quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"Foram muitos anos de vivência de Benfica. Tanta memória..."




Como dizia, há alguns meses atrás, um dos aspectos mais importantes no mundo dos blogs é, na verdade, o facto destes constituírem verdadeiros espaços de partilha... Espaços onde, em tempo quase real, podemos aprender bastante uns com os outros.

A esse nível, tem sido muito interessante a troca (e, sobretudo, a aprendizagem) permanente que tenho mantido com alguns dos nossos leitores, assim como as dúvidas mais quotidianas que me têm sido colocadas por e-mail por algumas pessoas que chegam a este blog quando partem em busca de alguma outra informação mais específica sobre a freguesia de Benfica (seja porque aqui estão a pensar comprar casa, seja porque se encontram a realizar um trabalho universitário ou outro).

Ontem recebi um e-mail que me tocou profundamente.
Um e-mail que fala de memórias de outros tempos, de uma Benfica que não cheguei a conhecer, mas com o qual penso que todos aqueles que viveram a sua infância nesta freguesia encontrarão muitos pontos em comum.

Com a devida autorização do autor deste e-mail (o Sr. Jorge Resende), e uma palavra amiga de sincero agradecimento pela sua partilha, aqui publico hoje o seu texto.
Segundo as suas próprias palavras, foi "escrito de jacto"; em nosso entender, foi redigido com a emoção que as memórias daquilo que vivemos sempre nos trazem, constituindo, por isso mesmo, um importante testemunho das muitas histórias de vida que por Benfica têm passado.

Logicamente que, muito em breve, iremos também aqui publicar uma entrevista mais alongada com o Sr. Jorge Resende, integrada no nosso sub-projecto "Gente de Benfica".



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"Entrei neste blog sobre Benfica, porque gosto de procurar imagens relativas à Vila onde nasci. E fico com uma pena muito grande por ainda não se ter feito uma exposição de fotografias sobre Benfica do antigamente!


(...)

Chamo-me Jorge Benjamim Gomes Resende. Hoje habito na Madeira, estou reformado, mas nasci em 1946 no Largo Ernesto da Silva, no primeiro andar do pátio do número 13 ou 15, num quarto alugado pelos meus pais, tendo-me mudado para as águas furtadas do prédio número 11 ao lado.




Fotografia de Jorge Resende




Deixei Benfica em 1950, e durante 8 anos vivi na Venda Nova, na Rua do cinema, Rua Carlos Amaro de Matos, tendo voltado em 1958 a Benfica, para habitar uma moradia no recém inaugurado Bairro de Santa Cruz, de onde saí em 1979 e jamais voltar a viver em Benfica, hoje bastante descaracterizada, nada que se identifique com a Benfica dos seus tempos áureos. Quanta memória...

Dizia o Sr. Lamas que estava a escrever a sua memória, acredito que sobre Benfica ele tenha imensa memória.

O meu avô materno foi durante muitos anos vigilante da Escola do Magistério Primário, nada recebendo de ordenado pois lhe permitiram erguer naqueles terrenos casa de habitação e estábulos para gado, fonte de receita da sua família, filhas (minha mãe), minha avó, e mais tarde meu pai e crianças aí nascidas como o meu irmão mais velho.

Os meus pais e minha avó foram operários no Grandela e a minha mãe, sua mãe e irmãs foram operárias na Fábrica Simões na Gomes Pereira, frente à qual habitava um professor primário de nome André que foi professor de António Lobo Antunes, como ele descreveu nas suas crónicas, e foi também meu professor até à quarta classe, na escola da Venda Nova. Por tudo isto, foram muitos anos de vivência de Benfica. Tanta memória...

A Gomes Pereira e as suas vivendas, a Escola Normal, a sede do Benfica hoje Junta de Freguesia, onde vi o meu primeiro filme projectado ao ar livre, a Avenida Grão Vasco onde eu e os meus irmãos íamos apanhar folhas de amoreira para colocar em caixas de sapatos com bichos da seda e comer as amoras...
A
Igreja de Benfica onde fui baptizado, onde os meus pais se casaram mas da qual não fiquei cliente... O Parque Silva Porto, onde brinquei e para onde ia estudar, bem como para a Pastelaria em frente da Igreja, o "Paraíso de Benfica".....
E o campo do Futebol Benfica, onde hoje é a Pastelaria Nilo...

