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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Cozinheiras da Sopa dos Pobres






Muito obrigada à nossa leitora Cláudia Garção, pela partilha desta foto-relíquia!








Fotografia gentilmente cedida por Cláudia Garção
Todos os direitos reservados



"Boa tarde, 


Relativamente ao artigo sobre o Patronato, a minha avó materna foi cozinheira na sopa dos pobres da Santa Casa. 

Junto uma fotografia do grupo de cozinheiras, aproximadamente em 1950. 
A minha avó é a 2ª da direita - Aida Ferreira."







sábado, 1 de outubro de 2011

CÃO DESAPARECIDO - BAIRRO DE SANTA CRUZ






(por Alexandra Carvalho)



Publicamos abaixo e-mail com apelo para divulgação de uma das nossas leitoras, que perdeu o seu animal de estimação.

Pff., ajudem na divulgação e na busca por este animal.



****


"Boa tarde!

Acompanho de forma assídua o vosso blog e página no facebook que acho uma boa forma de partilhar notícias e conhecimento sobre a freguesia onde sempre vivi.


Acontece que adoptei no passado fim de semana um cão muito meigo. Apesar de ter um quintal espaçoso e dois portões trancados, o bicho não resistiu a algum chamamento da natureza e desapareceu de nossa casa, no Bairro de Santa Cruz. Estamos tristes e muito preocupados. Já divulgámos as informações sobre o animal junto das entidades oficiais e em muitos locais (da freguesia e fora dela) mas perguntei-me se podiam ajudar-me nessa tarefa, colocando alguma referência no vosso blog.


Muito obrigada pela vossa atenção e pelo vosso trabalho dedicado a um local que todos temos no coração
.

Ana Soares"





[clicar na imagem para ampliar o apelo]






De acordo com informação de uma outra leitora, há 2 noites (29/09/11), este cão foi visto, às 3h, na Estrada de Benfica. Mas não o conseguiram apanhar.

ATENÇÃO: - parece que anda um outro cão creme de coleira vermelha na mesma zona e há algumas pessoas a dizerem que é este que se encontra perdido - e, sem querer, estão a induzir em erro!
A PSP está avisada sobre o desparecimento deste cão e podem entregá-lo lá. Mas, por favor, não confundam com o outro cão creme, senão a PSP é obrigada a chamar o Canil/Gatil Municipal de Lisboa (onde os animais são abatidos ao fim de 8 dias, se não forem adoptados por ninguém).
Muito obrigada!







quinta-feira, 28 de julho de 2011

Fotos Inéditas de Benfica (1)





(por Alexandra Carvalho com António Ribeiro de Almeida)




Estrada de Benfica - 1900
Fotografia enviada por António Ribeiro de Almeida



Monte Carmo, na Av. Gomes Pereira
Fotografia enviada por António Ribeiro de Almeida



Colégio de S. José e Lavadeiras em Benfica
Fotografia de António Ribeiro de Almeida



Pinhal em Benfica (1920)
Fotografia enviada por António Ribeiro de Almeida




No blogue "Retalhos de Bem-Fica" temos vindo a efectuar uma incursão permanente pela freguesia de Benfica, pelo seu Passado e Presente, através da divulgação online de fotografias, testemunhos e histórias de vida, assim como pequenos apontamentos da vida quotidiana desta freguesia típica de Lisboa.

Este trabalho de compilação do álbum "FOTOS INÉDITAS" apenas tem sido possível graças às pessoas que connosco têm partilhado as suas fotografias antigas de Benfica (mesmo aquelas de cariz mais pessoal)!

Quem quiser contribuir para este trabalho de compilação da nossa memória colectiva, pff. envie-nos as suas fotografias para palavraseimagens@gmail.com, ou, em alternativa, coloque-as no mural da nossa página no Facebook ou do nosso grupo no Flickr.

Muito obrigada!






segunda-feira, 25 de julho de 2011

Rua Emília das Neves - Anos 60





(por Alexandra Carvalho, com Fernando Carvalho)




Como já referi num outro post, um dos aspectos que considero mais importantes neste mundo dos blogues e das redes sociais prende-se com o facto destes constituírem verdadeiros espaços de partilha, onde podemos aprender muitíssimo uns com os outros.

Modéstia à parte, penso que este nosso "Retalhos de Bem-Fica" tem sido disso mesmo um exemplo notório!
Nestes últimos anos, tenho aprendido muito mais sobre Benfica do que em 35 anos de vida nesta freguesia!
E, para isso, muito têm contribuído não só os comentários que os diversos leitores aqui nos têm deixado, como também as conversas que tenho mantido com vizinhos, comerciantes e amigos que por aqui também residem (há muito mais tempo do que eu).

Ao saberem que colaboro na redacção do "Retalhos de Bem-Fica", muitos têm sido os vizinhos de rua ou de prédio que se aproximam e partilham comigo as suas vivências na nossa Benfica (e tantas entrevistas e fotos que tenho pendentes com eles, por falta de tempo minha e dos que comigo aqui colaboram - uma vez que efectuamos voluntariamente este trabalho, para além dos nossos "ganha-pão" diários)...

As pessoas acabam por se tornar mais afáveis e próximas em torno da ideia do "Retalhos de Bem-Fica", por sentirem que o trabalho que vimos desenvolvendo neste blogue comunitário vem colmatar essa falta que foram sentindo, com o passar dos anos, de um espaço de coesão e pertença (que noutros tempos existiu mais espontaneamente do que hoje em dia).

E devo confessar que, para nós, colaboradores deste blogue comunitário, tem sido com uma imensa alegria que temos vindo a receber os vossos e-mails e contactos!

Reitero aqui o apelo que já lançámos há algum tempo atrás, para o caso de quererem partilhar fotografias ou testemunhos sobre a Benfica de outros tempos (assim como sobre a Benfica actual, actividades que estejam a organizar, dúvidas que tenham ou, simplesmente, se tiverem vontade de connosco colaborar), para nos contactarem através deste e-mail:
palavraseimagens@gmail.com


****



E o post de hoje é feito em colaboração directa com um dos meus vizinhos do 3º andar, o Sr. Fernando Carvalho (apesar do apelido, não somos familiares), que me havia prometido remeter por e-mail umas fotografias da "nossa rua", quando ainda não existiam tantos prédios à nossa frente (podendo ver-se a construção do Bairro de Santa Cruz e a destruição de algumas das antigas vivendas existentes)...

Com a seguinte indicação:

"Envio-lhe cinco fotos tiradas nos anos indicados na varanda do 3º andar. Na altura a rua ainda tinha 2 sentidos - passou a sentido único em 1963 ou 1964. Cá de cima viam-se passar os comboios na estação/apeadeiro de Santa Cruz (já extinto)!"




