sábado, 31 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO!





(por Alexandra Carvalho)




"Recomeça...

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em Liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só a metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És Homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças."

Miguel Torga




Fotografia de Alexandra Carvalho (2011)






Este ano que agora finda foram todos vocês (que, diariamente, lêem, enviam comentários e/ou sugestões e/ou foram entrevistados) que nos ajudaram a continuar a "construir" este blogue comunitário... pelo que aqui vos queria agradecer de uma forma muito sentida.

Faço votos para que, contrariamente aos maus agoiros que por aí andam, 2012 seja um ano de muita prosperidade e, sobretudo, serenidade, e que nos permita a todos reflectir sobre os valores e a forma como queremos conduzir doravante a nossa sociedade...

Votos de um excelente 2012 a todos os amigos e leitores do "Retalhos de Bem-Fica", assim como aos seus detractores e "perseguidores".

Gostaria, ainda, de aqui deixar a minha gratidão e homenagem a todos aqueles que, durante este ano, ajudaram a dinamizar o nosso "Retalhos de Bem-Fica" e todas as actividades que temos vindo a desenvolver!

Este tem sido um trabalho intergeracional e multidimensional, que demonstra bem que, quando os cidadãos se unem, lutando naquilo que está ao seu alcance, participando activamente na resolução directa dos problemas dos seus bairros e das suas ruas, podem contribuir para a mudança e para a melhoria das vivências na nossa sociedade.

O trabalho que temos vindo a desenvolver no "Retalhos de Bem-Fica" (o qual vai muito para além da sua presença online neste blogue ou no Facebook) vem provar-nos que um outro mundo é (ainda) possível... Que ainda é possível pensarmos e criarmos uma sociedade diferente, onde a força de valores como a solidariedade, entreajuda e espírito de vizinhança e comunidade são apanágio.
Está, apenas, nas nossas mãos trabalharmos para reinventar esse Futuro, construindo, assim, um melhor mundo, em particular no local em que habitamos.

Que 2012 seja, assim, um ano em que mais cidadãos da nossa freguesia (e não só) se consciencializem do poder que a sua intervenção cívica pode ter no desenvolvimento dos lugares onde vivem!...








quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

(ADOPTADO) ENCONTROU-SE - Gato jovem "laranja" na Av. Grão Vasco




Actualização de 23/01/12:
Gatinho Adoptado!
Muito obrigada a todos os que ajudaram.




(por Alexandra Carvalho)




Encontrou-se esta manhã, na Av. Grão Vasco, em Benfica, um gato macho (não castrado), jovem (entre 1 a 2 anos), extremamente meigo e com as unhas cortadas (o que indicia ser animal de casa).

Este animal poderá estar perdido ou ter sido abandonado.




Fotografia de Alexandra Carvalho (2011)



O gato tem pelagem laranja tigrado e barriga branca. Olhos amarelos.




Fotografia de Alexandra Carvalho (2011)




Entrega-se o animal a quem comprovar ser o seu dono/a.

Ou, caso este não apareça, o gatinho será entregue para adopção a pessoa que tenha consciência que adoptar um animal implica responsabilidades para com o mesmo durante toda a sua vida (em média, um gato pode viver entre 15 a 20 anos).




segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Condolências





Com grande tristeza informamos todas as pessoas amigas do Domingos Estanislau (Presidente do Clube Futebol Benfica e colaborador deste blogue comunitário), que a sua Mãe faleceu hoje.



"Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivido
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem."

Sophia de Mello Breyner Andersen




Ao nosso Amigo Lau e sua Família, sentidos pêsames de toda a Equipa do "Retalhos de Bem-Fica".







sábado, 24 de dezembro de 2011

O Vendedor de Natal





(por Alexandra Carvalho e Fausto Castelhano, com Mário Pires)






"Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente."

"Poema de Natal", de Vinicius de Moraes




Manuel Fernandes Monteiro, 76 anos.
Nascido a 15 de Outubro de 1935, no concelho de Alijó, distrito de Vila Real.

Ficou sem mãe aos 7 anos e foi Fernando Pinto de Sousa (seu vizinho e pai do antigo Primeiro-Ministro José Sócrates) que tentou que ele fosse acolhido na Casa do Gaiato de Vila Real, dizendo-lhe, como recorda, "(...) andas aqui desprezível, ficaste abandonado e tens que tomar outro rumo para a tua vida."
Infelizmente, esses outros tempos não eram nada fáceis e foi o mesmo vizinho quem lhe disse um dia: - "(...) Não há lei para os meninos da aldeia. Só há lei para os meninos da cidade."
Frase que marcou bastante Manuel Monteiro e sobre a qual se indaga ainda: - "(...) Mas não éramos todos portugueses? E não éramos todos iguais?!".

Face a este triste começo de vida, Manuel Monteiro andou a servir em casa alheia "(...) e lá me criei!", como relembra.

Aos 17 anos veio de comboio para Lisboa, com familiares. O bilhete custou-lhe 150 escudos, preço que nunca mais esqueceu.

Inicialmente, ficou a morar, durante alguns meses, em Campolide, na Vila Ferro.
Mais tarde, muda-se para a Quinta da Granja de Baixo, de Custódio da Silva e Miguel Lourenço; onde viria a conhecer a sua futura esposa, Maria, filha da rendeira daquela quinta, onde até vendiam bilhetes para os jogos do Benfica.
Em 1960 casam na Igreja de Benfica e a boda é realizada na Quinta da Granja de Baixo.

Neste re-começo de vida, Manuel Fernandes Monteiro decide ir à chamada "Horta da Luz", pertença do Conde de Carnide, pedir "(...) um bocado de terreno, para plantar umas batatinhas, umas couvinhas e umas cebolas"; pedido com o qual foi agraciado pela nobre figura.

Manuel Monteiro viveu 52 anos nos terrenos onde, recentemente, construíram o Centro Comercial Colombo. "(...) depois, o Belmiro de Azevedo e companhia deram-me alguma coisinha para sair dali e fiz uma casa na Pontinha, onde vivo."

Manuel Fernandes Monteiro, "(...) homem pobre, mas de muito trabalho", como ele próprio se descreve, é, também, um homem de muita luta e afinco.
Durante um ano, trabalhou na empresa de viação "Eduardo Jorge", na Venda Nova, na lavagem das camionetas.
Mais tarde, esteve 8 anos na Metalúrgica de Benfica. E, em seguida, labutou nessa grande obra da construção do colector para o ribeiro de Benfica ser encanado.

Depois, foi vendedor ambulante na Rua Cláudio Nunes e na Rua Morais Sarmento; tendo, posteriormente, sido integrado no espaço do actual Mercado de Benfica, onde vendeu fruta durante 8 anos.





Excerto de Entrevista com o Sr. Manuel Fernandes Monteiro
para a rubrica "Gente de Benfica"

Entrevista: Fausto Castelhano
Filmagens: Alexandra Carvalho
Montagem Vídeo: Mário Pires

Texto: Alexandra Carvalho

Todos os direitos reservados "Retalhos de Bem-Fica" (2011)






Eram os seus filhos ainda pequeninos (com 3 anos apenas), já Manuel Fernandes Monteiro costumava plantar alguns pinheiros e outros produtos hortícolas nos terrenos por detrás do Chafariz.
"(...) e um senhor muito antigo da Amadora desistiu ali [junto ao Chafariz] da venda de pinheiros (...) E um outro senhor disse-me para pôr ali os pinheirinhos, que podia ser que tivesse sorte."

E Manuel Fernandes Monteiro não só teve sorte na sua venda sazonal - que perdura há 45 anos, junto ao Chafariz de Benfica -, como se transformou, também, numa das mais bonitas e singelas memórias de Natal, de crianças e graúdos, na nossa freguesia.

Manuel Monteiro é o símbolo de um Natal antigo, em que os pinheiros eram naturais e não comprados nas "(...) lojas dos chineses, dentro de caixas que até dão para arrumar e tudo!".

Lembra-se de, antigamente, quando ali descarregava os seus pinheiros, ainda correr água no Chafariz, onde cavalos e burros iam beber água e algumas pessoas "(...) menos respeitosas" aproveitarem para ir tomar banho.
Nesses tempos, chegou a vender entre 300 a 400 pinheiros. Mas agora, que "(...) já há pouca gente a usar, só mesmo os que gostam!", "(...) se vender entre 80 a 100, já é muito bom!".

Apesar disso, todos os anos, continuam a vir clientes já antigos e outros mais recentes, não só de Benfica, como de Loures, Almada e Rio de Mouro, para virem comprar os seus "(...) pinheirinhos de Natal" (oriundos de Coruche, do terreno de uma pessoa amiga, que os planta para esse efeito).

"(...) Até já têm morrido pessoas, que algumas me diziam que já tinham saudades de levar um destes pinheirinhos. Mas os filhos foram para longe e eles nunca mais cá puderam vir", refere Manuel Monteiro, quando lhe perguntamos se tem consciência da importância que este seu negócio sazonal teceu no imaginário de muitas pessoas da nossa freguesia.

Em relação ao futuro deste seu negócio, Manuel Fernandes Monteiro apenas nos diz, com um sorriso no rosto: - "Eu tenho uma memória formidável, enquanto assim estiver não é mau! Por isso vou continuar a venda até poder e depois, que venha para cá outro e que tenha melhor sorte!"

De Benfica, que conhece como a palma da sua mão, Manuel Monteiro diz-nos em jeito de confissão: - "Já foi mais bonito isto! Gostava de ver isto mais bonito outra vez! (...) porque destruíram muita coisa, está tudo podre. Benfica está velha!"




