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terça-feira, 7 de maio de 2013

A Estrada de A-da-Maia




Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2013)



(por Fausto Castelhano)




Via de comunicação de considerável importância para as populações locais, assegurava a ligação fácil entre o centro da comunidade da Freguesia de Benfica e os núcleos populacionais, não só do lugar de A-da-Maia (tanto de Cima, como de Baixo) mas também, alguns povoados dispersos que lhes ficavam à ilharga, nomeadamente, as aldeias da Reboleira e Naudel.


Edifício de gaveto na Estrada de Benfica, 765 (antigo Posto dos Correios – CTT e, actualmente, dependência do Banco BPI) e onde tem início a Estrada de A-da-Maia. 
(Foto de Artur Inácio Bastos, 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Caminho bastante antigo, a velhinha Estrada de A-da-Maia perfazia um percurso aproximado de 1,200 Km, isto é, desde o seu início na Estrada de Benfica até ao terceiro arco da estrutura do belíssimo Aqueduto das Águas Livres (orientado no sentido noroeste), isto é, precisamente junto à localização da antiga passagem de nível e do modesto apeadeiro da Damaia dos Caminhos-de-Ferro da CP.


Apeadeiro da Linha Ferroviária Lisboa/Sintra da Damaia dos Caminhos de Ferro-CP. 
(Foto de Artur Goulart, 1961, Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Exactamente no lado direito do já mencionado arco do Aqueduto das Águas Livres e enquadrado por um tanque de pedra de retenção da água corrente, encontrava-se o Chafariz da Damaia, cuja abertura da utilíssima e bastante proveitosa “bica de água” de abastecimento público fora ordenada por um Despacho de 1826.


O 3º arco e o chafariz de abastecimento público do Aqueduto das Águas Livres na Freguesia da Damaia e onde terminava a Estrada de A-da-Maia proveniente da Estrada de Benfica. 
(Foto de Eduardo Portugal, 1939, Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


O pavimento da Estrada de A-da-Maia foi sendo alterado ao longo de várias épocas mediante a utilização de técnicas de construção cada mais avançadas: “terra batida” (inicialmente), “macadame” (mais tarde), empedrado em basalto desde os anos 20 do século anterior e que se manteve inalterado até meados da década de 70 do século XX aquando da substituição definitiva pelo actual tapete de asfalto e alinhamento ou fixação de bermas, sargetas e passeios destinados aos peões, novos sistemas de escoamento de esgotos, água, gás e electricidade, iluminação pública…


Extracto da Carta Militar de 1928 dos Serviços Cartográficos do Exército: 
1-Portas de Benfica na encruzilhada da Estrada Militar/Estrada da Circunvalação, Estrada de Benfica e Rua Elias Garcia (Venda Nova); 
2-Passagem de nível e apeadeiro da Damaia dos Caminhos-de-Ferro da CP; 
3-Passagem de nível dos Caminhos de Ferro da CP de Santa Cruz na Estrada Militar/Estrada da Circunvalação; 4-Passagem de nível da Buraca no términus da Estrada das Garridas; Estrada da Circunvalação/Estrada Militar (vermelho); Estrada da Damaia (amarelo); Rua Elias Garcia/Venda Nova (Azul); Estrada de Benfica (rosa); Rua Emília das Neves (laranja); Avenida Grão Vasco (Verde); Estrada das Garridas (roxo). 



Ora, abrangendo alguns decénios desde o início do século transacto, os espaços confinantes com a Estrada de A-da-Maia foram sofrendo sucessivas modificações ou desenvolvimentos urbanísticos mercê dos vastos espaços libertados pela demolição das históricas quintas de veraneio ou propriedades agrícolas das proximidades.




Moradia localizada no início da Estrada de A-da-Maia, 3 e demolida em 1960. 
(Foto de Artur Goulart, 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Verificou-se, então, uma vaga massiva de várias construções, tanto de conjuntos habitacionais ou bairros de índole social (Bairro de Santa Cruz) incluindo, também, algumas estruturas de utilidade pública (Mercado Municipal e jardins) ou desportivas (Campo Francisco Lázaro), encanamento definitivo da Ribeira de Alcântara (concluída em 1967), a substituição dos sistemas de saneamento básico e de águas pluviais considerados manifestamente obsoletos ou insuficientes.




O curioso recanto com o pequeno chafariz público e as traseiras de uma moradia e respectivo quintal que tornejava da Estrada de A-da-Maia para a Rua Emília das Neves. 
(Foto de Artur Goulart, 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Sublinhe-se, ainda, a eliminação das “passagens de nível” da Linha de Sintra dos Caminhos-de-Ferro da CP, a abertura de viadutos rodoviários e ferroviários, túneis e passagens pedonais aéreas, a implementação de novas e fundamentais vias rodoviárias, onde se destaca pela sua amplitude e impacto, a conclusão dos trabalhos da CRIL/IC17 e os respectivos acessos à mesma, obras excepcionais que geraram alterações de vulto numa extensão considerável da própria Estrada de A-da-Maia.


Prédio de esquina da Estrada de A-da-Maia com a da Rua Dr. Figueiredo. 
Dois estabelecimentos, a saber: perfumaria (anteriormente, mercearia) com o nº 6B (protegida por toldo); cabeleireiro com o nº 6A onde antes se localizava uma barbearia. 
(Foto de Artur Inácio Bastos, 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Uma breve mas atenciosa observação da Carta Militar dos Serviços Cartográficos do Exército do ano de 1929 permite constatar que o primitivo traçado da Estrada de A-da-Maia decompunha-se em três troços perfeitamente distintos. Assim sendo, vejamos:



A Ribeira de Benfica (Ribeira de Alcântara) e as traseiras dos prédios (a partir do nº 8) da Estrada de A-da-Maia. 
(Foto de João Goulart, 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


O primeiro segmento compreendia um breve trajecto desde o seu início na Estrada de Benfica, 765 e, após percorridos cerca de 90 metros, terminava na curva, à direita, configurada num ângulo um pouco superior a um ângulo recto, depois de ultrapassar, não só a embocadura do termo da Rua Emília das Neves (situado à esquerda) mas, outrossim, o curioso recanto em pleno passeio da própria artéria e que acolhia um pequeno chafariz de abastecimento público de água.


Moradia já demolida na Estrada da A-da-Maia, 18 e 20.
(Foto de João H. Goulart, 1968, Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Alguns passos adiante, situava-se o varandim ou murete de acesso à Ribeira de Benfica (que passava em túnel sob a própria Estrada de A-da-Maia) e, logo a seguir, o portão de entrada da Quinta da Casquilha localizado, precisamente, no lado esquerdo da Estrada de A-da-Maia, 17.


Estrada de A-da-Maia, 14 a 20, ainda com o piso empedrado em basalto. 
(Foto de Artur Inácio Bastos, 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


A Ribeira de Alcântara, que se revelava um curso de água de grande valia na irrigação das terras de cultivo das suas margens e que, ao transpor a Estrada Militar (em túnel) junto às Portas de Benfica, adquiria a denominação de Ribeira de Benfica, assumia-se como um elemento incontornável nos espaços abrangidos pelo começo da Estrada de A-da-Maia, isto é, permitia fixar, de modo natural, os limites entre a encantadora Quinta Peyssoneau (margem esquerda) e a própria Estrada de A-da-Maia e a Quinta da Casquilha (margem direita).




Estrada A-da-Maia, 31. Prédios e moradias já demolidas. 
(Foto de Artur Inácio Bastos, 1961- Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


O primeiro trecho da Estrada de A-da-Maia estabelecia, também, a linha de fronteira entre o território da antiga Quinta Peyssoneau e a área contida na ampla frente virada ao Norte (à beirinha da Estrada de Benfica) da Quinta da Feiteira, espaçoso terreno designado por Várzea da Feiteira.



