhos de Bem-Fica", de Domingos Estanislau, presidente do Clube de Futebol Benfica, encontrei a primeira sede da Filarmónica Euterpe, junto ao Restaurante do "David da Buraca", onde existe um lápide que assinala a data da sua fundação em 1859 – e também um amigo. Amigo que me convidou a visitar o Fó-Fó, e aí inesperadamente, encontrei na sala de troféus a fotografia do meu avô com as cores do Futebol Benfica na primeira equipa de futebol, do clube. Por sinal no espólio do meu avô existe uma outra foto sequencial da que existe na sala dos troféus. E um texto publicado no Jornal da Euterpe, transcrito no "Retalhos de Bem-Fica", permitiu a Domingos Estanislau ficar com uma informação preciosa para confirmar a antiga dúvida sobre a longevidade do Fó-Fó.

Também a publicação de uma foto de 1934 de um grupo “de gentis expositoras” de um exposição na Euterpe, entre as quais a minha mãe, permitiu a uma leitora do blogue reconhecer na foto a sua mãe, que na altura frequentava a “Euterpe de Bemfica”.

Após a publicação das primeiras páginas de vários números dos jornais da “Euterpe de Bemfica” do qual o meu avô tinha sido director, surgiu nessa altura através de um comentário um outro neto de um outro director do jornal, contemporâneo do meu avô.

Também através da participação simpática de mais um leitor, localizei na Torre do Tombo, parte do espólio da “Sociedade Filarmónica Euterpe de Bemfica”.

A 24 Abril de 2010, num jantar comemorativo, do "Retalhos de Bem-Fica", tive o prazer de conhecer pessoalmente a autora deste interessante blogue, que é uma memória interactiva de Benfica e das suas gentes.

Recentemente fui também surpreendido com um contacto de mais uma leitora do "Retalhos de Bem-Fica", moradora em Benfica, e com 90 anos de idade, que comentou os posts que estavam publicados no Retalhos de Bem-Fica sobre a “Euterpe de Bemfica” no qual surgia o meu nome. A senhora falou na possibilidade de eu ser neto do Eugénio Germano Baptista, pessoa que ela conhecia e que sabia perfeitamente onde tinha morado em Benfica- localizando a casa e o andar onde a minha família viveu até 5-12 –1936, altura em que se mudou para Campo de Ourique.



Casa onde viveu Eugénio Germano Baptista, em Benfica.
Fotografia de Pedro Macieira (2011)



E hoje graças a essa intervenção e também da colaboração da Alexandra, localizei a casa, na estrada de Benfica nº 584, (felizmente ainda existente) e que até agora desconhecia completamente, que por feliz coincidência o Retalhos de Bem-Fica já tinha publicado várias fotos em 2 posts (ver aqui e aqui).

Também com esse contacto a Alexandra ficou com a hipótese de entrevistar esta simpática senhora de Benficacom quem já se tinha cruzado anteriormente na Festa dos 100 Anos da Vila Ventura.

E assim uma busca sobre a “Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica”, tem sido muito profícua na recolha inesperada de informações pessoais muito importantes, que espero ainda não terminar por aqui, muito pelo participação activa do "Retalhos de Bem-Fica".


Sintra, 20 de Fevereiro de 2011

Pedro Macieira
http://www.riodasmacas.blogspot.com