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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Tabernas, Tascas e Casas de Pasto na Freguesia de Benfica (1)




Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2010)




Capítulo 1


(por Fausto Castelhano)



Locais míticos do imaginário colectivo da população de Benfica, as Tabernas, Tascas e Casas de Pasto impuseram-se como espaços de sociabilidade importantes e onde prevalecia a genuína amizade e a convivência fraternal mormente, das classes sociais mais débeis mas que, ao cabo e ao resto, acabava por atravessar a totalidade dos diversos extractos sociais da sociedade da urbe… Ali assentavam quartel operários, empregados de diversas profissões, trabalhadores indiferenciados, trabalhadores rurais e todos quantos se abeirassem do balcão no intuito de acamaradar em paz e harmonia depenicando algo acompanhado d’um copinho de bom vinho nas beiças e paleio sem fim e onde o taberneiro, amigo e confidente, complacente com todos os fregueses e figura central do território, controlava todo o ambiente…




Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica
(Foto de Eduardo Portugal – 1950 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Óptimo ponto de encontro no final dum árduo dia de trabalho ou nos momentos de descanso e lazer, onde os amigos partilhavam alegrias e carpiam desilusões, discutiam interesses e preocupações do dia a dia, sentados nos bancos corridos ou em pé, repudiando cerimónias de qualquer espécie… Todos os temas serviam como argumento de animada conversa e onde, por vezes, eclodiam acesos debates sobre as mais variadas questões e onde a política tinha lugar primordial. Conspirava-se muito… e a valer… contra o poder instituído…
Fumava-se, sem proibições da Lei, os 'Definitivos' e os 'Provisórios', o 'Português Suave' e o 'Três Vintes', o 'Paris' e o famoso e baratucho 'Kentucky', o mata-ratos como era carinhosamente apelidado. Enrolava-se tabaco de onça da marca 'Superior' e papel de mortalha 'Conquistador' ou 'Zig-Zag'… Era assim! Fabuloso…
Através da rádio, escutavam-se, atentamente, e vibrava-se com a loucura dos relatos de futebol ou de hóquei em patins no tempo do Emídio Pinto, Raio, Edgar, Jesus Correia e do primo, Correia dos Santos e, um pouco antes, dos manos Serpa: o Sidónio e o Olivério, nossos conterrâneos, na voz inconfundível, e que se perde na memória dos tempos, do locutor Domingos Lança Moreira… A televisão e outras modernices do nosso dia a dia que invadiram, de modo avassalador, a nova era do audiovisual, ainda não tinham irrompido brutalmente em cena ou encontravam-se nos seus primórdios, fenómenos que, em larga medida, impedem o diálogo e a convivência entre as pessoas.




A “Fortex” na esquina da Estrada de Benfica com a Avenida Grão Vasco e frente à “Adega dos “Ossos”. A praça de táxis (reparem nos números dos telefones dos taxistas afixadas na parede do prédio), a bomba de gasolina da BP e, a seguir, a mercearia com venda de fruta. Um pouco mais à frente e onde se encontra um freguês sentado à porta, antes da Garagem Bemficauto (com o reclamo da Shell), uma taberna muito bem localizada (junto à paragem dos autocarros) e melhor frequentada. Entre a Garagem Bemficauto e a Escola Primária António Maria dos Santos, localizava-se o Expedidor da Companhia Carris de Ferro de Lisboa (onde os carros eléctricos da Carreira nº1 efectuavam a volta para a Rua Emília das Neves) e onde, mais tarde, foi construído o prédio amarelo com o nº 733, logo a seguir ao Centro Comercial Nevada.

(Foto de Augusto de Jesus Fernandes - 1961 - Arquivo Municipal de Lisboa)




As tascas e as tabernas, eram um mundo fascinante, exclusivo dos homens, fechado. Mulheres, ali, não se atreviam a colocar o chinelo. Nem é bom pensar em tal descaramento, era só o que faltava! Só para lá do balcão com tampo em madeira ou mármore, e sempre tratadas com o maior respeito e deferência: as esposas ou as filhas do taberneiro ou algum elemento feminino do seu agregado familiar…




O “Tasco” na Estrada de Benfica, nº 727/727F (frente à “Adega dos Ossos” e mencionado na foto anterior) a seguir à Fortex e à mercearia com venda de fruta e antes da Garagem Bemficauto, com a tabuleta da Shell (Onde, mais tarde seria edificado o Centro Comercial Nevada). Reparem nos fregueses a entrar… sedentos de um copinho de boa pinga! Tabernas e tascas na nossa Freguesia de Benfica, existiam muitas… e vinhaça do barril, oriunda das melhores procedências, também. Um regalo!

(Foto de João H. Goulart – 1961 – Arquivo Municipal de Lisboa)




Exactamente ali, naqueles espaços de autêntica magia, onde se exerciam os honestos negócios de vinhos e petiscos tradicionais que, em torno dum copázio de vinho do barril e petisco apetitoso de sabor requintado a condizer, estabeleciam-se amizades duradouras e que se prolongavam pela vida fora…
Jogava-se, calmamente, ao dominó e às damas; empolgantes, as partidas da sueca ou à bisca de quatro, a copo de dois ou de três logo que se completava cada cruzeta, ou então, conforme o combinado, previamente, entre os parceiros da jogatina; renhidos, barulhentos e disputados palmo a palmo, os desafios de matraquilhos… As mesas de “negus”, uma variante do snooker, surgiram um pouco mais tarde e tornaram-se uma coqueluche.



“Casa de Pasto” de intocável reputação na Avenida Grão Vasco, nº 11 a 15 e óptima localização. Repare-se na tabuleta: “Casa de Pasto”.

(Foto de Arnaldo Madureira – 1960 – Arquivo Municipal de Lisboa)



Com os fregueses à porta, cá está a “Casa de Pasto” da Avenida Grão Vasco, nº 11 a 15, junto ao candeeiro de iluminação pública. Um pouco à frente e junto ao outro poste, a primeira paragem do eléctrico da carreira nº1 (onde os passageiros aguardam embarque) dos eléctricos vindos do Expedidor da Carris e após o curto trajecto da Rua Emília das Neves para a Avenida Grão Vasco.

