quarta-feira, 18 de junho de 2014

A Quinta de Montalegre e o “Bonifácio” (5)



Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2014)



Capítulo V - A população de Lisboa rendeu-se ao prodigioso Bonifácio e invadiu a Avenida da Liberdade. 


(por Fausto Castelhano)


A oriente, o espaço celeste clareava em tonalidades avermelhadas dissipando, pouco a pouco, os derradeiros negrumes da madrugada ainda antes do sol romper no horizonte e aos poucos incendiar o céu azul, já Augusto Castelhano retornava a casa depois da rotina diária exercida na vacaria, isto é, medir e atestar os potes metálicos com a capacidade de cinquenta litros do leite obtido na “ordenha da noite” extraídos das glândulas mamárias de cerca de três dezenas de vacas leiteiras de superior produção, faina confiada ao diligente e hábil vaqueiro Manuel Rodrigues, o Ti’Conde da nossa infância e que aqui evocamos com imensa saudade.
Daí a breves instantes, os dois leiteiros que possuíam contractos de fornecimento de leite chegariam com as suas carroças de tracção muar a fim de recolher e posteriormente distribuir pelas clientelas, porta-a-porta, o suco leitoso de óptima qualidade da Quinta de Montalegre.
Seguia-se a alimentação do gado (feno ou erva consoante a estação do ano, suplemento alimentar baseada em misturas de sêmeas e farinhas de alfarroba ou outras, água), limpeza de manjedouras e coxias, substituição de palha seca das camas, etc.



A foto do Bonifácio e a legenda: “Bonifácio aviador, tal como se lançará em pára-quedas sobre Lisboa” (recorte do Diário de Notícias de 18 de Junho de 1939) 


Ora, quando Augusto Castelhano se aprontou para tragar o frugal pequeno-almoço na sua residência localizado a pouco mais de meia centena de passos dos estábulos, já Maria Augusta se encontrava na cozinha assoberbada na intensa labuta doméstica, mas aguardando a chegada do marido Augusto que, tal como era hábito, lhe passava p’rá mão a pequena vasilha de alumínio, “a leiteira”, a transbordar de leite morno acabadinho de mungir da “teta da vaca”, elemento de valor nutritivo essencial na preparação da primeira refeição do dia. 

Poucos momentos passados e já com a passarada a chilrear por todo o lado, o astro-rei erguia-se esplendoroso derramando luz e vida por todos os recessos da herdade. Finalmente e à beirinha do termo da estação primaveril, o tão esperado Domingo 18 de Junho de 1939 abria-se e por fortuna pressentia-se soalheiro, bafejado por temperatura amena e isento de nuvens, embora envolvido por brisa acariciadora um tanto incerta e soprada dos quadrantes Norte e Oeste que geravam ondas suaves no extenso oceano dourado em que transformara a esplêndida seara de trigo maduro da Quinta de Montalegre. Bastante cedinho, também o ardina, sempre pontual, já badalara o sino do portão e entregara o jornal como diariamente era uso e costume. 
Apesar de outros compromissos inadiáveis o aguardassem (estava à porta a ceifa das searas de trigo e aveia, além da debulha dos cereais, o enfardar do feno, etc.), Augusto Castelhano ainda folheara e passara os olhos pelo Diário de Notícias, o qual e na primeira página expunha os principais factos ocorridos na véspera, tanto a nível geral do país, como no que respeitava ao noticiário da estranja.


Recorte do Diário de Notícias anunciando a descida do Bonifácio sobre a cidade de Lisboa 
(in Diário de Notícias de 18 de Junho de 1939) 




Eis os títulos de maior relevo começando pelo já inevitável Bonifácio e que incluía, não só a publicação do cupão nº 5 correspondente à letra O, a última sílaba da palavra BONIFÁCIO, mas também a figura do fenomenal vulto legendado do seguinte modo:


“Bonifácio aviador, tal qual como se lançará em paraquedas sobre Lisboa”. 

E em letras maiúsculas sobressaia o título do evento que dentro de poucas horas teria lugar na cidade de Lisboa:

“SOBRE LISBOA, EM PÁRA-QUEDAS” 

“BONIFÁCIO DESCERÁ ESTA TARDE, DAS 18 PARA AS 19 HORAS” 

“UM PRÉMIO DE ESC. 2.000$00

A quem o encontrar e o conduzir ao Diário de Notícias” 

“De bordo do seu avião, Bonifácio lançará, sobre a Avenida da Liberdade, milhares de prospectos com várias notícias de sensação”. 

Seguia-se o desenvolvimento da importante ocorrência:

“É hoje o grande dia. Faltam poucas horas para os olhos da população de Lisboa se encantarem na contemplação do elegante aparelho que lhe trará pelos ares o incomparável Bonifácio, grande amigo do «Diário de Notícias», espírito folgazão, alma generosa, homem de grandes iniciativas. Como é sabido, Bonifácio já nos tinha enviado três contos que, numa feliz inspiração, mandou distribuir em prémios por meio de prospectos lançados de avião”. “Agora traz no bolso um documento que será trocado no «Diário de Notícias» por boas notas, na importância de 2.000$00 (dois contos), à pessoa que lá o conduzir, depois da sua descida aparatosa em pára-quedas”. 

“Segundo informámos, e não foi alterado, o avião de Bonifácio subirá a Avenida da Liberdade, voando baixo e lançando os seus prospectos anunciadores de grandes novidades. Depois tomará altura e escolherá o ponto mais favorável para a descida - que não será no Parque Eduardo VII, devido aos acidentes do terreno”. 
“Preparem-se, pois, os nossos leitores e todos os amigos de Bonifácio com os cinco cupões que o nosso jornal publicou e vão esperar o Bonifácio hoje, entre as 18 e as 19 horas”.


O cupão nº 5 (e último) e que correspondia à sílaba final da palavra BONIFÁCIO 
(in Diário de Notícia de 18 de Junho de 1939) 


E, claro está, não faltavam os oportunos conselhos: 

“Recomendamos à pessoa que encontrar Bonifácio o maior cuidado com ele e com o pára-quedas para que cheguem ao “Diário de Notícias” em boas condições e aconselhamos-lhe a tomar um automóvel para o transporte até ao nosso jornal”. 
“Para receber o prémio de Esc. 2.000$00 é necessário apresentar a colecção dos 5 cupões que o “Diário de Notícias” publicou. 


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Outras novidades englobadas no matutino lisboeta com especial incidência visando a partida do Chefe do Estado (Óscar Carmona) na sua visita a África:
“NUMA APOTEOSE DE ENTUSIASMO POPULAR. O CHEFE DO ESTADO PARTIU PARA A SUA VIAGEM A ÁFRICA. MILHARES DE PESSOAS ACLAMARAM O PRESIDENTE DA REPÚBLICA. UMA PARADA AÉREA E UM CORTEJO FLUVIAL IMPONENTES”



As legendas das fotos: “A multidão assiste à partida na Praça do Comércio” e “O abraço de despedida” 
(in Diário de Notícias de 18/6/1939) 


E os elucidativos subtítulos:

“O TERREIRO DO PAÇO EM FESTA”
“No momento de despedir-se, o Chefe do Estado falou ao Diário de Notícias com estas palavras”:
“A minha alma vibra de emoção na hora em que levo o abraço de Portugal aos nossos amigos da União Sul-Africana e aos activos e generosos trabalhadores do Império”.

E o relato do acontecimento prosseguia assim:

“Saudações de muito povo desde o Palácio de Belém até ao Terreiro do Paço onde uma multidão aguardava o Chefe do Estado. Partiu entre palmas e bandeiras desfraldadas ao vento da Nação, Cidade de Lisboa, Mocidade Portuguesa, Legião Portuguesa, Grã-Bretanha, União Sul-Africana, entre outras. Guarda de Honra constituída por formações da Marinha e respectiva Banda de Música, Brigada Naval, Legião Portuguesa, Colégio Militar, Pupilos do Exército e Mocidade Portuguesa”.




A despedida do Cardeal Patriarca de Lisboa (Manuel Gonçalves Cerejeira) aquando da partida para a visita a África do Presidente da República, Óscar Carmona 
(in Diário de Notícias de 18/6/1939) 


E ainda:

“Salvas dos navios de guerra, barcos embandeirados cruzavam as águas do rio Tejo, aviões tracejando os céus e provenientes das seguintes origens: Aeronáutica Civil (quatro esquadrilhas com quinze aparelhos que levantaram voo de Alverca), delegações do Aero-Clube de Braga com dois aviões, Aero-Clube de Arraiolos, Escola Salazar com três aviões e dois aviões da Escola Manuel Bramão”.





O trimotor Junker JU-52, um dos aviões que participou nas saudações de despedida do Chefe do Estado, Óscar Carmona, na sua viagem a África no dia 17 de Junho de 1939.
(Foto Wikipédia) 


“A Aviação Militar fez-se representar por uma patrulha de trimotores da Base da Ota e uma esquadrilha da Base de Sintra. A Aviação Marítima surgiu com duas aeronaves da Base de Aveiro, além de Lisboa que se apresentou apenas com um avião”.
E ainda outra chamada de atenção:
“OS CUMPRIMENTOS DE DESPEDIDA”
“O Governo, Corpo Diplomático, Embaixadores e altas individualidades militares e civis saudaram o Chefe do Estado”


E adiantava logo a seguir:

“Em frente das três tribunas onde tomaram lugar as entidades que oficialmente apresentaram ao Chefe do Estado, Óscar Carmona, os seus cumprimentos de despedida: o Sr. Cardeal Patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira, Dr. Augusto de Castro (Comissário Geral da Exposição do Mundo Português), Ministros do Interior, Marinha, Educação Nacional, Comércio, Colónias, entre muitos outros”.
“DE CASCAIS A LISBOA. O Sr. Presidente da República foi muito aclamado durante o percurso”.