Rua Emília das Neves - 1957

Fotografia gentilmente cedida por Fernando Carvalho




Rua Emília das Neves - 1958

Fotografia gentilmente cedida por Fernando Carvalho



Rua Emília das Neves - 1959

Fotografia gentilmente cedida por Fernando Carvalho




Rua Emília das Neves - 1960

Fotografia gentilmente cedida por Fernando Carvalho



Rua Emília das Neves - 1962

Fotografia gentilmente cedida por Fernando Carvalho







Muitíssimo obrigada, Sr. Fernando Carvalho, pelo envio destas fotos de família, que tão bem nos auxiliam a "escrever" a História da nossa freguesia!








quinta-feira, 2 de junho de 2011

Inundações em Benfica - APELO & PETIÇÃO




No seguimento de recepção de e-mail de uma leitora, junto anexamos o apelo de uma residente e um comerciante, a propósito das consecutivas inundações que têm assolado a nossa freguesia...







(por Rute Lemos e Altino Mesquita)



Há mais de trinta anos, e desde que houve melhorias no sistema de drenagem artificial da cidade de Lisboa na década de setenta, que não se assistia, mesmo em períodos com intensa precipitação, a tamanha vulnerabilidade desta área da cidade aos fenómenos climatéricos que, a título de exemplo, no período de menos de um mês, mais concretamente, nos passados dias 29 de Abril e 28 de Maio de 2011, foi confrontada em grande escala com avultados prejuízos causados por inundações na via pública, e em habitações e lojas situadas nos pisos mais baixos desta freguesia.

De facto, a ocorrência recente e temporalmente tão próxima destas inundações levam muitos de nós a questionarem-se se estas dificuldades de escoamento poderão de alguma forma relacionar-se com a recente obra da CRIL cuja construção poderá ter conduzido a alterações dos solos próximos das antigas linhas de água e que, apenas pela sua edificação, certamente significou um acréscimo na área impermeabilizada desta zona que se constituía à partida de elevado risco de cheias rápidas por se encontrar alinhada com a antiga linha de água da cidade – a Ribeira de Alcântara - que foi canalizada; ou, talvez, com a necessidade de reparação e/ou redimensionamento do actual sistema de drenagem da freguesia de Benfica.

Os problemas de drenagem de águas residuais e pluviais desta freguesia têm originado consecutivas inundações, colocando em elevadíssimo risco - nomeadamente, nas zonas baixas de Benfica - a segurança de pessoas, animais domésticos, e bens, assim como elevadíssimos prejuízos financeiros a residentes e comerciantes.

Neste sentido, lançámos esta petição, a qual será, posteriormente, remetida à Câmara Municipal de Lisboa e à Junta de Freguesia de Benfica...





[clicar na imagem para aceder à petição e assiná-la]





E aqui apelamos à participação de residentes e comerciantes afectados por este problema numa reunião que iremos realizar em breve, para debater este problema...











domingo, 31 de outubro de 2010

ALERTA: - Atenção às Passadeiras de Peões!





Actualização de 05/12/10:


Depois de um comunicado enviado à Junta de Freguesia de Benfica (para o qual continuamos a aguardar resposta), as passadeiras da Av. Grão Vasco foram, finalmente, pintadas na madrugada de 26/11/10.

No entanto, até à presente data, as passadeiras da Rua Pereira Bernardes, junto à Av. do Uruguai, continuam por pintar.

A 02/12/10, na Reunião descentralizada da CML que ocorreu em Benfica, tivemos conhecimento, de acordo com informação veiculada pelo Vereador da Mobilidade da CML, Dr. Fernando Nunes da Silva, que a pintura de todas as passadeiras de peões é da responsabilidade das Juntas de Freguesia, com quem a CML efectuou protocolos de delegação de competências (tendo, inclusivamente, e segundo informação do Vereador, a Junta de Freguesia de Benfica adquirido, recentemente, uma máquina de pintar passadeiras, de forma a diligenciar de uma forma mais célere esta tarefa).



****



Alerta deixado por Joana Esteves na nossa página no Facebook:


"Venho alertar aos condutores e peões que circulam por Benfica que prestem especial atenção aos sinais verticais de passadeiras.

A maior parte das ruas foi alcatroada e ainda não pintaram as listras tão úteis à visualização.

Este meu aviso vem a propósito de mais um atropelamento numa das ruas mais movimentadas da freguesia.
Obrigada."




O "Retalhos de Bem-Fica" aproveita para informar os seus leitores que a conservação e reparação de sinalização horizontal (incluindo a pintura das faixas das passagens de peões) passaram, recentemente, por estabelecimento de um Protocolo de Delegação de Competências da Câmara Municipal de Lisboa para responsabilidade da Junta de Freguesia de Benfica.








O importante alerta que a Joana Esteves nos deixou espelha bem a importância do trabalho que este nosso blog comunitário tem vindo a desenvolver em termos de colaboração cívica, um elemento essencial
para nos transformarmos numa comunidade mais activa e solidária.

Nesse sentido, inauguramos hoje no
"Retalhos de Bem-Fica" o "Espaço Cívico", que passará a estar acessível a todos os cidadãos que queiram deixar apelos, informações ou pedidos de índole colectiva (podendo, para esse efeito, remeter-nos essas informações por e-mail para palavraseimagens@gmail.com, ou através de mensagem colocada na nossa página no Facebook.
O "Espaço Cívico" estará disponível para visualização das suas mensagens através da imagem acima, na barra de ferramentas do lado direito do nosso blog.









quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Estrada de Benfica, 1981





Fotografia de Jorge Costa (1981)




A fotografia é um registo, um meio precioso que nos ajuda a testemunhar o que vivemos, o nosso Passado e percurso individuais...
Mas as fotografias auxiliam-nos, também, e a um nível mais geral, a caracterizar as épocas históricas das nossas vivências, as modas ao longo dos anos, as alterações físicas da paisagem que nos envolve, etc.

Agradecemos, por isso mesmo, a todos os nossos leitores que nos têm enviado (ou emprestado, para digitalização) as suas fotografias "de família", importante fonte de enriquecimento para o "Retalhos de Bem-Fica" e a história que aqui tentamos traçar sobre o percurso da nossa freguesia.

Caso esteja interessado em contribuir com alguma fotografia que considere importante, contacte-nos, pff., para: palavraseimagens@gmail.com
Muito obrigada!




quarta-feira, 25 de agosto de 2010

"Memórias fantásticas de quando era criança..."




"Ainda moro em Benfica mas tenho memórias fantásticas de quando era criança.

Às vezes depois de almoço arranjava um saco com pão duro e ia com o meu avô à
Mata de Benfica deitar migalhas aos patos. Apanhávamos folhas de amoreira na Av. Grão Vasco para dar aos bichinhos da seda.

Quando o meu avô recebia a reforma levava-me a comer mousse de chocolate (no tempo em que eu ainda gostava de mousse de chocolate) e eu fazia questão de lhe pedir o lenço de pano que ele trazia sempre no bolso para limpar a boca.