Antigas moradias (já demolidas) e prédios de habitação na Estrada de A-da-Maia, 32 a 40. 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Todos os edifícios implantados na área citada, incluindo a abertura da Rua Dr. Figueiredo (a antiga Rua A, à Estrada de A-da-Maia), começaram a ser construídos em meados do ano de 1950, após a total destruição e posterior loteamento do espaço abarcado pela Quinta e Palácio Peyssoneau, a par da demolição de variadíssimas moradias de habitação própria edificadas a partir de 1911 na sequência de acordos estabelecidos entre a Câmara Municipal de Lisboa e o seu proprietário de então, o célebre Comendador César de Figueiredo, precisamente na superfície delimitada pela conhecida Várzea da Feiteira.



Antiga moradia (já demolida) na Estrada da A-da-Maia, 33. 


Assim, serão erguidos conjuntos habitacionais de quatro andares adquiridos em regime de propriedade horizontal ou aluguer porém, os pisos inferiores (rés/chão) da maioria dos edifícios seriam reservados a lojas do ramo comercial ou serviços, a saber:




Moradia demolida na Estrada da A-da-Maia, 34, 36 e 38. 
(Foto de João H. Goulart, 1968, Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Posto de Correios dos CTT (Estrada de A-da-Maia, 2/Estrada de Benfica, 765) e onde, actualmente funciona uma delegação bancária do BPI; “Tasquinha de Benfica”, 8B; Loja Singer (actualmente, encerrada); Lavandaria Lavajeto, 3; Silva, Carvalho e Abreu, 6B (antiga mercearia e, agora, perfumaria); Lucas Cabeleireiros, 6A (antiga barbearia); O Mundo das Calças, 4A (roupas e vestuário); (Amorim & Ferreira, 15 (louças, cristais e porcelanas); Pastelaria Monalisa, 3A/B; etc.



Moradia (já demolida) e prédio de habitação na Estrada da A-da-Maia, 34 a 38. 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970, Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


O segundo segmento da Estrada de A-da-Maia (0,480Km) e que estabelecia a extrema da Quinta da Casquilha (a Norte), arrancava a seguir, isto é, quando a Estrada de A-da-Maia empreendia uma viragem brusca, à direita, rompia através da correnteza de moradias de ambos os lados e, em linha recta e no final de uma subida pouco acentuada, entroncava na Estrada da Circunvalação da cidade de Lisboa, designada de modo comum como Estrada Militar.



Edifício na Estrada de A-da-Maia, um pouco antes da encruzilhada com a Estrada Militar/Estrada da Circunvalação e utilizado pelas patrulhas do Exército no controlo da circulação rodoviária na Estrada Militar. 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)


Após a demolição dos edifícios ou moradias construídas a partir dos finais do século XIX e no que concerne ao troço em questão da Estrada de A-da-Maia, apenas conseguiram sobreviver, até aos dias de hoje, os seguintes edifícios: 
- Prédio de três pisos parcialmente habitado e que ostenta o nº 22; - o espaço devoluto de moradia demolida e que se encontra protegido por muro e portão de ferro em razoável estado de conservação; - as ruínas do velho edifício com o nº 77 e que ainda mantém um bonito friso de azulejos na ombreira de uma das portas.



Estrada de A-da-Maia. Passagem de nível dos Caminhos-de-Ferro-CP da Damaia. 
(Foto de Artur Goulart, 1961, Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Dignos de registo e que permanecem indeléveis na memória das gentes de Benfica e situadas logo no início deste segundo troço da Estrada de-A-da-Maia: a tasca do João Amaral (local de apetecível e fraternal convívio) e o celebérrimo Petrolino, conceituada loja onde se vendia um pouco de tudo: carvão, sabões, petróleo e derivados, etc. Inconfundível, a famosa carroça de venda ao domicílio puxada por possante muar e que percorria a Freguesia de Benfica em todas direcções, além da Venda Nova, Buraca, etc.



Prédio construído nos finais da segunda década do Século XX e que resistiu até aos nossos dias. 
Encontra-se localizado na Estrada de A-da-Maia, 22. 
(Foto de Fausto Castelhano, 2012) 



A partir do ponto de junção com a Estrada Militar (patrulhado frequentemente por elementos do Exército até ao final dos anos 4O do século XX) estendia-se, à direita, o terceiro lanço da Estrada de A-da-Maia e, à mão esquerda e num longo trajecto rectilíneo de 0,980 Km, a Estrada da Militar seguia ao encontro da linha férrea e da “passagem de nível dos Caminhos-de-Ferro da CP”, a qual e a partir dos anos 60 do século XX, passou a designar-se de Santa Cruz. 



Estrada de A-da-Maia, 26 - Portão de entrada de espaço devoluto de uma moradia demolida. 
(Foto de Fausto Castelhano, 2012) 


Permitia, assim, o acesso a várias localidades próximas: Buraca e Bairro do Taxa, Calhariz de Benfica e o Barcal, Alto da Boavista e Monsanto, Bairro da Boavista desde a sua construção em 1941, Alfragide, etc.


Ruínas da fachada poente do prédio na Estrada de A-da-Maia, 73 e edificado nos anos 30 do Século XX, situado a dois passos do antigo cruzamento com a Estrada Militar ou Estrada da Circunvalação. 
(Foto de Fausto Castelhano, 2012) 


Actualmente, todos os prédios de habitação que ladeiam ambos os lados da Estrada de A-da-Maia (2º troço) e que incluem, também, inúmeras lojas ou oficinas dedicadas a vários ramos de actividade comercial foram erguidos a partir das décadas de 60 e 70 do Século XX e dos quais destacamos entre outros:


Ruínas da fachada norte do prédio na Estrada de A-da-Maia, 73 e construído nos anos 30 do Século XX, situado um pouco antes do antigo cruzamento com a Estrada Militar/Estrada da Circunvalação. 
(Foto de Fausto Castelhano, 2012) 


Café Ginginha, 19B; Circuito de Benfica, 24A/B (café/pastelaria); Paraíso da Damaia, 19A/Rua João Frederico Ludovice, 2 (frutas, legumes); Volante de Benfica, 20A/B e Auto-Mecânica Progresso, 56A (oficinas de reparações-auto; além de pequenos cafés ou pastelarias, cabeleireiros, canalizador, lojas de artigos provenientes da República Popular da China, papelarias/tabacarias e drogaria, “atelier” de costura e engomadoria, escritórios de serviços, etc.


Painel de azulejos na moradia (já demolida) da Estrada de A-da-Maia, 34. 
(Foto de Nuno Barros Roque da Silveira, 1972 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)


Friso de azulejos na fachada norte nas ruínas do prédio da Estrada de A-da-Maia, 73 e antes do cruzamento com a Estrada Militar/Estrada da Circunvalação. 
(Foto de Nuno Barros Roque da Silveira, 1972 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)


Gatos ao sol nas ruínas da fachada sul do edifício da Estrada de A-da-Maia, 73. Foi construído nos anos 30 do Século XX e encontra-se localizado junto ao antigo cruzamento com a Estrada Militar/Estrada da Circunvalação. 
(Foto de Fausto Castelhano, 2012) 



O traçado original manteve-se inalterado até ao termo do século XX quando são incrementados as obras de conclusão das importantes vias rodoviárias da CRIL/IC17.



O actual traçado do 2º troço da Estrada de A-da-Maia (azul) no local junção com a Estrada Militar (verde). Repare-se nas profundas alterações verificadas no espaço circundante com a construção das vias da CRIL/IC17. 
(Foto Google Maps) 


Assim, o segundo lanço da Estrada de A-da-Maia será brutalmente mutilado na área de junção com a Estrada da Circunvalação e, desta feita, ficará truncada em absoluto na direcção da Damaia, embora permitindo o acesso rodoviário e directo à ampla rotunda das Portas de Benfica através de um arranjo que inclui um pequeno largo e arruamento de ligação, porém apresenta-se de certo modo confuso, talvez devido à colocação indevida das placas toponímicas que tanto podem assinalar Estrada Militar como, também, Rua Hermínio da Palma Inácio.


