sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Concelho de Belém

Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2010)




À procura das memórias d’outros tempos…

(por Fausto Castelhano)



Com a reforma administrativa de 11 de Setembro de 1852, foi extinto o chamado Termo de Lisboa (um vastíssimo território que se estendia a Norte e a Ocidente da Cidade de Lisboa) e criados dois novos concelhos: Belém e Olivais.



Chafariz do Largo do Malvar, Carnide.
(Foto de Fernando Martinez Pozal – Arquivo Municipal de Lisboa - 1952).
Em segundo plano, o muro que, vindo da Estrada do Poço do Chão, contornava a Quinta do Conde de Carnide.



O Concelho de Belém englobava as freguesias de Ajuda, Belém, Benfica, Carnide, Odivelas e, ainda, S. Pedro de Alcântara (extra-muros), S. Sebastião, (extra-muros) e Santa Isabel (extra-muros), ou seja, áreas exteriores à Estrada da Circunvalação. Em 1886, com a expansão da cidade de Lisboa, foi criada uma nova Estrada da Circunvalação a qual, permaneceu até aos dias de hoje. Porém, vários troços foram incorporados na cidade de Lisboa e outros, substituídos por vias mais modernas.



Chafariz do Largo do Malvar, Carnide.
(Foto de João Goulart – Arquivo Municipal de Lisboa).
Em segundo plano, lá está a Igreja de S. Lourenço e, a meio e à esquerda da foto, parte do telhado do Lavadouro Público.




O total da superfície do Concelho de Belém rondava os 63 Km2.

A 18 de Junho de 1885, o Concelho de Belém é extinto mas, durante este período de tempo, Belém conheceu a sua maior autonomia de sempre.



Lavadouro Publico do Largo do Malvar, Carnide.
(Foto de João Goulart – Arquivo Municipal de Lisboa).
O edifício ainda lá está… Aproveitem e vão lá ver… Qualquer dia, arrasam-no…




A Freguesia de Benfica é, então, absorvida pela cidade de Lisboa, mas uma parte, para além da nova Estrada da Circunvalação, passou para o Concelho de Oeiras.
O primeiro presidente do Concelho de Belém, foi a grande figura da cultura portuguesa Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo.



Chafariz do Largo do Malvar, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Domingo passado, logo pela manhãzinha, fomos à procura de algum testemunho que subsistisse, na Freguesia de Benfica, e que nos lembrasse o famoso Concelho de Belém. Farejámos duas zonas que ainda não foram totalmente esfrangalhadas: o núcleo do Calhariz de Benfica com o seu casco antigo e o troço da Estrada da Buraca junto ao Aqueduto e chafariz das Águas Livres e, também, da Quinta do Bom Pastor…Bem nos esforçámos…mas népia.
Não obstante e para o nosso feitio, era impensável acabar o dia de mãos a abanar…Seria um autêntico fracasso e nem ficaríamos de consciência tranquila…

Então, alargámos o nosso raio de acção e rumámos à nossa vizinha Freguesia de Carnide pela qual, nutrimos um carinho muito especial. Eu próprio, nasci na antiga Quinta de Montalegre que se dividia por duas freguesias. Um pedação da sua área pertencia à Freguesia de Benfica e o outro bocado, onde existia a célebre Cascata Monumental, estava incluído na Freguesia de Carnide.



Chafariz do Largo do Malvar, Carnide. Inscrição: "Câmara Municipal de Belém – 1857"
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Demos corda aos sapatos e lá fomos… E, logo à entrada da Freguesia de Carnide (vindos pela Estrada da Correia e do último trecho da Estrada do Poço do Chão) e paredes meias com a velha Igreja de S. Lourenço e o Lavadouro Municipal (já desactivado), exactamente no Largo do Malvar, lá estava a primeira referência ao antigo Concelho de Belém: o vetusto chafariz e, esculpida na pedra, a inscrição: "Câmara Municipal de Belém – 1857"
O local, julgamos, é razoavelmente conhecido da população…
Junto ao murete que contorna o chafariz existia, em tempos não muito recuados, um marco de pedra com uma inscrição semelhante… Pelos vistos, levou sumiço… para sempre…



Igreja de S. Lourenço, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)




E, já que ali estávamos, resolvemos invadir o recinto da Igreja de S. Lourenço onde se encontram, espalhadas um pouco por todo o lado, vários e pedregulhos lavrados (cuja origem se perde na noite dos tempos) e belíssimas lápidas seculares pertencentes ao antigo cemitério de Carnide…



Igreja de S. Lourenço, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



A igreja foi mandada edificar em 1342 pelo bispo de Lisboa, D. João (em honra de S. Lourenço), por Pedro Sanches, chantre da sua Sé. O bispo de Lisboa ofertou-a, depois, ao seu capelão João Dor. A Igreja de S. Lourenço era já Igreja paroquial no Século XIV.



Torre sineira da Igreja de S. Lourenço, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



A orientação e disposição da igreja é bastante antiga todavia, muito pouco de consegue observar do seu estado primitivo.
Foi remodelada e bem, desde há poucos anos. É um templo alegre possuindo, no seu interior, obras de talha dourada e as paredes encontram-se forradas com azulejos de azul sobre branco alusivos à vida de S. Lourenço.
Na capela-mor da igreja encontram-se inúmeras campas de épocas remotas.
Na frontaria da Igreja de S. Lourenço encontra-se uma inscrição referente à sua fundação e uma pedra com escudo de armas indecifrável e onde está esculpida uma perna com bota de cano alto encimada por uma estrela de seis pontas.