A Mocidade Portuguesa acompanhou o Presidente da República (Óscar Carmona) na sua viagem a África no Navio N/T Colonial 
(in Revista da Mocidade Portuguesa, 1939) 


Mas o Diário de Notícias insistia e convidava o leitor para a página 9. Assim:

“REPORTAGEM GRÁFICA DA VIAGEM PRESIDENCIAL”. 



***** 

Relato de três outras ocorrências oriundas do estrangeiro:

“FALTAM VÍVERES em Tien-Tsin. As ruas da concessão britânica, após quatro dias de cerco estão desertas e o comércio encontra-se paralisado”;
“WEIDMANN, um dos maiores criminosos do nosso século foi guilhotinado ontem em Versalhes”;
 “O GENERAL MILLAN ASTRAY regressou ontem a Espanha”.




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Mas, retomemos o fio da narrativa recheada com os pormenores possíveis e granjeados aqui e ali, a propósito da histórica descida do portentoso Bonifácio, tal como a ouvimos contar e recontar até à exaustão ao longo de várias décadas, tanto por familiares, como por amigos comuns de António Castelhano.
Assim sendo, vamos então regressar ao lar da família Castelhano, precisamente ao dia 18 de Junho de 1939 e onde às primeiras horas da manhã ainda reinava um relativo sossego. Escassa movimentação entre os mais jovens membros do núcleo familiar, os quais demoravam em dar sinais de vida, ora pegados no último sono da madrugada, ora relutantes em saltar do aconchego do “vale de lençóis” aproveitando, como seria de prever, o dia de folga semanal, tanto para aqueles que já trabalhavam (António na arte de alfaiate e Lucialina que encetava as passadas iniciais na profissão de costureira), como as duas irmãs mais novas (Maria Manuela e Maria Helena) que frequentavam a Escola Primária em Carnide, a Escola da Mestra, tal como a população local a designava.
António Castelhano tivera um sono algo agitado e para completar a desdita, levantou-se apoquentado por leve mas arreliadora dor de dentes.
Após despachar o pequeno-almoço, Maria Augusta ainda adiantou os preparativos para a “refeição-maior” estabelecida para cerca das 13.00 horas, tal como sempre fora hábito na casa. Cuidou do mais jovem elemento da família, o pimpolho Carlos Alberto, agora com 13 meses de idade e deixou-o à guarda dos irmãos com a incumbência de deitarem uma olhadela à criancinha sempre que fosse necessário. Então, sim! Ganhou asas e apressou-se.




A oficina de ferrador do Sr. Gonçalves “Ferrador” (Estrada da Luz, 216) que desempenhava a exigente profissão de ferrar gado cavalar e bovino.
(Foto de Artur Goulart, 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa) 


Percorreu o curto trajecto até ao portão de acesso à Quinta Montalegre na Estrada da Luz, 203 e situado um pouco antes da “casa do ferrador” (Estrada da Luz, 216), onde o Sr. Gonçalves “Ferrador” pontificava a grande altura no seu exigente mister, isto é, ferrar todas as rezes existentes na enorme área espacial com epicentro em Carnide, sejam equídeos, muares ou bovinos, além da manufactura de todo o género de ferraduras, tanto no tamanho como no feitio e moldadas à medida de cada animal que se apresentasse para calçar utilizando, para tal fim, a forja, o malho e a bigorna e onde, em estilo verdadeiramente invulgar, evidenciava requintada maestria operando maravilhas.
E como nos dava tremendo gosto apreciar o espantoso labor de extrema eficiência e precisão do Sr. Gonçalves “Ferrador”.


Ultrapassada a “casa do ferrador”, Maria Augusta dirigiu-se à Igreja de Nossa Senhora Luz (junto ao Largo da Luz e ao Colégio Militar) onde, como crente indefectível que foi até ao último sopro de vida da Igreja Católica Apostólica e Romana, assistiria à Missa Dominical das 10.00 horas. Quando voltasse a casa por volta das 11.00 horas, muito trabalho teria pela frente… a esperá-la…
Quanto às raparigas, a Lucialina, a Maria Manuela, a Maria Helena e ao irmão António, depois de se aperaltarem também iriam participar no Ofício Divino, porém um pouco mais tarde na chamada “Missa do Dia”, justamente ao badalar das 12.00 horas.
Ora, quando os irmãos regressaram da Igreja de Carnide vinham algo alvoraçados e traziam preciosas novidades que ouviram passar de boca em boca. Alguém que viajara no eléctrico da Carreira 13 da Carris no percurso desde os Restauradores até Carnide divulgara a sensacional notícia que se propagara num ápice pela população de Carnide.
Constava-se que milhares, muitos milhares de pessoas provenientes de todos os cantos da cidade de Lisboa e também dos arredores, municiados de fartos e saborosos farnéis, invadiram a Avenida da Liberdade e abancaram por todo espaço contido entre o Marquês de Pombal e a Praça dos Restauradores e, paulatinamente converteram o local num espectacular arraial, sobressaindo um colossal “comes-e-bebes”, alegria a rodos estampada no rosto da mole humana em delírio e, não faltando sequer, música de acordéon ou gaita-de-beiços, rufar de bombos e tambores, além de cantorias à desgarrada.




Igreja de Nossa Senhora da Luz (Largo da Luz, junto ao Colégio Militar), templo frequentado pela família de Augusto Castelhano. 
(Foto dos Estúdios de Mário Novais, 1947 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa) 



O entusiasmo das gentes em torno do bendito Bonifácio evoluíra de maneira exponencial e ultrapassara um patamar inaudito. Enfim, a saudável e espantosa confraternização aguardava expectante e a pé firme, a almejada descida do venerável Bonifácio na perspectiva aliciante de arrecadar um bom dinheirinho, sonho acalentado no pensamento de inúmeros cidadãos residentes ou simples visitantes ocasionais ou não da Cidade-Capital do país.




Avenida da Liberdade em 1940 e, à esquerda, o edifício do Diário de Notícias. 
(Foto dos Estúdios de Mário Novais, Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa) 


Durante o almoço, António não se livrou de alguns remoques do pai, o qual e face a tanta confusão, largava pragas a torto-e-a-direito, secundado pelas irmãs que também o acicatavam amiúde, insistindo e querendo saber qual seria a sua intenção no que dizia respeito ao Bonifácio, afinal de contas, o premente assunto que absorvia todas as conversas e que despertavam altíssimo interesse, mesmo aos espíritos mais indiferentes.
E a sacramental pergunta continuava sempre a bailar, aferroando o juízo de António: “Então, sempre vais à Avenida da Liberdade deitar a unha ao safado do Bonifácio?”
António, desanimado com a dor de dentes que se aferrara que nem lapa em rocha e não o largava, quase não dava troco às provocações, mas entre dentes já aventava a hipótese de ficar sossegadinho em casa e procurar um qualquer remédio que o aliviasse das dores: “Cá por mim, se calhar vou à farmácia. O Bonifácio que vá dar uma volta ao bilhar grande”. Porém, voltava a repetir: “Ainda se o bom do Bonifácio desse um jeitinho e caísse aqui perto é que era mesmo catita”.




A Farmácia Matos (Rua Neves Costa, 35) localizada no lado esquerdo da artéria (frente à cabina telefónica dos TLP e a meia dúzia de passos do Coreto de Carnide) e onde António Castelhano se deslocou no intuito de adquirir um medicamento que lhe aliviasse a dor de dentes que tanto o apoquentou no dia 18 de Junho de 1939.
(Foto de Armando Serôdio, 1967 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa) 


Entretanto, o início da tarde surgira demasiadamente encalorada e à medida que o momento previsto do lançamento do insigne Bonifácio sobre a cidade Lisboa se aproximava do ponto culminante, o vento mudou de tom e cresceu de intensidade. Agora, açoitadas por vento rijo, as espigas de trigo ressentiam-se, vergavam perigosamente à beirinha de quebrar pelo caule.




O Coreto de Carnide na Rua Neves Costa localizado no popularmente chamado Largo do Coreto, outrora conhecido como “O Alto do Poço”.
(Foto de Arnaldo Madureira, 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa) 


Coincidência ou não, a dor de dentes que afligia António desde que acordara, também se agravara substancialmente e torna-se deveras insuportável. Perante tão imprevisível situação, o jovem António será confrontado com um verdadeiro dilema a que não conseguiu escapar: aplacar a dor de dentes ou Avenida da Liberdade à caça do Bonifácio. Enfim, talvez a custo, acabou por optar. Definitivamente desiste e já não se deslocaria à Avenida da Liberdade. Prefere dar um salto à farmácia e desencantar qualquer medicamento que lhe arranque as dores de vez, dores atrozes que tanto o atormentavam.




A Rua Neves Costa e vendedeiras de fruta nas escadinhas de acesso ao Largo do Coreto, outrora Alto do Poço.
(Foto de Fernando Martinez Pozal, 1950 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa) 


António deitou os pés ao caminho pela Estrada da Luz e dirigiu-se à Farmácia Matos (Rua Neves Costa, 35) localizada logo a seguir onde os “carros eléctricos davam a volta”, isto é, a meia-dúzia de passos do Coreto de Carnide e mesmo em frente à cabina telefónica dos TLP, precisamente num sítio histórico carregadinho de memórias desde tempos muito antigos e denominado “O Alto do Poço”.