Rotunda das Portas de Benfica. 
(Foto Wikipédia


O terceiro e último troço da via (0,630 Km), arrancava exactamente na encruzilhada com a Estrada Militar (Estrada da Circunvalação) e tinha o seu termo no terceiro arco do Aqueduto das Águas Livres (tal como foi referido anteriormente), isto é, junto à passagem de nível e ao apeadeiro dos Caminhos-de-Ferro da Damaia.


As alterações profundas na zona da encruzilhada da Estrada Militar com a Estrada de A-da-Maia e que se prolongam até ao centro populacional da Damaia. 
(Foto Google Maps


Projectada em campo aberto, desenvolvia-se num panorama absolutamente campestre e onde algumas as casas de habitação apenas surgiam já bastante próximo do centro histórico da povoação da Damaia. A totalidade do vasto espaço por onde este segmento da Estrada de A-da-Maia se estendia seria progressivamente alterado por vários conjuntos urbanísticos entretanto construídos não obstante, as drásticas modificações originadas pelo remate final das obras da CRIL/IC17, desfiguraram o cenário anterior de modo bastante drástico e tornando o antigo local absolutamente irreconhecível.


Actual Rotunda da Damaia após a conclusão das obras de construção da CRIL/IC17 e onde outrora existia o cruzamento da Estrada de A-da-Maia com a Estrada Militar/Estrada da Circunvalação. 
(Foto de Fausto Castelhano, 2012) 


Assim e actualmente, detectar vestígios das primitivas vias, tanto da Estrada da Circunvalação (Estrada Militar), como da Estrada de A-da-Maia, inseridos em novas vias rápidas, rotundas, túneis a céu aberto ou em vala, parques públicos ajardinados e de lazer, além de diversos blocos habitacionais derivados de projectos urbanísticos sempre em crescendo, apresenta-se como um problema de vulto e difícil de resolver.



Da-Maya, Da-Maia, A-da-Maia, Damaia

Até à avassaladora expansão demográfica iniciada em meados dos anos 50 do Século XX, a Damaia surgia como uma simpática aldeia rural que se desenvolvia em torno do modesto apeadeiro ferroviário da Damaia dos Caminhos-de-Ferro-CP da Linha Lisboa/Sintra mas, também pelo conjunto de algumas habitações que se estendiam ao longo do estreito caminho que conduzia ao cimo da colina onde se localizava a herdade que integrava o faustoso Palácio dos Condes da Lousã (século XVIII) e a bonita capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição.


O Aqueduto das Águas Livres, provavelmente na Damaia. “A volta do mercado”, pintura de Roque Gameiro. 
(Foto Wikipédia


“E, na parte mais elevada delas (colinas), coloca aí uma aldeiazinha que resplandece pela alvura das suas casas, e que avulta pitorescamente pela quinta e palácio torreado dos Srs. Condes da Louzã. Chama-se o lugar: Damaia” (in Arquivo Pitoresco – Vol. VI, pág. 185).


Aqueduto das Águas Livres na Damaia. 
(Foto de Artur Goulart, 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Até hoje, permanece desconhecida a origem do nome de Damaia, povoamento outrora conhecido por Da-Maya, Da-Maia ou A-da-Maia. Supõe-se que tal designação tenha, como origem remota, uma simples “casa de negócio” ou uma propriedade rústica a qual, provavelmente teria existido na citada área espacial. Todavia, outros autores referem que a denominação do lugar poderá derivar da Estação Arqueológica de A-da-Maia e já mencionada por Afonso do Paço a qual, entretanto, fora engolida pelo tecido urbano e não deixou qualquer rasto… A Freguesia da Damaia, cujo orago é o Santíssimo Redentor, está integrada no actual território do Concelho da Amadora desde 11 de Setembro de 1979.


O Aqueduto das Águas Livres na Damaia na actualidade. 
(Foto Wikipédia


O majestoso Aqueduto das Águas Livres sulca uma parte substancial do Concelho da Amadora num percurso de 8 Km não obstante, o monumento alcança especial destaque, precisamente na Freguesia da Damaia, onde um conjunto de dezanove magníficos arcos são dignos de especial apreço incluindo, sobretudo, o mais elevado que atinge a notável altura de 18 metros e a fasquia de 8,5 metros de vão. Segundo dados apurados no ano de 1911, a localidade comportava apenas, 179 pessoas, não obstante e nos dias de hoje, o número de residentes elevou-se para cerca de 25.000 habitantes. A explosão demográfica ocorreu em duas épocas distintas: as décadas de 50 e de 70 do século XX.


Aspecto do Aqueduto das Águas Livres na Damaia. 


A Damaia já esteve incluída no território da Freguesia de Benfica, tal como se comprova em documentação antiga dos séculos XIV, XV e XVI. Os registos dos antigos Livros das Paróquias (Livros das Almas, Cartórios Paroquiais, Actas das Visitas Pastorais e das Comissões Fabriqueiras, Contas das Irmandades ou Eleições dos Irmãos, etc. permitem alcançar dados indispensáveis referentes ao número de fogos ou fregueses de cada povoação ou lugar das Paróquias ou Freguesias, tal como nos refere o Padre Álvaro Proença.


O espaço envolvente do Aqueduto das Águas Livres na Damaia, actualmente. 
(Foto Wikipédia


Assim, em 1680, o cura João de Lima faz alusão à realidade em termos de fregueses e fogos na Paróquia de Benfica e o mesmo acontece com o cura João Lobato que assinala, precisamente, os mesmos elementos a partir de 1703 e até ao ano de 1884, ou seja, a evolução do número de fogos e fregueses existentes em cada lugar da Paróquia de Benfica e, entre outros, Noudel, Reboleira e Damaia. Em 1712, o Padre António Carvalho, clérigo do hábito de S. Pedro, matemático e natural de Lisboa descreve de modo interessante, os lugares constantes da Paróquia de Benfica: …”e da banda direita ficam várias casas, que chamam da Reboleira e em um alto está o lugar de Neudel, que tem 15 vizinhos e, mais abaixo, junto à igreja, estão umas casas que chamam da Maya, e junto a elas estão umas casas de uma quinta, e outras de um casal, que chamam a Feiteira, que tem uma fonte, e fica defronte da igreja”… E o cura João da Matta em 1758 pronunciava-se do seguinte modo: …”situava-se na estrada que ia para Lisboa e para Sintra, ou seja a Estrada de Benfica. A Paróquia compreendia os lugares da «Cruz da Pedra, Calhão, Monte Coxe, Calhariz, Boavista, Montijo, Alfragide, Outeyro, Cruzes, Porcalhota, Falagueyra, Amadora, Vinteyra, Caranque, Borrel, Noudel, Da Maya, Alfornel, e o lugar de Bemfica” (Informação paroquial arquivada no Dicionário Geográfico, Vol.VI, a fls. 661)


Escavações Arqueológicas nos Moinhos da Atalaia - 1980. 
(Foto Wikipédia


Com o advento da reforma administrativa de 1855 e a delimitação da Cidade de Lisboa com a construção da Estrada da Circunvalação, a Freguesia de Benfica ficará contida no Concelho de Lisboa. Todas as povoações localizadas para além da Estrada Militar (extra/muros) ficarão incluídas noutros concelhos. Assim acontece com a Damaia que será absorvida pelos concelhos de Oeiras (1885), Sintra (1895) e em 1898, novamente, Oeiras até ao dia 11 de Setembro de 1979 aquando da criação do Concelho da Amadora onde ficará integrada.