Fotografia de Alexandra Carvalho (2011)

[clicar na imagem acima, para ver mais fotografias]







NOTA FINAL: - Esta entrevista é uma homenagem, que consideramos muito justa, a um homem que tem feito a sua vida na nossa freguesia, mas tem, também, proporcionado a muitos de nós as mais singelas recordações da época natalícia. Muito obrigada por isso mesmo, Sr. Manuel Monteiro!

Aproveitamos, ainda, para aqui deixar os nossos sinceros votos de um Feliz Natal e Boas Festas a todos os leitores e amigos do "Retalhos de Bem-Fica"!










quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A Quinta da Feiteira (Capítulo II)



Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2011)



Benfica
Uma freguesia do Termo de Lisboa


Capítulo II

A Quinta da Feiteira
- Do fundo dos tempos aos estertores da Monarquia -



(por Fausto Castelhano)

***


Após longa e fabulosa caminhada até aos nossos dias, as origens da mítica Quinta da Feiteira somem-se na fundura dos Tempos… Notas dispersas em publicações antigas e descobertas um pouco ao acaso, apontamentos preciosos insertos no livro “Benfica através dos tempos” do Padre Álvaro Proença ou nas obras publicadas versando a História do Sport Lisboa e Benfica permitiram agarrar todo o espólio disponível sobre tão interessante local da Freguesia de Benfica e traçar, na medida do possível, o quadro do emblemático espaço e a gradual transformação que de que foi objecto no decurso de cerca de três centenas de anos, isto é, onde outrora e até ao segundo decénio do século XX, existiu a famosa Quinta da Feiteira.



Um aspecto da antiga Quinta da Casquilha e, em segundo plano, observa-se o arvoredo do Parque Silva Porto ou Mata de Benfica implantado no espaço da Quinta da Feiteira.
(Foto de Artur Goulart - 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Claro está que, de permeio, fomos introduzindo valiosas achegas de realíssimo interesse e que nos mereceram particular atenção uma vez que, continuam retidos na memória dos raros amigos de provecta idade que ainda nos restam e que se dispuseram, de bom grado, transmitir-nos algo sobre o assunto, amigos que entretanto e aos poucos, nos vão abandonando mercê da inexorável lei da vida…


Terrenos da antiga Quinta da Casquilha. Ao longe, a torre da igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica. (Foto de Artur Goulart - 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Comecemos, então, pelo princípio:
Situada no coração da Freguesia de Benfica, a vastíssima superfície da histórica Quinta da Feiteira integrava terras de excelente de aptidão cerealífera e, tirando partido da irrigação proporcionada pela ribeira que atravessava a totalidade da propriedade no sentido Oeste para Leste, a produção hortícola e frutícola tornava-se, na verdade, farta e de irrefutável qualidade…Incluía, ainda, jardins e demais aposentos destinados a criados e trabalhadores, o magnífico palacete, cavalariças e a capela dedicada a S. Gonçalo de Lagos…
A frente principal da Quinta da Feiteira, sensivelmente virada ao Norte geográfico, bordejava a antiga Estrada Real, a actual Estrada de Benfica e estendia-se desde a Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Amparo de Benfica até à embocadura da Estrada de A-da-Maia.



O novo parque desportivo do Clube Futebol Benfica, Campo Francisco Lázaro, implantado na antiga Quinta da Casquilha. Em segundo plano, o arvoredo do Parque Silva Porto, a conhecida Mata de Benfica.
(Foto de Artur Goulart - 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A Poente, a Quinta da Feiteira encontrava-se limitada, não só pela Estrada de A-da-Maia mas, também, pela Quinta da Casquilha…
Ora, nos finais dos anos 50 do século XX e precisamente na Quinta da Casquilha, seria construída a chamada “zona ocidental” do Bairro de Santa Cruz de Benfica e, logo no início da década de 60 entra, em plena actividade desportiva, o moderno e mais dilatado recinto de jogos do Clube Futebol Benfica o qual, iria herdar o nome do antigo Campo Francisco Lázaro…
Entretanto e chegados aos primórdios dos anos 70, iria arrancar a construção do novo Mercado Municipal de Benfica e, pouco tempo depois, ocorre a sua inauguração e abertura ao público, acto solene e festivo que tem lugar a 19 de Outubro de 1971… Desaparecia, para sempre, envolto numa profunda saudade, o Mercado de levante da Avenida Grão Vasco, a “Rua da Mata”



Terreno reservado da antiga Quinta da Casquilha e destinado à futura construção do Mercado Municipal de Benfica - Em segundo plano, os prédios do lado esquerdo da Rua Emília das Neves.
(Foto de Armando Serôdio - 1969 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A Nascente, a Quinta da Feiteira confrontava-se, não só com a Estrada da Garridas, via que nos encaminhava, directamente, à “passagem-de-nível” dos Caminhos-de-Ferro da Buraca mas, também, ao muro divisório da chamada Quinta do Caldas o qual, oferecia obstáculo de monta…E será, nos anos 30 do século XX que, no espaço da Quinta do Caldas, seria construído o primeiro campo de jogos do Clube Futebol Benfica, o Campo Francisco Lázaro
A Poente, a Estrada da Circunvalação ou Estrada Militar perfilava-se como fronteira natural da Quinta da Casquilha e será, ao longo da Estrada da Militar até à linha de Caminhos-de-Ferro da CP que, nos finais dos anos 50 vão ser erigidas as moradias em banda e as ruas transversais correspondentes à Rua da Várzea ou seja, na “zona ocidental” do Bairro de Santa Cruz de Benfica…



Inundações na Estrada Militar ou Estrada da Circunvalação junto às moradias da “zona ocidental” do Bairro de Santa Cruz. O conjunto das moradias que se observam na foto e ao correr da Estrada da Circunvalação, correspondem à Rua da Várzea e às respectivas arruamentos transversais.
(Foto de Judah Benoliel - Finais dos anos 50 do século XX - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A Comissão Municipal de Toponímia, e que nos apraz registar, lança mão das antigas designações dos sítios e lugares e que persistem na memória colectiva da população da Freguesia de Benfica e, então, resolve atribuí-las aos vários arruamentos do Bairro de Santa Cruz de Benfica e, assim, surgem: Rua da Casquilha, Rua do Parque, Rua das Garridas, Rua da Várzea…



Passagem-de-nível da Cruz da Pedra
(Foto de Arnaldo Madureira – 1969 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A Sul, o caminho ferroviário da CP da Linha de Sintra oferecia uma barreira intransponível desde os finais do século XIX e, apenas as “passagens-de-nível” da Damaia, Cruz da Pedra ou Buraca e esta, já no termo da Estrada das Garridas, permitiam ultrapassar o inusitado estorvo à passagem das populações…



Apeadeiro da Cruz da Pedra/Jardim Zoológico da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses - CP
(Foto Wikipédia)



No que diz respeito à Quinta da Feiteira, a referência mais antiga com que deparámos, remonta a 1702 e foi respigada, além d’outras importantes e raras anotações, precisamente do livro “Benfica através dos Tempos” do Padre Álvaro Proença onde, a expensas de afincada trabalheira e escorado de paciência de santo, embrenhou-se nos misteriosos labirintos do respeitável quanto antiquíssimo Livro d’Almas da paróquia de Nossa Senhora do Amparo de Benfica e conseguiu desenterrar, trazendo à claridade do dia, a crucial e imprescindível informação que desde sempre almejávamos…
Assim e ao longo de cerca de dois séculos, tanto quanto se apurou de concreto, estabeleceram morada e viveram na Quinta Feiteira, os seguintes cidadãos: no registo do ano de 1702 irrompe, vindo da poeirada do tempo, Francisco João e, apenas em 1755, aparece a anotação de residência de Arcângela Maria e do seu irmão, o padre Pedro da Costa… Em 1769 e fazendo fé nas anotações fidedignas do Livro d’Almas da Paróquia de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, Pedro Lourenço e a respectiva esposa moraram, efectivamente, na Quinta da Feiteira…



Rua do Parque no Bairro de Santa Cruz de Benfica e o arvoredo do Parque Silva Porto, a Mata de Benfica.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



No ano de 1780, Hermano Cremer Vanzeler estabeleceu residência permanente na Quinta da Feiteira. Notabilizou-se pela ilimitada generosidade sendo, na verdade, um ilustre benfeitor da Paróquia de Benfica contribuindo, fortemente, a favor da construção da Igreja Nova, segundo opinião abalizada do Padre Álvaro Proença…



Igreja de Nossa Senhora da Saúde no Calhariz de Benfica.
(Foto de João H. Goulart - 1967 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



No Livro de Horas e no ano de 1782 consta, ainda, como morador fixo na Quinta da Feiteira, o nome do empregado Leandro João …
Entretanto e decorridos 18 anos, ou seja, em 1800, aparece-nos, por fim, a indicação do proprietário da Quinta da Feiteira, Francisco José Pereira e associado a notabilíssima iniciativa que, então, resolveu tomar: a reparação total da velha ermida dedicada a S. Gonçalo de Lagos erguida, desde tempos imemoriais, como capela privativa da própria Quinta da Feiteira…



Núcleo populacional do Calhariz de Benfica onde se localiza a a Capela de Nossa Senhora da Saúde.
(Foto de Fausto Castelhano - 2010)



A talhe de foice, é bom lembrar que, no século XVIII e no extenso território da Freguesia de Benfica, além das duas igrejas paroquiais, a Velha e a Nova, constatava-se a existência de um conjunto de 19 capelas ou ermidas… Três das capelas eram consideradas “Públicas”, isto é, pertenciam ao povo e, como tal, revelavam-se centros de intensa vida religiosa e social sendo, ao mesmo tempo, sedes de Confrarias ou Irmandades relevantes…
Assim, a Capela de Nossa Senhora da Saúde (1) encontrava-se edificada na zona central da comunidade do Calhariz de Benfica; a Capela do Espírito Santo (2), construída no lugar de Benfica e bastante pertinho da Igreja Paroquial e, ainda, a capela de Nossa Senhora da Conceição da Lapa (3), situada na Falagueira, Amadora, ou seja, a antiga Porcalhota e onde, actualmente, continua aberta ao culto…



A Capela de Nossa Senhora da Conceição da Lapa junto ao Aqueduto das Águas Livres na Falagueira, Amadora, ou seja, a antiga Porcalhota.
(Foto de Joshua Benoliel - 1912 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Para uso próprio e dos seus agregados familiares, servidores, criados, trabalhadores e rendeiros existiam, ainda, 14 oratórios particulares integrados nos belos e ricos palacetes e solares, mansões e palácios pertencentes a famílias abastadas ou fruindo de evidente prestígio…



Caminhos da antiga Quinta da Casquilha junto à antiga “passagem-de-nível” da Buraca da CP.
(Foto de Fausto Castelhano - 2011)



A Quinta da Casquilha, à semelhança doutras propriedades onde predominava a gorda abastança, também estava dotada de capela privativa: a Capela de Santo António todavia, no início do século XIX, já se apresentava totalmente arruinada!