O Alto do Poço e os festejos na noite de Santo António citados nas Notícias de Carnide e extraídas do livro “Pelos subúrbios e vizinhanças de Lisboa” (pág. 88) de Gabriel Pereira e que, felizmente ainda hoje se mantêm.
(Extracto do livro “Pelos subúrbios e vizinhanças de Lisboa”)


Actualmente, o pitoresco local é popularmente conhecido como o Largo do Coreto que também acolhe no seu regaço uma velhinha instituição da freguesia de Carnide fundada oficialmente a 11 de Novembro de 1920 e merecedora de rasgados encómios: o Carnide Clube, agremiação dedicada ao desporto (Basquetebol, Futsal e Artes Marciais), além de participar activamente no desenvolvimento sócio-cultural da população local através de diversas iniciativas, tais como, os Arraiais Populares de Carnide.





Largo da Praça, a afunilada Rua da Fonte e o carro eléctrico da Carreira 13 da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, Restauradores/Carnide.
(Foto Wikipédia, 1960) 


Mas, azar dos azares, António Castelhano vai bater em cheio com o nariz na porta, pois a botica encerrara devido a não se encontrar “de serviço”, exactamente naquele dia da semana.
 Enfim, tudo contribuía a “dar p’ró torto” e António ao sentir-se já descorçoado com tamanha desdita não hesitou. Deu meia volta e pelas 18.00 horas preparou-se em retornar a casa, agora sob calor intenso: Largo da Praça, a afunilada Rua da Fonte, Largo das Pimenteiras onde matou a sede ingerindo fartas goladas d’água no chafariz. Ainda hesitou em seguir pela Azinhaga da Fonte, mas preferiu seguir em frente pelo Largo da Luz.




Largo das Pimenteiras e chafariz.
(Foto de Fernando Dominguez Pozal, 1953 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)


À mão esquerda, lá estava o austero templo dedicado a Nossa Senhora da Luz e do lado direito, virada ao Jardim da Luz, a fachada principal do imponente edifício do Colégio Militar. Um pouquito à frente e com a fachada virada a Sul em pleno largo da Luz, o bela estrutura do Convento dos Franciscanos construído em 1878 sob a traça do arquitecto Norberto Correia.
O calor apertava bastante e curiosamente, o vento também resolveu endoidar e desatou a soprar com inaudita ferocidade tornando-se quase um vendaval desfeito. Momentos antes e apesar da barulheira provocada pela violência da ventania, António tivera a percepção de ouvir o ruído ritmado de um qualquer motor, mas agora, esse som imperceptível evidenciava-se muito mais nítido parecendo-lhe que se acercava encurtando distâncias. António estacou imediatamente, apurou os ouvidos e ao levantar a cabeça, avistou uma pequena aeronave que evoluía vagarosamente nos céus descrevendo várias manobras sobrevoando o local onde se encontrava, precisamente o Largo da Luz.




Fachada principal do Colégio Militar no Largo da Luz. 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa) 


Balançando as asas ao sabor das rajadas de vento fortíssimo e após descrever larga trajectória sobre o território de Carnide, a avioneta afastou-se p’ra longe. Porém, passados curtos minutos, o avião que se assemelhava incrivelmente com a avioneta que durante toda a semana propagandeara a chegada do Bonifácio a Lisboa, regressava na mesma direcção do Largo da Luz. António, acometido de súbita e brutal emoção, estremeceu da cabeça aos pés e um fantástico presságio chispou-lhe os pensamentos.



Convento dos Franciscanos (anos 60 do século XX) no Largo da Luz (Carnide) edificado em 1878 sob a traça do arquitecto Norberto Correia.
(Foto Wikipédia) 



Engasgou-se com um grito que lhe brotara pelas goelas fora: “É o avião do Bonifácio, tal qual. Que Diabo se estará a passar”.
E lembrou-se que o momento exacto da descida do estuporado Bonifácio sobre a cidade de Lisboa se esgotava a passos largos… e um nervoso miudinho apoderou-se de todo o seu ser. Pró que desse e viesse, grudou os olhos no avião e quedou-se mais alertado que nunca…
Até que, algo que não constava no guião do filme que fora tão minuciosamente elaborado nos mínimos detalhes, iria acontecer…




[Continua...]


***** O autor rejeita as normas do Novo Acordo Ortográfico. 



segunda-feira, 16 de junho de 2014

GATO ENCONTRADO - na RUA LUCÍLIA SIMÕES. Alguém conhece o/a dono/a?





Precisa de Família de Acolhimento Temporário MUITO URGENTE - porque a pessoa que o acolheu não pode ficar com ele (desenvolveu uma alergia)...






Fotografias de Malitsa Ferreira (2014)




Este gato, adulto e castrado, apareceu, no passado Domingo (15/06/14), na rampa ao lado do Restaurante "Também Quero" (na Rua Lucília Simões).
Miava muito alto e não fugia de ninguém, aceitando festas de toda a gente (inclusivamente, aceitou ser pegado ao colo pela pessoa que o recolheu).
Nitidamente, é um gato de casa... que poderá ter fugido ou sido abandonado.

Foram espalhados folhetos na zona e, até ao momento, não apareceu o/a dono/a deste animal.
Pelo que apelamos aqui a todos os que conheçam pessoas que tenham gatos na Rua Lucília Simões, que verifiquem se não se trata do seu animal.

Paralelamente, necessitamos, com MUITA URGÊNCIA, de alguém que possa acolher temporariamente (ou adoptar) este gato meigo, dado que a pessoa que o recolheu da rua está a desenvolver uma grave alergia ao seu pêlo. Obrigada!

Mais informações: palavraseimagens@gmail.com 96 712 54 03 - 91 970 09 36


Anúncio disponível em: http://www.encontra-me.org/anuncio/39712














domingo, 1 de junho de 2014

MENSAGEM ESPECIAL PARA O/A SACANA QUE ABANDONOU ESTA GATA NUMA COLÓNIA DE GATOS DE RUA, EM BENFICA




(por Alexandra Carvalho)




Fotografias de Alexandra Carvalho (2014)



Saiba, antes de mais, que a sua gata durou, ainda, 3 meses!...
Três tristes e muito sofridos meses, desde que violentamente a abandonou, num dia de muita chuva e frio, com a sua caminha e um saco de ração, na referida colónia de gatos de rua.

Nos primeiros tempos, a sua gata viveu empoleirada em cima de uma figueira (o que fez com que o cinzento do seu pêlo ganhasse tons de castanho, queimado pelo sol), com muito medo do novo espaço aberto ao qual se viu votada, depois de ter conhecido o carinho de um lar. Infelizmente, tal era o seu pânico que nem demos por ela, nos primeiros tempos, apesar de termos visto o que ali lhe deixou (foi pena que, de facto, não tivesse deixado, também, uma nota escrita, explicando qual o problema de saúde que o seu animal tinha… pois, muito tarde, demos por ele e teria sido bem mais simples se tivéssemos sabido de antecedência! Mas os cobardes fazem as coisas pela calada, e está mais visto que sempre se esteve borrifando para a sua gata!).

Depois, com o passar do tempo, a sua gatinha começou a aproximar-se de nós, todas as manhãs e tardes, roçando-se nas nossas pernas a pedir comida, como bom animal doméstico que era. Foi alimentada e acarinhada, apesar daquele não ser o seu local (e, já agora, o saco de ração que lhe deixou, nem para um mês chegou!).

Nas últimas duas semanas de Maio, começou a ter muita dificuldade de locomoção nas patas traseiras e dava dó vê-la, na sua magreza cadavérica, a andar tão devagar e com tanta dificuldade, tentando sobreviver a cada dia que passava, com as parcas forças que ainda tinha. 

Tarde demais descobrimos que ela tinha um tumor mamário enorme, que infectara (o que a impedia de se movimentar correctamente) e que estava completamente infectada pela doença, apesar de sempre ter comido muito bem, ter um olhar esperto e até rosnar aos outros gatos da colónia.

Muito possivelmente, tudo isto nem sequer lhe interessa, pois, quem abandona um animal, normalmente, não tem sequer consciência, para que lhe pese, noites a fio, o acto desumano que praticou… e é, também, capaz de abandonar um qualquer familiar seu!

Quero que saiba que qualquer que tenha sido o motivo pelo qual abandonou a sua gata, não há desculpas possíveis para o acto perverso que praticou. E, muito sinceramente, se quer que lhe diga, só espero que a vida se encarregue de lhe dar a devida compensação pelo que fez a este animal e que, muito em breve, também, você sofra na pele o abandono dos seus filhos ou netos, num qualquer lar sem condições!

Lamento o tom com que me dirijo a si sem o/a conhecer, mas não deploro, de modo algum, o facto de estar a ser tão fria e vingativa nesta mensagem que agora lhe deixo, uma vez que depois de ter passado três dias doente de preocupação, ter perdido a minha 6ª feira à noite e o fim-de-semana à procura da sua gata, tentando apanhá-la para lhe dar um fim de vida digno (fosse ele a eutanásia ou o tratamento, caso este ainda fosse possível), e depois de tudo aquilo a que assisti hoje, é muito natural que, mesmo sendo contra a violência, se o/a senhor/a me aparecesse à frente, neste exacto momento, tivesse a devida resposta pelo que fez a este animal!...

Sabe, é que as 3 pessoas que protegem esta colónia de gatos de rua, em Benfica, não pertencem a nenhuma associação zoófila, não têm recursos ilimitados, nem são super-heróis, tendo tantos ou mais problemas financeiros e familiares do que você tem!...
São pessoas comuns que se preocupam e respeitam os restantes seres vivos, tentando, naquilo que está ao seu alcance, fazer o melhor possível para os ajudar!
Só para que saiba (não que isso lhe diga respeito, mas depois do que fez, merece ouvi-lo!), uma dessas pessoas, com mais de 70 anos, levanta-se todos os dias às 5h da manhã, há mais de 30 anos, vindo a pé do Bairro da Boavista, para alimentar gatos de rua; a segunda pessoa, tem uma Mãe com Alzheimer a quem tem que socorrer diariamente e horários complicadíssimos; e a terceira pessoa, apesar de ser considerada por muitos como “a maluquinha dos gatos” (por ainda pensar, ingenuamente, que consegue salvar todos os fracos e oprimidos deste mundo), trabalha das 9h30 às 18h, e, desde Dezembro, tem que dar um maior acompanhamento à sua família (faltando-lhe tempo para o que quer que seja de extraordinário). Para além disso todas estas pessoas têm os seus próprios animais domésticos e ainda encontram disponibilidade para os animais de rua ou de pessoas sem-abrigo, tendo, por isso mesmo, diversas contas pendentes de pagamento faseado em clínicas veterinárias.

