quarta-feira, 30 de junho de 2010

A "Foto Nice"




O trabalho que vai sendo efectuado, actualmente, nos blogs na internet torna-se mais interessante e profundo quando os mesmos proporcionam alguma contrapartida positiva aos seus leitores, para além da troca e partilha quotidiana.

No "Retalhos de Bem-Fica" já proporcionámos alguns reencontros familiares, temos vindo a ajudar na busca pelo espólio de um antepassado e, sobretudo, temos conseguido juntar um grupo de pessoas tão diferentes mas unidas por uma vivência comum na nossa freguesia (que têm dinamizado acções e intervenções cívicas muito interessantes e positivas para o desenvolvimento de Benfica).

Foi por isso mesmo que, esta manhã, ao descobrir o comentário que o José António Baptista nos deixou aqui, fiquei tão contente por, mais uma vez, este nosso blog comunitário ter proporcionado algo de bom a alguém.

Porque as palavras do próprio fazem mais sentido do que as minhas, deixo-vos aqui com o seu belíssimo testemunho e memórias...



"Estrada de Benfica" (s/data),
[a aguardar referência ao autor], in Arquivo Municipal de Lisboa





"Do baú das memórias"


Este texto é uma memória com particular importância para mim. Esta versão é de Outubro de 2002 e não me canso de a ler e reler, pois sempre que o faço novas imagens assomam ao meu espírito, em vagas imparáveis, espessas ondas que me transportam para aqueles tempos felizes em que fui criança. Não é por acaso que sou um apaixonado pela arte da Fotografia. Deixo-o aqui, para vossa fruição, ao jeito de saudade e homenagem a esse homem extraordinário que foi o meu tio e padrinho Virgílio Costa:


'A Fotografia'

- Zézinho, queres vir para casa da tia? Era quanto bastava para eu saltar e pular como se de súbito tivesse ensandecido, gritando que sim, que sim, sorriso rasgado de orelha a orelha, pois ir para casa da tia significava passar alguns dias em Lisboa, na casa da tia na estrada de Benfica e ir com o padrinho, fotógrafo de profissão, que era também tio pois era marido da tia, mas que todos preferíamos tratar por padrinho, para a casa de fotografia que ele tinha na mesma rua, mesmo em frente ao já demolido Palácio dos Sanches Baiena ou de Benfica.

A casa de fotografia ficava num primeiro andar por cima de uma taberna escura de tecto muito baixo, e era conhecida como “Fotografia Nice”, mas todos na família a tratavam carinhosamente apenas por a “Fotografia do Padrinho”. Ir com o padrinho para a Fotografia era penetrar num universo maravilhoso de sonho, fantasia e mistério. Era como entrar num sótão velho, cheio de coisas para descobrir, de luzes e cortinas pretas, como um teatro permanentemente montado, aguardando as pancadas de Moliére para a entrada dos actores e começo do espectáculo. A sensação de entrar num sótão era aumentada pelo acesso, feito por uma escada velha e íngreme de degraus de madeira, dramaticamente gastos e que rangiam a cada passo dando um ambiente fantasmagórico à subida. Entrava-se por uma porta com uma mola de correr que engenhosamente fazia soar uma campainha: trimmmm...

Lá dentro, respirava-se o passado. Armários antigos e gavetas que guardavam sabe-se lá o quê. Talvez memórias de quando aquela casa era o local de habitação do padrinho e da família no tempo em que se racionavam os géneros alimentícios. Mas eu tentava saber o que continham tudo o que fosse gaveta ou caixa e abria todas as que podia, atraído por uma curiosidade incontrolável. Era com um misto de prazer e fruto proibido que abria as pequenas caixas de cartão colocadas às dezenas, disciplinadamente, numa prateleira e de cujo interior extraía velhas chapas de vidro, que guardavam antigos rostos em negativo para os quais eu olhava em contra-luz procurando ver o verdadeiro rosto daquelas pessoas, que eu não conhecia mas que ali via aprisionadas para a eternidade, tal como tinham estado naquele dia, naquele instante, agora tornado passado.