A tradicional Feira da Luz preenchia todo o mês de Setembro, em Carnide.
(Foto Wikipédia)



Acrescentamos, por último, a Capela de Nossa Senhora do Pilar, administrada pelos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho e que estava integrada na Quinta da Granja…
Farturinha, louvado seja Deus… O povoléu, jamais teve razões de queixa e participava, vivamente, nas festanças e na vida social e comunitária…
Procissões e romarias, arraiais e festejos carnavalescos, festas de campo, bailaricos ou Semana da Quaresma, bandas de música, onde pontificava a insigne banda da Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica fundada em 1859, as fogueiras dos Santos Populares, terços e novenas, o Mês de Maria, as missas cantadas e os sermões, as penitências… Quarenta dias festivos durante o ano inteiro… Uma loucura, afora as festividades na Ermida de Nossa Senhora dos Prazeres, no Outeiro ou então, na Ermida de Nossa Senhora da Conceição, na vizinha Damaia, propriedade do Conde da Lousã…
O povinho atestava o bandulho de forrobodó e, quando o mês de Setembro espreitava após as colheitas da lavoura, os foliões entravam, positivamente, em delírio: a centenária Feira da Luz, em Carnide, abria os portões de par em par… O melão de Almeirim e o vinho carrascão do Cartaxo, as sardinhas assadas, as febras de porco na grelha e as louças de barro vermelho faziam as honras aos visitantes no Largo Luz…



O povo enfileirado no intuito de apanhar o autocarro a caminho da Romaria de Nossa Senhora da Conceição da Rocha em Carnaxide.
(Foto de Artur Goulart - anos 60 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



O entusiástico corropio na caminhada pela longa Estrada do Poço do Chão tornava-se avassalador porém, mal rebentavam os alvores da Primavera, o povinho rejubilava e atingia alto grau de êxtase, o clímax, dando o corpinho ao manifesto no mês de Maio, rebolando-se de farra na Romaria em Honra de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, em Carnaxide…



Fila de gente para apanhar o autocarro a caminho das festividades tradicionais em honra de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, em Carnaxide.
(Foto de Artur Goulart – Anos 60 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Pouco restou dos hábitos e crenças, costumes e tradições ancestrais que tanto entusiasmavam os nossos avoengos dum tempo já tão longínquo…Hoje, a sensaboria e o tédio, prevalecem…
Mas, voltemos ao século XIX e ao ano de 1858 onde nos surgem, como moradores permanentes da Quinta da Feiteira, Fernando Emídio da Silva e D. Edwiges Eugénio da Mota, Manuel Inácio da Mota e Silva e, ainda, cinco criados prontos para todo o serviço...
No ano de 1873, João Henrique Ulrich apresenta-se como dono absoluto da Quinta da Feiteira e com residência fixa comprovada.



Antigos caminhos das Terras das Garridas, os chamados “Caminhos da Feiteira”.
(Foto de Fausto Castelhano - 2011)



Entretanto, chegamos ao dia 10 de Junho de 1880 e, enquanto os “Republicanos” organizam e fazem desfilar um imponente cortejo comemorativo do tricentenário da morte de Luís de Camões, considerado o símbolo da grandeza e imortalidade da Pátria, o actual proprietário da Quinta da Feiteira, João Henrique Ulrich, matutou, matutou e avança com uma ideia genial, iniciativa de profundo alcance e que muito irá beneficiar a população de Benfica: arborizar parte considerável da excelente propriedade a que davam o nome de Feiteira de Cima e ordena, sem demora, o plantio célere de árvores de avantajado porte e arbustos de espécies variadas…
A Quinta da Feiteira embelezou-se de alto a baixo e tornou-se, aos poucos, uma realidade espacial verdadeiramente aprazível… A Sul do centro histórico da comunidade, isto é, em torno da Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, começava a desenhar-se um dos exuberantes pulmões verdes da Freguesia de Benfica!



Cartaz alusivo ao tricentenário da morte de Luíz de Camões. As comemorações decorreram na cidade de Lisboa e foram organizadas pelos Republicanos Portugueses.
(Foto Wikipédia)



Como se sabe, e após várias remodelações, o espaço arborizado seria mais tarde transformado no actual Parque Silva Porto, a conhecida Mata de Benfica, a qual, abrange uma superfície de cerca de 5 hectares de densa vegetação arbórea e arbústica.



O Zé Povinho, a famosa figura criada pelo artista Rafael Bordalo Pinheiro.
(Foto Wikipédia)


A 31 de Agosto de 1891, precisamente na Quinta da Feiteira, ocorre o falecimento de Maria Luíza de Sá Ulrich, esposa de João Henrique Ulrich e, volvidos mais alguns anos, o mesmo sucede ao titular da propriedade. Apenas em Maio de 1903, os herdeiros da ilustre família vendem, a belíssima Quinta da Feiteira, a César Augusto de Figueiredo, um “torna-viagem” brasileiro bem apetrechado de grossos cabedais, certamente abichados nos negócios desenvolvidos em Terras de Santa Cruz que adquire, por atacado, todo o conjunto da Quinta da Feiteira que incluía, boas terras de semeadura e hortas, palácio, bosques e jardins, etc.
[Informação cedida por amável deferência da Srª D. Ana Maria da Cunha]


A Revolta do Grelo, movimento revoltoso da população portuguesa contra o Imposto do Selo, rebenta na cidade de Coimbra no mês de Março de 1903 e alastra a todo o país.
(Foto Wikipédia)



Chegados a 1903, Portugal continua inquieto e agita-se de modo constante: a 24 de Janeiro realiza-se o funeral de Rafael Bordalo Pinheiro, o grande caricaturista republicano e criador da figura do Zé Povinho; em Março rebenta, em Coimbra, a chamada Revolta do Grelo, movimento de indignação popular contra o Imposto do Selo e que passaria a ser exigido às vendedeiras de géneros hortícolas e, também, aos vendedores do Mercado…
A revolta propaga-se de norte a sul do país e a forte contestação à Monarquia resvala e assume contornos violentos; os tecelões do Porto entram em greve geral e esta, vai alastrar de rompante a todo o território nacional envolvendo cerca de 30.000 operários; a 16 de Maio, é inaugurado o Centro Regenerador Liberal de Lisboa, liderado por João Franco o qual, se vai evidenciar e tornar célebre como braço direito do rei D.Carlos I e afastado, imediatamente, após o regicídio no dia 2 de Fevereiro de 1908…



João Ferreira Franco Pinto Castelo Branco, líder do Centro Regenerador Liberal de Lisboa, fundado a 16 de Maio de 1903.
(Foto Wikipédia)



E na pacatez rural da pitoresca Benfica, César de Figueiredo, homem de inesgotável dinamismo, adquiriu a cantaria e os portões de ferro das velhas Portas de S. Sebastião da Pedreira, os antigos limites da cidade de Lisboa e vai colocá-los no chamado “Passeio da Feiteira”, a actual Avenida Grão Vasco… Assim, calcetada de modo primoroso, a alameda harmoniosamente arborizada e que nos levava da Estrada de Benfica até aos portões da estupenda Quinta da Feiteira ficou ornada, em ambos os lados, graças a um belíssimo murete encimado por vistoso gradeamento de ferro forjado…



João Franco é pontapeado pelo Zé Povinho. Após o Regicídio, ocorrido a 2 de Fevereiro de 1908, João Franco é afastado da vida política portuguesa, definitivamente.
(Foto Wikipédia)



Finalmente, chegamos ao ano de 1906 onde a Quinta da Feiteira inicia uma imparável trajectória e vai projectar-se a caminho de um extraordinário protagonismo que ficará gravado, indelevelmente, na memória das gentes…



[Continua…]


**** Por razões de higiene mental, o autor não respeita as normas do Novo Acordo Ortográfico.





NOTAS


(1)- Capela de Nossa Senhora da Saúde
Calhariz de Benfica



A ermida de Nossa Senhora da Saúde é de construção bastante remota ignorando-se, exactamente, a data da sua edificação, no entanto, a pequena igreja que hoje se encontra localizada no centro do núcleo populacional do Calhariz de Benfica, é um templo do início do século XVIII.