Portanto, não me parece de todo correcto o que você fez (não só para a sua gata, como, também, para estas três pessoas comuns, que não pertencem a uma qualquer associação zoófila – que, também elas, associações, enfrentam, actualmente, os efeitos nefastos desta crise sócio-económica e, sobretudo, de valores, que nos afecta a todos... mas, pelos vistos, em termos de valores mais a uns dos que a outros!).

Se precisava de ajuda financeira para o tratamento do animal - e por isso abandonou a sua gata (o que, também, não é desculpa!), tivesse contactado a Casa dos Animais de Lisboa (Canil/Gatil Municipal de Lisboa) – Tel. 21. 817 23 00, ou a Junta de Freguesia de Benfica (Programa Cheque Veterinário), ou a Associação ANIMALIFE que apoia famílias carenciadas com animais domésticos a seu cargo...
Mas não tivesse “chutado o problema” para outras pessoas que, diariamente, passam tanto ou mais do que você!!!

Só para que saiba, depois de ter sido vista a última vez na passada 6ª feira à noite, e ter andado desaparecida desde então, a sua gata terminou os seus dias assim (como mostram as fotos abaixo), desfalecida debaixo de um carro estacionado, perto da colónia onde você a abandonou!... 
Tendo sido encontrada hoje, por volta da hora de almoço (depois de, durante dois dias, termos percorrido tudo, de lés a lés, à sua procura). 
Estou certa que estas imagens não o/a afectarão, pois só alguém que não tem consciência abandona de uma forma tão fria outro ser vivo, como você fez (mas peço, desde já, desculpas aos demais leitores, que se possam sentir melindrados pelo teor das fotografias)...

Muito honestamente, se quer que lhe diga, apenas lamento por ela (pela sua gatinha) – e a ela devo as minhas desculpas, sem culpa alguma! -, por não ter, desta vez, conseguido chegar mais cedo… Não ter conseguido ter tempo, desde Fevereiro (porque me faleceu um familiar muito próximo), para a tentar capturar com a brevidade de que necessitava e lhe ter dado um final de vida digno, qualquer que ele fosse!

Quanto a si, e na esperança que venha a ler estas linhas, desejo-lhe um futuro tão repleto de dor quanto o que a sua gata viveu durante três meses!
E espero, sinceramente, que nunca mais adopte nenhum animal... porque, para isso, são necessárias responsabilidades e, sobretudo, saber respeitar outro ser vivo (e se não as tem ou sabe ter, mais vale não adoptar nenhum animal... e, já agora, nenhum ser vivo que seja)!!! 






segunda-feira, 26 de maio de 2014

A Quinta de Montalegre e o “Bonifácio” (4)



Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2014)



Capítulo IV - Chuva de dinheiro inunda a cidade de Lisboa. Uma bênção do “Bonifácio”. 


(por Fausto Castelhano **)






Afagou o bigode, fixou os lúzios na figura da bizarra personagem com a identificação “Eis o Bonifácio” e só depois resolveu ler e reler, de ponta a ponta, a insólita novidade arrumadinha no canto superior direito da edição domingueira do “Diário de Notícias” do dia 11 de Junho de 1939.


Eis o Bonifácio (in Diário de Notícias de 11 de Junho de 1939) 


Embora já precavido por dois alertas anunciados no seu jornal de sempre, tanto na véspera (sábado, 10 de Junho de 1939), como também na sexta-feira 9 de Junho de 1939 (1) e aos quais não atribuiu demasiada importância, Augusto Castelhano nem queria acreditar na extravagante notícia pespegada no Diário de Notícias: “Esta tarde choverá dinheiro sobre Lisboa. Das 17 às 19 horas, um avião lançará sobre a cidade os prémios do BONIFÁCIO. Quem apanhar um prospecto numerado a vermelho e tiver em seu poder o retrato do BONIFÁCIO recortado do «DIÁRIO DE NOTÍCIAS» tem garantido o prémio”.



O alerta lançado pelo Diário de Notícias de sexta-feira (9 de Junho de 1939) anunciando a próxima chegada do Bonifácio com o lançamento de milhares de prospectos sobre a cidade Lisboa (in "Diário de Notícias"). 


Augusto Castelhano ficou verdadeiramente embasbacado e os seus pensamentos fervilharam de imediato e conversou com os seus botões: “Ora esta! Parece que esta gentinha anda completamente maluca… Lançar dinheiro pela borda fora d’um avião não lembra ao Diabo mais velho. E quem será este estranhíssimo manganão? Que raio de fenómeno se estará a passar na cidade de Lisboa?” 
E a descrição do fabuloso BONIFÁCIO conseguiu despertar-lhe uma desmesurada curiosidade: “BONIFÁCIO, que temos o prazer de mostrar aos nossos leitores numa reprodução em madeira do desenho dum grande artista, Arnaldo Ressano é, como se vê, um riso aberto, uma simpatia! Dentro de poucos dias, feita a sua apresentação em pessoa, conhecida a aventura da sua descida em pára-quedas e algumas das suas partidas de espírito, BONIFÁCIO será um símbolo de alegria”. E continuava: “Grato ao «Diário de Notícias» pelo interesse que tem tomado falando do seu regresso e tratando-o com amizade, BONIFÁCIO corresponde dispensando gentilezas aos nossos leitores, na verdade a melhor forma de nos cativar”.



O anúncio no Diário de Notícias no dia 10 de Junho de 1939 (in "Diário de Notícias"). 


“Aos nossos leitores de Lisboa se destinam as suas primeiras liberalidades. Como dissemos, um avião lançará hoje prospectos sobre a cidade, entre as 17 e as 18 horas; alguns desses prospectos são numerados a tinta vermelha. O leitor do «Diário de Notícias» que levar consigo o retrato do BONIFÁCIO, recortado do nosso número de hoje, e houver às mãos um prospecto numerado receberá o prémio correspondente”.



A 1ª página da edição do Diário de Notícias do dia 11 de Junho de 1939. 
(in "Diário de Notícias" de 11 de Junho de 1939) 


“Assim, 1 prémio no valor de 500$00 coube ao prospecto com o número 18 (o número favorito do BONIFÁCIO) e 10 prémios de 100$00 - aos prospectos com os números: 1,2,3,4,5,6,7,8,9,10 e ainda, 30 prémios de 50$00 aos prospectos com os números: 11,12,13,14,15,16,17,19,20,21,22,23,24,25,26,27,28,29,30,31,32,33,34,35,36,37,38,39,40, 41”.



A 1ª página da edição do Diário de Notícias de 11 de Junho de 1939. E no canto superior direito, a sensacional notícia e foto do obscuro “Bonifácio” (in "Diário de Notícias" de 11 de Junho de 1939). 


 “As pessoas que tiverem a sorte de apanhar qualquer destes prospectos e o apresentarem na nossa Redacção das 22.00 horas à meia-noite de hoje receberão o prémio correspondente, desde que vão munidas com o retrato do BONIFÁCIO que hoje publicamos”. E no termo do informe: “OS PRÉMIOS DO BONIFÁCIO cairão, esta tarde, do céu sobre Lisboa”. E Augusto Castelhano, carregadinho de ilimitada desconfiança face à excepcional comunicação, teria certamente matutado: “Mas que ideia tão estrambótica, louvado seja Deus. Amanhã, o melhor será apontar o nariz p’ró céu, abrir os farolins de par em par e permanecer atento aos acontecimentos, talvez com um pouco de sorte, seja contemplado com um papelucho vermelho com direito a prémio chorudo. A ver vamos”.



Anúncio dos Rádios MINERVA inserido na 1ª página da edição do Diário de Notícias de 11 de Junho de 1939 (Foto Wikipédia). 


Ora, na manhã do dia seguinte, segunda-feira 12 de Junho de 1939, quando o ardina chegou à Quinta de Montalegre e fez soar o badalo do portão de entrada da Rua dos Soeiros, 193, Maria Augusta foi abrir de imediato e, logo que recebeu o jornal (Diário de Notícias), recomendou-lhe de chapuz: “Olhe que o meu marido é freguês certo, portanto, faça o favor de não se esquecer de reservar o jornal todos os dias antes que se esgote. Parece que andam p’rá aí a lançar dinheiro do céu, não sabemos que raio de maluqueira se estará a passar, mas pelos vistos só entregam as notas do Banco mediante uns recortes que vêm no jornal”. E o vendedor de jornais que fazia a habitual ronda matinal na distribuição das publicações pela clientela da freguesia de Carnide, além doutros locais dos arredores retorquiu: “A D. Augusta pode estra descansada. Não me vou esquecer. Então, até amanhã!”



O tenebroso Millan Astray veio a Lisboa agradecer ao governo de Oliveira Salazar todo o apoio concedido ao generalíssimo Franco e seus sequazes contra o governo legítimo da República de Espanha (Foto Wikipédia). 