Brasão da Freguesia da Damaia. 
(Foto Wikipédia


De referir, ainda, que a Paróquia Civil de Benfica será instituída em 1857 e, desde então, deixará de coincidir com a Paróquia Religiosa. O actual espaço da actual Freguesia da Damaia encontra-se inserido num território onde a presença humana foi bastante intensa desde os primórdios da Pré-história e cujos vestígios são confirmados pela existência de jazidas arqueológicas excepcionais (Neudel e Neudel Norte). Além de significativos núcleos familiares, foram descobertos abundantes utensílios ou ferramentas talhados em sílex e quartzo atribuindo-se as suas datações, tanto ao Paleolítico Inferior, como ao Médio e ao Superior.


Peças de cerâmica campaniforme do Período Calcolítico encontradas na Estação Arqueológica dos Moinhos da Atalaia. 
(Foto Wikipédia


Foram encontradas ainda, algumas peças cerâmicas campaniformes do Período Calcolítico (Estação Moinhos da Atalaia), materiais da Idade do Bronze e fragmentos da Idade do Ferro. Assim, os valiosos espólios encontrados na região apontam para a ocupação do espaço territorial por vários povos desde a Idade do bronze até ao 2º milénio AC e que se dedicavam ao uso bastante generalizado da metalurgia na manufactura de artefactos de cobre ou em ligas onde a base era, precisamente, o cobre (bronze). O vasilhame cerâmico descoberto nas escavações e destinado à armazenagem de cereais são dignos da maior saliência e atestam, sem qualquer dúvida, a vocação agrícola das comunidades que se instalaram no território da Damaia confirmando assim, intercâmbios frequentes com povos de origens diversas, tanto mediterrânica como oriental, detectáveis nas inúmeras decorações inscritas em variados utensílios.


Uma bela peça do Período Calcolítico encontrada na Estação Arqueológica dos Moinhos da Atalaia. 
(Foto Wikipédia


Tais contactos foram veiculados pelos comerciantes originários da Fenícia que demandaram a costa portuguesa nos finais do século VIII AC no intuito de procurarem novos recursos minerais de cuja existência conheciam e lhes despertavam natural cobiça. O continuado povoamento das terras nas redondezas da Damaia desde o período Pós Romano até aos finais do Século XIX confirmam a intensa ocupação agrícola de cariz nitidamente “saloio”. Nos últimos decénios do século XIX e nos primórdios do século XX, a Damaia era considerada uma zona predominantemente rural e nas herdades ao seu redor, produziam-se quantidades apreciáveis, tanto de produtos hortícolas ou frutícolas, como de cereais (moídos nos inúmeros moinhos de vento que encimavam as colinas) e que eram consumidos pela população da cidade de Lisboa.


Palacete da Quinta dos Condes da Lousã na Freguesia da Damaia. 
(Foto Wikipédia


Entretanto, quintas, solares e palacetes foram surgindo nas terras da Damaia onde notáveis personalidades da burguesia emergente e dotados de bens de fortuna, principalmente da capital, atraídos pelo ambiente bucólico, os ares saudáveis e o sossego da região… Merecem destaque, além da Quinta e Palacete dos Condes da Lousã (atrás referida e que, anteriormente fazia parte da extensa Quinta Grande da Damaia), as seguintes herdades situadas na Damaia de Cima: Quinta da Damaia, Quinta do Marquês do Alvito e Quinta do Mercador. 



Os transportes colectivos na Damaia 


A população da Damaia começou a ser servida pelos autocarros da Carris, somente no início do mês de Julho de 1958 e através da Carreira 11 que prolongou o seu trajecto até à Estrada da A-da-Maia. Até aí, os autocarros apenas chegavam ao aglomerado populacional da Buraca. 
Note-se que, em Agosto de 1957, o percurso dos autocarros da Carreira 11 foi alterado (apenas, 50% dos veículos escalados) a partir do términus em Sete-Rios e, assim, permitiu atingir diversos locais através do seguinte itinerário: Bairro das Furnas, “passagem de nível” de S. Domingos/Jardim Zoológico (encerrada em 1971), Bairro do Calhau, Forte de Monsanto, Bairro da Boavista e Buraca. 

Em 1966 e devido às modificações ocorridas nas “passagens de nível” dos Caminhos-de-Ferro da CP existentes na Freguesia de Benfica, a Carreira 11 da Carris alterou o seu percurso na intenção de evitar transpor as vias ferroviárias. Para obviar a um tal transtorno, os autocarros da Carreira 46 (Restauradores/Portas de Benfica) prolongaram o seu trajecto pela Estrada Militar até atingirem a Damaia. 
Só mais tarde, em Maio de 1982, a Carreira 11 voltaria à Damaia através do viaduto sobre a linha férrea junto ao antigo apeadeiro do Bairro de Santa Cruz. 

Em 1998 e com o encerramento parcial da Estrada da Circunvalação devido às obras da CRIL/IC17, a Carreira 11 da Carris regressaria ao Bairro de Santa Cruz. 

Actualmente, outros trajectos alternativos e várias carreiras de autocarros servem a população residente na Damaia. 
Refira-se ainda que, até meados dos anos de 60 do século XX, os autocarros da Empresa de Viação Eduardo Jorge das carreiras oriundas da Amadora, Queluz, Belas e outras localidades, utilizaram a Estrada de A-da-Maia, apenas no sentido ascendente e no curto itinerário compreendido entre a Estrada de Benfica e a Rua Emília das Neves (sentido Poente/Nascente) até ao Expedidor da C.C.F.L. (“raqueta”) facilitando, assim, a perfeita interligação aos carros eléctricos da Carris” dos passageiros provenientes dos concelhos de Amadora e Sintra (Belas, Queluz, Pêro Pinheiro, Montelavar, etc.). 

Durante longos anos, o trânsito rodoviário circulou em ambos os sentidos pela Estrada de A-da-Maia mas, presentemente, tal não acontece. Os veículos apenas estão autorizados a percorrer a via no sentido ascendente no entanto, os transportes públicos (autocarros e táxis) também podem circular no sentido descendente e permitir a ligação à Estrada de Benfica, utilizando o trajecto pelo Bairro de Santa Cruz, Rua João Frederico Ludovice e Estrada de A-da-Maia. 

Uma pequena nota: a Rua Emília das Neves passou a sentido único em 1960. 


Notas

1 - O início da implementação do Bairro de Santa Cruz e respectivos arruamentos ocorre no ano de 1955 nos espaços da antiga Quinta da Casquilha (Zona Ocidental) e Quintas das Garridas, Feiteira e Baldaias (Zona Oriental). 

2- A construção do novo recinto desportivo do Clube Futebol Benfica, Campo Francisco Lázaro, teve início em 1959 nos terrenos da antiga Quinta da Casquilha. 

3 - As obras de total encanamento da Ribeira de Benfica (Ribeira de Alcântara) e reclamadas com insistência pela população de Benfica têm o seu começo em 1960 e serão concluídas no ano de 1967. A cerimónia comemorativa do meritório empreendimento aconteceu no dia 5 de Janeiro de 1968 com o descerramento de uma lápida na Estrada de A-da-Maia junto ao cruzamento com a Estrada Militar. 




Conclusão da CRIL: Troço Buraca - Pontinha 


A inauguração do último troço da CRIL (o lanço entre a Pontinha e a Buraca), numa extensão aproximada de 4 km, acontece a 16 de 2011. 

O início das obras foi sendo sucessivamente adiado devido a desentendimentos e polémicas na escolha do traçado. 
Após acordo entre os concelhos de Amadora, Odivelas e Lisboa, a conclusão do importante empreendimento foi, finalmente, adjudicada. 

 A primeira abertura parcial ocorreu a 15 de Junho de 2010, com o prolongamento, apenas no sentido Sacavém - Algés, até Alfornelos. 
O projecto consistiu na construção de um túnel que atravessa as zonas mais populosas dos concelhos referidos (Buraca e Alfornelos). N’alguns locais deste novo lanço, a CRIL também avançou em "vala aberta" (por exemplo, junto ao Bairro de Santa Cruz). 

