segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Gente de Benfica - III





Fotografia da autoria de Luís Resende




Jorge Resende, 62 anos, nascido na véspera de Natal, no 1º andar do Nº 13 do Largo Ernesto da Silva, passou grande parte da sua infância e juventude na freguesia de Benfica.

O seu avô materno era vigilante da Escola Normal de Lisboa (hoje Escola Superior de Educação de Lisboa), tendo à falta dum ordenado, a permissão de instalar nos terrenos anexos as habitações para a sua numerosa família e os seus gados. Manuel, seu avô, alcunhado de "Pastor" era muito respeitado em Benfica desses tempos; vivia da exploração leiteira e vendia leite e queijos de porta a porta, como era costume à época.

Jorge Resende foi filho de operários: o seu pai laborou na Fábrica Grandella (Empresa de Fiação e Tecidos de Benfica) e a sua mãe na Fábrica Simões, à porta da qual Jorge se lembra de a ir esperar.

Da Fábrica Simões & Companhia Limitada Jorge Resende relembra, com uma réstia de saudade infantil embargada nas suas palavras, a importância de que se revestiam as festas de Natal promovidas pela mesma. Onde o "Patrão Gabriel" e o "Patrão Simões", como benesse da consoada, ofereciam, com toda a pompa e circunstância (nas quais se incluía o direito a uma visita ao alfaiate), roupas novas aos operários e às suas famílias.

Só muitos anos mais tarde, Jorge Resende teve consciência da exploração laboral praticada pela Fábrica Simões, onde, apesar disso, de uma forma dir-se-ia quase paternalista, os patrões "estimulavam a aprendizagem no refeitório da Fábrica, para os operários obterem o diploma da quarta classe (...) Havia equipas desportivas (...) e cerca de 1954, nos terrenos do refeitório, nasceu uma creche para os filhos dos operários (...)".
Mas, para quem, em criança, apenas teve como brinquedo um cavalo de cartão, que pertenceu à Família Lobo Antunes (oferecido, assim, em segunda mão por uma das suas criadas), as festas de Natal promovidas pela Fábrica Simões, eram, de facto, uma benesse dos céus.

Por entre as lembranças dos importantes marcos do comércio local (como a mercearia "Vale do Rio", a "Adega dos Ossos", o "Paraíso de Benfica" e a Foto "Nice"), das idas a pé até à Feira da Luz em Carnide e à praia em Algés, das "casas muito bonitas" que os seus olhos fotografavam e de alguns dos personagens da Benfica desses tempos; o discurso de Jorge Resende é entre cortado pelos momentos de índole mais pessoal, como o da emigração dos seus tios (com quem viveu grande parte da sua infância, primeiro em Benfica e, mais tarde, na Venda Nova) para o Canadá, no final dos anos 50, ou o do seu insucesso escolar e ingresso no mundo do trabalho ainda adolescente com treze anos e meio.

Em 1958, Jorge Resende regressa a Benfica com a sua família, para habitar uma casa no novo Bairro de Santa Cruz, gerido pela Caixa de Previdência.
É, precisamente, neste bairro de "casas económicas" que Jorge Resende mais sentiu a cisão social que existia na freguesia, ou seja, "(...) entre as duas partes do Bairro, ou seja, os moradores do Bairro da parte de trás da Mata estavam ligeiramente deslocados de Benfica, como se de um gueto se tratasse. E havia um pormenor interessante na arrumação social até dentro de cada rua. (...) dum lado construíram uma banda de casas (...) que ou por acaso ou fatalidade, eram habitadas geralmente por agregados mais modestos. Do outro lado da rua, construíram vivendas com bastantes divisões, geminadas, em que os moradores geralmente eram de profissões ou liberais ou quadros de empresas, funcionários do Estado, “gente bem”, e que dava a impressão que estavam ali para, com os seus exemplos de vida, também servirem para “educar” os pobres que lhes calharam em frente das suas portas."

Em criança, Jorge Resende desejava ser professor primário, pois via naquela profissão "(...) uma forma de mudar de lugar constantemente, qual caixeiro viajante ou saltimbanco que andava de terra em terra (...)"... Acabou por trabalhar, mais de 30 anos, como Controlador Planeador de Escalas de Tripulantes de Voo na TAP, onde os seus sonhos continuaram a voar.

A sua história de vida é o fiel retrato de uma época, vivida pelas classes mais baixas, do operariado, na freguesia de Benfica. É, sobretudo, a história de um homem cujas agruras de uma vida difícil lhe incutiram, desde muito cedo, um forte sentido crítico perante as diferenciações sociais existentes e contra elas, mais tarde, tentou activamente lutar.

Apesar das agruras provocadas por uma vida modesta, Jorge Resende recorda com carinho uma "vila" de Benfica agradável, "(..) uma lista enorme de gente simples, humilde, entrosados com outros de posições económico-sociais diferentes, mas que conviviam, como se Benfica fosse um pátio em que todos se conheciam."
Uma Benfica que "(...) começou a desaparecer no início dos anos sessenta, com a construção desenfreada de novos prédios (...)", mas que ele próprio gostaria de ver transposta para "(...) uma exposição de fotografias que “falem” de tempos passados, e que muitas e muitas obras nasçam que possam marcar o futuro daquela freguesia."

Actualmente, reformado, Jorge Resende, juntamente com aquela que, há muitos anos atrás, lhe vendeu uma entrada vitalícia para a Festa do Avante, contempla agora a sua neta de 1 ano crescer na ilha da Madeira. Onde o gosto pela leitura o continua a comandar para que se dedique, ainda, a redigir as memórias da sua família para as gerações vindouras.




Pode ler esta história de vida na íntegra aqui (a qual faz parte de um projecto mais abrangente que desenvolvemos numa rubrica intitulada "Gente de Benfica").






2 comentários:

Cecilia disse...

Que magníficas recordações de Benfica! Ainda me lembro do Casimiro "Russo" e dos pais e de tantos outros.
Moro em Benfica desde os 5 anos e apesar de todas as modificações não trocava esta freguesia por outra.
Muitos parabéns ao Sr. Jorge Resende e também ao Retalhos de Bem-Fica pela entrevista!

Alexa disse...

Muito obrigada, Cecília (na parte que me toca :)!