Capela de Nossa Senhora da Saúde no Calhariz de Benfica.
(Foto Fausto Castelhano - 2010)



Centro de culto e caridade cristã extremamente activo e, também, sede da Confraria ou Terço do Calhariz e onde os fiéis, aos Sábados, cantavam a “ladaínha” a Nossa Senhora e, aos Domingos, rezavam o “terço”.
A festa do orago, imagem antiquíssima de Nossa Senhora da Saúde, celebrava-se a 15 de Agosto e compunha-se de missa cantada de enorme cerimonial e acompanhamento instrumental, sermão adequado ao festivo dia, exposição do Santíssimo Sacramento e festança de arromba onde o povo participava de modo entusiástico…



(2)- Ermida do Espírito Santo
Freguesia de Benfica



A vida atribulada, não só da Capela do Espírito Santo mas, também, do seu albergue e hospital destinado aos peregrinos, concita as atenções gerais e merece citação especial… Assim, em 1699, a vetusta capela já se encontraria em ruínas e poucas providências teriam sido tomadas pelos elementos da Confraria do Espírito Santo que administravam o templo e toda a actividade de culto e caridade cristã desenvolvida em seu redor, embora continuassem a receber os foros das propriedades do Adro da Igreja e, também, das casas junto à Igreja Paroquial e outros proventos durante, pelo menos, o ano de 1752.
Entretanto, a Irmandade do Santíssimo Sacramento e dando cumprimento ao decreto de 30 de Janeiro de 1780 emitido pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, tomou posse de todos os bens móveis e imóveis da ermida mas, pelos vistos, também pouca importância lhe mereceu a recuperação inadiável do templo…
Extinta a Irmandade do Espírito Santo entra em cena a Irmandade do Santíssimo Sacramento a qual, em Fevereiro do ano de 1785 assume-se como única usufrutuária e administradora da Capela do Espírito Santo… Não obstante, em 1809, a velhinha Capela do Espírito Santo encontrava-se em situação periclitante e, no seu interior, as missas deixaram de ser celebradas pelo perigo iminente de derrocada mas, entretanto, é utilizada como cemitério quando escasseavam sepulturas na Igreja Paroquial…
Apenas em 1831, a Irmandade do Santíssimo Sacramento vai substituir a porta da capela que se encontrava escaqueirada e, no ano de 1855, alguns pequenos arranjos serão levados a efeito na arruinada capela… Mesmo assim, o templo é convertido em edifício de aluguer e, em 1907 ocorre o descalabro total: a capela é, pura e simplesmente, transformada em cavalariça de animais de tracção de um comerciante da Freguesia de Benfica...
Na sequência da implementação da República Portuguesa em 1910, o próprio nome de Espírito Santo é varrido da toponímia da Freguesia de Benfica e substituído pelo nome do jornalista Ernesto da Silva porém, indícios da Capela do Espírito Santo não se conseguem vislumbrar e nem sequer a sua real localização…



(3)- Capela de N. Sr.ª da Conceição da Lapa
Falagueira, Amadora (antiga Porcalhota)



A construção da Capela da Nossa Senhora da Conceição da Lapa, conhecida por Capela da Falagueira, foi autorizada por Provisão do então Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Francisco I, em 15 de Novembro de 1759 e aberta ao culto em Agosto de 1760.



Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Lapa, Falagueira, Amadora, antiga Porcalhota.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A referida Provisão surge no seguimento de uma petição feita pelos habitantes da Porcalhota, Reboleira, Falagueira e outros lugares das redondezas os quais, pretendiam erigir uma ermida na Porcalhota.
A capela tem apenas um altar, onde se pode observar uma imagem de Nossa Senhora da Conceição da Lapa. O orago da capela é comemorado no dia 15 de Agosto.



Adro da Capela de Nossa Senhora da Conceição da Lapa na Falagueira, antiga Porcalhota.
(Foto de Joshua Benoliel - 1912 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A Capela da Falagueira foi sede da Confraria ou Terço da Porcalhota e, tal como na Ermida do Calhariz de Benfica, aos Sábados era rezada a “ladaínha” a Nossa Senhora e o mesmo se passava aos Domingos em relação ao “terço”.
Após a sagração da nova Igreja Matriz construída na Venteira em 1958, a Capela da Falagueira deixou de ser a única “capela pública” da região… Recentemente, a capela sofreu obras de restauro, notável iniciativa que devolveu a importância e dignidade ao local.



(4)- Quinta do Assentista: Solar e Capela
Falagueira, Amadora (antiga Porcalhota)



A entrada do solar e capela da Quinta do Assentista na Falagueira, Amadora, a antiga Porcalhota.
(Foto Wikipédia)



A Quinta do Assentista, também conhecida como Quinta dos Intendentes, é um excelente exemplo das inúmeras quintas que outrora existiram na Amadora e arredores. Este edifício foi erguido em 1746 e integra uma capela particular.



Solar e capela da Quinta do Assentista na Falagueira, Amadora, isto é, a antiga Porcalhota.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1961- Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Em termos de corrente artística, o conjunto edificado afirma-se por uma pequena mistura de estilos: um muro e o pátio fechado por um portão Joanino e, nesse mesmo muro, um frontão Barroco o qual, integra uma estátua de Nossa Senhora da Saúde. A decoração é sóbria, uma característica do século XVII. No seu interior, vislumbra-se um jardim que alberga diversas espécies vegetativas.









domingo, 11 de dezembro de 2011

“Urban Sketchers em Benfica – viajar no bairro com um caderno”






(por Alexandra Carvalho)




Direitos de autor da imagem: Cooperativa POST (2011)

[clicar na imagem para ampliar e ver o convite]




"Em co-produção com a
Cooperativa POST, o colectivo Urban Sketchers convidou 22 desenhadores urbanos para um passeio por Benfica. Partindo de um ponto de encontro comum, a Fábrica Simões, seguiram à descoberta por percursos diversos, registando-os com olhares e técnicas diferentes, no passado dia 6 de Novembro.

Os desenhos integrarão a exposição
“Urban Sketchers em Benfica – viajar no bairro com um caderno” no espaço da Cooperativa POST, com inauguração no próximo dia 15 de Dezembro, pelas 21:00, ocasião onde será também apresentado o respectivo catálogo/livro, perpetuando a Benfica desenhada por 22 olhares distintos.

O projecto é apoiado pela Junta de Freguesia de Benfica."
***



*** Texto disponível in Cooperativa POST.





[NOTA: - Esta exposição nada tem a ver com o XVI Encontro de Diários Gráficos dos Urban Sketchers - o qual teve lugar na nossa freguesia, a 10/07/11, a convite do "Retalhos de Bem-Fica" - apesar de poderem ter sido incorporados na exposição e no catálogo desenhos referentes a este 1º encontro.]








sábado, 10 de dezembro de 2011

A invasão dos folhetos da Junta de Freguesia





(por Alexandra Carvalho)




A primeira vez que reparei neles, colados ainda em mais paredes de edifícios privados (do que é habitual), foi aquando das últimas eleições, com a afixação da informação sobre as mesas de voto. Mas pensei que teria havido, certamente, algum erro por parte dos serviços da Junta de Freguesia de Benfica.

Afinal não!...



Folheto da Junta de Freguesia de Benfica afixado na parede lateral do muro do Chafariz de Benfica - imóvel classificado.
Fotografia de Alexandra Carvalho (2011)


Folheto da Junta de Freguesia de Benfica afixado na parede privada do Nº 719B da Estrada de Benfica - Padaria.
Fotografia de Alexandra Carvalho (2011)




Folhetos da Junta de Freguesia de Benfica afixados na parede da Caixa Geral de Depósitos da Rua Cláudio Nunes.
Fotografias de Alexandra Carvalho (2011)



Folheto da Junta de Freguesia de Benfica afixado na parede do Nº 715A da Estrada de Benfica - Sapataria e Agência Bancária.
Fotografia de Alexandra Carvalho (2011)




Basta-nos percorrer a Estrada de Benfica, desde as Portas de Benfica até ao Centro Comercial Fonte Nova para percebermos que, desde então, temos assistido, de uma forma verdadeiramente avassaladora, a uma "invasão" do espaço privado (seja em locais de âmbito comercial ou residencial) com folhetos de divulgação das inúmeras iniciativas da Junta de Freguesia de Benfica.

Mais grave ainda...
Chega-se ao cúmulo de, abusivamente e de uma forma perfeitamente non sense, se recorrer à afixação em imóveis classificados, como é o caso do Chafariz de Benfica (incluído na listagem de Inventário Municipal de Património sob o artigo 08.08) - imóvel esse, recentemente, limpo pela Junta de Freguesia de Benfica, "(...) de acordo com a programação do Mapa de Obras de Requalificação do Espaço Público"... Espaço público requalificado, mas novamente vilipendiado pela própria Junta de Freguesia (ver in artº 5º, alínea 1 a, do Regulamento de Publicidade - Edital n.º 35/92, de 6 de Março e respectivas alterações).

O que, sinceramente, me leva a pensar que:

1)- ou o actual Executivo da Junta de Freguesia de Benfica, na sua ânsia desmedida pela divulgação de uma forma propagandista do seu trabalho, passou a considerar, ilegalmente, o espaço privado como sendo do domínio público;

2)- ou, certamente, alguém se esqueceu de dar informações mais explícitas aos seus colaboradores sobre quais os locais onde é permitida a afixação de folhetos deste género.


Até consigo compreender que grupos de cidadãos e particulares a título pessoal utilizem os escassos meios que têm ao seu alcance para divulgar na via pública assuntos de interesse geral ou do seu próprio interesse - recorrendo, para esse efeito, à afixação de folhetos em postes de electricidade e em paragens de autocarros.

Agora, quando a própria Junta de Freguesia de Benfica, que dispõe de locais próprios - de seu único e exclusivo uso para esse efeito - começa a abusar da utilização do espaço privado, algo parece não estar a funcionar lá muito bem, sinceramente!...

Deixamos aqui como sugestão, ao Executivo da Junta de Freguesia de Benfica, que, para divulgar as suas inúmeras iniciativas (as quais consideramos extremamente importantes) e se aproximar do público que não tem acesso à internet, em vez de "invadir" abusivamente todas as paredes da freguesia, como alternativa, deixe os seus folhetos no interior das lojas do comércio local... onde os fregueses poderão, certamente, levá-los consigo e ficarem, igualmente, informados.





