domingo, 15 de fevereiro de 2009

Vamos à Mata?



02/03/08


(por Alexandra Carvalho)



Foi, talvez, a pergunta que mais vezes coloquei em criança.




"Candeeiros de Lisboa no Parque Silva Porto" (1944) - Portugal, Eduardo, 1900-1958,in Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa
Fotografia de Alexandra Carvalho (2008)



A Mata era (e ainda é) o Parque Silva Porto, no final da Av. Grão Vasco, onde todas as crianças da minha idade passavam as tardes da sua meninice.

Acompanhada pela "Amiguinha" (a porteira dos meus avós, de quem nunca soube o nome, por apenas a conhecer sob esta forma mais carinhosa. Com ela passei os dias, até aos 3 anos, enquanto a minha mãe e os meus avós não chegavam do emprego), subíamos aquela colina íngreme rodeada de árvores gigantescas, até alcançarmos o seu cume, onde, qual tesouro escondido, se encontrava o parque dos balouços...



"Esplanada do Parque Silva Porto" (1956) - Serôdio, Armando, 1907-1978,
in Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa


Fotografia de Alexandra Carvalho (2008)



Há uns bons 20 anos que não entrava na Mata, apesar de, actualmente, até residir muito perto dela.
Ouvira alguém dizer que a Mata já não era a mesma, jazendo agora votada ao abandono.
E parece-me que, inconscientemente, sempre tive um certo receio inexplicável de lá voltar... Como se soubesse, antecipadamente, que, ao ultrapassar aqueles portões com 32 anos, iria quebrar a magia que aquele lugar comportava nas memórias sobre a minha infância.

Esta manhã voltei a entrar na Mata de Benfica...



"Parque Silva Porto na Avenida Grão Vasco" [ant. 1951] - Novais, Horácio, 1910-1988,in Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa



Mas a Mata já não é a mesma!...

As distâncias que, outrora, pareciam incomensuráveis estreitaram-se e, num instante, alcançamos o cume da colina mágica.
Quando começamos a subir, é que constatamos que a colina parece mesmo encontrar-se abandonada num limbo isolado, onde os risos e gritos das crianças deixaram de existir.
Durante a infância da minha mãe, a Mata era habitada por uma variedade enorme de animais, que se passeavam por entre os visitantes. No meu tempo já não era assim, mas ainda existiam os cisnes, patos e peixes que habitavam o "Lago do Monstro que jorra Água", à frente do qual ficávamos durante largos minutos a admirá-los e a atirar-lhes migalhas do miolo das sandes dos nossos lanches. Os cisnes desapareceram ou foram substituídos por pombos moribundos e dos patos que ainda ali permanecem quase se diria terem perdido a cor e graça.

Quando entramos no Parque Infantil, então, recebemos a estocada final no que restava da criança que vivia dentro do nosso coração...
O Parque, que antes era imenso e comprido, evaporou-se, como que por artes de um feiticeiro diabólico!
Os dois balouços com os espaldares muito elevados (o que fazia com que as cordas que os fixavam dessem mais balanço) - onde longas filas de crianças se formavam aguardando a vez de o poderem utilizar -, foram substituídos por uma piscina... também ela votada ao abandono e esquecimento.
Todos os outros balouços mais pequenos e os restantes brinquedos que rodeavam o parque e o seu terreno arenoso foram, agora, substituídos por equipamentos do último modelo, com piso sintético especial para as crianças não se magoarem muito nas suas quedas.

Do parque da minha infância, apenas permanece a Casa da Torre (com um colorido mais vistoso), onde a senhora de bata cinzenta fazia a vigilância e cuidava os ferimentos das crianças.
Mas a senhora da bata cinzenta deixou de fazer tricot à porta da Casa da Torre. E no parque, esta manhã de sol imenso, apenas uma criança brincava com a sua mãe.




Fotografia de Alexandra Carvalho (2008)


E durante todo o tempo que ali estivémos, para que eu fotografasse a Mata, não me conseguiam sair do pensamento as "toneladas" de grãos de areia com que os meus sapatos chegavam a casa, depois de ter passado a tarde na Mata com a Amiguinha... e a grande cabeçada que, um dia, dei num dos ferros de um balouço horizontal.

Eram outros os tempos... Podíamos não ter Kgs. de brinquedos, mas a simplicidade de uma ida à Mata era o suficiente para nos deixar muito felizes.


Mais fotografias aqui.




6 comentários:

Francisco disse...