Hoje acho que os lenços de pano do meu avô tinham um significado afectivo, é claro que o café tinha guardanapos de papel, mas limpar a boca a um guardanapo de papel depois de um gelado ou de uma mousse de chocolate não sabia ao mesmo.


A primeira vez em que fui ao cinema, acho que ainda nem andava na escola, foi no Turim, para ver a Branca de Neve.


Adorava estar na varanda da sala, montada num cavalo de madeira que na altura todos os miúdos tinham, a ver as pessoas a passar.

O 24, o autocarro, passava (e ainda passa) aqui à porta, e eu achava que tinha o nº 24 porque funcionava até às 24 horas. Apanhei uma grande desilusão quando me explicaram que não era nada por isso.




"Na paragem do autocarro - 2"
Fotografia de JCDuarte


"Na paragem do autocarro - 1"
Fotografia de JCDuarte



Lembro-me da primeira mochila que tive, quando entrei na escola, e de onde a comprei. Foi numa papelaria velhinha que ainda existe ao pé da Igreja de Benfica. Só não me lembro exactamente se a mochila era azul ou amarela.


Uma vez a minha avó comprou-me um conjunto em branco e preto com um padrão de laços. Pedi-lhe para ir logo com a roupa nova vestida e toda a gente olhava para mim na rua.
Hoje, acredito sinceramente que estava muito pirosa e por isso é que as pessoas olhavam, mas na altura senti-me uma princesa.
"


Testemunho de Ana Fernandes, in "As Vossas Memórias de Benfica", na nossa página no Facebook.







sábado, 10 de julho de 2010

O Sport Lisboa e Benfica




"Eu sei que para os benfiquistas a fotografia é especial, mas, pela curiosidade, os que não são benfiquistas não deixem de a ver...

Parece mentira as voltas que as coisas dão em 57 anos...


Assim, de repente, até parece que o estádio caiu no meio do Alentejo...


José Lila"



"Antigo estádio do Sport Lisboa e Benfica"
In Arquivo Municipal Fotográfico


Imagem disponível in Google Maps




Aproveitando a fotografia que nos foi enviada pelo nosso amigo José Lila, anexamos mais abaixo um documento histórico de comemoração dos 100 anos do Sport Lisboa e Benfica, em 2004.




[Clicar na imagem para abrir o documento]

Documento oferecido por Altino Mesquita
(documento produzido na sua loja "Metrocópia" - na estação de metro do Colégio Militar)







quarta-feira, 30 de junho de 2010

A "Foto Nice"




O trabalho que vai sendo efectuado, actualmente, nos blogs na internet torna-se mais interessante e profundo quando os mesmos proporcionam alguma contrapartida positiva aos seus leitores, para além da troca e partilha quotidiana.

No "Retalhos de Bem-Fica" já proporcionámos alguns reencontros familiares, temos vindo a ajudar na busca pelo espólio de um antepassado e, sobretudo, temos conseguido juntar um grupo de pessoas tão diferentes mas unidas por uma vivência comum na nossa freguesia (que têm dinamizado acções e intervenções cívicas muito interessantes e positivas para o desenvolvimento de Benfica).

Foi por isso mesmo que, esta manhã, ao descobrir o comentário que o José António Baptista nos deixou aqui, fiquei tão contente por, mais uma vez, este nosso blog comunitário ter proporcionado algo de bom a alguém.

Porque as palavras do próprio fazem mais sentido do que as minhas, deixo-vos aqui com o seu belíssimo testemunho e memórias...



"Estrada de Benfica" (s/data),
[a aguardar referência ao autor], in Arquivo Municipal de Lisboa





"Do baú das memórias"


Este texto é uma memória com particular importância para mim. Esta versão é de Outubro de 2002 e não me canso de a ler e reler, pois sempre que o faço novas imagens assomam ao meu espírito, em vagas imparáveis, espessas ondas que me transportam para aqueles tempos felizes em que fui criança. Não é por acaso que sou um apaixonado pela arte da Fotografia. Deixo-o aqui, para vossa fruição, ao jeito de saudade e homenagem a esse homem extraordinário que foi o meu tio e padrinho Virgílio Costa:


'A Fotografia'

- Zézinho, queres vir para casa da tia? Era quanto bastava para eu saltar e pular como se de súbito tivesse ensandecido, gritando que sim, que sim, sorriso rasgado de orelha a orelha, pois ir para casa da tia significava passar alguns dias em Lisboa, na casa da tia na estrada de Benfica e ir com o padrinho, fotógrafo de profissão, que era também tio pois era marido da tia, mas que todos preferíamos tratar por padrinho, para a casa de fotografia que ele tinha na mesma rua, mesmo em frente ao já demolido Palácio dos Sanches Baiena ou de Benfica.

A casa de fotografia ficava num primeiro andar por cima de uma taberna escura de tecto muito baixo, e era conhecida como “Fotografia Nice”, mas todos na família a tratavam carinhosamente apenas por a “Fotografia do Padrinho”. Ir com o padrinho para a Fotografia era penetrar num universo maravilhoso de sonho, fantasia e mistério. Era como entrar num sótão velho, cheio de coisas para descobrir, de luzes e cortinas pretas, como um teatro permanentemente montado, aguardando as pancadas de Moliére para a entrada dos actores e começo do espectáculo. A sensação de entrar num sótão era aumentada pelo acesso, feito por uma escada velha e íngreme de degraus de madeira, dramaticamente gastos e que rangiam a cada passo dando um ambiente fantasmagórico à subida. Entrava-se por uma porta com uma mola de correr que engenhosamente fazia soar uma campainha: trimmmm...

Lá dentro, respirava-se o passado. Armários antigos e gavetas que guardavam sabe-se lá o quê. Talvez memórias de quando aquela casa era o local de habitação do padrinho e da família no tempo em que se racionavam os géneros alimentícios. Mas eu tentava saber o que continham tudo o que fosse gaveta ou caixa e abria todas as que podia, atraído por uma curiosidade incontrolável. Era com um misto de prazer e fruto proibido que abria as pequenas caixas de cartão colocadas às dezenas, disciplinadamente, numa prateleira e de cujo interior extraía velhas chapas de vidro, que guardavam antigos rostos em negativo para os quais eu olhava em contra-luz procurando ver o verdadeiro rosto daquelas pessoas, que eu não conhecia mas que ali via aprisionadas para a eternidade, tal como tinham estado naquele dia, naquele instante, agora tornado passado.