Mais informações sobre a afixação de publicidade e propaganda aqui:


Afixação e inscrição de mensagens de publicidade e propaganda - Lei n.º 97/88, de 17 Agosto e respectivas alterações

Regulamento sobre Propaganda - Edital n.º 6/90, de 7 de Fevereiro

Regulamento de Publicidade - Edital n.º 35/92, de 6 de Março e respectivas alterações






sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O verdadeiro Natal...





(por Alexandra Carvalho)




Fotografia de Alexandra Carvalho (2011)



O verdadeiro Natal, o das emoções e memórias que compõem a nossa infância, chegou ontem a Benfica, ali junto ao Chafariz...



Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)






quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Iniciativas de Natal da Junta de Freguesia de Benfica





(por Alexandra Carvalho)



Sempre em "movimento" e com muita divulgação, a "nossa" Junta de Freguesia de Benfica vai empreender, durante o mês de Dezembro, uma série de iniciativas, tendentes a "dinamizar e enriquecer o comércio tradicional"...



****


Texto e imagens abaixo da autoria de Junta de Freguesia de Benfica.




1º CONCURSO DE MONTRAS DE NATAL


Direitos de autor do cartaz: Junta de Freguesia de Benfica (2011)



"Com o objectivo de contribuir para a dinamização e enriquecimento do Comércio Tradicional, a Junta de Freguesia de Benfica promove, de 13 de Dezembro a 3 de Janeiro o 1º Concurso de Montras de Natal."





FEIRA DE NATAL DE BENFICA



Direitos de autor do cartaz: Junta de Freguesia de Benfica (2011)



"A 1.ª edição da Feira de Natal, no ano 2010, teve bastante impacto junto da população. Tornando-se num espaço de imaginação e diversidade de artesanato popular, o Pelouro da Cultura propõe a continuidade desta iniciativa realizando, então, a 2.ª edição da Feira de Natal, nos próximos dias 17 e 18 de Dezembro de 2011.

Para participar na Feira de Natal de Benfica basta consultar o Regulamento e entregar o Formulário de Participação preenchido, presencialmente, na Junta de Freguesia de Benfica ou, enviar por e-mail para cultura@jf-benfica.pt até dia 14 de Dezembro."




MERCADO DE NATAL - Flores e Frutos Secos


Direitos de autor do cartaz: Junta de Freguesia de Benfica (2011)



"De 1 a 30 de Dezembro, junto ao Mercado de Benfica, realizar-se-á o Mercado de Natal.
Venha comprar Flores e Frutos Secos!"









quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Et maintenant...







(por Jc Duarte)




Fotografia de Jc Duarte (2011)




Caminhava calmamente pelo corredor, saindo da luz do sol e entrando na obscuridade das lâmpadas do centro comercial.
Entre o seu cabelo alvo, já um pouco rarefeito, e o casaco de cabedal um pouco coçado, um bigode farfalhudo e bem aparado compunha-lhe a cara.
A sua mão esquerda apoiava-se numa bengala, que manuseava com destreza, bem a compasso do seu caminhar e parar.
Porque ele parava! A cada meia dúzia de passos olhava para quem lhe estivesse mais próximo e cantava-lhe. Desafinado e já com falta de voz, repetia sempre os mesmos acordes e o mesmo verso antigo de nem sei quantos anos: - "Et maintenant, que vais-je faire?…"

Eu, bem como os demais que ali estavam a almoçar, olhámos uns para os outros, meio espantados como insólito da situação. Mas nem a empregada que ali atendia, nem o segurança a uns metros de distância, lhe prestaram atenção. Deduzi que se trataria de um frequentador habitual do espaço, como tantos outros reformados que usam os centros comerciais como forma de matar o tempo que lhes sobra.

Este… bem, este ainda verbaliza o seu problema, de quem se viu sem ocupação e, talvez, sem com quem partilhar a sua amargura.

É tão difícil – e absurdo – definir normalidade!






domingo, 27 de novembro de 2011

"Ainda há Poesia nas Cidades" -(2)






(por Alexandra Carvalho)



Fotografia de Alexandra Carvalho (2011)



Os jardins da nossa freguesia estão cada vez mais bonitos... e, também, muito originais (ainda há quem, anonimamente, lhes confira um toque de Poesia)!

Esta tarde, na Alameda Padre Álvaro Proença, junto aos "Jardins de Benfica".







quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As (parcas) iluminações de Natal chegaram!...






(por Alexandra Carvalho)




Fotografia de Alexandra Carvalho (2011)



É claro que, em tempo de crise, os fregueses de Benfica, à semelhança dos demais portugueses, precisam é de outros "confortos"...

Mas, digam o que disserem, sabe sempre bem e as gentes gostam muito (resquícios de infância, certamente!) de ver as iluminações de Natal na nossa freguesia.

Este ano, seguindo a política da Câmara Municipal de Lisboa **, certamente, que não teremos as "estonteantes" iluminações de Natal em Benfica (custeadas pela Junta de Freguesia), como no ano passado...

Muito obrigada, assim, aos comerciantes da Av. do Uruguai e à Administração do Centro Comercial Fonte Nova pelas iluminações de Natal esplendorosas com que já nos brindaram!



Fotografia de Alexandra Carvalho (2011)


















sábado, 19 de novembro de 2011

DIA INTERNACIONAL DA FLORESTA AUTÓCTONE





DIA INTERNACIONAL DA FLORESTA AUTÓCTONE
Comemorações dia 23 e 26 de Novembro no Parque Florestal do Monsanto





Direitos de autor da imagem: Câmara Municipal de Lisboa (2011)

[clicar na imagem para ampliar]





Consultar aqui o Programa das comemorações.







sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Freguesia de Benfica - As nossa ruas (1)





Rua dos Arneiros

(antiga Travessa dos Arneiros)


(por Fausto Castelhano)



Untitled from Retalhos de Bem-Fica on Vimeo.





A Rua dos Arneiros, a antiga Travessa dos Arneiros, tem início na Estrada de Benfica, nº648, junto ao Chafariz das Águas Livres e termina na Estrada dos Arneiros, frente ao Cemitério de Benfica.

A Rua dos Arneiros comunica com as seguintes artérias:
- Beco do Vintém das Escolas: entre os nºs 10 e 12
- Rua Ernesto da Silva: entre os nºs 20 e 22.
- Rua Frei António Brandão: entre os nºs 57 e 59 ou seja, as conhecidas Escadinhas. Apenas, uma passagem pedonal.

Na Rua dos Arneiros ainda subsistem várias moradias ou prédios bastante antigos:
- O conjunto de moradias desde o início da Rua dos Arneiros até ao nº 24 e os edifícios com os nºs 27, 29, 31 e 91.

É de salientar, até meados dos anos 50 do século XX, a ausência de habitações no lado direito da Rua dos Arneiros (Travessa dos Arneiros) a partir da moradia com o nº 24. Daí até ao seu términus, a rua era ladeada pelo muro das Quintas do Brito ou do Zé Brito e da Quinta das Palmeiras ou Mata do Galla…
A entrada para a Quinta do Brito fazia-se pelo nº28 da Rua dos Arneiros (Travessa dos Arneiros).
O portão de entrada da Quinta das Palmeira localizava-se na Estrada do Poço do Chão, 63. Porém, existia um outro portão de acesso à Quinta das Palmeiras, raramente utilizado, na Rua dos Arneiros, sensivelmente próximo do prédio com o nº93.








sábado, 12 de novembro de 2011

A "Conversa dos Outros" em Benfica






(por Alexandra Carvalho)







Vídeo RTP2 (2011)





A "Conversa dos Outros" é um programa-documentário sobre os bairros de Lisboa, que será brevemente transmitido na RTP2.




Fotografia de Miguel Azevedo (2011)



Graças ao "Retalhos de Bem-Fica", conseguimos fazer com que a equipa de produção se interessasse pela nossa freguesia e aqui fizessem a gravação de um dos programas desta série.

Muito obrigada a todos os moradores e comerciantes que, durante os dias 14 e 17 de Outubro, contribuíram para a gravação deste programa!

Muito obrigada à excelente equipa de produção da Buenos Aires Filmes (Miguel, Guillermina, Gonçalo e Raquel) pelo tempo que dedicaram à nossa freguesia!



Ver fotografias do programa gravado em Benfica aqui.








quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Benfica. Uma freguesia do Termo de Lisboa - A Toponímia natural (Capítulo I)



Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2011)



Benfica
Uma freguesia do Termo de Lisboa

Capítulo I

A Toponímia natural


(por Fausto Castelhano)


***



O fenómeno é universal! Frequentemente e originado por fortuita ou mera circunstância, pessoas ou residentes de ruas ou avenidas, ruelas, pátios ou becos, monumentos ou lugares, habitantes ou naturais d’uma qualquer localidade ou país, acabam rebaptizados e perdem as identidades originais… Adeptos de clubes desportivos, inclinações político/partidárias, sindicais ou religiosas, nada escapa!