Faltou neste quadro, as pequenas mesas de ferro pintado, com as respectivas cadeiras, debaixo de uma árvore que fazia uma excelente sombra, bem junto ao lago e deste separado por uma rede. Nessas mesas brincava-se com a areia, com as pequenas bagas secas das árvores, hoje artigos proibidos pela sua falta de higiene. Algumas vezes ia para aí, com uma velha tia minha, que me criou durante alguns anos, levando a cesta com a respectiva merenda. Recordações mais acentuadas pelo facto que aí brinquei e almoçei, algumas vezes, com uma garota, uns anos mais nova que eu, que morava frente a mim e que aproveitava por vezes para ir para lá brincar e almoçar também. Eram os nossos passeios ao campo, possíveis para quem não podia ansiar por muito mais. Essa garota cresceu e, hoje, temos dois rapazinhos, um de 21 anos e outro de 17 que ficam fascinados com as histórias desses tempos, nesses lugares. E, ficaram célebres os famosos pastelinhos de bacalhau e o arroz de tomate da tia Carolina, prato forte da merenda na mata. Tempos em que a mata era a nossa selva, onde corriamos sem perigos escondendo-nos por detrás das árvores, corríamos por aquelas ladeiras acima até ficarmos sem fôlego e bebíamos a água fresca dos fontanários...
Quanto fica ainda por dizer...

Alexa disse...

Das mesas de ferro pintado, com as respectivas cadeiras já não me recordo lá muito bem, Francisco... mas lembro-me bem dessa sensação dos "passeios no campo", pelo que a Mata simbolizava para todos nós em crianças.

Gostei muito da bonita estória que a Mata tem para si (dessa vida em comum e do seu amor de infância/vida adulta)! :)

Couto disse...

Faltou também as tardes passadas a apanhar pinhões, junto de uma "gaiolas" com alguns pavões e codernizes ao pé do parque das merendas.

T.Mike (Miguel Gomes Coelho) disse...

Alexa,
as suas palavras fizeram-me lembrar o que dizem os meus "gaiatos", hoje da sua idade e mais velhos.
A "MATA" faz parte da sua infância, e não só dos habitantes de Benfica, mormente dos da Grão Vasco pela presença omnipotente, como dos das redondezas .
Hoje, como ontem, vemos os
jogos e trabalhos dos escuteirinhos no parque das merendas e as brincadeiras dos putos dos colégios à roda, quando desponta a Primavera e peo Verão.
Mas é o nosso pulmão.
Ainda agora, e vou lá sempre que posso, praticar o "marchar cadenciado" que faz bem à saúde, uma modalidade que é exercida
por novos e velhos e menos velhos, fundamentalmente de manhã, pelo fresquinho do jardim, "phones" nos ouvidos com boa música para cadenciar o passo .
Mas é verdade que a "MATA" podia estar melhor. Mas, na minha opinião, os culpados do marasmo são os habitantes de Benfica que, na sua maioria, não ligam nenhuma ao seu mais emblemático jardim.
As cordiais saudações de sempre.

Alexa disse...

M. Coelho: pelas suas palavras, acredito que a "Mata" esteja ainda bem viva no imaginário de tantos de nós, nascidos na década de 70... assim como na imaginação dos nossos antepassados (mas com memórias algo diferentes, como as que o Francisco ilustrou no 1º comentário a este post).

Hoje em dia a Mata é diferente... infelizmente, perdeu muita da vida que tinha no passado.
E é pena!
Sobretudo, porque, como o Miguel muito bem diz "é o nosso pulmão"... e já muito poucos espaços verdes temos em Benfica.

Concordo inteiramente consigo quando fala na culpa do marasmo dos habitantes de Benfica... não só pela preservação e revitalização da Mata, como, também, pela de tantos outros símbolos e vestígios do Passado, que seria interessante recuperar e adaptar a novas funcionalidades no Presente (ao invés de se construírem tantos montes de cimento como temos em Benfica).
Talvez se as pessoas se sentissem mais pertença da própria freguesia, ou a valorizassem adequadamente, fosse possível inverter tal situação. Até lá...

Um abraço amigo

Anónimo disse...

Eu não morava em Benfica. Morava em Braço de Prata, perto do Poço do Bispo. Mas lembro-me dos passeios que faziamos à Mata de Benfica e do rico farnel que lá comíamos. Hoje moro em Benfica e raramente lá vou. Mas os meus filhos ainda frequentaram a piscina que havia no cimo da Mata.

Leonor Nunes