A prensa era um brinquedo fantástico pois marcava, com cunhos, as folhas de papel que lá metia. E esmagava sem piedade as molas da roupa, em madeira, que serviam para pendurar as fotografias a secar. Era um gozo imenso rodar aquelas duas grandes bolas metálicas do braço da prensa e senti-la esmagar, num gemido surdo, os pequenos pedaços de madeira. Havia também aparelhos estranhos de funções desconhecidas, projectores de luz, tripés e uma fabulosa máquina de estúdio, em madeira, com um grande fole negro e um pano preto na retaguarda. Máquina que, como o padrinho me mostrou, punha as pessoas de cabeça para baixo. Juro! Juro...! Caixas de luz onde, a um toque num pequeno interruptor, se acendia no centro um rectângulo de luz, no qual, a pincel e tinta da china, negra como carvão, com mão de artista e toque de génio, o padrinho retocava os negativos, para obter fotografias perfeitas. E obtinha! Mas o melhor de tudo era quando o padrinho me levava para a câmara escura. Era como se eu fosse também um actor naquele espectáculo, com o privilégio de conhecer, não só o palco, mas também os bastidores e o segredo dos cenários.

A velha cozinha transformada, de um lado a bancada com o ampliador e do outro uma enorme bacia de pedra com um ralo no centro e com a água sempre a correr e as tinas dos banhos. Entravamos. A pesada e espessa porta fechava-se. O padrinho apagava a branca luz do tecto. Era a obscuridade absoluta. A sensação de estar envolvido numa qualquer aventura, numa conspiração era verdadeiramente fabulosa, única. Sentia que ia ser iniciado pelos deuses num mistério, o qual me ia ser revelado. Na escuridão ouvia a respiração do padrinho, sentia a sua presença e procurava adivinhar-lhe os gestos. Gestos de quem conhecia bem o espaço que trilhava e se movia no escuro como se a luz estivesse acesa. Então acendia-se a luz vermelha, veladíssima, a única permitida, e só de vez em quando, por curtos períodos, pelo material fotográfico. Depois de tudo preparado e posicionado, fazia-se de novo escuro. Na escuridão, ouvia-o abrir a caixa do papel, tirar uma folha e colocá-la com perícia no ampliador. A luz deste acendia-se projectando o negativo no papel através de um cone de luz e eu espreitava, fascinado, olhando com ávida curiosidade aquelas estranhas manchas cinzentas, umas claras e outras escuras. Manchas que tornavam brancos os pretos das áfricas e dos brancos fazia negros! Como se a fotografia quisesse tratar todos os homens da mesma maneira, talvez com o mesmo desprezo. Manchas das quais nasceria a fotografia. Via o padrinho, com as mãos, manipular o cone de luz com gestos de mágico, para compensar zonas mais ou menos queimadas. A folha era colocada na tina com o banho de revelador e, pouco depois, como por magia, a imagem aparecia a pouco e pouco.

Era ver-me, debruçado sobre a tina com o nariz quase mergulhado lá dentro, vendo a superfície do papel a alterar-se, escurecendo, manchando-se de óxido de prata, objectos, corpos, rostos formando-se, como fantasmas saindo do nada. Mais tarde aprendi por que processos químicos aquele fenómeno era possível e eu próprio fiz trabalho fotográfico em laboratório como amador mas naquele tempo, aquilo tinha o sabor da magia, a atracção do inexplicável. Naquele momento, o padrinho era um mago, um prestidigitador. E eu era o público daquele espectáculo fantástico. Público privilegiado e maravilhado. Depois a fotografia passava ainda por fixador e era lavada sendo em seguida pendurada a secar para, ainda húmida, ir para a esmaltadeira. E eu ia dar outra volta, correr todos os corredores, entrar em todas as salas, assomar a todas as janelas, percorrer todos os cantos, procurar em todos os esconsos, saboreando o mais possível a minha aventura naquele castelo mágico. Era assim ir a casa da tia!

José António
Oeiras, 12 OUT 2002

Publicado in "Caracol, Carolas"









segunda-feira, 28 de junho de 2010

A "Metalúrgica de Bemfica"





Fotografia de Pedro Cabral




No seguimento do pedido que tínhamos recebido, de um dos nossos leitores, há alguns meses atrás, aqui deixamos mais uma fotografia daquilo que, até há alguns anos atrás, restava da "Metalúrgica de Bemfica".

Muito obrigada, Pedro, pelo envio da foto!





segunda-feira, 21 de junho de 2010

"S.O.S. Azulejo" de Benfica




Fotografia de Mário Pires





"Cara Alexandra,

como seguidora assídua do blogue «Retalhos de Bemfica» e do esmerado esforço na divulgação da necessidade de preservação do património histórico-cultural da freguesia e arredores, gostaria de lhe indicar um site, que me pareceu importante.

Trata-se da tentativa de alguns investigadores, e não só, de inventariar, estudar, divulgar e salvaguardar o património azulejar português. A importância reside, no entanto, na ligação estreita à Polícia Judiciária para a criação de uma base de dados sobre azulejos furtados.

Como no seu blogue são muitas vezes dados alerta sobre imóveis em ruína alvo de saques violentos achei que esta indicação poderia ter interesse:

"S.O.S. Azulejos"

Até breve,
Catarina Coelho"




Fotografia de Mário Pires




No seguimento do e-mail que nos foi enviado pela Catarina Coelho, alertando para a existência do Projecto "S.O.S. Azulejo" (que surgiu da necessidade imperiosa de combater a grave delapidação do património azulejar português que se verifica actualmente, de modo crescente e alarmante, sobretudo por furto, mas também por vandalismo e incúria - projecto da iniciativa e coordenação do Museu de Polícia Judiciária);

Informamos todos os nossos leitores que, no trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo fotógrafo Mário Pires, no "Inventário de Imóveis" da nossa freguesia, também existe a possibilidade efectuar o levantamento fotográfico de azulejos de Benfica.

Nesse sentido, bastará que ao preencherem o formulário abaixo, indiquem, na caixa de comentários, a menção a que se deverão também fotografar em detalhe os azulejos existentes no imóvel que referenciarem neste formulário.







Em caso de dúvidas mais técnicas quanto à utilização deste formulário, dêem-nos uma "apitadela" para: palavraseimagens@gmail.com

Álbum do "Inventário de Património" da freguesia de Benfica disponível aqui.






quarta-feira, 16 de junho de 2010

Portas de Benfica

"Portas de Benfica, faziam parte da antiga estrada Militar" (1961)
Arnaldo Madureira, in
Arquivo Municipal de Lisboa




Fotografia gentilmente enviada por Inácia Oliveira







quinta-feira, 29 de abril de 2010

A "Maratona Jubileu"





De terras nórdicas chega-nos a presente informação (que, desde já, muito agradecemos!)...
E ficamos a aguardar que algum dos nossos leitores ganhe coragem para participar nesta actividade desportiva! :)



Imagem de Jubilee Marathon



"Olá Alexandra....

Venho por este meio informar que no dia 14 de Julho de 2012 se efectuará em Estocolmo a 'Maratona Jubileu', com o mesmo percurso que a Maratona Olímpica de 1912, onde o nosso compatriota
Lázaro perdeu a sua jovem vida (80% nas mesmas estradas e nunca a mais de 100 metros do percurso original).