O traçado da CRIL atravessa, na Buraca, o Aqueduto das Águas Livres e o subsidiário Aqueduto das Francesas. Foram adoptadas medidas que permitiram minimizar o impacto ambiental e visual nestas excepcionais estruturas.







quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Benfica. Uma freguesia do Termo de Lisboa - A Toponímia natural (Capítulo I)



Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2011)



Benfica
Uma freguesia do Termo de Lisboa

Capítulo I

A Toponímia natural


(por Fausto Castelhano)


***



O fenómeno é universal! Frequentemente e originado por fortuita ou mera circunstância, pessoas ou residentes de ruas ou avenidas, ruelas, pátios ou becos, monumentos ou lugares, habitantes ou naturais d’uma qualquer localidade ou país, acabam rebaptizados e perdem as identidades originais… Adeptos de clubes desportivos, inclinações político/partidárias, sindicais ou religiosas, nada escapa!



O edifício da sede do Sport Lisboa e Benfica na Avenida Gomes Pereira, 17, a “Rua do Cinema”, “Rua do Comboio”, “Rua da Estação” ou "Rua da Fábrica". No amplo salão estava instalada a única sala de cinema da Freguesia de Benfica. No Verão, as sessões de cinema ao ar-livre realizavam-se no Ringue de Patinagem .
(Foto de Vasques - 1958 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Ao sabor, claro está, da fértil e sempre pronta imaginação das próprias comunidades ou então, objecto de importação, sabe-se lá donde, de quem ou porquê bastando, para tal, lampejo fulgurante, pequenino pormenor sem a mínima importância, chiste apropriado ou boca maliciosa… e já está! Podem pegar de estaca e perdurar p’ra sempre porém, outros vão moendo, moendo e, com o decorrer do tempo ganham raízes fundas e agarram, propagam-se e acabam por se instalar de modo definitivo…



Estação de Benfica da CP ao cimo da Avenida Gomes Pereira, a “Rua do Comboio”, “Rua da Estação”, “Rua do Cinema” ou “Rua da Fábrica”.
(Foto de Garcia Nunes - 1955 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Reunindo o consenso popular, adoptadas na íntegra e facilmente assimiladas pelas populações surgem, então, revestidas de novel roupagem, isto é, envergando nomenclatura diferente da original tendo em vista, sempre, identificação isenta de qualquer possibilidade de equívoco, fáceis de pronunciar e, claro está, contendo certa e suficiente lógica… Por vezes e por ausência súbita ou prolongada dos motivos pelos quais foram objecto de tal deferência são, simplesmente, desclassificadas e podem adquirir diversa identidade ou então, e aos poucos, murcham naturalmente e falecem de morte natural… Daí e até ao total esquecimento, vai uma pequenina distância no tempo…
Em todo o mundo assim acontece… e a Freguesia de Benfica, felizmente, não escapou à regra… Assim e antecipadamente, vamos dar um saltinho no tempo, retornar aos anos 50 e 60 do século XX e, então, sem mais delongas, vejamos:



O conceituado Restaurante Sozinhito ao cimo da Avenida Gomes Pereira, 105 e 107 e junto à estação do Caminho de Ferro da CP.
(Foto de João H. Goulart - Foto do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A Avenida Gomes Pereira, transmuda-se em "Rua do Cinema" (termo caído em desuso à muitos anos) uma vez que, em tempos já um pouco distantes e na sede do Sport Lisboa e Benfica (edifício onde, hoje, está instalada a Junta de Freguesia de Benfica), existir a única sala de cinema da comunidade



Avenida Gomes Pereira, 1 a 93: a Rua da Estação, a “Rua do Comboio” e, também, em tempos mais recuados, a “Rua do Cinema” ou a “Rua da Fábrica”.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1968 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Todavia e do mesmo modo, a população também designava a bonita avenida da freguesia por “Rua da Estação” ou a “Rua do Comboio”! Claro, no termo da Avenida Gomes Pereira, encontra-se a Estação do Caminho de Ferro da CP e, assim, tornava-se facilitada a sua imediata localização…



Conjunto de teares da Fábrica Simões & C.ª Lda.
(Foto Wikipédia)



Por vezes, a Avenida Gomes Pereira era mencionada como a “Rua da Fábrica”! Porquê? Ora, um dos maiores e pujantes empreendimentos fabris da Freguesia de Benfica, a Fábrica Simões & C.ª Lda. (Malhas e Confecções), fundada em 1907 pelo dinâmico industrial José Simões laborava, exactamente, na Avenida Gomes Pereira…



Rua Cláudio Nunes, 35 a 43. A “Rua do Cemitério” e os bonitos prédios que foram demolidos nos anos 50 e 60 do século XX.
(Foto de Artur Goulart - Anos 50 do século XX - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A “Rua do Cemitério” corresponde à Rua Cláudio Nunes, embora toda a gente reconheça que outras vias convergiam e tinham o seu termo na “Quinta das Tabuletas”, seja a Estrada dos Arneiros, a Rua dos Arneiros (antiga Travessa dos Arneiros) ou, até mesmo, a Calçada do Tojal…
E a Rua Dr. José Baptista de Sousa? Alguém imagina onde fica? Claro, tal como se apresenta é um pouco difícil localizar tal via contudo, mais não é que a “Rua da Caixa”, junto à Stimuli/UNISBEN (1) e onde, efectivamente, se encontra instalado o Posto nº25 da Caixa de Previdência…



O bonito prédio da Rua Cláudio Nunes, 45 vai resistindo! Até quando?
(Foto de Fausto Castelhano)



Actualmente, a Stimuli/Unisben e atendendo à enorme projecção que vai desfrutando no seio da população da Freguesia de Benfica, onde vai granjeando apaniguados a cada esquina, provoca séria concorrência e ameaça, sem dúvida, a conhecida “Rua da Caixa”



Abertura do Ano Lectivo de 2010/2011 na Stimuli/UNISBEN.
(Foto de Fausto Castelhano)



Na verdade, não causaria espanto a ninguém se, muito em breve, ousasse passar-lhe a perna e a suplantasse: a “Rua da Stimuli” ou a “Rua da Unisben” emerge, paulatinamente, e prepara-se p’ra derrubar a “Rua da Caixa”!



A Tuna da Stimuli/UNISBEN em 2010.
(Foto de Fausto Castelhano)



O Mário Félix caprichou e um belo dia, nos idos de 50 do século passado, encheu-se de brios e apareceu-nos, afivelando largo e provocante sorriso na carantonha e a causar enorme inveja aos amigos: trajava calça americana que lhe assentava que nem luva e, segundo se constou, teria sido dos primeiros habitantes da Freguesia de Benfica a envergava a famosa novidade oriunda das terras do Tio-Sam…



Mário Félix, o “Mário Americano” e, pouco depois, “O Americano” - Maio de 1960
(Foto de Fausto Castelhano)



A oportunidade não caiu em saco roto e o nosso compincha Mário Félix foi, de imediato, apodado de “Mário Americano”… Porém, um pouco mais tarde, a malta abreviou o epíteto e, actualmente, continua a ser conhecido pelo seu nome de guerra: “o Americano”
Em Carnide, a Travessa do Pregoeiro é a “Rua do Gravatas” (Restaurante Adega das Gravatas, a antiga “Taberna do Gravatas”) e, à Rua do Norte, toda a gente a reconhece como a “Rua do Convento” (Convento de Santa Teresa do Menino Jesus, século XVII).
O Sr. Gaspar do Café Girassol, na sequência d’um infeliz episódio ocorrido com um grupo de jovens de sangue na guelra e sempre predispostos à malfeitoria, já descrito no texto de "Tabernas, Tascas e Casas de Pasto - IV", perde a própria identidade, definitivamente, e surge “O Seboso” tendo o maralhal, d’uma vazada, suprimido o nome que constava no seu Bilhete de Identidade…