Na frontaria da igreja de S. Lourenço encontra-se uma inscrição relativa à sua fundação.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Igreja de S. Lourenço, Carnide - Pedra com escudo de armas (bastante estranho) colocada na frontaria da igreja. Uma perna com bota de cano alto encimada por uma estrela de seis pontas.
(Foto de Fausto Castelhano - Maio de 2010)




No alto de um cunhal, do lado do sul da igreja, está uma pedra com inscrição em caracteres góticos (talvez do Século XV) que diz: "ESTA SEPULTURA É DE LUÍS D’ABREU E DE TODOS SEUS HERDEIROS".



Martírio de S. Lourenço. Composição historiada, pintada a azul, representando uma cena do martírio de São Lourenço. Este painel integrava o revestimento original da nave Igreja de São Lourenço de Carnide e foi retirado no início do século XX. Dos painéis que integravam esse revestimento, um foi posteriormente colocado num paredão no troço final do Aqueduto das Águas Livres, nas Amoreiras (painel central), tendo os restantes sido guardados no Museu da Cidade.



Belíssimas pedras lavradas pertencentes ao antigo Cemitério de Carnide e que por lá ficaram.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Lápidas tumulares do antigo Cemitério de Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Vasculhámos o local até dizer chega e, dali, continuámos pelo coreto e o sítio primitivo de Carnide (que lindo que está!) até ao Largo das Pimenteiras (onde, agora, está instalada a Junta de Freguesia de Carnide) com o seu pequeno chafariz e um conjunto de pedras com inscrições de origem diversa os quais, estão enquadrados, e ainda bem, num magnífico espaço ajardinado muitíssimo bem cuidado…



Largo das Pimenteiras, Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)




Depois, sim… Fomos ao encontro, há muito tempo aprazado, da mais bela memória do Concelho de Belém das redondezas. É profundamente lamentável que, a esta magnífica peça não lhe seja dado um local mais condigno dada a sua importância… Ali, não! Ninguém a topa… por mais que afine o olho…



Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz, Freguesia de Carnide. Encontra-se incrustada no muro de protecção do Convento dos Franciscanos.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)




Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz, Freguesia de Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano - Maio de 2010)



Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz, Freguesia de Carnide.
(Foto de Fausto Castelhano - Maio de 2010)




O histórico testemunho do Concelho de Belém encontra-se incrustado no muro de protecção do Convento dos Franciscanos, no Largo da Luz, em Carnide… Pois é, mas naquele insólito local, passa completamente ignorado a quem quer que seja…
A inscrição, perfeitamente legível, menciona o Presidente da Câmara Municipal e os Vereadores daquela época: 1862… Reza assim:


"PRAÇA DE NOSSA SENHORA DA LUZ
MANDADA EDIFICAR PELA CAMARA MUNICIPAL DE BELÉM.
SENDO PRESIDENTE JOÃO ANTÓNIO DE SOUZA E VEREADORES MANUEL JOSÉ GONÇALVES. PEDRO AUGUSTO FRANCO. D. SEBASTIÃO DA SILVA PESSANHA. FAUSTINO JOSÉ DE FREITAS. JOSÉ ANTÓNIO CAPUCHO. FRANCISCO EVANGELISTA PACHECO.
1862"



Memória do Concelho de Belém no Largo da Luz, Freguesia de Carnide com a inscrição onde é mencionada a Vereação da Câmara Municipal de Lisboa no ano de 1862.
(Foto de Fausto Castelhano – Maio de 2010)



Memória alusiva ao Concelho de Belém no Largo da Luz
(Foto de Fausto Castelhano - Maio de 2010)



E pronto… A incursão às memórias do Concelho de Belém, terminou aqui… O malvado estômago começava a dar sinais de si e a reclamar… A roer… a roer…

Maio de 2010

Fausto Castelhano

5 comentários:

T.Mike (Miguel Gomes Coelho) disse...

Belíssima memória.
O autor está de parabéns.

Helena disse...

:)))

http://degrausdelaura.blogspot.com/2010/01/linda-falua.html
;D***

O Bicho disse...

Uma achega para complementar este momento da história de Lisboa: ALEXANDRE HERCULANO (o nosso grande romancista, historiador e político) foi eleito Presidente da Câmara Municipal de Belém, em 1853, tendo aí desempenhado um importante papel revelando as suas ideais de municipalista.
«...como tal assumiu atitude polémica contra o governo, defendendo os munícipes dos vexames dos impostos e da fiscalização...»

Anónimo disse...

Parabéns pelo texto tão interessante. Fico com vontade de percorrer também esses caminhos com quem me saiba descrever todos esses pormenores fantásticos da história da nossa zona de Benfica. Como poderei saber mais informações sobre esses passeios?
Rita

Alexa disse...

Cara Rita,

Muito obrigada pelo interesse demonstrado!

O nosso amigo (e redactor deste blogue) Fausto Castelhano é o perito nestes Passeios Temáticos.

Ainda estamos a delinear quando se realizará o próximo Passeio Temático, pelo que lhe sugeria que nos enviasse o seu endereço de e-mail para palavraseimagens@gmail.com, de modo a que a possamos avisar atempadamente da data do mesmo.

Abraço e obrigada,
Alexandra Carvalho.