Para alguém que esteja interessado as inscrições abrirão no dia 14 de Julho de 2011.

Na página oficial encontram-se algumas interessantes fotografias e muitos dados: por exemplo, depois do desfecho do Jogos organizou-se um 'Sångardag' - 'Dia Cantante' no Estádio Olímpico, onde as verbas acumuladas verteram a favor da família do atleta. 14 000 Coroas foi o montante que se juntou, o que no dinheiro de hoje anda à volta dos 70 000 Euros....


Cumprimentos,

Júlio"





segunda-feira, 12 de abril de 2010

Figuras de Benfica - 6




A Luísa Pereira (do Clube de Patchwork da UNISBEN), que tive o prazer de conhecer muito recentemente, está, actualmente, a ler o "Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa e enviou-nos, gentilmente, esta curiosa informação:



Fernando Pessoa visto por Almada Negreiros



"(...) é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. "Qualquer estrada", disse Carlylé, "até esta estrada de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo." Mas a estrada de Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar. " **


(...)


"Se eu fora outro, penso, este seria para mim um dia feliz, pois o sentiria sem pensar nele. Concluiria com uma alegria de antecipação o meu trabalho normal - aquele que me é monotonamente anormal todos os dias. Tomaria o carro para Benfica, com amigos combinados. Jantaríamos em pleno fim de sol, entre hortas. A alegria em que estaríamos seria parte da paisagem, e por todos, quantos nos vissem, reconhecida como de ali.
Como, porém, sou eu, gozo um pouco o pouco que é imaginar-me esse outro. Sim, logo ele-eu, sob parreira ou árvore, comerá o dobro do que sei comer, beberá o dobro do que ouso beber, rirá o dobro do que posso pensar em rir. Logo ele, eu agora. Sim, um momento fui outro: vi, vivi, em outrem, essa alegria humilde e humana de existir como um animal em mangas de camisa. Grande dia que me fez sonhar assim! É tudo azul e sublime no alto como o meu sonho efémero de ser caixeiro de praça com saúde em não sei que férias de fim de dia." **


**
Fernando Pessoa, in "Livro do Desassossego"





"Avenida Gomes Pereira no início do século XIX"In "Benfica - A nossa Junta: Instalações, Serviços e Equipamentos",
Edição Especial da Revista "Benfica Viva" - Lisboa: Junta de Freguesia de Benfica, Julho 2005.




Casas Lisboetas onde Fernando Pessoa morou




• Largo de S. Carlos, número 4, 4 esquerdo. Desde o nascimento (1888) até 1893.
• Rua de S. Marçal, número 104, 3 andar. De 1893 a 1896. Em Janeiro de 1896 parte com a mãe para a África do Sul.
• Rua de Pedrouços (provavelmente uma das transversais, número desconhecido). Em 1901, durante férias de Verão em Lisboa. Com a mãe, o padrasto e os irmãos. De novo em 1905, quando regressa sozinho da África do Sul e vai morar com uma tia-avó.
• 1902, altura em que Avenida D. Carlos, número 109, 3 direito. Entre o final de 1901 e meados de regressa, com a família, à África do Sul.
• Rua de S. Bento, número 19, 2 esquerdo. Em 1905. Com a Tia Anica (Ana Luiza Pinheiro Nogueira, irmã da mãe).
• Calçada da Estrela, número 100, 1 andar. De Outubro a Dezembro de 1906. Com a mãe, o padrasto e os irmãos.
• Rua da Bela Vista à Lapa, número 17, 1 andar. Em 1906; de novo a partir de Janeiro de 1907 e ainda, temporariamente, em 1910. Com a avó paterna (Dionísia Estrella Seabra) e duas tias-avós (Rita Xavier Pinheiro e Maria Xavier Pinheiro da Cunha).
• Rua da Glória, número 4, r/c. Entre o final de 1907 e 1908 (?). Próximo da empresa Ibis (tipografia e editora), por si fundada, cuja existência é breve.
• Largo do Carmo, número 18, 1 esquerdo. Entre 1908 (?) e 1912. Num quarto alugado.
• Rua Passos Manuel, número 24, 3 esquerdo. Entre 1912 e 1914. Na nova casa da Tia Anica.
• Rua Pascoal de Melo, número 119, 3 direito. De 1914 a 1915. Com a Tia Anica.
• Rua da D. Estefânia, número 127, r/c direito. Entre 1915 e 1916. Em quarto alugado a uma engomadeira.
• Rua Antero de Quental, número desconhecido. Em 1916.
• Rua Almirante Barroso, número 12, sobreloja. Em 1916. Na zona anexa a uma leitaria.
• Rua Cidade da Horta, número 48, 1 esquerdo (edifício já demolido). Entre 1916 e 1917. Numa "parte da casa" alugada a um conhecido.
• Rua Bernardim Ribeiro, número 11, 1 andar. Entre 1917 e 1918.
• Rua de Santo António dos Capuchos, número desconhecido. Em 1918.
• Alto da Boavista (Benfica). Em 1919.
• Avenida Gomes Pereira, número desconhecido. Entre 1919 e 1920.

• Rua Coelho da Rocha, número 16, 1 direito. Entre 1920 e 1935.





segunda-feira, 22 de março de 2010

1º Festival de Jazz em Benfica




Fotografia de Suzana Campar



Realizou-se, de 18 a 21 de Março, o 1º "Junta-te ao Jazz, Benfica", evento que nasceu a partir da ideia de criar, no Auditório Carlos Paredes, um novo espaço ligado à música, em especial ao Jazz.

Aqui deixamos o relato e fotografias de uma leitora que participou no primeiro dia deste festival... com a ressalva de que, talvez, fosse benéfico apostar numa divulgação mais alargada deste tipo de novos eventos culturais, que começam a animar a nossa freguesia.




"Olá Xana,

Em primeiro lugar, como ex-moradora e visitante frequente da freguesia, tenho que começar por um obrigada pelo teu trabalho constante de divulgação do que se passa, como é e como era Benfica :)


Fotografia de Suzana Campar



Quanto ao programa em si, faz todo o sentido que mais como este sejam organizados e divulgados; jazz não é o meu mundo habitual, mas experiências diferentes enriquecem-nos o espírito!

Estava pouca gente no dia em que fomos, talvez os eventos precisassem de mais divulgação por parte da organização, mas pelo menos algumas pessoas passaram de certeza uma noite diferente.




Fotografia de Suzana Campar



(...) seguem umas quantas (pouquinhas) fotos que eu e o teu mano tirámos do evento e do folheto (que tenho comigo, se precisares dele); não ficaram nada do outro mundo, mas espero que te sejam úteis!

Beijinhos e continua!
Suzana"






quinta-feira, 18 de março de 2010

A Taça




Em honra de Carlos Manuel Rebelo de Sousa, sócio nº 30 do Clube Futebol Benfica (que chegou muito recentemente a este blog e já nos brindou com um testemunho inigualável num comentário a este outro post, o qual muito agradecemos!), e, também, do Presidente do Clube e de todos os seus sócios, amigos e simpatizantes...