Ao António Augusto Pereira só o topam como “O António da Farmácia”.
(Foto gentilmente cedida por António Augusto Pereira)



Ao António Augusto Pereira, um amigão desde os tempos de meninice, caçador de pontaria afinadíssima e, também, antigo e destacado dirigente do S.L. e Benfica, só o topam como “O António da Farmácia”



Pilões, como são conhecidos os alunos do Instituto Militar dos Pupilos do Exército.
(Foto Wikipedia)



Os alunos do Instituto Militar dos Pupilos do Exército em S. Domingos de Benfica viraram “Pilões” e os educandos do Colégio Militar, em Carnide, imperam com o apodo de “Meninos da Luz”



Os "Meninos da Luz", como são distinguidos os educandos do Colégio Militar.
(Foto Wikipédia)



O Mário Fonseca, filho único do Sr. Fonseca da Carris, oriundo da região de Ourém (que saudades do estupendo vinho branco da sua lavra que nos escorria pelo garganhol) carimbado como o mecânico “Mário Buracos” e, após breve tempo transitou, simplesmente, para “O Buracos”



A drogaria do “Júlio Careca” na Estrada de Benfica, 645 a 649.
(Foto de João H. Goulart - 1959 -
Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



O Júlio da Drogaria, homem de excelente trato e que à muito se foi deste mundo, passa a “Júlio Careca” por exibir, orgulhosamente, a calva luzidia; o Carlos Alberto Marques Castelhano, nunca mais se livrou do ferrete com que o marcaram, indelevelmente, p’ró resto da vida: “O Calminhas”



Carlos Alberto Marques Castelhano, vulgo “O Calminhas” em 1960.
(Foto de Fausto Castelhano)



A “Quinta Grande” é, efectivamente, a Quinta do Conde de Carnide e a “Quinta do Bom-Nome”, nome que lhe advém desde o ano de 1720 sobrepõe-se à “Quinta do Sarmento”, tal como era vulgarmente conhecida…



A Paula Maria e a Maria Helena em Maio de 1974 na “Quinta Grande” ou “Quinta do Conde de Carnide”.
(Foto de Fausto Castelhano)



A “Quinta do Sarmento” não resistiu às profundas alterações urbanísticas operadas a partir dos finais dos anos 50 do século passado nas Freguesias de Carnide e Benfica sendo, claro está, retalhada a preceito…
No seu espaço nasceu uma urbanização da EPUL e permitiu, também, o alargamento do Cemitério de Benfica na parcela mais a norte e confinada com a Estrada Militar (a sul, a área absorvida pelo Cemitério de Benfica pertencia à Quinta do Charquinho).



1960 - A Vereação e a Comunicação Social visitam as obras de alargamento do Cemitério de Benfica: Aníbal David, Vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa (1959-1970), António Vitorino França Borges, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa (1959-1970) - No último plano, a “Quinta da Granja de Cima” e o respectivo palacete.
(Foto de Armando Serôdio - 1960 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Poucos anos volvidos, avançou a Urbanização da “Quinta do Bom-Nome” e a Avenida dos Condes de Carnide rompe no sentido nascente/poente em direcção a Alfornelos… Não obstante, e só por simples acaso, a desgraceira não foi total: o magnífico palacete edificado no século XVII e que integra a capela de Nossa Senhora das Mercês safou-se, in extremis!



O magnífico palacete da “Quinta do Sarmento” ou "Quinta do Bom-Nome" na Estrada da Correia e onde está instalado o ISLA - Instituto Superior de Línguas e Administração de Lisboa.
(Foto de Fausto Castelhano - 2010)



Após notável remodelação, o belo palacete da Estrada da Correia acolhe, actualmente, o ISLA - Instituto Superior de Línguas e Administração de Lisboa.
A “Quinta de Carlos Anjos”, também é apontada como a “Quinta da D. Leonor” ou “Quinta de Montalegre” e onde, sete décadas atrás, dei os primeiros passos da minha já longa existência.



1944 - A célebre cascata monumental da “Quinta de Montalegre”, “Quinta de Carlos Anjos” ou “Quinta de D. Leonor” e que não escapou à destruição total. Na foto, a minha irmã Lucialina, o namorado Joaquim Monteiro, futuro marido, e a Ivone, cunhada e amiga da Lucialina Castelhano.
(Foto de Fausto Castelhano)



Literalmente arrasada nos primórdios dos anos 50 do século XX, na extensa área de uma das mais belas quintas das redondezas, nasceram prédios de gosto bastante duvidoso em atabalhoadas urbanizações e ainda houve lugar à implementação de um grandioso complexo desportivo: o famoso Estádio do Sport Lisboa e Benfica, a “Catedral dos Lampiões”!



Palacete da Quinta da Granja de Cima ou “Quinta do Canas”.
(Foto de Fausto Castelhano - 2011)



A magnífica Quinta da Granja de Cima, conhecida como a “Quinta do Canas” foi drasticamente amputada na sua superfície pela desenfreada especulação imobiliária mas, ainda subsiste o palacete e uma fatia razoável de solo de boa aptidão agrícola!



O belo conjunto do poço com nora datado de 1919 da Quinta da Granja de Cima.
(Foto de Fausto Castelhano - 2010)



À ilharga do vetusto palacete da quinta, é digno de realçar o poço e a respectiva nora, exemplar curioso da arqueologia industrial/rural dum tempo antigo, construído em 1919, tal como consta na gravação inscrita numa das colunas da estrutura…
A tradição bastante remota de que a Quinta da Granja de Cima estaria assente sobre as ruínas d’uma antiga vila romana com a configuração de um trevo de quatro folhas, carece de absoluta confirmação… Não obstante, a dúvida persiste…

A “Quinta das Palmeiras”, exuberante pulmão verde da Freguesia de Benfica e localizada a norte do seu território, também se identificava como a “Mata do Galla” ou “Quinta do Galla”, apelido do seu proprietário, Guerreiro Galla, industrial ligado aos transportes marítimos…



A Maria Helena e a Paula Maria na “Quinta das Palmeiras” ou “Mata do Galla”, um dos pulmões verdes da Freguesia de Benfica - Abril de 1969.
(Foto de Fausto Castelhano)



A gula voraz do lobby da construção civil passou por ali como cão em vinha vindimada, abocanhou a magnífica quinta e o sumptuoso palácio e, num ápice, brotaram prédios como cogumelos!
Bastante curiosa é a história da Rua Ernesto da Silva que, em tempos e durante largos anos, era indicada, geralmente, como “Rua dos Ferro-o-bico”



A moradia do Largo Ernesto da Silva, 2 e 4 e Rua Ernesto da Silva, 1 onde, no 1º andar, vivia a numerosa família dos “Ferro-o-Bico”.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Tratava-se de uma família numerosa conhecidíssima pela alcunha dos “Ferro-o-Bico” e, do seu agregado familiar, brotaram alguns elementos que deram excelente contributo desportivo ao Clube Futebol Benfica como atletas de nomeada nas modalidades de Hóquei em Campo e Hóquei em Patins… Moravam e certamente os seus descendentes ainda lá residem, exactamente no nº1 da Rua Ernesto da Silva…



Moradia no início da Rua Ernesto da Silva, 1 e onde, no 1º andar, vivia a família dos “Ferro-o-Bico”.
(Foto de Fausto Castelhano - 2010)



A Estrada dos Arneiros descambou para “Rua dos Castelhanos”, tal como ouvi pronunciar a estimável conterrânea no dia em que me perguntou onde, antigamente, morava: - “Eu residia na Estrada dos Arneiros”! A simpatiquíssima senhora elucidou-me, sem hesitar: - “Ah! Mas essa era a “Rua dos Castelhanos”! Fiquei estupefacto!