Após o almoço e antes de dormir a sesta como habitualmente (até cerca das 16.00 horas quando se levantaria a fim de proceder a medição do leite da ordenha da tarde a cargo do vaqueiro e amigo Manuel Rodrigues, o saudoso ti’Conde), Augusto Castelhano ainda agarrou no "Diário de Notícias" e passou uma rápida vista de olhos pelos títulos insertos na 1ª página do matutino, porque uma leitura mais cuidada ficaria para depois do jantar. Assim e a “letras gordas” sobressaía um conjunto de várias notícias da actualidade, a saber: “MILLAN ASTRAY chega hoje a Lisboa onde lhe estarão preparadas entusiásticas manifestações”. E a completar: “O poeta e orador José Maria Peman chegará amanhã em avião à Granja do Marquês”; “O CHEFE DO ESTADO AGRADECE A FRANCO as saudações enviadas pelo Generalíssimo aquando da recente reunião do Conselho Nacional da Falange Tradicionalista e das Jons” (Juventud Obrera Nacional Sindicalista). Mais duas notícias: “SÃO NUMEROSAS AS CRIANÇAS QUE FICARAM NA ORFANDADE por causa da catástrofe de Ponte do Lima” (incluía uma foto com a seguinte legenda: “O viúvo e os seis órfãos de Conceição Martins Feijó”. Uma pequena nota no canto inferior direito e originária de Londres: “FOI ESQUARTEJADA UMA MULHER, tendo aparecido uma cabeça, um braço e uma perna envolvida em jornais, num atalho isolado, perto duma aldeia inglesa”. Além de outras novidades de menor importância, cerca de metade da 1ª página do Diário de Notícias estava dedicada ao obscuro BONIFÁCIO. Encontravam-se incluídas quatro fotos e um extenso texto titulado a letras maiúsculas a propósito das peripécias ocorridas no dia anterior e onde avultava o voo do avião que lançara milhares de prospectos sobre a capital lisboeta, relatadas nestes termos: 



“Chega dentro de dias” 
O BONIFÁCIO!



O avião que distribuiu os prospectos de “Bonifácio” voa sobre a capital (in "Diário de Notícias" de 12 de Junho de 1939). 


“ENTRE OS MILHARES DE PROSPECTOS LANÇADOS ONTEM DE AVIÃO SOBRE A CIDADE A ANUNCIAR A CHEGADA DE BONIFÁCIO FORAM DISTRIBUÍDOS três mil escudos”  

“Bonifácio constituiu ontem, sem dúvida, o grande assunto do dia. Logo de manhã cedo, Lisboa alvoraçou-se. O Diário de Notícias não deixou de aparecer, como prometera, com a garantia de que, as primeiras liberalidades de Bonifácio iam tornar-se, ao cair da tarde, um facto insofismável” 
“Após tantos dias vividos com a curiosidade acicatada pelo mistério desse Bonifácio excêntrico, amável, mas inteiramente desconhecido, o lisboeta não pôde furtar-se a algumas considerações de ordem, talvez muito íntimas mas profundamente humanas”. 
“Quem não teria pensado com alguma fagueira esperança na fácil possibilidade de apanhar um dos prospectos premiados que o capricho de Bonifácio faria espalhar, às mãos largas, pelo céu de Lisboa? O certo é que, se houvesse quem, desde manhã cedo, se desse a querer descobrir o local preferível para aguardar a passagem do avião de Bonifácio, não faltou também quem saísse à rua sem cogitações de maior e apenas entregue à filosofia simples de que, aqui ou ali, numa rua ou num largo, havia de ser o que Bonifácio quisesse”. “Quando por volta das cinco horas, as asas claras do avião do «Diário de Notícias» surgiram, finalmente, muito baixo, sobre o casario da cidade, pode bem dizer-se que a cidade em peso pensou em Bonifácio. Mal os prospectos, aos milhares, começaram a ser lançados, os olhos estavam postos nesses prospectos, não diremos como se eles representassem uma autêntica sorte grande, mas com a certeza de que traduziam uma pequenina sorte bem fácil de agarrar. A questão estava, afinal, como sempre, em conseguir agarrá-la”.



Um dos muitos aspectos de interesse que Bonifácio despertou ontem no público de Lisboa. 
(Foto "Diário Notícias") 


“No Rossio, nas ruas da Baixa, na Avenida, no Parque Eduardo VII, nas Avenidas Novas, no Estádio - enfim - em toda a cidade, de Belém ao Poço do Bispo, do Terreiro do Paço ao Lumiar, a população de Lisboa passava a tarde a olhar o céu, a seguir o voo do avião do «Diário de Notícias», a ver e a correr, muitas vezes na ânsia de apanhar os almejados prospectos do extravagante e generoso Bonifácio”. E Bonifácio, fiel à sua palavra, foi deste modo e indiscutivelmente, a grande e amena distracção do lisboeta durante o dia de ontem”


Lisboa vista do ar 

“O «Diário de Notícias» colocou ao serviço de Bonifácio, a fim de cumprir as suas determinações quanto à chuva de dinheiro sobre Lisboa, um avião “CUB” de 50 cavalos, oriundo da “Escola “Manuel Bramão”. Mais de quarenta quilogramas de prospectos foram colocados no avião que estava na pista de Alverca, de tal forma que, durante a manobra de lançamento, os prémios estivessem equitativamente distribuídos”.



O nosso redactor Mário Rosa subindo para o avião. 
(Foto publicada no "Diário de Notícias") 


“A bordo do avião seguiu o nosso camarada Mário Rosa que procedeu ao lançamento dos prospectos anunciadores da vinda de Bonifácio, com o objectivo de que eles se espalhassem por todos os bairros da capital. Onde primeiro caíram esses prospectos, foi para os lados das Avenidas Novas”. “O vento soprava um pouco do lado norte, atravessando o Tejo, de maneira que houve a preocupação de que esses impressos, que representavam dinheiro e podiam proporcionar momentos de alegria aos nossos leitores, não fossem cair no rio”. “O fim da iniciativa do Bonifácio era contemplar o maior número possível de pessoas. Esse fim foi plenamente atingido. De bordo do avião assistimos às correrias no Rossio, o que bem demonstrava o bom lançamento dos prospectos”. “De lés-a-lés, a capital foi alvo de um ataque aéreo de efeitos benéficos: dar dinheiro. Eis uma simpática missão da aeronáutica às ordens de Bonifácio”


Bonifácio chega no próximo domingo 

A história dos prémios e a alegria dos premiados 

“Do céu, aos trambolhões, caíram centenas, milhares de papéis e entre esses, algumas dezenas tinham um número a vermelho, nem todos eram “brancos”. Cada um desses tem uma história, uma história diferente da anterior e que só se encontra num ponto: na satisfação que todos sentiram em ter recebido um presente do Bonifácio”. “Bonifácio, se subsistissem algumas dúvidas sobre o seu sentido de justiça e de amizade para com os seus semelhantes provaria, desta vez, o seu amor e o seu interesse por todos os que necessitam e trabalham. Com prospectos premiados passaram à nossa frente todas as classes sociais: do pequeno proprietário ao ardina, do funcionário público ao aprendiz de pedreiro”.



António Cardoso, empregado do Café Chave d’Ouro foi premiado com 50$00. Nos anos 40 e 50 do século XX foi local de oposição ao regime vigente de então, o chamado Estado Novo. Em Maio de 1956 alberga o lançamento da candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República em cuja conferência e à pergunta da France Press: “Qual a sua atitude para com o Sr. Presidente do Conselho se for eleito? Proferira a célebre resposta: “Obviamente- demito-o” (in “Restos de Colecção"). 


“Garotos, homens, mulheres (não fosse ele o ídolo das mulheres) receberam dádivas valiosas de Bonifácio. Mas não basta dar, é preciso saber dar. E Bonifácio demonstrou que sabe dar…sem ofender. Então não é simpático o seu gesto de aproveitar a estadia em Lisboa do Sr. Alberto da Silva Pimentel, proprietário no Gavião, para lhe deixar cair nas mãos, quando estava numa bancada a assistir a um desafio de Football, o prospecto com o número 2, igual a 100 escudos?” “E o caso do comerciante Sr. António José Silva, que foi encontrar no telhado, mesmo junto ao cano do algeroz, um bilhete de 50$00… E se chovesse? Lá se ia o dinheiro pelo cano abaixo”. “O Sr. António Cerqueira Caldas é que teve sorte. Não se incomodou, não correu para apanhar os prospectos, não teve questões. Limitou-se a ir tomar o fresco para o quintal da sua residência. E que viu ele entre as flores e as couves? Um bilhete do Bonifácio - um só, mas este com 50$00. À Sr.ª D. Maria Rosa Lourenço sucedeu quase o mesmo - foi apanhar o prospecto na cascata do seu jardim. Para quê negar que estamos orgulhosos desta equitativa distribuição?”.