Aqui fica hoje uma pequena surpresa...


Fotografia de Clube Futebol Benfica



"Um troféu que constitui um verdadeiro tesouro do Clube. Faz este ano 100 anos, pois é de 1910 e refere-se à conquista do campeonato de 4ªs categorias da Associação de Futebol de Lisboa (AFL).

Dava, nesse ano, a AFL os primeiros passos, era o início do futebol organizado em Portugal. A AFL faz este ano, também, 100 anos e foi a primeira associação de futebol a formar-se.

Este troféu, para além do valor desportivo significativo, como é evidente, tem certamente um grande valor material, pois é de prata.


Domingos Estanislau"





segunda-feira, 15 de março de 2010

Pintando Benfica com Luz (1)




O conceito de "blog comunitário" é o de um espaço colectivo de partilha, onde todos e cada um possam expor e/ou divulgar o que consideram de interesse para a prossecução dos objectivos desse mesmo grupo.

No nosso caso, o que nos une é a memória colectiva, ao longo dos tempos, da freguesia de Benfica.

Cada vez mais, o "Retalhos de Bem-Fica" se tem vindo a afirmar como um "blog comunitário" da/na/para a freguesia de Benfica, não só pela sua intervenção mais directa no que diz respeito à preservação do património histórico do nosso bairro, como também, e sobretudo, devido à adesão e participação activa que temos tido de inúmeros residentes e ex-residentes que contribuêm para aquilo em que este blog se transformou.

Nesse sentido, iniciamos hoje uma nova rubrica, a qual deriva de mais uma estreita colaboração com um residente de Benfica.



Morro onde hoje se encontra construída a Escola Superior de Comunicação Social (fim dos anos 70)
Fotografia de Mário Pires



Escola do Magistério fechada e abandonada, antes da sua recuperação (anos 80)
Fotografia de
Mário Pires



O Mário Pires começou a seguir muito recentemente o nosso blog, mas já vive em Benfica há 49 anos. Segundo as suas próprias palavras, "gosto verdadeiramente desta freguesia, que infelizmente tem uma vida cultural muito reduzida".

O Mário é fotógrafo e ofereceu ao "Retalhos de Bem-Fica" a sua preciosa colaboração... a qual, como verão, muito em breve, se vai delinear por áreas muito interessantes e com a colaboração de todos os que nos lêem (mas deixemos aqui tudo isso em suspense, para ficarem mais curiosos).



Av. Gomes Pereira - taipal que existia entre a vivenda que hoje aloja um stand de carros e os prédios do fim da rua (Cervejaria "Edmundo")
Fotografia de
Mário Pires



O palacete que ocupava o nº 544 da Estrada de Benfica junto ao cruzamento da Av. Gomes Pereira com a Av. Uruguai. Nesta fase já entaipado, foi demolido pouco depois.
Fotografia de
Mário Pires



Deixamo-vos então hoje com as primeiras fotografias do arquivo do Mário Pires, apresentando-lhe, desde já, as boas-vindas ao "Retalhos de Bem-Fica".





sábado, 13 de março de 2010

Azinhagas (2)





Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2010)



Ler a 1ª parte aqui.




Antigos caminhos da Freguesia de Benfica


(por Fausto Castelhano)


Com este 2º e último apontamento terminamos a incursão às Azinhagas, antigas vias que, no seu todo ou em parte, integravam o território da Freguesia de Benfica.




Azinhaga da Fonte


Com o piso em “macadame”, era um dos principais itinerários de acesso a Carnide. Tinha o seu começo no Nº 458 da Estrada de Benfica, no mesmo local onde tem início a Avenida do Colégio Militar, e desembocava na Rua da Fonte (Largo da Luz) em Carnide, mesmo em frente à Igreja de Nossa Senhora da Luz e paredes meias com os edifícios do Colégio Militar.



Trecho da Azinhaga da Fonte (1960)
João H. Goulart, in Arquivo Municipal de Lisboa



A actual configuração da Avenida do Colégio Militar corresponde, sensivelmente, ao traçado da antiga Azinhaga da Fonte até à zona do Centro Comercial Colombo e do novo Estádio da Luz. Aí, a nova avenida deriva um pouco para a esquerda e vai terminar junto ao chamado Chafariz da Luz (Rua da Fonte).



Trecho da Azinhaga da Fonte (1960)
João H. Goulart, in Arquivo Municipal de Lisboa


Esta oportuna alteração na nova via, permitiu que a instituição Colégio Militar conseguisse alargar os seus domínios e conquistasse espaço onde, outrora, existia a parte final da Azinhaga da Fonte.
Tanto assim é que, foi necessário demolir o último edifício (do lado esquerdo) da Azinhaga o qual, fazia gaveto com a Rua da Fonte (em Carnide, claro está) como se pode observar na foto.


Prédio na esquina da Azinhaga da Fonte com a Rua da Fonte e que foi demolido para permitir que a Avenida do Colégio Militar se desviasse mais para a esquerda em relação ao traçado da Azinhaga da Fonte (1961)
Augusto de Jesus, in Arquivo Municipal de Lisboa


Ao longo da Azinhaga da Fonte e do lado esquerdo (no sentido Benfica-Carnide), existiam várias casas de habitação e quintas de várias dimensões e, entre estas e o murete desta via, corria uma pequena ribeira cujo volume de água, na época das chuvas, era bastante considerável. Este curso de água desaguava junto ao local onde está edificado o Centro Comercial Fonte Nova, na chamada Ribeira de Alcântara (o meu rio, que teimam, injustamente, em chamar de “caneiro”) o qual, atravessava a nossa freguesia desde a fronteira da Estrada Militar na Damaia/Venda Nova.



Chafariz da Rua da Fonte, em Carnide (1960)– Para lá do muro e dos edifícios em segundo plano e que foram demolidos, passava a Azinhaga da Fonte. Agora, nesse espaço, passa a Avenida do Colégio Militar. Do outro lado da Avenida, o complexo do Colégio Militar
Artur Goulart, in Arquivo Municipal de Lisboa



Era aí, na confluência desses cursos de água (junto ao Fonte Nova), que a nossa grande ribeira seguia o seu curso natural em direcção a Sete-Rios e, finalmente, através do Vale de Alcântara, desaguava em pleno rio Tejo.
Do lado direito da Azinhaga da Fonte existiam as seguintes quintas:
Quinta do Luís da Granja, nº 8
Quinta de Montalegre, nº 22 (a quinta onde nasci, com a Cascata Monumental de que muita gente fala mas…nunca a toparam).
Quinta dos Belgas ou de Santo António, nº 24 e 26
Quinta do Alves Martins ou de Santo António, nº 36
Do lado esquerdo:
Quinta da Granja de Baixo, nº 1 e 3
Quinta do Guimarães, nº 11 (Anexa à Quinta Grande)
Quinta do Conde de Carnide nº 13
Quinta das Flores, nº 27
Os números de 1 a 15 e 2 a 22 pertenciam à Freguesia de Benfica. Os números 17 a 24, pertenciam à Freguesia de Carnide.