O edifício da sede do Sport Lisboa e Benfica na Avenida Gomes Pereira, 17, a “Rua do Cinema”, “Rua do Comboio”, “Rua da Estação” ou "Rua da Fábrica". No amplo salão estava instalada a única sala de cinema da Freguesia de Benfica. No Verão, as sessões de cinema ao ar-livre realizavam-se no Ringue de Patinagem .
(Foto de Vasques - 1958 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Ao sabor, claro está, da fértil e sempre pronta imaginação das próprias comunidades ou então, objecto de importação, sabe-se lá donde, de quem ou porquê bastando, para tal, lampejo fulgurante, pequenino pormenor sem a mínima importância, chiste apropriado ou boca maliciosa… e já está! Podem pegar de estaca e perdurar p’ra sempre porém, outros vão moendo, moendo e, com o decorrer do tempo ganham raízes fundas e agarram, propagam-se e acabam por se instalar de modo definitivo…



Estação de Benfica da CP ao cimo da Avenida Gomes Pereira, a “Rua do Comboio”, “Rua da Estação”, “Rua do Cinema” ou “Rua da Fábrica”.
(Foto de Garcia Nunes - 1955 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Reunindo o consenso popular, adoptadas na íntegra e facilmente assimiladas pelas populações surgem, então, revestidas de novel roupagem, isto é, envergando nomenclatura diferente da original tendo em vista, sempre, identificação isenta de qualquer possibilidade de equívoco, fáceis de pronunciar e, claro está, contendo certa e suficiente lógica… Por vezes e por ausência súbita ou prolongada dos motivos pelos quais foram objecto de tal deferência são, simplesmente, desclassificadas e podem adquirir diversa identidade ou então, e aos poucos, murcham naturalmente e falecem de morte natural… Daí e até ao total esquecimento, vai uma pequenina distância no tempo…
Em todo o mundo assim acontece… e a Freguesia de Benfica, felizmente, não escapou à regra… Assim e antecipadamente, vamos dar um saltinho no tempo, retornar aos anos 50 e 60 do século XX e, então, sem mais delongas, vejamos:



O conceituado Restaurante Sozinhito ao cimo da Avenida Gomes Pereira, 105 e 107 e junto à estação do Caminho de Ferro da CP.
(Foto de João H. Goulart - Foto do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A Avenida Gomes Pereira, transmuda-se em "Rua do Cinema" (termo caído em desuso à muitos anos) uma vez que, em tempos já um pouco distantes e na sede do Sport Lisboa e Benfica (edifício onde, hoje, está instalada a Junta de Freguesia de Benfica), existir a única sala de cinema da comunidade



Avenida Gomes Pereira, 1 a 93: a Rua da Estação, a “Rua do Comboio” e, também, em tempos mais recuados, a “Rua do Cinema” ou a “Rua da Fábrica”.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1968 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Todavia e do mesmo modo, a população também designava a bonita avenida da freguesia por “Rua da Estação” ou a “Rua do Comboio”! Claro, no termo da Avenida Gomes Pereira, encontra-se a Estação do Caminho de Ferro da CP e, assim, tornava-se facilitada a sua imediata localização…



Conjunto de teares da Fábrica Simões & C.ª Lda.
(Foto Wikipédia)



Por vezes, a Avenida Gomes Pereira era mencionada como a “Rua da Fábrica”! Porquê? Ora, um dos maiores e pujantes empreendimentos fabris da Freguesia de Benfica, a Fábrica Simões & C.ª Lda. (Malhas e Confecções), fundada em 1907 pelo dinâmico industrial José Simões laborava, exactamente, na Avenida Gomes Pereira…



Rua Cláudio Nunes, 35 a 43. A “Rua do Cemitério” e os bonitos prédios que foram demolidos nos anos 50 e 60 do século XX.
(Foto de Artur Goulart - Anos 50 do século XX - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A “Rua do Cemitério” corresponde à Rua Cláudio Nunes, embora toda a gente reconheça que outras vias convergiam e tinham o seu termo na “Quinta das Tabuletas”, seja a Estrada dos Arneiros, a Rua dos Arneiros (antiga Travessa dos Arneiros) ou, até mesmo, a Calçada do Tojal…
E a Rua Dr. José Baptista de Sousa? Alguém imagina onde fica? Claro, tal como se apresenta é um pouco difícil localizar tal via contudo, mais não é que a “Rua da Caixa”, junto à Stimuli/UNISBEN (1) e onde, efectivamente, se encontra instalado o Posto nº25 da Caixa de Previdência…



O bonito prédio da Rua Cláudio Nunes, 45 vai resistindo! Até quando?
(Foto de Fausto Castelhano)



Actualmente, a Stimuli/Unisben e atendendo à enorme projecção que vai desfrutando no seio da população da Freguesia de Benfica, onde vai granjeando apaniguados a cada esquina, provoca séria concorrência e ameaça, sem dúvida, a conhecida “Rua da Caixa”



Abertura do Ano Lectivo de 2010/2011 na Stimuli/UNISBEN.
(Foto de Fausto Castelhano)



Na verdade, não causaria espanto a ninguém se, muito em breve, ousasse passar-lhe a perna e a suplantasse: a “Rua da Stimuli” ou a “Rua da Unisben” emerge, paulatinamente, e prepara-se p’ra derrubar a “Rua da Caixa”!



A Tuna da Stimuli/UNISBEN em 2010.
(Foto de Fausto Castelhano)



O Mário Félix caprichou e um belo dia, nos idos de 50 do século passado, encheu-se de brios e apareceu-nos, afivelando largo e provocante sorriso na carantonha e a causar enorme inveja aos amigos: trajava calça americana que lhe assentava que nem luva e, segundo se constou, teria sido dos primeiros habitantes da Freguesia de Benfica a envergava a famosa novidade oriunda das terras do Tio-Sam…



Mário Félix, o “Mário Americano” e, pouco depois, “O Americano” - Maio de 1960
(Foto de Fausto Castelhano)



A oportunidade não caiu em saco roto e o nosso compincha Mário Félix foi, de imediato, apodado de “Mário Americano”… Porém, um pouco mais tarde, a malta abreviou o epíteto e, actualmente, continua a ser conhecido pelo seu nome de guerra: “o Americano”
Em Carnide, a Travessa do Pregoeiro é a “Rua do Gravatas” (Restaurante Adega das Gravatas, a antiga “Taberna do Gravatas”) e, à Rua do Norte, toda a gente a reconhece como a “Rua do Convento” (Convento de Santa Teresa do Menino Jesus, século XVII).
O Sr. Gaspar do Café Girassol, na sequência d’um infeliz episódio ocorrido com um grupo de jovens de sangue na guelra e sempre predispostos à malfeitoria, já descrito no texto de "Tabernas, Tascas e Casas de Pasto - IV", perde a própria identidade, definitivamente, e surge “O Seboso” tendo o maralhal, d’uma vazada, suprimido o nome que constava no seu Bilhete de Identidade…



Ao António Augusto Pereira só o topam como “O António da Farmácia”.
(Foto gentilmente cedida por António Augusto Pereira)



Ao António Augusto Pereira, um amigão desde os tempos de meninice, caçador de pontaria afinadíssima e, também, antigo e destacado dirigente do S.L. e Benfica, só o topam como “O António da Farmácia”



Pilões, como são conhecidos os alunos do Instituto Militar dos Pupilos do Exército.
(Foto Wikipedia)



Os alunos do Instituto Militar dos Pupilos do Exército em S. Domingos de Benfica viraram “Pilões” e os educandos do Colégio Militar, em Carnide, imperam com o apodo de “Meninos da Luz”



Os "Meninos da Luz", como são distinguidos os educandos do Colégio Militar.
(Foto Wikipédia)



O Mário Fonseca, filho único do Sr. Fonseca da Carris, oriundo da região de Ourém (que saudades do estupendo vinho branco da sua lavra que nos escorria pelo garganhol) carimbado como o mecânico “Mário Buracos” e, após breve tempo transitou, simplesmente, para “O Buracos”



A drogaria do “Júlio Careca” na Estrada de Benfica, 645 a 649.
(Foto de João H. Goulart - 1959 -
Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



O Júlio da Drogaria, homem de excelente trato e que à muito se foi deste mundo, passa a “Júlio Careca” por exibir, orgulhosamente, a calva luzidia; o Carlos Alberto Marques Castelhano, nunca mais se livrou do ferrete com que o marcaram, indelevelmente, p’ró resto da vida: “O Calminhas”



Carlos Alberto Marques Castelhano, vulgo “O Calminhas” em 1960.
(Foto de Fausto Castelhano)



A “Quinta Grande” é, efectivamente, a Quinta do Conde de Carnide e a “Quinta do Bom-Nome”, nome que lhe advém desde o ano de 1720 sobrepõe-se à “Quinta do Sarmento”, tal como era vulgarmente conhecida…



A Paula Maria e a Maria Helena em Maio de 1974 na “Quinta Grande” ou “Quinta do Conde de Carnide”.
(Foto de Fausto Castelhano)



A “Quinta do Sarmento” não resistiu às profundas alterações urbanísticas operadas a partir dos finais dos anos 50 do século passado nas Freguesias de Carnide e Benfica sendo, claro está, retalhada a preceito…
No seu espaço nasceu uma urbanização da EPUL e permitiu, também, o alargamento do Cemitério de Benfica na parcela mais a norte e confinada com a Estrada Militar (a sul, a área absorvida pelo Cemitério de Benfica pertencia à Quinta do Charquinho).



1960 - A Vereação e a Comunicação Social visitam as obras de alargamento do Cemitério de Benfica: Aníbal David, Vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa (1959-1970), António Vitorino França Borges, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa (1959-1970) - No último plano, a “Quinta da Granja de Cima” e o respectivo palacete.
(Foto de Armando Serôdio - 1960 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Poucos anos volvidos, avançou a Urbanização da “Quinta do Bom-Nome” e a Avenida dos Condes de Carnide rompe no sentido nascente/poente em direcção a Alfornelos… Não obstante, e só por simples acaso, a desgraceira não foi total: o magnífico palacete edificado no século XVII e que integra a capela de Nossa Senhora das Mercês safou-se, in extremis!