Jacinto Paulo Sousa, contemplado com 500$00 residia na Vila Cândida, nº 15, R/C, Freguesia da Penha de França, em Lisboa. 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1940 do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa) 


“Ao Sr. Francisco da Silva Moutela entrou-lhe o dinheiro pela porta dentro. Estava à porta do seu estabelecimento de bebidas quando viu que, mansamente, descia um papelucho. Apanhou-o, resultado, mais um premiado. O pequeno Carlos Jacinto é aprendiz de pedreiro. Deve ter chegado da sua aldeia há poucos meses e a nostalgia do campo levou-o ontem para o Parque Eduardo VII. Pois foi lá mesmo que a sorte o foi procurar, brindando o pequenito trolha com 50$00 - uma fortuna que ele levaria mais de uma semana a ganhar. Não foi este o único garoto a quem Bonifácio sorriu”. “Ao pequeno José Correia Quá, estudante de primeiras letras, coube-lhe 50$00. Que teria sentido o Mário Pinto Rodrigues - ardina por profissão, garotão por sentimento - quando apanhou um prospecto com 100$00? Os senhores já pensaram o que será um ardina com uma nota de cem? O António Cardoso é um daqueles moços vestidos à estudante de colégio inglês que o Café Chave de Ouro mantem entre o seu pessoal. Pois ontem passava na Rua do Ouro e, zás: 100$00 do Bonifácio”. “O porteiro do Café Palladium não esteve com meias medidas, apanhou o nº1. Até parece que se estabeleceu competição entre os dois estabelecimentos… O certo é que este dinheiro veio fazer a felicidade de muita gente - felicidade transitória é certo, mas a eterna existe acaso? Que o diga a serviçal Antónia da Conceição, que estava perto de casa a pensar nas agruras da vida e que viu descer do céu um mês de ordenado… E o caso do cozinheiro José Tudon que foi para o telhado apanhar um prospecto da primeira dezena? E mais, e tantos outros casos, todos diferentes, todos risonhos, todos comovedores, no fundo”. Bonifácio é galante com as damas”: “Um exemplo: a Sr.ª D. Rita de Assunção Ferreira, que foi encontrar na varanda, junto dos seus lindos cravos amarelos, um presente do simpático e inigualável Bonifácio. A verdade é que o nosso herói adora os cravos e raro é o dia em que um não lhe brilha na lapela”. “Esta senhora, ao conhecer este fraco do Bonifácio, prometeu-nos vir até cá no Domingo com um ramo dos seus lindos cravos. Desde já, em nome do Bonifácio, muito obrigado, minha senhora”.



Os contemplados com os prémios do Bonifácio vendo-se entre eles (X), Jacinto Paulo de Sousa, premiado com 500$00 (in Diário de Notícias de 12 de Junho de 1939) 


“Perguntará, agora, o leitor: E esse célebre prémio de 500$00, esse número dezoito? Pois vão à Vila Cândida, nº15, rés-do-chão, e perguntem ao sr. Jacinto Paulo de Sousa como foi que, indo ontem pela Rua de Santa Marta viu cair os prospectos anunciando a vinda do Bonifácio, pôs um pé em cima de um e…apanhou 500$00”. “Perguntem-lhe e ele lhes dirá a sua gratidão pelo Bonifácio”: Deram-me um arranjo…Parece que nem de propósito. Numa altura destas…O Bonifácio é assim. Dá a quem precisa para levar aos lares tristes uma gargalhada de boa disposição”


Prémios pagos ontem à noite 

Além do prémio mais valioso de 500$00 atribuído a Jacinto Paulo de Sousa (Vila Cândida, nº15, r/c, empregado do comércio), seguia-se uma lista de 9 premiados com 100$00 e outro conjunto de 14 beneficiados com 50$00 e onde se referiam, também, as respectivas profissões e locais de residência. 


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E chega o dia 13 de Junho, o dia festivo de Santo António de Lisboa que o "Diário de Notícias" assinala condignamente com figura alusiva aos Santos Populares e versos de Acácio de Paiva.



Figura e versos alusivos ao Dia de Santo António (in "Diário de Notícias" de 13 de Junho de 1939). 


Outros títulos a destacar na 1ª página: “600 LEGIONÁRIOS E 400 POLÍCIAS fazem amanhã exercícios nocturnos no Bairro do Arco do Cego”; “A OBRA DO SR. MINISTRO DAS COLÓNIAS na ilha portuguesa de Timor”. E titulado com enormíssima saliência: “O FUNDADOR DO “TÉRCIO”, GENERAL MILLAN ASTRAY ESTÀ EM LISBOA DESDE ONTEM para as homenagens aos “Viriatos. E a completar: “Portugueses e espanhóis acolheram entusiasticamente o garboso cabo-de-guerra”. Seguia-se um dilatado texto relativo ao evento e que englobava quatro deploráveis fotos do torcionário espanhol, reflectindo de modo claríssimo o ambiente de intolerância que se vivia na época em ambos os países peninsulares.



O generalíssimo Francisco Franco e o general Millan Astray, dois temíveis quanto sanguinários personagens da Guerra Civil de Espanha (Foto Wikipédia). 


Eis as legendas das fotos publicadas: “Millan Astray na Casa de Espanha durante a execução do hino da Legião Estrangeira” e onde, orgulhosamente de braço estendido, os convivas faziam a saudação nazi-fascista; “Millan Astray entrevistado por um redactor do Diário de Notícias”; “Millan Astray põe no peito do alferes Coelho da Rocha a sua medalha de Caballero Mutilado" e, na última foto, “Abraçando o capitão Jorge Botelho Moniz”. Enfim, um bando de gentalha pouco recomendável no rescaldo da Guerra Civil de Espanha (17/18 de Abril de 1936/1 de Abril de 1939).



Os “Viriatos” em terras espanholas onde combateram ao lado das tropas golpistas de general Francisco Franco contra o governo legítimo da República de Espanha (Foto Wikipédia). 


Outras notícias de interesse: “O OBSERVATÓRIO METEREOLÓGICO INFANTE D.LUÍS foi ontem visitado pelo Chefe do Estado, o que já não acontecia há 31 anos”; “VAI SER CONSTRUÍDO UM BAIRRO ECONÓMICO EM XABREGAS".



O Observatório Meteorológico do Infante D. Luiz (1853 - 1946), ou Instituto do Infante D. Luís, foi um observatório meteorológico construído na cerca da Escola Politécnica de Lisboa, onde actualmente se encontra o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa. O observatório meteorológico veio a ser também denominado Instituto do Infante D. Luís. Em 1946, com a criação do Serviço Meteorológico Nacional assumiu o estatuto de estabelecimento anexo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Foto e texto Wikipédia) 


Quanto ao benquisto Bonifácio, o "Diário de Notícias" colocou uma aparatosa epígrafe anunciando a sua chegada no próximo Domingo, 18 de Junho de 1939. Assim: 


NO PRÓXIMO DOMINGO 
BONIFÁCIO CHEGARÁ DE AVIÃO A LISBOA E DESCERÁ EM PÁRA-QUEDAS 
entre a Praça dos Restauradores e o Parque Eduardo VII. 
Foram ontem distribuídos mais alguns prémios do Bonifácio. 

“Como se viu pela nossa reportagem, o primeiro contacto palpável de Bonifácio com os seus amigos de Lisboa (até agora, mais trinta pessoas apalparam as notas de 500, 100 e 50 escudos) constituiu um acontecimento na cidade. Alvoraçaram-se e encheram-se de alegria, na tarde de domingo, todos os bairros com a ideia da chuva de dinheiro; e, pelo belo serviço que fez o avião “CUB”, da Escola Manuel Bramão, os prospectos foram cair em pontos diversos permitindo uma distribuição feliz, porque foram parar na sua quase totalidade, a pessoas necessitadas, como se a mão do justo e generoso Bonifácio, pudesse guiar a mão de quem lançou os papéis e dominar os ventos desfavoráveis.”



No próximo Domingo, chegará de avião a Lisboa e descerá em paraquedas entre a Praça dos Restauradores e o Parque Eduardo VII (in Diário de Notícias de 13 de Junho de 1939).   


“Cumpriu-se, assim, admiravelmente o que fora anunciado e os poucos prémios que não foram, até agora reclamados, porque os prospectos que caíram em quintais de casas desabitadas ou em telhados, em que ainda se conservam, serão pagos até sábado próximo, véspera da chegada de Bonifácio, se alguém os houver às mãos até lá, se algum saldo houve”.



Anúncio do Fermento em Pó Nacional afixado na 1ª página do Diário de Notícias do dia 14/6/1939: “Use fermento em pó nacional” (in "Diário de Notícias"). 


Entretanto, o povoléu da cidade de Lisboa e arredores entrou em absoluta paranóia incitado massivamente, tanto pelos prospectos caídos do céu e que valiam dinheiro, como pela propaganda incisiva movida por intermédio das edições do "Diário de Notícias" o qual, na 1ª página da edição do dia 14 de Junho de 1939, surgia com as seguintes manchetes e onde avultava o título destacadíssimo a propósito da Exposição Mundial de Nova York de 1939/40: “UMA MENSAGEM DE SALAZAR AOS PORTUGUESES DA AMÉRICA DO NORTE”. Seguidamente e com letras mais pequenas: “Toda a nossa política se reduz, afinal, a fazer com que os portugueses sejam em tudo dignos das tradições da sua Pátria e mostrar-lhes que a Pátria é, pelo ressurgimento operado em todos os campos, digna do amor e dedicação dos seus filhos”.



O pavilhão de Portugal na Exposição Mundial de Nova York de 1939/40 (Foto Wikipédia) 


Pois é, mas as prisões políticas do “regime”, desde Caxias a Peniche, Aljube e Angra do Heroísmo, até ao Campo de Concentração do Tarrafal encontravam-se atulhadas de patriotas portugueses… 
Outros títulos: “A GRANDE PROVA DO CICLISMO PORTUGUÊS PROMOVIDA PELO DIÁRIO DE NOTÍCIAS terá este ano carácter internacional com a vinda de várias equipas estrangeiras”; “FOI DESCOBERTO UM IMPORTANTE ROUBO praticado no solar do visconde do Alcaide (Coimbra) dias antes do falecimento deste titular”; Com alguma visibilidade e acompanhada do respectivo mapa das concessões estrangeiras de Tien-Tsin: “COMEÇOU O CÊRCO À CONCESSÃO BRITÂNICA DE TIEN-TSIN”.



O mapa mostra as concessões estrangeiras de Tien-Tsin. As concessões Francesa e a Britânica encontram-se circundadas por arame farpado ali colocado pelos japoneses antes do actual incidente (in "Diário de Notícias" de 14 de Junho de 1939). 