Azinhaga da Fonte – As ruínas da Cascata da Quinta de Montalegre.
À direita, em segundo plano, um dos edifícios do Colégio Militar.
Foto de Fausto Castelhano (1985)


Pois bem, depois de ansiosas diligências entre matagais e arruinados barracões, conseguimos encontrar o que pretendíamos: o que sobrou da velha Azinhaga da Fonte estava ali, à nossa vista. A placa toponímica lá está, para que não haja engano possível e, além do mais, algumas dessas antigas habitações conseguem resistir e… estão habitadas.



A placa toponímica da Azinhaga da Fonte ainda lá está.
Foto de Fausto Castelhano (2010)


O pouco que resta da antiga Azinhaga da Fonte
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Assim, e antes que arrasem, definitivamente, o pequeno troço da Azinhaga que ainda consegue subsistir, por um casualíssimo prodígio, tratámos de obter os respectivos registos fotográficos.
O que resta da antiga via está bloqueada entre a 2ª Circular (do lado de Benfica) e, da parte correspondente a Carnide, o troço existente termina entre algumas velhas habitações e altos muros que não conseguimos descortinar a quem pertencem. De qualquer modo, não tem saída.



Troço da Azinhaga da Fonte do lado de Carnide
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Apesar do que nos foi dado observar, com muita curiosidade e deleite, tínhamos que nos apressar. Provavelmente, um dia voltaremos com mais vagar…Mas, a extraordinária odisseia não terminava ali…
Próximo investida: Rua dos Soeiros…



Azinhaga da Fonte do lado de Benfica – Ao fundo, o topo do Estádio do Sport Lisboa e Benfica
Foto de Fausto Castelhano (2010)





Rua dos Soeiros


A antiga Rua dos Soeiros começava no Nº 360 da Estrada de Benfica, no sítio da Cruz da Pedra, um pouco antes do Hospital da Cruz Vermelha (para quem vem de Benfica) e terminava no Nº 177 da Estrada da Luz. Assim, metemos os “cascos” p’rá Estrada da Luz, agora com prédios gigantescos e, mais ou menos defronte das chamadas “Torres de Lisboa”, lá estava a placa que nos assinalava a antiga Rua dos Soeiros. A velha casa de gaveto (da Estrada da Luz com a Rua dos Soeiros) onde vivia a D. Isaura (tia das minhas irmãs do primeiro matrimónio do meu pai), foi completamente arrasada, tal como tudo quanto por ali existia, casas, quintas e quintarolas. Por ali acima, dum lado e doutro da Rua dos Soeiros, procederam a uma radical alteração. Fiadas de enormes prédios e ausência de qualquer sentido estético, tipo gaiola, claro está...



Estrada Luz, 181. Esta casa fazia esquina com a Rua dos Soeiros (do lado direito). Nela vivia a Dª. Isaura, tia das minhas irmãs (do primeiro matrimónio do meu pai).
João H. Goulart (1967), in Arquivo Municipal de Lisboa



Ao cimo da rampa, quando a estrada curva à esquerda e onde existia um portão que dava entrada para a Quinta de Montalegre, a Rua dos Soeiros muda de nome. Assim, se vão perdendo, aos poucos, a memória desses lugares que me eram tão queridos.



Rua dos Soeiros - Quinta do Bensaúde
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Então, aparece-nos a Rua de João de Freitas Branco a qual, abocanhou um bom pedação da Quinta de Montalegre porém, à esquerda, o velho itinerário estava lá, quase todo inteirinho todavia, crismado de Rua João Hogan. E lá estavam os velhos muros das quintas, a do Bensaúde, à esquerda e, à direita, apenas restaram as ruínas das Quintas de Montalegre e do Zé Antunes. A casa onde nasci (e os meus irmãos) já não existe, nem o poço, o grande tanque junto à horta…Nada!
Mais abaixo, no grande espaço da quinta de Montalegre (ou da Dª. Leonor) e defronte do Centro Comercial Colombo, o novo Estádio do Sport Lisboa e Benfica (a "Catedral"), inaugurado em 25 de Outubro de 2003. Este, veio substituir o antigo Estádio da Luz o qual, tinha sido aberto ao público no dia 1 de Dezembro de 1954.



Entrada da Quinta com a inscrição de 1787 e um belíssimo painel de azulejos
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Um pouco mais à frente, o infalível camartelo encarregou-se da avassaladora missão e…arrasou tudo. Estão a florescer, como cogumelos, urbanizações a preços proibitivos…Sem espaços verdes, zonas de lazer e…tudo o mais…À fina!



A inscrição de 1787 no portal da quinta
Foto de Fausto Castelhano (2010)



É a tal modernidade que nos andam a impingir a toda a hora, no seu magnífico esplendor…Por ali, o cimento armado é rei e senhor: é o chamado Alto dos Moinhos, servida pela respectiva estação do Metropolitano. No seu interior, alojaram o Museu da Música. Ao menos, valha-nos a louvável iniciativa…Pela raridade, às vezes somos surpreendidos que… nem queremos acreditar!



O magnífico painel de azulejos, no interior da quinta. O portão estava escancarado… Não perdemos a oportunidade.
Foto de Fausto Castelhano (2010)



O empedrado de basalto, tão característico destes fabulosos caminhos, fora substituído por alcatrão.
A agradável caminhada ao longo do percurso foi, na verdade, um encantamento que não vamos esquecer tão depressa. O chilrear da passarada, as milheirinhas, os pintassilgos e um casal de melros, deram-nos as boas vindas…Estamos na época de acasalamento e em plena construção dos ninhos... Uma maravilha… Meus amigos, vão lá e observem a amenidade, o pitoresco dos sítios de tempos que já não voltam mais...



Portão de quinta na Rua dos Soeiros
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Com uma sorte fantástica, deparámos com o portão da Quinta do Bensaúde escancarado e, logo ali, zás! Um extraordinário painel de azulejos, muitíssimo bem conservado… Lindíssimo…
O trajecto da Rua dos Soeiros, perdão, Rua João Hogan, bastante aprazível, é um pouco compridote, mas ainda bem que assim é… Desfrutámos, à farta, a amenidade duma ambiência única... Com muita pena nossa, tem o seu termo num verdadeiro descampado, virado para a Cruz da Pedra e no cruzamento com a Azinhaga do Ramalho.