(Foto de Artur Inácio Bastos 1961 - Arquivo Municipal de Lisboa)



O edifício da foto, na Avenida Grão Vasco, nº 21 a 27 está na calha. No prédio onde existia a “Casa de Pasto”, na Avenida Grão Vasco, nº 11 a 15 referido no texto e nas fotos anteriores, já foi demolido. O novel edifício que tomou o lugar do anterior está, praticamente, terminado e mais uma memória da Freguesia de Benfica, arrumou as botas… O poste, à direita, era a primeira paragem dos eléctricos da Carreira nº1 logo que curvavam da Rua Emília das Neves (vindos do Expedidor da CCFL) para a Avenida Grão Vasco.

(Foto de João H. Goulart – 1961 – Arquivo Municipal de Lisboa)




P’ra fazer peito ou lastro, saboreavam-se os pequerruchos “carapaus de gato” fritos ou então, carapaus crescidos de escabeche, chouriças, pataniscas, torresmos, bacalhau frito, toucinho entremeado, azeitonas, atum ou sardinha de barrica, moelas estufadas, passarinhos fritos (um acepipe de primeira apanha), ovos cozidos, orelheira de porco, onde o alho pisado, o azeite e os coentros são imprescindíveis e lhe davam um sabor detrás da orelha, pratinhos de caracóis apaladados a orégãos, caldo verde picadinho, sopa à lavrador de garantida sustância, etc.
E, como se poderá imaginar, ainda o sol, um pouco relutante, não se resolvia a assomar no horizonte e já os portais das nossas tascas e tabernas se abriam p’ró mata-bicho dos fregueses madrugadores e a caminho da sua labuta diária…




Marco quilométrico junto ao Chafariz Grande das Águas Livres de Benfica e frente à antiga taberna do Sr. João: Lisboa: 8 Km a percorrer até aos limites da cidade de Lisboa, em S. Sebastião da Pedreira… Bons tempos...

(Foto de Fausto Castelhano – Setembro de 2010)



As “casas de pasto” diferenciavam-se das tabernas e das tascas por alguns pormenores primordiais: espaços amplos e serviço de almoços e jantares a preços convidativos, isto é, restaurantes à moda antiga.
Vinhos excelentes, petiscos de fazer crescer água na boca, a comida caseira farta e bem apaladada, ambiente cordial e a boa disposição eram ingredientes a ter em conta no prestígio das casas de pasto…

Junto à coluna de pedra, do lado direito da estrutura que enquadra o Chafariz Grande das Águas Livres, lá está o marco quilométrico que assinala a distância a percorrer até às Portas da Cidade de Lisboa: 8Km. Nem mais, nem menos...

(Foto de Fausto Castelhano – Setembro de 2010)




Vamos, então, retroceder aos anos 40, 50 e meados de 60 do Século XX e, tomando como referência central a Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Amparo e numa área relativamente restrita da zona histórica da Freguesia de Benfica, convidar os nossos amigos a desenferrujar as articulações das gâmbias e revisitar as Tabernas, Tascas e Casas de Pasto típicas do burgo, as mais representativas no panorama da nossa comunidade…
Então, vamos deitar o pernil ao caminho e começar na Estrada de Benfica, no prédio com o nº 727/727F, antes da Garagem Bemficauto e junto à paragem dos autocarros e da praça de táxis ou seja, frente ao adro poente da Igreja e da “Adega dos Ossos”. Lá está ela, uma taberna localizada com vistas largas e frequentada por clientela certa, onde os bons vinhos, tintos e brancos, e as saborosas petiscadas faziam as honras da casa…
Um pouco mais à frente, viramos à direita e, na Avenida Grão Vasco, nº 11 a 15, próximo da primeira paragem dos carros eléctricos da Carris, depois do Expedidor e, sensivelmente, na enfiada da “Adega dos Ossos”, deparamos com uma conceituada Casa de Pasto onde, a preços módicos, se enfardava bem e se bebia melhor!
Dali, entramos na Estrada de Benfica e seguindo pelo passeio em calçada portuguesa, passamos pelo café “Paraíso de Benfica” do Sr. Madureira, pela entrada do Campo Francisco Lázaro (do Clube Futebol Benfica), o muro e o edifício do antigo Patronato Paroquial da Freguesia de Benfica e, depressa chegamos ao Chafariz Grande das Águas LivresUma sugestão: para quando a urgente reabilitação do notável monumento?



A taverna/carvoaria do Ti’Alfredo (à esquerda) e, no enfiamento da Travessa do Rio com a Travessa do Açougue, o prédio da Estrada de Benfica, nº 554 (Ao fundo): a taverna do Zé da Graça, nº 554A e, no 1º andar, os Estúdios da Foto Nice.

(Foto de João H. Goulart - 1961- Arquivo Municipal de Lisboa)



A taberna/carvoaria do Ti’Alfredo na Travessa do Rio. A porta à esquerda com o nº 10, é a entrada do prédio; a porta larga com o nº 8, a taberna e, a porta à direita da foto com o nº 6, a carvoaria.

(Foto de Armando Serôdio – 1975 – Arquivo Municipal de Lisboa)



A taberna e a carvoaria do Ti’Alfredo na Travessa do Rio, nº 6 e 10. A porta larga da esquerda, a taberna. A porta à direita, a carvoaria. O magnífico prédio que existia à direita e fazia gaveto com a Estrada de Benfica (e onde, no rés-do-chão, estava instalada a loja da "Singer"), já fora arrasado na voragem do camartelo.

(Foto de Armando Serôdio – 1975 – Arquivo Municipal de Lisboa)



E, já agora, não esquecer que, exactamente deste ponto e até às antigas Portas da Cidade de Lisboa (1), em S. Sebastião da Pedreira, distavam 8 Km… Nem mais! O histórico marco quilométrico, em pedra, por enquanto ainda lá permanece, certamente devido a simples milagre do acaso! Se pudesse e pela sorrelfa, já o tinha rapinado evitando que um dia vá cair nas garras de um qualquer gang de traficantes gananciosos.

A carroça do “petrolino” de tracção cavalar, estacionado na Travessa do Rio, frente à carvoaria do Ti’Alfredo. Venda ambulante de azeite, petróleo, etc. À direita, o portão de acesso ao palacete do Visconde Sanches de Baena, Travessa do Rio, nº 1.