E ainda: “A QUESTÃO DE DANTZIG pode levar a Polónia a invocar o Tratado de Versalhes”. Trazia anexada uma imagem com a legenda: Um aspecto típico de Dantzig: “A famosa torre medieval de tijolo e madeira erguida numa das margens do Vístula”



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Pois bem, e no que toca ao famigerado Bonifácio eram difundidas algumas novidades. Não só fora inserida a listagem dos cidadãos premiados no dia anterior, mas também seria lançado o 1º cupão relativo à sílaba inicial da palavra “Bonifácio”: BO. Perante tão importante dado, Augusto Castelhano aconselhou a esposa, Maria Augusta, que “dali em diante tomasse as devidas cautelas e não se esquecesse de guardar os jornais ou pelo menos, os cupões, pois nunca se sabe p’ra que lado o Destino se iria virar”
E a difusão do fenomenal Bonifácio continuava em grande estilo: “SOBRE LISBOA EM PÁRA-QUEDAS, BONIFÁCIO VAI LANÇAR-SE NO PRÓXIMO DOMINGO”. E logo a seguir: “UM PRÉMIO DE 2.000$00 a quem o conduzir ao Diário de Notícias com a colecção completa dos cupões que começamos hoje a publicar”.



A resenha dos acontecimentos do dia anterior relativos ao Bonifácio e a publicação do primeiro cupão com a primeira sílaba BO (in "Diário de Notícias" de 14 de Junho de 1939). 


E insistia: “Já não faltam muitos dias para que a ansiedade da população de Lisboa seja acalmada com a presença de Bonifácio. O herói de tantas proezas e aventuras, todas inspiradas numa alegria sã e num fim generoso, vai aparecer, enfim, aos olhos de milhares e milhares de curiosos, alguns já muito agradecidos, como sejam aqueles que receberam as suas primeiras lembranças no domingo passado”. “Bonifácio não necessita de reclamos, porque, além de ser um génio alegre, principia a ser considerado mascote. Bonifácio traz consigo, além da boa disposição, a sorte para aqueles que o fitarem com fé e principalmente para o primeiro que tiver a ventura de o tocar”. “Limitamo-nos, por isso, a repetir a boa nova: Bonifácio chegará no próximo domingo à tarde de avião. Bonifácio lançar-se-á em pára-quedas, entre os Restauradores e o Parque Eduardo VII. Bonifácio será portador de um Prémio de DOIS CONTOS para a pessoa que o apanhar e o levar ao Diário de Notícias”.



O anúncio da “Volta a Portugal 1939” em bicicleta 1ª página do Diário de Notícias (in "Diário de Notícias" de 14/6/1939). 


“BONIFÁCIO, dado o seu carinho pelo nosso jornal, exigirá apenas, a quem venha a ter a sorte de o acompanhar, um pequeno cuidado: ir munido na tarde do próximo domingo, 18 de Junho, com os recortes dos cinco cupões que, de hoje até lá, publicaremos com as cinco sílabas do seu nome glorioso: BO-NI-FÁ-CI-O”
E o assunto sobre o Bonifácio termina com a alusão aos premiados do dia anterior: “Dos prémios que o Bonifácio distribuiu no passado domingo, por avião, foram entregues mais três de 50$00: Maria Helena Martins Saraiva, estudante; Félix Ruivo, fiscal de vinhos; António Tavares, tipógrafo). Há ainda, espalhados pela cidade, sete prospectos do Bonifácio premiados”



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E no dia seguinte, 15 de Junho de 1939, inserido na primeira página do "Diário de Notícias", sobressaía um título em grandes parangonas embandeirando em arco: “UM SALDO DE 240 MIL E 800 CONTOS nas Contas Públicas. OS IMPOSTOS INDIRECTOS RENDERAM mais de 109 mil e 500 contos do que a verba calculada em orçamento”
Pois é, mas o povinho continuava na mais negra das penúrias, afora a violenta repressão exercida pelas forças policiais ou militarizadas: a Legião Portuguesa e a implacável PIDE (Polícia de Vigilância e de Defesa Estado), além de formidável contingente de incontáveis informadores vulgo, bufos, recrutados em todas as classes sociais da sociedade portuguesa. 
Com algum impacto e associada a quatro fotos, a seguinte informação: “NOVECENTOS HOMENS; CARROS DE ASSALTO E AUTO-METRADORAS DA P.S.P. E DA “LEGIÃO” fizeram exercícios de conjunto ontem à noite no Arco do Cego”
Ainda outras notícias: “DUAS HORAS DE RÍTMO na Estufa-Fria do Parque Eduardo VII” mostrando, também uma elucidativa imagem de um grupo de simpáticas crianças em plena exibição;



Exibição dum grupo de crianças na festa “Duas horas de ritmos” realizada na Estufa-Fria do Parque Eduardo VII (in "Diário de Notícias" de 15 de Junho de 1939). 


Um drama passional: “DIZE UMA PALAVRA QUE ME SALVE”, suplicava o criminoso à sua vítima depois de a ter esfaqueado”; Uma fotografia remetia os leitores para a página 5. Constava de um grupo de personalidades que rodeavam o celerado Millan Astray, os quais de braços estendidos, exteriorizavam a sua ideologia fascista. A legenda: “Millan Astray com o Embaixador de Espanha na sua chegada à sede da União dos Inválidos de Guerra”;



Millan Astray com o Embaixador de Espanha na sua chegada à sede da União dos Inválidos de Guerra (in "Diário de Notícias" de 15/6/1939). 


“300 CRIANÇAS partiram ontem para a Colónia Balnear da Cruz Quebrada (com foto); “ESTÃO QUASE TERMINADAS as obras da Avenida Almirante Reis” (incluía foto a condizer); “A VIAGEM PRESIDENCIAL FOI MARCADA PARA AS 18 HORAS DO PRÓXIMO SÁBADO a partida do Colonial” (referia-se à segunda viagem presidencial ao Império Colonial Português). 



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Entretanto, a saga em torno do fabuloso Bonifácio continuava em níveis elevados, agora com a inserção do cupão nº 2 (a sílaba NI) e o anúncio da descida em paraquedas no próximo Domingo que se previa deveras espectacular: “DOMINGO, das 18 para as 19 horas” “A POPULAÇÃO DE LISBOA ASSISTIRÁ À EMOCIONANTE DESCIDA DE BONIFÁCIO EM PÁRA-QUEDAS”



As novidades do Bonifácio e que incluía o cupão nº 2 com 2ª silaba da palavra Bonifácio: NI (in "Diário de Notícias" de 15 de Junho de 1939). 


“Toda a gente pode habilitar-se ao Prémio da Recepção do Bonifácio, ESC.2.000$00, coleccionando os cupões que o DIÁRIO DE NOTÍCIAS está a publicar. É hoje publicado o 2º cupão que dá direito ao PRÉMIO DA RECEPÇÃO DO BONIFÁCIO: dois-passos para o grande acontecimento do PRÓXIMO DIA 18, que será um Domingo cheio de alegria e de esperança”. 
“O simpático amigo do Diário de Notícias surgirá no céu azul de Lisboa, num belo avião, voará muito baixo sobre a Praça dos Restauradores e a Avenida da Liberdade e descerá em pára-quedas das 17 para as 19 horas, conforme temos informado. Quem o encontrar e o levar à nossa Redacção receberá um prémio de 2.000 escudos. Só temos que recomendar aos nossos leitores interessados na aparição do alegre e generoso Bonifácio que não se esqueçam de ir recortando os cupões”



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Chegara a antevéspera da vinda do amistoso Bonifácio e a edição do "Diário de Notícias" de Sexta-feira, 16 de Junho de 1939, anexando o cupão nº3 com a sílaba FA, ajudava à festa excitando tudo e todos. Vejamos: 


BONIFÁCIO chega depois de amanhã e trás notícias sensacionais. 
BONIFÁCIO descerá em paraquedas das 18 para as 19 horas. 
BONIFÁCIO lançará do seu avião milhares de prospectos anunciando iniciativas do «DIÁRIO DE NOTÍCIAS».



Bonifácio chega depois de amanhã e trás notícias sensacionais (in "Diário de Notícias" de 16 de Junho de 1939).  


“É já depois de amanhã que Bonifácio surgirá no seu avião sobre a cidade de Lisboa. Entre as 18 e as 19 horas, quando voar baixo sobre a Avenida, os seus inumeráveis admiradores procurarão ansiosamente distinguir na carlinga a sua face risonha, que só por si inspira boa disposição. Depois, Bonifácio elevar-se-á para estudar o ponto exacto da sua descida em pára-quedas, que não será, em caso algum, no Parque Eduardo VII, pelo acidentado do terreno e ainda pelo risco de algum pé-de-vento desviar o aparelho para o lago”.



O cupão nº 3 com a terceira sílaba (FÁ) da palavra Bonifácio (in da edição do "Diário de Notícias" de 16 de Junho de 1939).  



O prémio de dois mil escudos 

“O prémio de dois mil escudos será entregue a quem o conduzir ao Diário de Notícias. As credenciais junto do Bonifácio (isto é, o que habilita ao prémio quem primeiro dele se aproximar) serão os cupões com as sílabas do seu nome, dos quais hoje publicamos o terceiro: Chegada do BONIFÁCIO - O prémio de 2.000$00 que Bonifácio dará a quem o apanhar, no próximo Domingo, quando ele se lançar do avião, em pára-quedas, só será entregue mediante a apresentação de 5 cupões do «Diário de Notícias» com as sílabas BO-NI-FÁ-CI-O. Cortar e guardar. 



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Outros títulos que ressaltavam na primeira página do matutino lisboeta a que se seguiam os respectivos desenvolvimentos: “RESUMO DAS CONTAS PÚBLICAS DE 1938. UMA IDEIA CLARA MAS SUCINTA DA NOSSA ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA”. E depois: “Para chegar a tais resultados foi preciso fazer grandes reformas nas contas, na Fazenda, nos impostos, na dívida, nas pautas e montar em bases diversas os serviços”;



A ponte internacional de Tien-Tsin (in "Diário de Notícias" de 16/6/1939).  