A prensa era um brinquedo fantástico pois marcava, com cunhos, as folhas de papel que lá metia. E esmagava sem piedade as molas da roupa, em madeira, que serviam para pendurar as fotografias a secar. Era um gozo imenso rodar aquelas duas grandes bolas metálicas do braço da prensa e senti-la esmagar, num gemido surdo, os pequenos pedaços de madeira. Havia também aparelhos estranhos de funções desconhecidas, projectores de luz, tripés e uma fabulosa máquina de estúdio, em madeira, com um grande fole negro e um pano preto na retaguarda. Máquina que, como o padrinho me mostrou, punha as pessoas de cabeça para baixo. Juro! Juro...! Caixas de luz onde, a um toque num pequeno interruptor, se acendia no centro um rectângulo de luz, no qual, a pincel e tinta da china, negra como carvão, com mão de artista e toque de génio, o padrinho retocava os negativos, para obter fotografias perfeitas. E obtinha! Mas o melhor de tudo era quando o padrinho me levava para a câmara escura. Era como se eu fosse também um actor naquele espectáculo, com o privilégio de conhecer, não só o palco, mas também os bastidores e o segredo dos cenários.

A velha cozinha transformada, de um lado a bancada com o ampliador e do outro uma enorme bacia de pedra com um ralo no centro e com a água sempre a correr e as tinas dos banhos. Entravamos. A pesada e espessa porta fechava-se. O padrinho apagava a branca luz do tecto. Era a obscuridade absoluta. A sensação de estar envolvido numa qualquer aventura, numa conspiração era verdadeiramente fabulosa, única. Sentia que ia ser iniciado pelos deuses num mistério, o qual me ia ser revelado. Na escuridão ouvia a respiração do padrinho, sentia a sua presença e procurava adivinhar-lhe os gestos. Gestos de quem conhecia bem o espaço que trilhava e se movia no escuro como se a luz estivesse acesa. Então acendia-se a luz vermelha, veladíssima, a única permitida, e só de vez em quando, por curtos períodos, pelo material fotográfico. Depois de tudo preparado e posicionado, fazia-se de novo escuro. Na escuridão, ouvia-o abrir a caixa do papel, tirar uma folha e colocá-la com perícia no ampliador. A luz deste acendia-se projectando o negativo no papel através de um cone de luz e eu espreitava, fascinado, olhando com ávida curiosidade aquelas estranhas manchas cinzentas, umas claras e outras escuras. Manchas que tornavam brancos os pretos das áfricas e dos brancos fazia negros! Como se a fotografia quisesse tratar todos os homens da mesma maneira, talvez com o mesmo desprezo. Manchas das quais nasceria a fotografia. Via o padrinho, com as mãos, manipular o cone de luz com gestos de mágico, para compensar zonas mais ou menos queimadas. A folha era colocada na tina com o banho de revelador e, pouco depois, como por magia, a imagem aparecia a pouco e pouco.

Era ver-me, debruçado sobre a tina com o nariz quase mergulhado lá dentro, vendo a superfície do papel a alterar-se, escurecendo, manchando-se de óxido de prata, objectos, corpos, rostos formando-se, como fantasmas saindo do nada. Mais tarde aprendi por que processos químicos aquele fenómeno era possível e eu próprio fiz trabalho fotográfico em laboratório como amador mas naquele tempo, aquilo tinha o sabor da magia, a atracção do inexplicável. Naquele momento, o padrinho era um mago, um prestidigitador. E eu era o público daquele espectáculo fantástico. Público privilegiado e maravilhado. Depois a fotografia passava ainda por fixador e era lavada sendo em seguida pendurada a secar para, ainda húmida, ir para a esmaltadeira. E eu ia dar outra volta, correr todos os corredores, entrar em todas as salas, assomar a todas as janelas, percorrer todos os cantos, procurar em todos os esconsos, saboreando o mais possível a minha aventura naquele castelo mágico. Era assim ir a casa da tia!

José António
Oeiras, 12 OUT 2002

Publicado in "Caracol, Carolas"









11 comentários:

Mario Pires disse...

A memória é uma coisa tramada, quando era miudo, lembro-me de que ia tirar fotografias a uma casa que era por aqui, mas não me recordo de ir ao 1º andar, tenho a idea que era no rés-do-chão.

Anónimo disse...

Também foi cliente da "Nice", recordo de tirar fotos "tipo passe", para a inscrição no 1º ano da velhinha "Pedro de Santarém".

Existia uma outra casa de fotografia em Benfica a "Florida".

Parabens pelo artigo.

Julio Amorim disse...

As fotografias da Nice eram de primeira pois este senhor era um excelente profissional. Tenho algumas fotos lá tiradas nos finais de 60 princípios de 70. Curiosamente este primeiro andar foi mais tarde comprado por um familiar meu. Houve também outro fotógrafo muito perto num R/C....

Jorge disse...

O estudio de fotografia perto da Nice era a Foto Águia de Ouro, cuja empregada durante muitos anos era a irmã do hoquista do Benfica o José Lisboa.

Julio Amorim disse...

Nice no 554 - 1 Dto
Águia D`Ouro no 574

Fausto disse...