(Foto de Artur Goulart – 1960 - Arquivo Municipal de Lisboa)




Ultrapassamos o início da Estrada das Garridas, o enorme complexo do Laboratório Nacional de Patologia Veterinária (actualmente, Laboratório Nacional de Investigação Veterinária), mas nos finais do Século XIX, o edifício emergia como Hotel Mafra




O restaurante “A Travessa” na Travessa do Rio, onde outrora existia a taberna/carvoaria do Ti’Alfredo.
(Foto de Fausto Castelhano – Setembro de 2010)




Um pouco mais à frente, a capelista do Sr. Capelo, o prédio do Centro de Trabalho do Partido Comunista Português e, entre a barbearia do Sr. Neto e a drogaria do Sr. Júlio ou do “Careca”, como amigavelmente o alcunharam, a pequena taberna do “Loureiro”, onde um raminho do conhecido arbusto com o mesmo nome, tempero imprescindível na cozinha lusa, permanentemente dependurado na ombreira do tasco anunciava, tal e qual como reclamo a néon, “Aqui vende-se pinga de estucha”.
Porém, e segundo reza a tradição, as folhas de loureiro teriam uma outra meritória função: disfarçavam o hálito a vinhaça quando os fregueses regressavam a casa. E então, retiravam uma folhinha do aromático loureiro e iam mascando pelo caminho… e pronto! Pelo menos, estava salva a honra do convento e safavam-se dos ralhos da ordem: “Homem! Nunca mais ganhas tino nessa cabeça! Andas sempre metido nos copos, meu desgraçado!

Meia dúzia de passos andados e, à direita contornamos o edifício de gaveto e entramos na Travessa do Rio. Ao fundo, o pequeno gradeamento que a separava do curso de água que, na década de 60 do século XX, resolveram encanar até ao rio Tejo, passando, seguramente, pela ETAR da Avenida de Ceuta.



O restaurante “A Travessa”, na Travessa do Rio. A fachada do prédio sofreu uma alteração de monta: a porta da carvoaria (à direita) foi fechada e transformada numa janela. O interior, foi todo escavacado e não reflecte o encanto do local d’outros tempos.

(Foto de Fausto Castelhano – Setembro de 2010)




Era exactamente aqui, a meio deste curto arruamento da nossa freguesia de Benfica que encontramos um estabelecimento de referência: a taberna/carvoaria do Ti’Alfredo, um homem de boa cepa e simpatia sem limites p’ra todos os clientes e onde a franca disposição estava estampada no rosto bonacheirão… Brancos e tintos das melhores regiões e petiscos de harmonia com a boa pomada.



Brasão de Armas do Visconde Sanches de Baena que encimava o palacete do mesmo nome edificado no século XIX na Estrada de Benfica. O edifício formava gaveto com a Travessa do Rio.

(Foto do Arquivo Municipal de Lisboa – 194..)




Matraquilhos, jogo de cartas, dominó, “négus”, onde a rapaziada se entretinha por largo tempo. Este simpático local, a par da taberna do Sr. João, no gaveto da Estrada de Benfica com a Rua dos Arneiros (antiga Travessa dos Arneiros) reunia as nossas preferências… Tudo à maneira! Que saudades, meu Deus!



Palacete do Visconde Sanches de Baena na Estrada de Benfica, 609 a 613 e o gradeamento em ferro ao longo de todo o edifício.

(Foto de João H. Goulart – 1960 - Arquivo Municipal de Lisboa)




Na porta ao lado e fornecida dos melhores produtos do ramo, frequentada por vasta clientela, a carvoaria: comércio de carvão, bolas de coque, petróleo e similares… Um grande negócio, sem dúvida!
A fachada do prédio sofreu alterações de monta, porém e no essencial, mantém a fisionomia d’um tempo que já passou. Actualmente, o espaço está transformado num banal restaurante como tantos outros que infestam a nossa freguesia… mas com pretensões p’ró finaço: Restaurante “A Travessa”.
Umas passadinhas e voltamos à Estrada de Benfica. Agora estamos no início do gradeamento em ferro do estupendo palacete do Visconde Sanches de Baena. Correspondemos ao aceno do Sr. Zé da Graça, lá está ele à porta da taberna, do outro lado da rua: Olá, Sr. José da Graça! Muito bom dia para si…
Bom, vamos parar por aqui e descansar um pouco… Depois, seguimos…

Continua…




NOTAS:



(1)-


Os limites da cidade de Lisboa
Estrada da Circunvalação de Lisboa



Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

O nome "Estrada da Circunvalação" designou sucessivamente no século XIX duas estradas correspondentes aos limites do município de Lisboa.
Em 1852, uma estrada assim designada circundava os limites da cidade de Lisboa, começando em Alcântara, na zona da Triste-Feia, subindo a Rua Maria Pia, Rua do Arco do Carvalhão, e passando por São Sebastião da Pedreira na zona da Rua Marquês de Fronteira. Atravessava ainda a zona das Avenidas Novas, troço destruído pela criação das mesmas, pela zona da Avenida Duque de Ávila/Saldanha, e descia outra vez pela Rua Visconde de Santarém, Rua Morais Soares e Avenida Afonso III.
Em 1886, com a expansão do município de Lisboa, foi criada uma nova Estrada da Circunvalação que definiu o actual limite geográfico do Concelho de Lisboa, desde Algés (Portas de Algés), ao longo de Monsanto, pelas Portas de Benfica, Camarate, até descer novamente até ao Tejo na zona do actual Parque das Nações. Esta Estrada da Circunvalação, por sua vez, agrupava a Estrada da Circunvalação Fiscal - que ligava Algés a Benfica, limitando o concelho de Lisboa a ocidente - e o lanço de Benfica a Sacavém da Estrada Militar - que interligava as fortificações do Campo Entrincheirado de Lisboa.
Esta última Estrada da Circunvalação é uma via que, fisicamente já quase desapareceu, com vários dos seus troços incorporados ou substituídos em outras vias mais modernas, tais como a CRIL/IC-17 no lado ocidental.
[editar] História
A importância desta estrada na delimitação dos limites administrativos, fiscais e territoriais do Concelho de Lisboa é bem patente em vários decretos na segunda metade do século XIX, o que indica a existência de um caminho anterior importante.
Em 1885 é extinto o concelho de Belém (artigo 226.º da Lei de 18 de Julho) e o limite geográfico de Lisboa, até então localizado no Vale de Alcântara, avança para oeste, até Algés. Lisboa passa a ocupar toda a zona ribeirinha, de Sacavém até à Ribeira de Algés. Benfica será divido, com a parte interior à Estrada da Circunvalação integrada em Lisboa e a parte exterior em Oeiras.
No ano seguinte, o Decreto de 22 de Julho de 1886, reformula as fronteiras de Lisboa para o interior, como se pode ler no seu artigo 1.º: "O município de Lisboa será limitado desde Algés até Bemfica pela estrada de circumvallação fiscal, e desde Bemfica até Sacavém pela estrada militar ou qualquer variante que nesta se faça para facilitar o serviço fiscal."
Uma nova estrada começa a ser construída em 1886, mas só ficará concluída em Novembro de 1903. Alcatroada em meados do século XX, mantém o seu percurso sinuoso e estreito até meados de 1992, quando se iniciam os trabalhos da CRIL/IC17, que em grande parte da sua extensão tem um traçado quase coincidente com o da antiga estrada.






sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Concelho de Belém

Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2010)




À procura das memórias d’outros tempos…

(por Fausto Castelhano)



Com a reforma administrativa de 11 de Setembro de 1852, foi extinto o chamado Termo de Lisboa (um vastíssimo território que se estendia a Norte e a Ocidente da Cidade de Lisboa) e criados dois novos concelhos: Belém e Olivais.



Chafariz do Largo do Malvar, Carnide.
(Foto de Fernando Martinez Pozal – Arquivo Municipal de Lisboa - 1952).
Em segundo plano, o muro que, vindo da Estrada do Poço do Chão, contornava a Quinta do Conde de Carnide.



O Concelho de Belém englobava as freguesias de Ajuda, Belém, Benfica, Carnide, Odivelas e, ainda, S. Pedro de Alcântara (extra-muros), S. Sebastião, (extra-muros) e Santa Isabel (extra-muros), ou seja, áreas exteriores à Estrada da Circunvalação. Em 1886, com a expansão da cidade de Lisboa, foi criada uma nova Estrada da Circunvalação a qual, permaneceu até aos dias de hoje. Porém, vários troços foram incorporados na cidade de Lisboa e outros, substituídos por vias mais modernas.



Chafariz do Largo do Malvar, Carnide.
(Foto de João Goulart – Arquivo Municipal de Lisboa).
Em segundo plano, lá está a Igreja de S. Lourenço e, a meio e à esquerda da foto, parte do telhado do Lavadouro Público.




O total da superfície do Concelho de Belém rondava os 63 Km2.

A 18 de Junho de 1885, o Concelho de Belém é extinto mas, durante este período de tempo, Belém conheceu a sua maior autonomia de sempre.



Lavadouro Publico do Largo do Malvar, Carnide.
(Foto de João Goulart – Arquivo Municipal de Lisboa).
O edifício ainda lá está… Aproveitem e vão lá ver… Qualquer dia, arrasam-no…




A Freguesia de Benfica é, então, absorvida pela cidade de Lisboa, mas uma parte, para além da nova Estrada da Circunvalação, passou para o Concelho de Oeiras.
O primeiro presidente do Concelho de Belém, foi a grande figura da cultura portuguesa Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo.



Chafariz do Largo do Malvar, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Domingo passado, logo pela manhãzinha, fomos à procura de algum testemunho que subsistisse, na Freguesia de Benfica, e que nos lembrasse o famoso Concelho de Belém. Farejámos duas zonas que ainda não foram totalmente esfrangalhadas: o núcleo do Calhariz de Benfica com o seu casco antigo e o troço da Estrada da Buraca junto ao Aqueduto e chafariz das Águas Livres e, também, da Quinta do Bom Pastor…Bem nos esforçámos…mas népia.
Não obstante e para o nosso feitio, era impensável acabar o dia de mãos a abanar…Seria um autêntico fracasso e nem ficaríamos de consciência tranquila…

Então, alargámos o nosso raio de acção e rumámos à nossa vizinha Freguesia de Carnide pela qual, nutrimos um carinho muito especial. Eu próprio, nasci na antiga Quinta de Montalegre que se dividia por duas freguesias. Um pedação da sua área pertencia à Freguesia de Benfica e o outro bocado, onde existia a célebre Cascata Monumental, estava incluído na Freguesia de Carnide.



Chafariz do Largo do Malvar, Carnide. Inscrição: "Câmara Municipal de Belém – 1857"
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Demos corda aos sapatos e lá fomos… E, logo à entrada da Freguesia de Carnide (vindos pela Estrada da Correia e do último trecho da Estrada do Poço do Chão) e paredes meias com a velha Igreja de S. Lourenço e o Lavadouro Municipal (já desactivado), exactamente no Largo do Malvar, lá estava a primeira referência ao antigo Concelho de Belém: o vetusto chafariz e, esculpida na pedra, a inscrição: "Câmara Municipal de Belém – 1857"
O local, julgamos, é razoavelmente conhecido da população…
Junto ao murete que contorna o chafariz existia, em tempos não muito recuados, um marco de pedra com uma inscrição semelhante… Pelos vistos, levou sumiço… para sempre…



Igreja de S. Lourenço, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)




E, já que ali estávamos, resolvemos invadir o recinto da Igreja de S. Lourenço onde se encontram, espalhadas um pouco por todo o lado, vários e pedregulhos lavrados (cuja origem se perde na noite dos tempos) e belíssimas lápidas seculares pertencentes ao antigo cemitério de Carnide…



Igreja de S. Lourenço, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



A igreja foi mandada edificar em 1342 pelo bispo de Lisboa, D. João (em honra de S. Lourenço), por Pedro Sanches, chantre da sua Sé. O bispo de Lisboa ofertou-a, depois, ao seu capelão João Dor. A Igreja de S. Lourenço era já Igreja paroquial no Século XIV.