O magnífico palacete da “Quinta do Sarmento” ou "Quinta do Bom-Nome" na Estrada da Correia e onde está instalado o ISLA - Instituto Superior de Línguas e Administração de Lisboa.
(Foto de Fausto Castelhano - 2010)



Após notável remodelação, o belo palacete da Estrada da Correia acolhe, actualmente, o ISLA - Instituto Superior de Línguas e Administração de Lisboa.
A “Quinta de Carlos Anjos”, também é apontada como a “Quinta da D. Leonor” ou “Quinta de Montalegre” e onde, sete décadas atrás, dei os primeiros passos da minha já longa existência.



1944 - A célebre cascata monumental da “Quinta de Montalegre”, “Quinta de Carlos Anjos” ou “Quinta de D. Leonor” e que não escapou à destruição total. Na foto, a minha irmã Lucialina, o namorado Joaquim Monteiro, futuro marido, e a Ivone, cunhada e amiga da Lucialina Castelhano.
(Foto de Fausto Castelhano)



Literalmente arrasada nos primórdios dos anos 50 do século XX, na extensa área de uma das mais belas quintas das redondezas, nasceram prédios de gosto bastante duvidoso em atabalhoadas urbanizações e ainda houve lugar à implementação de um grandioso complexo desportivo: o famoso Estádio do Sport Lisboa e Benfica, a “Catedral dos Lampiões”!



Palacete da Quinta da Granja de Cima ou “Quinta do Canas”.
(Foto de Fausto Castelhano - 2011)



A magnífica Quinta da Granja de Cima, conhecida como a “Quinta do Canas” foi drasticamente amputada na sua superfície pela desenfreada especulação imobiliária mas, ainda subsiste o palacete e uma fatia razoável de solo de boa aptidão agrícola!



O belo conjunto do poço com nora datado de 1919 da Quinta da Granja de Cima.
(Foto de Fausto Castelhano - 2010)



À ilharga do vetusto palacete da quinta, é digno de realçar o poço e a respectiva nora, exemplar curioso da arqueologia industrial/rural dum tempo antigo, construído em 1919, tal como consta na gravação inscrita numa das colunas da estrutura…
A tradição bastante remota de que a Quinta da Granja de Cima estaria assente sobre as ruínas d’uma antiga vila romana com a configuração de um trevo de quatro folhas, carece de absoluta confirmação… Não obstante, a dúvida persiste…

A “Quinta das Palmeiras”, exuberante pulmão verde da Freguesia de Benfica e localizada a norte do seu território, também se identificava como a “Mata do Galla” ou “Quinta do Galla”, apelido do seu proprietário, Guerreiro Galla, industrial ligado aos transportes marítimos…



A Maria Helena e a Paula Maria na “Quinta das Palmeiras” ou “Mata do Galla”, um dos pulmões verdes da Freguesia de Benfica - Abril de 1969.
(Foto de Fausto Castelhano)



A gula voraz do lobby da construção civil passou por ali como cão em vinha vindimada, abocanhou a magnífica quinta e o sumptuoso palácio e, num ápice, brotaram prédios como cogumelos!
Bastante curiosa é a história da Rua Ernesto da Silva que, em tempos e durante largos anos, era indicada, geralmente, como “Rua dos Ferro-o-bico”



A moradia do Largo Ernesto da Silva, 2 e 4 e Rua Ernesto da Silva, 1 onde, no 1º andar, vivia a numerosa família dos “Ferro-o-Bico”.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Tratava-se de uma família numerosa conhecidíssima pela alcunha dos “Ferro-o-Bico” e, do seu agregado familiar, brotaram alguns elementos que deram excelente contributo desportivo ao Clube Futebol Benfica como atletas de nomeada nas modalidades de Hóquei em Campo e Hóquei em Patins… Moravam e certamente os seus descendentes ainda lá residem, exactamente no nº1 da Rua Ernesto da Silva…



Moradia no início da Rua Ernesto da Silva, 1 e onde, no 1º andar, vivia a família dos “Ferro-o-Bico”.
(Foto de Fausto Castelhano - 2010)



A Estrada dos Arneiros descambou para “Rua dos Castelhanos”, tal como ouvi pronunciar a estimável conterrânea no dia em que me perguntou onde, antigamente, morava: - “Eu residia na Estrada dos Arneiros”! A simpatiquíssima senhora elucidou-me, sem hesitar: - “Ah! Mas essa era a “Rua dos Castelhanos”! Fiquei estupefacto!



A família Castelhano na Praia de Caxias, ao tempo, uma praia bastante concorrida. Augusto Castelhano, Orlando Manuel ao colo da mãe (Maria Augusta), Maria Manuela, Maria Helena, Carlos Alberto e Fausto Augusto - Verão de 1946
(Foto do arquivo pessoal de Fausto Castelhano)



Ignorava uma tal novidade, todavia e pela certa, alguns habitantes da Freguesia de Benfica conheciam a Estrada dos Arneiros por nome diverso pelo simples acaso de ali residir uma família que ostentava o apelido Castelhano. Tal e qual! Aonde? Na Quinta do Charquinho, Estrada dos Arneiros, nº4 e onde existiu, anterior à década de 50 do século XX, o melhor e o mais afamado retiro de fados e comezainas das freguesias do Termo da cidade de Lisboa…





Cartão de sócio nº 1684 do Clube Futebol Benfica (FóFó).
(Documento de Fausto Castelhano)



Ao velhinho e carismático Clube Futebol Benfica, mimosearam com galanteio um bocado caguinchas, louvado seja Deus, e que jamais ouvirão pronunciar pela minha boca: Fófó! Não imagino quem teria sido o salafrário que alvitrou uma tal ignomínia, na minha modesta opinião, está claro… Actualmente, o ilustre Clube Futebol Benfica é conhecidíssimo em tudo quanto é sítio… de modo safado: Fófó p’rá aqui, Fófó para ali! A prestigiada agremiação desportiva não merecia tão insólito tratamento e, só de ouvir soar a afronta fico arrepiado, causa-me um certo mal-estar e largo logo um palavrão dos antigos …




Ringue de Patinagem Fernando Adrião (pai) no antigo recinto de jogos do Clube Futebol Benfica, Campo Francisco Lázaro. Em segundo plano, as traseiras dos prédios e moradias da Avenida Grão Vasco, a “Rua da Mata” ou “Rua da Praça”.
(Foto de Artur Goulart - 1960 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Realmente, para quem foi sócio do clube nº 642 desde a década de 50 do século XX e atleta de Andebol de 7, nem outra cousa seria de esperar! Um bocado forte p’ró meu feitio… Não obstante, por qualquer incidente relacionado aquando dos ensaios da Marcha de Benfica na antiga sede da Rua Cláudio Nunes, desandei ou desandaram-me, não estou bem certo ou prefiro não recordar tal cena…



O novo recinto de jogos do Clube Futebol Benfica, Campo Francisco Lázaro, na antiga “Quinta da Casquilha”. (Foto de Artur Goulart - 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)

Uns anitos volvidos e em 1983 regressei ao Clube Futebol Benfica onde me atribuíram o nº 1684… Breve estadia, desta vez e, logo de seguida, engalinhei por qualquer razão e arranco, mercê de radical atitude: renunciei ao clube do meu coração! Mas, esperem lá um bocadinho! Querem lá ver que o principal motivo que me levou a desertar do Clube Futebol Benfica, e agora definitivamente, já teria a ver com o tal nome de Fófó? É bem possível, sim senhor! Não descarto tal hipótese…



Escola António Maria dos Santos nº78, a “Escola do Ferrador”, situada na Estrada de Benfica e paredes-meias com o antigo Expedidor da Carris.
(Foto de Fausto Castelhano)



A Escola Primária António Maria dos Santos nº 78, na Estrada de Benfica e paredes-meias com o antigo Expedidor da Carris, é identificada por “Escola do Ferrador” e a Escola Primária Elementar de Aplicação nº 47 e que frequentei da 2ª à 4ª Classe, localizada junto ao antigo Quartel dos Sapadores Bombeiros e da Cozinha dos Pobres da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, cai e passa a “Escola da Câmbra” (Câmara).




O lançamento da primeira pedra para a construção da Escola Normal Primária de Lisboa pelo Presidente da República, Dr. Bernardino Machado, que presidiu à cerimónia. A referida instituição esteve aqui instalada até 1930. Depois desta data, passou a Escola do Magistério Primário de Lisboa e, em 1979 foi substituída pela Escola Superior de Educação de Lisboa.
(Foto de Joshua Benoliel - 1916 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Quanto à Escola do Magistério Primário de Lisboa (2) e cujo início de construção data de 1916, o nome original obscurece aos poucos e emerge, curiosamente, com a designação antiga, a Escola Normal, nome que lhe foi imputado aquando da sua fundação em 1862, ainda no tempo da Monarquia, claro está…



O magnífico edifício da Escola do Magistério Primário de Lisboa (1930/1979) inaugurado em 1916 pelo Presidente da República, Bernardino Machado. Actualmente, Escola Superior de Educação de Lisboa.
(Foto Wikipédia)



O caso mais sintomático ocorreu com o meu irmão António, o protagonista do célebre Bonifácio, episódio histórico que alvoraçou a cidade de Lisboa no já distante dia 10 de Maio de 1939…
O acto derradeiro, absolutamente imprevisível desenrolou-se, em cenário de extraordinário aparato aqui, na Freguesia de Benfica tendo, por palco principal, a exuberante seara de trigo da famosa “Quinta de Montalegre”



António Castelhano, “O Bonifácio”, tal como foi rebaptizado após o episódio histórico ocorrido a 10 de Maio de 1939 na Freguesia de Benfica.
(Foto gentilmente cedida por Maria Teresa Castelhano e publicada no Diário de Notícias de 10 de Maio de 1939)