A família Castelhano na Praia de Caxias, ao tempo, uma praia bastante concorrida. Augusto Castelhano, Orlando Manuel ao colo da mãe (Maria Augusta), Maria Manuela, Maria Helena, Carlos Alberto e Fausto Augusto - Verão de 1946
(Foto do arquivo pessoal de Fausto Castelhano)



Ignorava uma tal novidade, todavia e pela certa, alguns habitantes da Freguesia de Benfica conheciam a Estrada dos Arneiros por nome diverso pelo simples acaso de ali residir uma família que ostentava o apelido Castelhano. Tal e qual! Aonde? Na Quinta do Charquinho, Estrada dos Arneiros, nº4 e onde existiu, anterior à década de 50 do século XX, o melhor e o mais afamado retiro de fados e comezainas das freguesias do Termo da cidade de Lisboa…





Cartão de sócio nº 1684 do Clube Futebol Benfica (FóFó).
(Documento de Fausto Castelhano)



Ao velhinho e carismático Clube Futebol Benfica, mimosearam com galanteio um bocado caguinchas, louvado seja Deus, e que jamais ouvirão pronunciar pela minha boca: Fófó! Não imagino quem teria sido o salafrário que alvitrou uma tal ignomínia, na minha modesta opinião, está claro… Actualmente, o ilustre Clube Futebol Benfica é conhecidíssimo em tudo quanto é sítio… de modo safado: Fófó p’rá aqui, Fófó para ali! A prestigiada agremiação desportiva não merecia tão insólito tratamento e, só de ouvir soar a afronta fico arrepiado, causa-me um certo mal-estar e largo logo um palavrão dos antigos …




Ringue de Patinagem Fernando Adrião (pai) no antigo recinto de jogos do Clube Futebol Benfica, Campo Francisco Lázaro. Em segundo plano, as traseiras dos prédios e moradias da Avenida Grão Vasco, a “Rua da Mata” ou “Rua da Praça”.
(Foto de Artur Goulart - 1960 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Realmente, para quem foi sócio do clube nº 642 desde a década de 50 do século XX e atleta de Andebol de 7, nem outra cousa seria de esperar! Um bocado forte p’ró meu feitio… Não obstante, por qualquer incidente relacionado aquando dos ensaios da Marcha de Benfica na antiga sede da Rua Cláudio Nunes, desandei ou desandaram-me, não estou bem certo ou prefiro não recordar tal cena…



O novo recinto de jogos do Clube Futebol Benfica, Campo Francisco Lázaro, na antiga “Quinta da Casquilha”. (Foto de Artur Goulart - 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)

Uns anitos volvidos e em 1983 regressei ao Clube Futebol Benfica onde me atribuíram o nº 1684… Breve estadia, desta vez e, logo de seguida, engalinhei por qualquer razão e arranco, mercê de radical atitude: renunciei ao clube do meu coração! Mas, esperem lá um bocadinho! Querem lá ver que o principal motivo que me levou a desertar do Clube Futebol Benfica, e agora definitivamente, já teria a ver com o tal nome de Fófó? É bem possível, sim senhor! Não descarto tal hipótese…



Escola António Maria dos Santos nº78, a “Escola do Ferrador”, situada na Estrada de Benfica e paredes-meias com o antigo Expedidor da Carris.
(Foto de Fausto Castelhano)



A Escola Primária António Maria dos Santos nº 78, na Estrada de Benfica e paredes-meias com o antigo Expedidor da Carris, é identificada por “Escola do Ferrador” e a Escola Primária Elementar de Aplicação nº 47 e que frequentei da 2ª à 4ª Classe, localizada junto ao antigo Quartel dos Sapadores Bombeiros e da Cozinha dos Pobres da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, cai e passa a “Escola da Câmbra” (Câmara).




O lançamento da primeira pedra para a construção da Escola Normal Primária de Lisboa pelo Presidente da República, Dr. Bernardino Machado, que presidiu à cerimónia. A referida instituição esteve aqui instalada até 1930. Depois desta data, passou a Escola do Magistério Primário de Lisboa e, em 1979 foi substituída pela Escola Superior de Educação de Lisboa.
(Foto de Joshua Benoliel - 1916 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Quanto à Escola do Magistério Primário de Lisboa (2) e cujo início de construção data de 1916, o nome original obscurece aos poucos e emerge, curiosamente, com a designação antiga, a Escola Normal, nome que lhe foi imputado aquando da sua fundação em 1862, ainda no tempo da Monarquia, claro está…



O magnífico edifício da Escola do Magistério Primário de Lisboa (1930/1979) inaugurado em 1916 pelo Presidente da República, Bernardino Machado. Actualmente, Escola Superior de Educação de Lisboa.
(Foto Wikipédia)



O caso mais sintomático ocorreu com o meu irmão António, o protagonista do célebre Bonifácio, episódio histórico que alvoraçou a cidade de Lisboa no já distante dia 10 de Maio de 1939…
O acto derradeiro, absolutamente imprevisível desenrolou-se, em cenário de extraordinário aparato aqui, na Freguesia de Benfica tendo, por palco principal, a exuberante seara de trigo da famosa “Quinta de Montalegre”



António Castelhano, “O Bonifácio”, tal como foi rebaptizado após o episódio histórico ocorrido a 10 de Maio de 1939 na Freguesia de Benfica.
(Foto gentilmente cedida por Maria Teresa Castelhano e publicada no Diário de Notícias de 10 de Maio de 1939)



Ao mano mais velho, trocaram-lhe as voltas e, pura e simplesmente, rebaptizaram-no: “O Bonifácio”! E assim ficou p’ra sempre e, na vizinha Carnide e ao longo de muitos anos, nas conversetas que fomos mantendo, amiúde, com raros sobreviventes e testemunhas desses longínquos tempos, o António Castelhano (prematuramente falecido em 1945) foi, em todos os momentos, recordado como “O Bonifácio”… Penso que o nome próprio do meu irmão fora varrido, totalmente, da mente dos velhos amigos e conhecidos e, no meu caso, era sempre apresentado como “O irmão do Bonifácio”. Nem Mais! O que me causava, devo confessá-lo, gozo incomensurável…



O bulício doMercado de levante na Avenida Grão Vasco ou “Rua da Praça” ou, ainda, “Rua da Mata”.
(Foto de Artur Goulart - 1965 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Porém, duas artérias da Freguesia de Benfica, homenageando personagens maiores da cultura portuguesa, merecem uma atenção especialíssima, redobrada: a Avenida Grão Vasco e a Rua Emília das Neves e, ao evocá-las, somos transportados, e que saudades, a uma época já distante: ao tempo da nossa meninice, ou seja, aos primórdios da década de 40 do século XX…

Confinados aos muros e valados da Quinta do Charquinho após emigração da Quinta de Montalegre, a maior e a mais bela quinta das redondezas, bafejados pela saudável vivência de alargados horizontes e do contacto permanente com a Natureza, os primeiros contactos com uma nova e fantástica realidade persistem vivos e fortemente impregnados no nosso imaginário…



Portão do Parque Silva Porto no final na Avenida Grão Vasco, a “Rua da Mata” ou a “Rua da Praça”.
(Foto de Fausto Castelhano -2011)



“Vamos à praça…ao peixe”! "Meninos: arranjem-se, vamos à missa!" Ou então, o pai: “Rapazes! Venham daí… vamos a Benfica, à Adega dos Ossos, beber um cafézinho”!
Incitados pelos nossos progenitores arrancávamos, alvoraçados, Estrada do Poço do Chão afora direitinhos ao centro histórico de Benfica onde, espantados, deparávamos com o extraordinário pólo de convivência e do contínuo vai-vem da população, o bulício do “Mercado de Levante” onde avultavam, por entre a zoeira fervilhante das gentes, os mais variados pregões das vendedeiras de hortaliça ou fruta da região saloia e das peixeiras incitando à compra do “peixe fresquinho do nosso mar”



Bonita moradia demolida nos finais da década de 60 do século XX na Avenida Grão Vasco, 47.
(Foto de Artur Goulart - 1965 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Ficávamos subjugados ante um mundo totalmente desconhecido até então: era a Avenida Grão Vasco, a “Rua da Praça” ou a “Rua da Mata” no seu máximo esplendor: cenário indescritível que atordoava os nossos sentidos…
Marcavam-se encontros, regateavam-se os preços, mantinham-se bate-papos informais, discutiam-se todos os assuntos que viessem à baila, coscuvilhava-se em grande estilo… ratando, impiedosamente, na pele de conhecidos, vizinhos ou desconhecidos… ou familiares!