Torre sineira da Igreja de S. Lourenço, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



A orientação e disposição da igreja é bastante antiga todavia, muito pouco de consegue observar do seu estado primitivo.
Foi remodelada e bem, desde há poucos anos. É um templo alegre possuindo, no seu interior, obras de talha dourada e as paredes encontram-se forradas com azulejos de azul sobre branco alusivos à vida de S. Lourenço.
Na capela-mor da igreja encontram-se inúmeras campas de épocas remotas.
Na frontaria da Igreja de S. Lourenço encontra-se uma inscrição referente à sua fundação e uma pedra com escudo de armas indecifrável e onde está esculpida uma perna com bota de cano alto encimada por uma estrela de seis pontas.



Na frontaria da igreja de S. Lourenço encontra-se uma inscrição relativa à sua fundação.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Igreja de S. Lourenço, Carnide - Pedra com escudo de armas (bastante estranho) colocada na frontaria da igreja. Uma perna com bota de cano alto encimada por uma estrela de seis pontas.
(Foto de Fausto Castelhano - Maio de 2010)




No alto de um cunhal, do lado do sul da igreja, está uma pedra com inscrição em caracteres góticos (talvez do Século XV) que diz: "ESTA SEPULTURA É DE LUÍS D’ABREU E DE TODOS SEUS HERDEIROS".



Martírio de S. Lourenço. Composição historiada, pintada a azul, representando uma cena do martírio de São Lourenço. Este painel integrava o revestimento original da nave Igreja de São Lourenço de Carnide e foi retirado no início do século XX. Dos painéis que integravam esse revestimento, um foi posteriormente colocado num paredão no troço final do Aqueduto das Águas Livres, nas Amoreiras (painel central), tendo os restantes sido guardados no Museu da Cidade.



Belíssimas pedras lavradas pertencentes ao antigo Cemitério de Carnide e que por lá ficaram.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Lápidas tumulares do antigo Cemitério de Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Vasculhámos o local até dizer chega e, dali, continuámos pelo coreto e o sítio primitivo de Carnide (que lindo que está!) até ao Largo das Pimenteiras (onde, agora, está instalada a Junta de Freguesia de Carnide) com o seu pequeno chafariz e um conjunto de pedras com inscrições de origem diversa os quais, estão enquadrados, e ainda bem, num magnífico espaço ajardinado muitíssimo bem cuidado…



Largo das Pimenteiras, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)




Depois, sim… Fomos ao encontro, há muito tempo aprazado, da mais bela memória do Concelho de Belém das redondezas. É profundamente lamentável que, a esta magnífica peça não lhe seja dado um local mais condigno dada a sua importância… Ali, não! Ninguém a topa… por mais que afine o olho…



Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz, Freguesia de Carnide. Encontra-se incrustada no muro de protecção do Convento dos Franciscanos.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)




Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz, Freguesia de Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano - Maio de 2010)



Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz, Freguesia de Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano - Maio de 2010)




O histórico testemunho do Concelho de Belém encontra-se incrustado no muro de protecção do Convento dos Franciscanos, no Largo da Luz, em Carnide… Pois é, mas naquele insólito local, passa completamente ignorado a quem quer que seja…
A inscrição, perfeitamente legível, menciona o Presidente da Câmara Municipal e os Vereadores daquela época: 1862… Reza assim:


"PRAÇA DE NOSSA SENHORA DA LUZ
MANDADA EDIFICAR PELA CAMARA MUNICIPAL DE BELÉM.
SENDO PRESIDENTE JOÃO ANTÓNIO DE SOUZA E VEREADORES MANUEL JOSÉ GONÇALVES. PEDRO AUGUSTO FRANCO. D. SEBASTIÃO DA SILVA PESSANHA. FAUSTINO JOSÉ DE FREITAS. JOSÉ ANTÓNIO CAPUCHO. FRANCISCO EVANGELISTA PACHECO.
1862"



Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz, Freguesia de Carnide com a inscrição onde é mencionada a Vereação da Câmara Municipal de Lisboa no ano de 1862.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Memória alusiva ao Concelho de Belém no Largo da Luz
(Foto de Fausto Castelhano - Maio de 2010)



E pronto… A incursão às memórias do Concelho de Belém, terminou aqui… O malvado estômago começava a dar sinais de si e a reclamar… A roer… a roer…

Maio de 2010

Fausto Castelhano

sábado, 15 de maio de 2010

Benfica... 1909





Planta disponível in Arquivo Municipal de Lisboa


[clicar para ampliar]




Com um agradecimento muito especial (pela cedência desta imagem) à Inês Mateus e às suas duas colegas, que se encontram a elaborar um trabalho de Arquitectura a propósito de dois edifícios da nossa freguesia.





sexta-feira, 23 de abril de 2010

O interior do 1º Cinema de Benfica




Um dos nossos leitores já nos tinha enviado, há alguns meses atrás, uma fotografia e testemunho sobre a importância do primeiro cinema da nossa freguesia.

Hoje deixamos aqui uma fotografia do interior desse mesmo Salão, onde, actualmente, funciona a Junta de Freguesia de Benfica.




"Um aspecto da assistência à matiné promovida pelo Cinéfilo no salão do Sport Lisboa e Benfica"

S/ identificação de autor. Data: 1934-06-09
In
Arquivo Nacional Torre do Tombo







domingo, 4 de abril de 2010

"Lisboa cor de rosa e cinza"




"Nasci na Estrada de A-da-Maia em Benfica.
Em Agosto de 1958 mudámo-nos para o Bairro de Santa Cruz. Eu tinha dois anos, a minha irmã 9 meses e o meu irmão viria a nascer nessa casa cor de rosa - o 17 da rua 8 - em 1960.


Lisboa foi para mim, durante muitos anos, aquele Bairro de famílias com filhos, pequena aldeia abrigada e segura, a nossa ilha. E a
Mata, manchazinha de Monsanto ali mesmo ao pé de casa...