Ao mano mais velho, trocaram-lhe as voltas e, pura e simplesmente, rebaptizaram-no: “O Bonifácio”! E assim ficou p’ra sempre e, na vizinha Carnide e ao longo de muitos anos, nas conversetas que fomos mantendo, amiúde, com raros sobreviventes e testemunhas desses longínquos tempos, o António Castelhano (prematuramente falecido em 1945) foi, em todos os momentos, recordado como “O Bonifácio”… Penso que o nome próprio do meu irmão fora varrido, totalmente, da mente dos velhos amigos e conhecidos e, no meu caso, era sempre apresentado como “O irmão do Bonifácio”. Nem Mais! O que me causava, devo confessá-lo, gozo incomensurável…



O bulício doMercado de levante na Avenida Grão Vasco ou “Rua da Praça” ou, ainda, “Rua da Mata”.
(Foto de Artur Goulart - 1965 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Porém, duas artérias da Freguesia de Benfica, homenageando personagens maiores da cultura portuguesa, merecem uma atenção especialíssima, redobrada: a Avenida Grão Vasco e a Rua Emília das Neves e, ao evocá-las, somos transportados, e que saudades, a uma época já distante: ao tempo da nossa meninice, ou seja, aos primórdios da década de 40 do século XX…

Confinados aos muros e valados da Quinta do Charquinho após emigração da Quinta de Montalegre, a maior e a mais bela quinta das redondezas, bafejados pela saudável vivência de alargados horizontes e do contacto permanente com a Natureza, os primeiros contactos com uma nova e fantástica realidade persistem vivos e fortemente impregnados no nosso imaginário…



Portão do Parque Silva Porto no final na Avenida Grão Vasco, a “Rua da Mata” ou a “Rua da Praça”.
(Foto de Fausto Castelhano -2011)



“Vamos à praça…ao peixe”! "Meninos: arranjem-se, vamos à missa!" Ou então, o pai: “Rapazes! Venham daí… vamos a Benfica, à Adega dos Ossos, beber um cafézinho”!
Incitados pelos nossos progenitores arrancávamos, alvoraçados, Estrada do Poço do Chão afora direitinhos ao centro histórico de Benfica onde, espantados, deparávamos com o extraordinário pólo de convivência e do contínuo vai-vem da população, o bulício do “Mercado de Levante” onde avultavam, por entre a zoeira fervilhante das gentes, os mais variados pregões das vendedeiras de hortaliça ou fruta da região saloia e das peixeiras incitando à compra do “peixe fresquinho do nosso mar”



Bonita moradia demolida nos finais da década de 60 do século XX na Avenida Grão Vasco, 47.
(Foto de Artur Goulart - 1965 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Ficávamos subjugados ante um mundo totalmente desconhecido até então: era a Avenida Grão Vasco, a “Rua da Praça” ou a “Rua da Mata” no seu máximo esplendor: cenário indescritível que atordoava os nossos sentidos…
Marcavam-se encontros, regateavam-se os preços, mantinham-se bate-papos informais, discutiam-se todos os assuntos que viessem à baila, coscuvilhava-se em grande estilo… ratando, impiedosamente, na pele de conhecidos, vizinhos ou desconhecidos… ou familiares!



Avenida Grão Vasco, 48 e 50, “Rua da Mata” ou “Rua da Praça”.
(Foto de Artur Goulart - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Quando me “dá a telha” e por ali resolvo vaguear absorvido nos meus pensamentos, parece-me vislumbrar os monstros amarelos e o som do ranger dos rodados de ferro nos carris ao curvarem à saída do “Expedidor” para a Rua Emília das Neves… Ou então, após atravessarem a “Rua da Mata” e virar a 90 graus, tomarem o caminho da Estrada de Benfica junto ao prédio de gaveto da papelaria do Sr. Silvino, isto é, frente à Igreja de Benfica! Era, realmente, a total fascinação!



Bonita moradia na Avenida Grão Vasco, 41.
(Foto de Augusto de Jesus Fernandes - 1966 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



E quando o “Guarda-freio”, o “Pica-bilhetes” ou algum passageiro alçava do braço e puxava pelo cordão de couro fazendo tilintar a campainha do amarelo? Que maravilha! Embora um pouco diluídos pelo passar do tempo, quando apuro o ouvido, continuo a ouvir esses sons de outrora de um modo absolutamente distinto…
Sensivelmente a meio da Avenida Grão Vasco e na perpendicular, a Rua Emília das Neves era fortemente influenciada, tanto no raiar do dia como à tardinha, não só pelo embarque e desembarque de passageiros das carreiras de eléctricos da “Carris” na paragem do “Expedidor” mas, outrossim, pela afluência contínua de fregueses ao dirigirem-se à “Praça ao ar livre” próxima…



A conceituada Casa de Pasto na Avenida Grão Vasco, 11, 13 e 15.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1960 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A "Rua do Expedidor", tal como era conhecida pela comunidade local apresentava, assim, uma movimentação digna de menção. As populações de lugares um pouco afastados, seja a Buraca, Venda Nova ou Damaia seja, até mesmo, a Amadora, Carnide e Pontinha, por ali circulavam diariamente, ora dirigindo-se aos mais variados afazeres e empregos, ora convergindo na direcção do “Mercado de Levante”, a fim de se abastecerem dos mais variados produtos hortícolas, peixe, criação de bico e coelhos orelhudos os quais, à vista do cliente mais exigente, não escapavam ao seu destino: mortos, sangrados e esfolados...



Rua Emília das Neves, 2 a 30. O carro eléctrico da Carris espreita à saída do Expedidor. Acabou de arrancar e vai iniciar o seu percurso até à Baixa.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1969 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



A Avenida Grão Vasco ainda se anuncia como a “Rua da Mata” porém, o registo de “Rua da Praça” dissipou-se no dia 19 de Outubro de 1971, isto é, a data da inauguração do Mercado Municipal de Benfica…
Quanto à Rua Emília das Neves, perdeu a importância de outros tempos e que lhe era conferida com toda a propriedade, tanto pelo “Mercado de Levante” que cumpriu, exemplarmente, o seu papel em determinada época como, também, pela circulação dos carros eléctricos da Carris os quais, exactamente ali, "davam a volta", isto é, curvavam da Estrada de Benfica para o Expedidor e dali, entravam na Rua Emília das Neves… Assim, esta artéria vai sentir de modo acentuado, a queda de prestígio e influência a partir de 1973 quando os carros eléctricos, definitivamente, deixaram de circular pela Estrada de Benfica…
Entretanto, o nome pela qual era vulgarmente conhecida, "Rua do Expedidor" apagou-se da memória das gentes e caiu, de maneira abrupta, no mais absoluto esquecimento...
Recentemente e aos poucos, uma nova designação começa a despontar e vai-se insinuando entre a população: a "Rua da Xana"!
Ou me perguntam a localização do veterinário da "Rua da Xana" ou ao indagar por um estabelecimento de componentes electrónicos, encaminham-me no mesmo sentido…



Rua Emília das Neves.
(Foto de Artur Inácio Bastos - 1961- Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Que raio de coisa… Intrigado, a princípio não atinei com a razão objectiva… Só muito mais tarde, quando me elucidaram através de amigos comuns… Na Stimuli/Unisben é frequente a alusão a esta nova nomenclatura… O termo é curto, fácil de pronunciar e cai que nem mel no ouvido… Se vai pegar… só o tempo o dirá…

Inseridas na zona nobre da Freguesia de Benfica, a Avenida Grão Vasco e a Rua Emília das Neves, pelas quais continuamos a nutrir desmedida afeição, além de albergarem uma longa e interessante história, algo desconhecida das gentes de Benfica e que urge desvendar em todos os aspectos explorando, claro está, todos os pormenores que contenham algum interesse…



Moradia demolida na Rua Emília das Neves, 8.
(Foto de Artur Goulart - Arquivo Fotográfico da Municipal de Lisboa)



As duas artérias encontram-se, ad eternum, indissoluvelmente irmanadas desde as suas origens mercê de cordão umbilical comum, isto é, geradas pelo mesmo ventre: a histórica “Quinta da Feiteira”.
Recuar no tempo e escavar, escavar a fundo até aos caboucos é o nosso propósito tentando, de permeio, revelar factos curiosos da Avenida Grão Vasco (“Rua da Mata”) e da Rua Emília das Neves, eventualmente, a "Rua da Xana", abordando também, a evolução do espaço envolvente onde estão localizadas e as alterações ou etapas de desenvolvimento que foram sofrendo no decorrer de várias épocas no contexto da Freguesia de Benfica... No fundamental, será o principal propósito deste trabalho…

[Continua…]



*** Por razões de higiene mental, o autor não respeita as normas do Novo Acordo Ortográfico.




NOTAS:


(1)- Stimuli/UNISBEN
Associação de Cultura e Artes de Lisboa (integra a Unisben).
A Unisben - Universidade Intergeracional de Benfica, é uma instituição de âmbito social e educativo, não-governamental e sem fins lucrativos, que nasceu com o propósito de combater a solidão e proporcionar aos seniores com mais de 50 anos momentos de aprendizagem e lazer.
O objectivo passa por proporcionar àqueles que são o nosso passado e que precisamos que sejam também o nosso presente, conhecimentos em múltiplas áreas do saber, nomeadamente as línguas, ciências sociais, saúde e música, entre outras, dando ainda a oportunidade de participar em actividades práticas em paralelo.

(2)- Escola do Magistério Primário de Lisboa
O magnífico edifício foi construído entre 1916 a 1919, segundo projecto de Adães Bermudes e foi inaugurado pelo Presidente da República, Dr. Bernardino Machado. A Escola Normal Primária de Lisboa (1862/1930) permaneceu naquele espaço até 1930, ano em que o Estado Novo extinguiu todas as Escolas Normais do país, substituindo-as pelas Escolas do Magistério Primário. A Escola do Magistério Primário de Lisboa funcionou sempre neste edifício até 1979 tendo, a partir desta data, substituída pela Escola Superior de Educação de Lisboa.