Rua Cidade de Rabat, 5 (Antiga Rua dos Soeiros) - Quinta Nova da Conceição
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Assim, aproveitámos a vizinhança da Azinhaga do Ramalho e fomos deitar uma olhadela ao que restava do velho caminho…
Mas, primeiramente, apontámos a mira para o outro lado da Rua dos Soeiros, isto é, o trajecto que, iniciando-se na Estrada de Benfica, arrancava por ali acima até à Quinta de Montalegre…Passei por ali, milhares de vezes, de eléctrico ou a pé ou, um pouco mais tarde, utilizando o autocarro, a caminho da Escola Pedro de Santarém, da Escola Industrial Machado de Castro, das Oficinas Gerais de Material Aeronáutico de Alverca ou do Aeródromo Base nº1, depois de frequentar a Escola Militar…
Para nossa surpresa usurparam, indecentemente, o nome à Rua dos Soeiros que, agora, tomou uma nomenclatura muito mais pomposa. Nem mais! Rua Cidade de Rabat…Assim mesmo…Sim, senhor! Gente espertalhona, minada de ideias mirabolantes que conseguem sacar das profundezas da cacholeira e que, por bastas vezes, têm destes desaforos…sabe-se lá por mor de quem!



Rua Cidade de Rabat (Antiga Rua dos Soeiros)
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Porém, observámos uma outra fantasia…A antiga via (a actual Rua Cidade de Rabat), percurso natural de mercadorias, gado, carroções carregadinhos de produtos agrícolas ou hortícolas e de toda uma infatigável actividade rural, nem sequer tem ligação directa com a Estrada de Benfica. A rua foi trancada, em definitivo, pelo passeio que, por mero acaso, pavimentaram em calçada portuguesa…Vá lá… Podia ser muito pior…



Rua Cidade de Rabat (Antiga Rua dos Soeiros) – Uma casa de tempos muito antigos
Foto de Fausto Castelhano (2010)



E pronto, palmilhámos a Rua Cidade de Rabat a qual, corresponde ao início do antigo caminho da Rua dos Soeiros… A Quinta Nova da Conceição ainda lá está com o Nº 5, alguns edifícios antigos permanecem intactos, embora degradados… Logo ali, obtivemos os respectivos registos. Galgámos a rua até ao desvio do Alto dos Moinhos e fomos lá acima. Ao ponto mais elevado do local! O magnífico panorama que dali se desfruta em toda a sua extensão é, na verdade, magnífico…Depois, foi sempre a descer…Um pouco extenuados pelo valente estirão, retornámos a Benfica, o último destino da nossa romagem…




Azinhaga do Ramalho


Vamos, então, retornar um pouco à Azinhaga do Ramalho a qual, tinha o seu começo na Estrada da Luz, nº 71 e terminava, sensivelmente, a meio da Rua dos Soeiros. Este trecho da Azinhaga do Ramalho (que tinha início a partir da Estrada da Luz) foi literalmente desmantelado e a totalidade do espaço circundante está ocupado por diversas urbanizações, de gosto muito duvidoso, e que não acrescentaram nada de novo.



Azinhaga do Ramalho, Nº3 junto à Estrada da Luz (1971)
Nuno Barros Roque da Silveira, in Arquivo Municipal de Lisboa



Portanto, da vertente virada para a Estrada da Luz, tirámos o cavalinho da chuva pois, não havia nada a fazer. Assim, explorámos do outro lado deste velho caminho, isto é, pelo desvio que, da Rua dos Soeiros, nos introduz na Azinhaga do Ramalho. Talvez a sorte nos batesse à porta. E lá fomes, a “mata cavalos”…



Azinhaga do Ramalho – Os muros das quintas (do lado esquerdo)
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Na “ganga da maviosa” e sobre o empedrado original, percorremos a antiga e encantadora azinhaga, estreitinha, serpenteando por entre velhos barracões arruinados e pelos característicos muros das quintas… Abruptamente, deparámos com o final do percurso junto ao portão da Quinta do Furão. Não existe saída possível… Ali, num pequeno terreiro sobre a Estrada da Luz e a Estrada das Laranjeiras, matagal e uma belíssima lixeira! Um mimo…



O empedrado original da Azinhaga do Ramalho
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Resolvemos continuar… O fim de tarde aproximava-se...



Azinhaga do Ramalho – Portão da Quinta do Furão
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Travessa da Granja


Depois da Rua Cidade de Rabat (Rua dos Soeiros), conseguimos aguentar a pedalada…O melhor que nos foi possível!
A Estrada de Benfica é demasiado custosa após tantos quilómetros no papo! Porém, tinha que ser e… já! Ou era agora, ou então, jamais nos iríamos enfiar, novamente, em tamanha enrascada! Assim, lográmos perfazer o trajecto que nos restava da Estrada de Benfica até à Travessa da Granja.


A placa toponímica da Travessa da Granja, ainda permanece.
Foto de Fausto Castelhano (2010)



A Travessa da Granja iniciava-se no Nº 464 da Estrada de Benfica, um pouco antes da Azinhaga da Fonte e, através do seu empedrado de basalto, ladeada pelos muros das Quintas da Granja de Baixo e da Quinta da Granja de Cima, dava acesso directo à Quinta da Granja de Cima e ao palacete da Família Canas.



Travessa da Granja, a caminho da Quinta da Granja de Cima
Foto de Fausto Castelhano (2010)



Nos dias de hoje, ainda persiste um pequeno troço da dita travessa (devidamente assinalada) que, na realidade, possuía as características essenciais que definem uma azinhaga. Agora, esta via começa na Rua Dr. José Baptista de Sousa e no cruzamento com a Rua Mestre Lima de Freitas. Localiza-se exactamente, nas barbas da nossa Associação de Artes e Cultura – Stimuli/Unisben.



Empedrado original da Travessa da Granja
Foto de Fausto Castelhano (2010)



O empedrado primitivo ainda se mantém. Meu pai e eu próprio, algumas vezes, trilhámos este caminho com o objectivo de negociar a compra da forragem para o nosso gado leiteiro.



Travessa da Granja
Foto de Fausto Castelhano (2010)


A velha nora da Quinta da Granja de Cima com inscrição de1919 gravada na pedra duma das colunas
Foto de Fausto Castelhano (2010)



E pronto, a viagem ao passado, no que às azinhagas diz respeito, terminou. Cansados, mas com um sentimento de indefinível prazer e do dever cumprido. Fizemos o melhor que pudemos e soubemos respeitando, acima de tudo, o rigor dos sítios e das alterações que, entretanto e ao longo de décadas, alteraram profundamente e de modo irreversível, a fisionomia da nossa freguesia. Esperamos, sinceramente, que estes singelos apontamentos contribua para um conhecimento mais preciso da nossa terra e que, entusiasme os nossos amigos e amigas a que, um dia qualquer, partam à aventura pelos caminhos e lugares de tempos remotos que, felizmente, na nossa Freguesia de Benfica e, também, na Freguesia de Carnide, estão à nossa espera…


Com um abraço de muita amizade

Fausto Castelhano