Fotografia de Helena Águas



Lisboa eram os jogos da cabra-cega, do elástico e da macaca, as ameixas, os limões e os alperces, os miúdos à chinchada pela calada da noite e o meu pai a espantá-los como pardais, o homem do pitrolino com o seu cavalo e carroça de traquitanas, belo cigano de chapéu de aba larga 'ai Jesus' das criadas (naquele tempo havia criadas, raparigas que moravam connosco como família), o velhote dos gelados no triciclo motorizado há frutas ou chocolate, cone de bolacha normal ou especial e chocmint!, o senhor Vitorino com as hortaliças e sempre uma cenoura para oferecer ao “amigalhaço”, o menino lá da casa, jogos de futebol de portão a portão (e o menino brilhava) muda aos 5 acaba aos 10, limpa-chaminés enfarruscados, grandes cordas e escadotes como na Mary Poppins, a mulher robusta vendia o peixe à porta da cozinha, canasta pesada e grandes saias compridas, o homem do leite, o jarro maior e medidas de quarto, de meio, de litro, e os pregões!!

“Há praí traaapos, jornaais e garraafas para vendeer?”...


“Há figuiinhos maduriinhos! Quem quer fiiigos quem quer almoçaaar?!”...


O “Amoladooore!” de flauta de pã, dizia a minha mãe que o amolador anunciava a chuva


e nós “um dó li tá cara de amendoá um secreto coloreto um dó li tá quem está livre livre está!” e


“um aviãozinho militar atirou uma bomba ao ar a que terra foi parar?” e


“que linda falua que lá vem lá vem/ é uma falua que vem de Belém/ que vem de Belém que vem de Benfica/ é uma falua que lá vem cá fica./ vou pedir ao senhor barqueiro que me deixe passar/tenho filhos pequeninos não os posso sustentar...”


Às vezes rebanhos de ovelhas lá no Bairro. Havia quintas. Na Estrada de Benfica havia eléctricos de duas carruagens e autocarros com entrada atrás, verdes, de dois andares. Eu lá em cima a espreitar por cima dos muros das quintas. Havia uma Quinta das Rosas na Estrada de Benfica...

Helena Águas"







(com um agradecimento muito especial à Lena D'Água, por nos ter deixado aqui partilhar este seu testemunho)




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A "Adega dos Ossos"





Mais uma relíquia descoberta via Helena Águas (Obrigada, Lena!)...




Fotografia do Arquivo Mário Novais

(disponível na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian)




"Quando eu era pequeno havia duas pastelarias em Benfica. Uma por baixo da Igreja, frequentada pelo proletariado do bagaço, sempre cheia de serradura e de beatas esmagadas a que chamavam Adega dos Ossos e onde me desaconselhavam ir no receio de que eu me viciasse funestamente na ginjinha e no Português Suave e acabasse os meus dias a jogar dominó, a perder à sueca e a tossir no lenço.


Era um estabelecimento escuro, cheio de garrafas na parede, em cuja vitrina havia mais moscas que pastéis de nata. Para além das prateleiras de lombadas de garrafas, uma biblioteca de delirium tremens, lembro-me do empregado vesgo, de olho direito furibundo e esquerdo de uma benevolente ternura e do senhor Manuel sacristão que ali descia entre duas missas, de opa vermelha, a comungar copos de três numa unção eucarística oculto por trás do frigorífico no receio do prior, todo ele severidade e botões desde o pescoço aos sapatos, e para quem o vinho, quando fora das galhetas, adquiria a demoníaca propriedade de tresmalhar as ovelhas levando-as a preterir o rosário das seis horas a favor do vicío abominável da bisca."



António Lobo Antunes, in "O Paraíso" - "Livro de Crónicas" (1998)





terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A 1ª Sede da Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica





Continuando na demanda pelo espólio da Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica, o Pedro Macieira escreve-nos o seguinte...




"Boa noite Alexandra,


De visita à primeira sede da Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica, o que aliás só vim a localizar, através do que foi publicado no "Retalhos de Bem-Fica" com a preciosa ajuda de Domingos Estanislau;

Envio-lhe fotos do "David da Buraca" e um programa do aniversário da Euterpe de 1923 , três anos depois da colocação da lápide de homenagem no edifício que tem o reclame do "David da Buraca".

(...)



Fotografias de Pedro Macieira (2010)




Não tenho nenhum jornal “A Filarmónica” correspondente ao ano da homenagem (1920), mas encontrei um número de 13 de Abril de 1923, número comemorativo do 64º aniversário da Euterpe de Benfica.

Neste número, o meu avô Eugénio Germano Baptista, no artigo “Ex improviso”, escreve sobre as as contingências a que as Sociedades de Recreios estavam sujeitas na altura:

“Rodeados por um circulo de fogo, lançado com fins que ainda não descortinamos, embora não se ande muito longe de acertar, já algumas Sociedades de Recreio desapareceram e outras lhes seguirão por ser impossivel manterem-se sobre tal pressão.”

E mais à frente:

“Foi também o concurso das Sociedades de Recreio que se gerou o ambiente favorável á implantação da República -«vinham junto do povo, porque era com ele que queriam viver» - diziam os propagandistas!!!”

E termina sugerindo que “se organize un Congresso das verdadeiras S.R. que tenha por base, a remodelação dos Regulamentos Policiais e demais legislação que existe sobre as mesmas, repondo as coisas no seu lugar e fazendo-se a devida justiça a quem de direito?”








Nesta altura, tinham passado 13 anos da implantação da República, vivia-se um período político e social tumultuoso, e, por curiosidade, é nesse ano que, proposta do Ministro da Instrução Pública, se propõe a reintrodução do ensino religioso em colégios particulares, o que , embora não aprovada, significava um importante passo atrás no laicismo oficial republicano.


Um abraço,

Pedro Macieira"





segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O "Paraíso de Benfica"





Para gáudio de muitos leitores e fãs, aqui vos deixamos hoje uma verdadeira relíquia...



Fotografia do Arquivo Mário Novais

(disponível na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian)




Via Helena Águas (que é uma verdadeira detective nisto de descobrir fotos antigas).

Muito obrigada!




quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A 1ª estação de Correios de Benfica




Graças a uma fotografia que nos foi enviada pelo Jorge Resende, conseguimos vislumbrar parte de uma casa antiga de Benfica, sobre a qual tínhamos uma enorme curiosidade...





"Estrada de Benfica" (1961)
Artur Inácio Bastos, in
Arquivo Municipal de Lisboa




"(...)