“O JAPÃO MOSTRA-SE DECIDIDO A EXIGIR A REVISÂO TOTAL DA POLÍTICA BRITÂNICA NA CHINA e ameaça tomar novas medidas contra a concessão de Tien-Tsin. Navios nipónicos estabeleceram o bloqueio a Amoy” (foto da ponte internacional de Tien-Tsin); “A VOLTA A PORTUGAL- 1939 (trazia anexada uma fotografia com os delegados dos clubes desportivos concorrentes); “O COMISSÁRIO GERAL DA EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS reuniu ontem num almoço íntimo os seus mais directos colaboradores” (agregava uma fotografia do evento com a legenda: “O Sr. Dr. Augusto de Castro na presidência do almoço”. Um extenso artigo a propósito da próxima visita do Presidente da República à África Portuguesa encontrava intitulado deste modo: “O SIGNIFICADO DA VIAGEM PRESIDENCIAL”.



Anúncio das Bolachas Araruta na 1ª página do Diário de Notícias do dia 14/6/1939: “Use fermento em pó nacional” (in "Diário de Notícias"). 


Acrescentemos mais duas pequenas notícias: “UM VISIONÁRIO QUE QUIS IR A MARTE E FOI PARAR À CADEIA; “AS OBRAS CAMARÁRIAS PARA TRANSFORMAÇÃO E EMBELEZAMENTO DE LISBOA previstas no programa de comemorações centenárias prosseguem activamente” (Foto com o seguinte rótulo: “Os vereadores observando as obras de prolongamento da Rua Alexandre Herculano”). 



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Chegou sábado, 17 de Junho de 1939 e a 1ª página do matutino da Travessa da Queimada / Rua do Diário de Notícias (antiga Rua dos Calafates, focava diversos assuntos: “MILLAN ASTRAY que ontem foi recebido pelo Sr. Presidente do Conselho regressa hoje ao seu país”, avivada através de foto com o celerado militar espanhol. Assim: “Millan Astray com o Embaixador de Espanha e outras individualidades na festa de ontem”; Enquadrado com a imagem do infortunado submergível navegando em pleno alto-mar: “MAIS UM SUBMARINO QUE DESAPARECEU: O “PHENIX”, um dos mais poderosos submersíveis franceses imergiu anteontem ao largo de Saigon, com 71 homens a bordo e não voltou à superfície”.



O Presidente do Estado, Óscar Carmona e o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar (Foto Wikipédia).  


No entanto, mais de metade da página encontrava-se dedicada à próxima visita do Presidente da República a África. Assim, titulado em letras garrafais: “O CHEFE DO ESTADO (ÓSCAR CARMONA) parte hoje às 18 horas para a visita oficial a Cabo Verde, Moçambique e União Sul-Africana”.



O paquete “Colonial” (pintado de branco) frente ao Cais das Colunas, tal como conduzirá o Chefe do Estado na sua viagem a África (Foto Wikipédia). 


“Extenso texto acentuado por vários subtítulos: “A homenagem da Aviação”; “O cortejo fluvial”; “O itinerário da viagem”; “A divisão naval que escolta o Chefe do Estado”; “Os enviados especiais que acompanham o Chefe do Estado” (Imprensa estrangeira); “Uma expressiva homenagem do Clube Náutico e da Sociedade de Propaganda de Cascais”
A notícia do retumbante acontecimento incluía a inserção de quatro fotografias relativas ao excepcional evento e respectivas legendas: “Uma expressão optimista do Chefe do Estado”; “O senhor Presidente do Conselho foi ontem à noite a Cascais despedir-se do senhor Presidente da República”; “Dr. Francisco Vieira Machado, Ministro das Colónias”; “O paquete “Colonial”, todo pintado de branco, tal como conduzirá o Chefe do estado na sua viagem a África. África”
Outras notícias: “MIL AVIÕES FRANCESES E BRITÂNICOS tomarão parte numa grande manifestação de forças aéreas que vai realizar-se em Paris de 16 a 17 do próximo mês”;



Aviões Spitfire vão tomar parte num festival aéreo que se realizará em Paris nos dias 16 e 17 de Julho (Foto Wikipédia). 


“PRINCIPIA HOJE o primeiro voo histórico entre os Estados Unidos e a Europa”; “O Japão intensifica a sua política anti-britânica”. Ler noticiário na 5ª página. 



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Pois bem, a finalizar o noticiário e alinhado no canto inferior direito, algumas informações sobre a chegada do benemérito Bonifácio onde se encontrava, também afixado o 4º cupão com a sílaba CI:



O 4º cupão afixado na 1ª página do Diário de Notícias do dia 17 de Junho de 1939 (in Diário de Notícias) 



DOIS CONTOS a quem apanhar 
AMANHÃ, DAS 18 PARA AS 19 HORAS 
O BONIFÁCIO que desce em paraquedas sobre Lisboa 

“Os amigos do Bonifácio e as pessoas que estão guardando os cupões para a sua recepção contam as horas, contam os minutos que faltam para a sua chegada triunfal. Não será muito longa essa ansiedade, porque o grande acontecimento está marcado para amanhã, das 18 às 19 horas, o Bonifácio, homem moderno, prima em ser pontual”
“O avião voará baixo sobre a cidade e subirá a Avenida lançando prospectos que anunciarão agradáveis surpresas ao público e principalmente aos leitores do Diário de Notícias”. “Depois, Bonifácio elevar-se-á para escolher o ponto mais favorável para a descida em paraquedas. Esse ponto não será em caso algum o Parque Eduardo VII”
“É amanhã, pois o grande dia. Quem levar recortados os 5 cupões (de que hoje damos o nº4) e for o primeiro a tomar contacto com o nosso herói terá o prémio de 2.000 escudos”



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Enfim, a passos largos aproximava-se o momento culminante em que o famoso Bonifácio seria lançado em paraquedas e, finalmente abraçaria o povo da cidade de Lisboa. 
A antevéspera de todas as sensações chegou, o povo da cidade de Lisboa estoirava de inconcebível alvoroço e prantava-se de fuças empinadas p’ró firmamento mal pressentia o roncar de qualquer avião. Jamais tamanha doideira atormentara a população alfacinha. 
E Augusto Castelhano que também já embarcara na onda eufórica provocada pela vinda do almejado “Bonifácio” voltou a rogar à cara-metade Maria Augusta que não perdesse de vista nem os jornais e, muito menos todos os cupões se, por porventura, já os recortar. 
“Agora, mais que nunca, uma vez que o filho António resolveu andar parvamente encrencado e garante a toda a gente que encontra pelo caminho que será ele, ele mesmo que vai apanhar o estupor do Bonifácio. E mais, mal entra em casa ou na alfaiataria da Avenida Casal Ribeiro, não pensa noutra coisa. Ainda se vai lixar com o patrão, agora que vai bem encarreirado na arte que escolheu. É um verdadeiro massacre todo o santo-dia, louvado seja Deus. Andam todos doidos, rás-parta o maldito Bonifácio”
A esposa Augusta, sempre atarefada com os múltiplos afazeres domésticos, há muito tempo que deitara o assunto p’ra trás das costas. “Quero lá saber, era só o que faltava andar-me a “ralar” com tal fantochada”
A Lucialina, a Maria Manuela e a Maria Helena acirravam o irmão António, mal lhe deitavam a vista em cima: “Que se deixasse de tanta gabarolice, seria quase um milagre se tivesse a sorte de apanhar o Bonifácio no meio de milhares de pessoas ávidas de arrebanhar os dois contitos de réis. Tem juízo na cachimónia”
E António começou a dar indícios de algum desânimo e já andava a murmurar pelos cantos: “Se ao menos o grande safado do Bonifácio resolvesse descer aqui pertinho”
Enervado, enfiou-se na cama e, algo obcecado com o Bonifácio, tentou dormir… 

[Continua]


***** O autor rejeita as normas do Novo Acordo Ortográfico. 



NOTAS

(1)- Texto inserido no "Diário de Notícias" no dia 9 de Junho de 1939 anunciando a sua vinda a Lisboa. 

“Bonifácio é infatigável. Anteontem, telegrafou-nos de Paris, pois, através do nosso colega vespertino, a ”Noite”, vimos com espanto que se encontrava ontem, mesmo, em Luxemburgo, na metrópole dos brinquedos. A hora avançada da noite, recebemos novo telegrama do Bonifácio. No que ele nos diz e ordena aí vai um breve resumo”. 
“Bonifácio chega por toda a próxima semana, A necessidade de preparar a bagagem impede-o ainda, contra seu desejo, de indicar o dia certo da chegada a Lisboa. E, torna a insistir. No sábado somente poderá informar-nos”. 
“Pretende Bonifácio que a notícia do seu aparecimento seja motivo de júbilo e, por isso, quer que façamos espalhar no próximo domingo por todos os bairros de Lisboa prospectos/programas anunciando a feliz nova”. 
“Mas, sempre o mesmo, este Bonifácio, pretende ele que a difusão da notícia provoque um verdadeiro entusiasmo. E, por isso, propôs-nos que alguns desses programas, dezenas e dezenas, sejam numerados a vermelho. E cada um destes dará direito a um prémio pecuniário”. 
“Aqui está o que ordena o Bonifácio e que vamos esforçar-nos por cumprir. O público de Lisboa fica, porém, certo de uma coisa, é que dos papelinhos espalhados anunciando a chegada do Bonifácio alguns, os numerados, valem dinheiro que é a primeira oferta do Bonifácio”.