Olá amigos

A empregada da Foto Águia d'Ouro era a Alice Lisboa que era, efectivamente, irmã do José Lisboa e do Carlos Lisboa (o irmão mais novo) que foi meu colega de aula na Escola Primária nº47, na Estrada de Benfica junto ao antigo Quartel dos Bombeiros e que ficava por detrás da Cozinha dos Pobres da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, (a Sopa do Barroso ou do Sidónio como era conhecida. A população de Benfica era, mesmo, muito pobre). A Alice Lisboa (penso que também trabalhou nos Laboratórios ATRAL na Av. Gomes Pereira) foi minha colega na RTP embora noutro sector. Ela estava nos Estúdios do Lumiar (secção de Filmagens no tempo das Vídeo Tapes). Passávamos horas na conversa enquanto não entravam clientes p´rá fotografia. Esta família vivia por cima da antiga padaria "A Panificação do Sul" que se localizava mesmo em frente à Foto Águia d'Ouro.
José Lisboa fez parte de uma grande equipa do Benfica e da selecção Nacinal onde pontificavam o Cruseiro, o Luís Lopes, o Mário Lopes (Márita) e o Perdigão (este, trabalhava na Fábrica Simões e, julgo que era serralheiro na fábrica pois, encontrei-o muitas vezes de fato macaco azul.

Um abraço a todos

Fausto Castelhano

Fausto disse...

Amigos

Quanto ao texto sobre a Foto Nice é, na verde magnífico.
Penso que nunca tirei fotos neste estúdio. Na Foto Águia d'Ouro tenho bastantes.
Como sócio do Clube Futebol Benfica assisti a vários jogos (tanto no antigo ringue Fernando Adrião, do Clube Futebol Benfica, como no ringue da sede do S.L. e Benfica na Av. Gomes Pereirao e onde hoje está a Junta de Freguesia) onde actuavam o José Lisboa, o Perdigão, o Cruzeiro e outros (pelo Benfica) e onde havia uma enorme rivalidade com o nosso Clube Futebol Benfica
Um abraço

Fausto Castelhano

Anónimo disse...

É verdade, também tenho várias fotografias da Foto Nice, tiradas pelo Sr. Virgílio.
Também neste prédio, vivia mãe e filho, a quem chamavam "Passarinho Moni".
Em relação à irmã do José Lisboa, era chamada carinhosamente por "Béca".

jorge resende disse...

Passarinho Moni... Eis alguém que se lembra desse personagem contemplador do céu, sempre com a sua pequena gaiola tapada com um pano branco e com um pássaro lá dentro! Nunca soube onde ele habitava., agora sei que morava no prédio da foto Nice. Obrigado pela lembrança

Fausto disse...

Olá Amigos

O Passarinho Moni apanhava pássaros "ao ramo". Eu nem sei se os nossos amigos sabem que modalidade será esta. O Passarinho Moni armava o seu "ramo" ou na Quinta do Charquinho (onde eu morava)e na Quinta do Sarmento que fazia fronteira com a Quinta do Charquinho. Normalmente (estava mais à mão)era uma pequena pernada de oliveira que era fixada ao chão e onde se espalhavam pequenas hastes, muito fininhas, embebidas em isco (uma espécie de cola). esta modalidade praticava-se a partir de Setembro, quando os passarinhos novos adquiriam a sua total autonomia. Junto ao ramo, colocava-se a "chamariz", a tal gaiola tapada com o passarinho lá dentro (a chamar os outros que por ali aparecessem). A chamariz mais frequente era o tentilhão (esse era o que o Passarinho Moni utilizava), mas o pintassilgo, o verdilhão e a milheirinha, também eram utilizados da mesma forma. E tinham, efectivamente, de estar tapados. se não estivessem, quem vinha ao canto da chamariz empoleirava-se na gaiola e estavam p'rá ali a namorar. Assim, poisavam no ramo, intrigados com a cantoria dum pássaro que não viam. Era o azar de muitos deles quando poisavam nas hastes com visgo. Quando tentavam libertar as patinhas e voar, as asas ficavam agarradas. Aquela cola só saía com petróleo. Era uma caça que exigia bastante paciência. O meu irmão Carlos praticava esta modalidade com muita frequência, mas o Passarinho Moni era exímio nesta ciência. Ele vendia os pássaros que apanhava às pessoas conhecidas (às vezes por encomenda) e junto ao mercado de Benfica (no actual e no outro o de "levante".

Um abraço a todos

Fausto Castelhano

Fausto disse...

Correcção

A espécie de cola com que se revestiam as pequenas hastes que se colocavam no "ramo" é "viscO" e não isco.

As minhas desculpas

Fausto Castelhano