Os correios mesmo velhos eram ao lado da Vila Ventura. Os velhos eram aí.
Há aquela descida da Calçada do Tojal para a Estrada de Benfica, à direita logo, onde agora há assim uns prédios, aí era um jardim grande, maior do que o da Vila Ventura, e no fim havia uma casa onde era precisamente o correio.
Aí é que era o primeiro correio quando eu fui para lá, era pegado connosco.

Até aí, por acaso, é engraçado porque nessa casa, no primeiro andar dessa casa que tinha o correio em baixo, vivia a Maria Lamas, a escritora
Maria Lamas.
Mas é engraçado, porque não nos era nada! Maria Lamas, ela era casada com um senhor que se chamava Alfredo da Cunha Lamas. O meu pai chamava-se José da Cunha Lamas e não tinham nada
[a ver] um ao outro!
Ela tinha duas filhas, uma de um primeiro casamento… Ela foi casada primeiro com um aviador, Ribeiro da Fonseca, um oficial de aviação. E depois é que casou com esse tal senhor Alfredo da Cunha Lamas, que creio que era não sei bem de que partido, não sei.

(...)

E depois do outro lado, então, era essa Maria Lamas, que tinha 2 filhas, uma do primeiro casamento e outra do segundo.
E a segunda filha, a ‘Bissu’, não sei o nome dela, era a ‘Bissu’. A mais velha não me lembro como se chamava. E a mais nova, que era a ‘Bissu’, essa era Lamas, a outra não, a outra era Ribeiro da Fonseca.
E essa ‘Bissu’ tinha uma coisa que nos fazia uma impressão horrorosa, porque estava a brincar connosco, não é, enfim, nós dávamo-nos… Estava a brincar connosco e, de repente, fazia assim e agarrava
[Encena os gestos, demonstrando impressão] com um olho que saía da órbita e ela tinha que meter o olho lá para dentro… Uma coisa, fazia-nos uma impressão horrorosa! Tínhamos 7, 8 anos, isto faz uma impressão horrorosa, não é… Horrorosa!"


In Entrevista ao Engº. João António Lamas (projecto "Gente de Benfica"), 18/03/08.






sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O "Grupo de Amigos de Benfica"




Há alguns meses atrás, tinha sido amavelmente convidada por um dos nossos leitores, o Vítor Filipe, para participar num jantar de Natal do seu grupo de amigos de Benfica.

Um grupo de amigos, com idades compreendidas entre os 55 e os 65 anos, que costumava frequentar o "Nilo" e a "Carripana", nos anos 60, quase todos amantes do desporto automóvel e tendo alguns jogado hóquei em patins.

O jantar realizou-se esta noite e, infelizmente, devido a um outro importante compromisso profissional, acabei por não chegar ao referido jantar dos "amigos de Benfica". Ou melhor, dado que o jantar se encontrava em fase de término, parte dos convivas esperaram por mim no início da Rua Cláudio Nunes, onde ainda falámos bastante sobre Benfica (e o Carlos Cunha Pereira, o organizador deste jantar, me ofereceu algumas fotos da nossa freguesia).



Fotografia gentilmente cedida por Carlos Cunha Pereira



Fiquei com bastante pena de não ter conhecido os restantes "amigos de Benfica" e de não ter tido mais tempo para divagarmos sobre as memórias da nossa freguesia.

Mas fiquei mesmo muito contente quando me mostraram uma lista enorme de nomes e endereços de e-mails, dos tais "amigos de Benfica", que, brevemente, começarão também a receber o mailing do "Retalhos de Bem-Fica" e, talvez, venham, também, a contribuir para este blog.




Fotografia gentilmente cedida por Carlos Cunha Pereira




Como dizia, há algum tempo atrás, nos últimos 5 anos, tenho aprendido que um dos aspectos mais importantes no mundo dos blogs é, na verdade, o facto destes constituírem verdadeiros espaços de partilha.

E o mesmo tem sucedido com este "Retalhos de Bem-Fica", que se tem transformado, cada vez mais, num verdadeiro espaço comunitário, onde, todos juntos, temos vindo a descrever e a caracterizar a freguesia de Benfica através dos tempos.

Muito obrigada, por isso mesmo, a todos os leitores que (através do envio dos seus textos e fotos, dos comentários que aqui nos deixam nos posts e na "Caixa de Recados") nos têm auxiliado nesta tarefa!




quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

“Castiço”, o fabuloso boi de cobrição





Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2010)




(Por Fausto Castelhano)



Augusto Castelhano era um homem bom. Oriundo da região de Aveiro, à beirinha do Antuã e do esteiro de Salreu, cedo emigrara para Lisboa onde fora acolhido por um irmão mais velho, o ti’Manel Castelhano (que se dedicou, com sucesso, à agricultura) e onde também vivia a irmã, a tia Palmira. Ambos viviam na zona de Carnide.

Foi apanhado pelo vendaval da 1ª Guerra Mundial de 1914/1918 e onde a fome, o frio e todas as desgraças que uma guerra possa acarretar, o marcaram para o resto da vida. “Se soubessem o que era fome, até cornos comiam”, dizia ele aos filhos quando, fartos ou enfastiados, deixavam algo no prato. Regressou da Flandres com uns escassos 45 quilitos. Um verdadeiro esqueleto andante. Abandonados à sua sorte pelo governo de então, só regressaram a Portugal muito depois da guerra ter terminado.



França 3 de Novembro de 1917

Fotografia gentilmente cedida por Fausto Castelhano



Depois, casou com a “prometida”, a namorada que namoriscava antes de ter rumado para as lonjuras de França integrado no C.E.P. (Corpo Expedicionário Português).
Fumava cigarro de enrolar: mortalha “Conquistador” e onça de tabaco “Superior”. Era leitor assíduo do "Diário de Notícias" que comprava todos dias. De quando em vez, assobiava a Marselhesa.

Depois, estabeleceu-se como agricultor na Quinta de Montalegre (ou da D. Leonor), em Carnide. Enorme, encostada ao Colégio Militar mas, vinha por ali abaixo até à Estrada da Luz e à Azinhaga dos Soeiros e, por outro lado, até à Azinhaga da Fonte (hoje, Avenida do Colégio Militar).
Era uma quinta fantástica antes de ser abocanhada pela construção do Estádio de S.L.Benfica. As searas de trigo; os dois mil pés de oliveira (azeite de primeira); os campos de aveia; a habitação onde nasceram os filhos, junto à Azinhaga dos Soeiros; a belíssima horta que fornecia todo o género de hortaliças (de excelente qualidade) para todo o lado; os poços, a mina de água, a cascata monumental junto à Azinhaga da Fonte e o caminho ladeado de choupos que nos levava até lá. Foi tudo na voragem.