A
grande moradia dos avós dos Lobo Antunes, e a outra casa destes na Travessa da Era, ao lado da Travessa do Vintém, junto ao Largo Ernesto da Silva...

E o palacete junto à Travessa do Rio, que pertenceu a uma família de apelido Baena, ao lado do prédio onde foi a Junta de Freguesia antes de se ter mudado para a Gomes Pereira - palacete esse frente ao palacete do que foi o Centro de Saúde, na Estrada de Benfica, no início da Gomes Pereira... Sempre que ali passava, olhava para o palacete e imaginava vivências antigas, talvez recheado ainda de móveis, enfim, fantasias de criança que Benfica soube criar. Tanto para dizer...



"Palacete do Visconde Sanches de Baena" (1960),
Armando Serôdio, in Arquivo Municipal de Lisboa



E a casa do Senhor Santos, o penhorista, na Grão Vasco onde hoje fica a Pastelaria Lua de Mel, e onde eu ia, envergonhado com a minha mãe negociar empréstimos que as condições económicas eram tão débeis...




"Av. Grão Vasco, Nº 13 a 17" (s/data),
Arnaldo Madureira, in Arquivo Municipal de Lisboa



Benfica, Benfica, que um dia gostaria de ver em livro, pois acredito que ainda se vá a tempo de recuperar a memória.
Ao dispôr, não com fotografias porque os rendimentos daquela época e desta família não suportavam a despesa com máquina fotográfica. Tudo está na minha memória, no meu coração. Na minha casa do Bairro de Santa Cruz ainda vive o meu irmão mais velho.

(...)

Anexo duas ou três fotos engraçadas. Uma será do Largo Ernesto da Silva Nº 11 onde morei no topo do prédio, águas furtadas, prédio que ainda existe, o outro é do referido palacete na esquina da Travessa do Rio, que hoje dá para um parque de estacionamento.



"Estrada de Benfica" (s/data),
[a aguardar referência ao autor], in Arquivo Municipal de Lisboa



E a outra é do prédio que ficava em frente do atrás referido, e que no primeiro andar teve um fotógrafo, Foto NICE, que durante décadas fotografou ,conjuntamente com a
Foto Águia de Ouro, os pequenos e graúdos de Benfica.
O pouco de Benfica antiga que ainda resta precisava de ser fotografado."
***




*** Texto da autoria de Jorge Resende.







4 comentários:

Anónimo disse...

A fotografia que mostra o prédio onde ficava o "Retratista Nice", e por baixo do Nice havia uma taberna do "Sr.Zé da Graça".

helder disse...

No largo Ernesto da Silva, por altura das festas populares de Lisboa, eram feitas fogueiras nas quais nós miúdos pequenos saltavamos e queimavamos os cardos que tinhamos apanhado na Quinta da Granja

José António Baptista disse...

Cara Alexa,

Foi com profunda emoção que descobri a fotografia da "Foto Nice", de cuja fachada não tenho nenhuma foto no meu acervo fotográfico.
Sou sobrinho e afilhado do proprietário da mesma, Virgílio Costa, já falecido.
Quando criança, há já mais de 40 anos, brinquei muito nessa casa de fotografia e sobre isto escrevi uma memória que pode ser lida [ aqui ] no meu blog Caracol Carolas.

Nasci em Benfica, há 53 anos, na Av. Gomes Pereira, mas cedo saí para outras paragens - aos 13 meses.
Contudo, continuei toda a vida a frequentar mais ou menos regularmente a Estrada de Benfica, pois o meu padrinho morava nela, com a minha tia-avó, sua esposa.

Parabéns pelo seu blog, que me fica como referência.
Cumprimentos
José António Baptista
Oeiras

Alexa disse...

Caro José Baptista: muito obrigada pela sua visita ao "Retalhos de Bem-Fica" e por me ter dado a possibilidade de conhecer o seu magnífico texto de memórias!

Infelizmente, já não cheguei a conhecer a Foto Nice, pois só nasci em 1976.
Mas, terei todo o gosto em publicar este seu texto (com referência à sua autoria e blog) no nosso "Retalhos de Bem-Fica".

Sinta-se à vontade para voltar ao nosso blog comunitário e partilhar tudo aquilo que considerar importante sobre a nossa freguesia.

Abraço amigo