Avenida Grão Vasco, 48 e 50, “Rua da Mata” ou “Rua da Praça”.
(Foto de Artur Goulart - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Quando me “dá a telha” e por ali resolvo vaguear absorvido nos meus pensamentos, parece-me vislumbrar os monstros amarelos e o som do ranger dos rodados de ferro nos carris ao curvarem à saída do “Expedidor” para a Rua Emília das Neves… Ou então, após atravessarem a “Rua da Mata” e virar a 90 graus, tomarem o caminho da Estrada de Benfica junto ao prédio de gaveto da papelaria do Sr. Silvino, isto é, frente à Igreja de Benfica! Era, realmente, a total fascinação!



Bonita moradia na Avenida Grão Vasco, 41.
(Foto de Augusto de Jesus Fernandes - 1966 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



E quando o “Guarda-freio”, o “Pica-bilhetes” ou algum passageiro alçava do braço e puxava pelo cordão de couro fazendo tilintar a campainha do amarelo? Que maravilha! Embora um pouco diluídos pelo passar do tempo, quando apuro o ouvido, continuo a ouvir esses sons de outrora de um modo absolutamente distinto…
Sensivelmente a meio da Avenida Grão Vasco e na perpendicular, a Rua Emília das Neves era fortemente influenciada, tanto no raiar do dia como à tardinha, não só pelo embarque e desembarque de passageiros das carreiras de eléctricos da “Carris” na paragem do “Expedidor” mas, outrossim, pela afluência contínua de fregueses ao dirigirem-se à “Praça ao ar livre” próxima…



A conceituada Casa de Pasto na Avenida Grão Vasco, 11, 13 e 15.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1960 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A "Rua do Expedidor", tal como era conhecida pela comunidade local apresentava, assim, uma movimentação digna de menção. As populações de lugares um pouco afastados, seja a Buraca, Venda Nova ou Damaia seja, até mesmo, a Amadora, Carnide e Pontinha, por ali circulavam diariamente, ora dirigindo-se aos mais variados afazeres e empregos, ora convergindo na direcção do “Mercado de Levante”, a fim de se abastecerem dos mais variados produtos hortícolas, peixe, criação de bico e coelhos orelhudos os quais, à vista do cliente mais exigente, não escapavam ao seu destino: mortos, sangrados e esfolados...



Rua Emília das Neves, 2 a 30. O carro eléctrico da Carris espreita à saída do Expedidor. Acabou de arrancar e vai iniciar o seu percurso até à Baixa.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1969 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A Avenida Grão Vasco ainda se anuncia como a “Rua da Mata” porém, o registo de “Rua da Praça” dissipou-se no dia 19 de Outubro de 1971, isto é, a data da inauguração do Mercado Municipal de Benfica…
Quanto à Rua Emília das Neves, perdeu a importância de outros tempos e que lhe era conferida com toda a propriedade, tanto pelo “Mercado de Levante” que cumpriu, exemplarmente, o seu papel em determinada época como, também, pela circulação dos carros eléctricos da Carris os quais, exactamente ali, "davam a volta", isto é, curvavam da Estrada de Benfica para o Expedidor e dali, entravam na Rua Emília das Neves… Assim, esta artéria vai sentir de modo acentuado, a queda de prestígio e influência a partir de 1973 quando os carros eléctricos, definitivamente, deixaram de circular pela Estrada de Benfica…
Entretanto, o nome pela qual era vulgarmente conhecida, "Rua do Expedidor" apagou-se da memória das gentes e caiu, de maneira abrupta, no mais absoluto esquecimento...
Recentemente e aos poucos, uma nova designação começa a despontar e vai-se insinuando entre a população: a "Rua da Xana"!
Ou me perguntam a localização do veterinário da "Rua da Xana" ou ao indagar por um estabelecimento de componentes electrónicos, encaminham-me no mesmo sentido…



Rua Emília das Neves.
(Foto de Artur Inácio Bastos - 1961- Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Que raio de coisa… Intrigado, a princípio não atinei com a razão objectiva… Só muito mais tarde, quando me elucidaram através de amigos comuns… Na Stimuli/Unisben é frequente a alusão a esta nova nomenclatura… O termo é curto, fácil de pronunciar e cai que nem mel no ouvido… Se vai pegar… só o tempo o dirá…

Inseridas na zona nobre da Freguesia de Benfica, a Avenida Grão Vasco e a Rua Emília das Neves, pelas quais continuamos a nutrir desmedida afeição, além de albergarem uma longa e interessante história, algo desconhecida das gentes de Benfica e que urge desvendar em todos os aspectos explorando, claro está, todos os pormenores que contenham algum interesse…



Moradia demolida na Rua Emília das Neves, 8.
(Foto de Artur Goulart - Arquivo Fotográfico da Municipal de Lisboa)



As duas artérias encontram-se, ad eternum, indissoluvelmente irmanadas desde as suas origens mercê de cordão umbilical comum, isto é, geradas pelo mesmo ventre: a histórica “Quinta da Feiteira”.
Recuar no tempo e escavar, escavar a fundo até aos caboucos é o nosso propósito tentando, de permeio, revelar factos curiosos da Avenida Grão Vasco (“Rua da Mata”) e da Rua Emília das Neves, eventualmente, a "Rua da Xana", abordando também, a evolução do espaço envolvente onde estão localizadas e as alterações ou etapas de desenvolvimento que foram sofrendo no decorrer de várias épocas no contexto da Freguesia de Benfica... No fundamental, será o principal propósito deste trabalho…

[Continua…]



*** Por razões de higiene mental, o autor não respeita as normas do Novo Acordo Ortográfico.




NOTAS:


(1)- Stimuli/UNISBEN
Associação de Cultura e Artes de Lisboa (integra a Unisben).
A Unisben - Universidade Intergeracional de Benfica, é uma instituição de âmbito social e educativo, não-governamental e sem fins lucrativos, que nasceu com o propósito de combater a solidão e proporcionar aos seniores com mais de 50 anos momentos de aprendizagem e lazer.
O objectivo passa por proporcionar àqueles que são o nosso passado e que precisamos que sejam também o nosso presente, conhecimentos em múltiplas áreas do saber, nomeadamente as línguas, ciências sociais, saúde e música, entre outras, dando ainda a oportunidade de participar em actividades práticas em paralelo.

(2)- Escola do Magistério Primário de Lisboa
O magnífico edifício foi construído entre 1916 a 1919, segundo projecto de Adães Bermudes e foi inaugurado pelo Presidente da República, Dr. Bernardino Machado. A Escola Normal Primária de Lisboa (1862/1930) permaneceu naquele espaço até 1930, ano em que o Estado Novo extinguiu todas as Escolas Normais do país, substituindo-as pelas Escolas do Magistério Primário. A Escola do Magistério Primário de Lisboa funcionou sempre neste edifício até 1979 tendo, a partir desta data, substituída pela Escola Superior de Educação de Lisboa.