1941 - Quinta de Montalegre ou da D. Leonor

(Augusto Castelhano com os hortelões na horta. Eu próprio ao colo do tio Augusto.
Em segundo plano, o primeiro do lado esquerdo, é o ti’Conde, o vaqueiro. Em primeiro plano, o primeiro à esquerda é o António Russo - vive na Rua dos Arneiros -; o segundo é o Godinho)

Fotografia gentilmente cedida por Fausto Castelhano




Depois, havia o gado. Bois de trabalho para a lavra, as carroças de transporte da erva, das hortaliças para o mercado, dos molhos ou fardos de palha depois da ceifa, do grão extraído pela debulhadora, etc.
Ah! As vacas leiteiras. Uma bela vacaria com o Sr. Conde, o dedicado vaqueiro de muitos anos. Agora, mungir cerca de 50 vacas, vergado pelos rins, sentado num banquinho junto às tetas da vaca e levando, de vez em quando, uma vergastada nas ventas quando o animal resolvia sacudir as moscas com o rabo, era tarefa bastante árdua. Duas ordenhas diárias com início às duas da matina e depois do almoço, às 14 horas.

Esta vida nos campos, na agricultura e toda a actividade inerente a esta actividade, não era nenhum “mar de rosas” e estava muito condicionada pelos caprichos da mãe natureza, pelas agruras do tempo incerto, do calor e das chuvas, das geadas e do frio…

Augusto Castelhano enviuvou cedo e depois voltou a casar levando, consigo, quatro rebentos do primeiro matrimónio e, deste novo enlace, resultaram mais quatro rapazes. Depois, por desavenças com a dona da quinta, zarpou e estabeleceu-se numa outra herdade, com muito piores condições, na área da freguesia de Benfica.

Homem de grandes brios, tinha um enorme orgulho na excelente água-pé que fabricava com uva da região de Torres Vedras e que batia aos pontos, por larga margem, toda aquela que existia nas quintas em redor e que, por vezes, não passava de uma miserável zurrapa.
Porém, onde ele não transigia, era no gado leiteiro. Frequentemente visitava as Feiras da Malveira (onde, numa casa de pasto, almoçava grão com bacalhau, sempre), da Moita e do Pinhal Novo, onde tentava adquirir os melhores exemplares que por ali aparecessem através dos comerciantes de sua inteira confiança. E vinham, na maioria das vezes, à experiência. Se, porventura, produziam abaixo da fasquia de 20 a 25 litradas de leite, eram logo recambiadas. Comer e não produzir, não encaixava.



1948 – Quinta do Charquinho

(Augusto Castelhano com o “Castiço”, o fabuloso boi de cobrição)

Fotografia gentilmente cedida por Fausto Castelhano



Todavia, onde Augusto Castelhano se perdia de amores era com o “boi de cobrição”. Era uma cisma que lhe estava entranhada na cachimónia. E se eles custavam uma nota preta…Alimentados com rações de excepção levavam uma rica vida. Folgada, os mariolas…Perigosos, marravam que se fartavam…Escoucinhar a torto e a direito, era com eles e só acalmavam quando lhes cheirava a fêmea por perto. Ficavam logo de focinheira no ar. Para os dominar com uma certa segurança furavam-lhes o focinho com um ferro em brasa e logo, sem contemplações, era-lhes colocado um arganel metálico. Aí era presa uma corda ou uma arreata de couro. Só com estas condições, muito bem estudadas, se podia dominar tão perigosos animais...

Mas o “Castiço”, entre todos, foi um boi de cobrição de excepção, de altíssimo gabarito e com um notável desempenho que a todos deixava de bocarra aberta. A fama do “Castiço” chegou longe e Augusto Castelhano fazia-se cobrar de acordo com a extraordinária eficácia de tão belíssimo animal. Cinquenta escudos por cada fecundação garantida, na década de 40 do século XX, era uma boa maquia. Durante alguns anos e pela constante e renovada afluência de clientela, a verba acumulada, “à pala” do extraordinário “Castiço” foi, deveras, muito significativa.

Com a idade, “Castiço” amochou e perdeu qualidades, esgotado, coitado. Assim, foi despachado p’ró talho, p’ra bifes. Entretanto, vieram outros para a mesma função mas, como aquele possante bicharoco, jamais houve algum que lhe chegasse aos cascos. Uma imensa, imensa saudade…

A quinta, que tão boas recordações nos deixou pela vida fora foi, paulatinamente, declinando a partir da década de 60 do século passado devido, sobretudo, à mecanização dos trabalhos agrícolas, aos novos meios de produção mas, também, a doença grave de Augusto Castelhano. Vendeu tudo. Alfaias agrícolas, as pipas do vinho e a prensa, o gado. Abalou para a terra que o viu nascer contudo, a saúde atraiçoou-o aos poucos. Foi piorando cada vez não obstante, sempre que pressentia o padre Canelas (o pároco da freguesia) a rondar-lhe a casa, a convite da esposa Augusta, exaltava-se e praguejava bravamente. Resistiu estoicamente, e até ao último sopro, que lhe fosse ministrado o sacramento da Extrema-Unção. Por fim cedeu e… apagou-se serenamente.
É até é de presumir que, o derradeiro pensamento de Augusto Castelhano antes de entregar a alma ao Criador, fosse para o seu querido e fabuloso “Castiço”, que ele tanto adorava, o boi de cobrição que espantava o mundo com as suas inesgotáveis façanhas e que lhe enchia o peito de tanto e merecido orgulho…
Penso que foi o último dos grandes “bois de cobrição” que Benfica teve a honra de acolher no seu regaço e que pisou terra da nossa freguesia. E bem se pode orgulhar do nosso insaciável “Castiço” pois este, jamais deixou os seus créditos por mãos alheias. Guardemos, pois, a sua memória…