sexta-feira, 1 de junho de 2018
O dia em que a Vila Ventura deixou de existir
sábado, 24 de dezembro de 2011
O Vendedor de Natal
(por Alexandra Carvalho e Fausto Castelhano, com Mário Pires)
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente."
"Poema de Natal", de Vinicius de Moraes
Manuel Fernandes Monteiro, 76 anos.
Nascido a 15 de Outubro de 1935, no concelho de Alijó, distrito de Vila Real.
Ficou sem mãe aos 7 anos e foi Fernando Pinto de Sousa (seu vizinho e pai do antigo Primeiro-Ministro José Sócrates) que tentou que ele fosse acolhido na Casa do Gaiato de Vila Real, dizendo-lhe, como recorda, "(...) andas aqui desprezível, ficaste abandonado e tens que tomar outro rumo para a tua vida."
Infelizmente, esses outros tempos não eram nada fáceis e foi o mesmo vizinho quem lhe disse um dia: - "(...) Não há lei para os meninos da aldeia. Só há lei para os meninos da cidade."
Frase que marcou bastante Manuel Monteiro e sobre a qual se indaga ainda: - "(...) Mas não éramos todos portugueses? E não éramos todos iguais?!".
Face a este triste começo de vida, Manuel Monteiro andou a servir em casa alheia "(...) e lá me criei!", como relembra.
Aos 17 anos veio de comboio para Lisboa, com familiares. O bilhete custou-lhe 150 escudos, preço que nunca mais esqueceu.
Inicialmente, ficou a morar, durante alguns meses, em Campolide, na Vila Ferro.
Mais tarde, muda-se para a Quinta da Granja de Baixo, de Custódio da Silva e Miguel Lourenço; onde viria a conhecer a sua futura esposa, Maria, filha da rendeira daquela quinta, onde até vendiam bilhetes para os jogos do Benfica.
Em 1960 casam na Igreja de Benfica e a boda é realizada na Quinta da Granja de Baixo.
Neste re-começo de vida, Manuel Fernandes Monteiro decide ir à chamada "Horta da Luz", pertença do Conde de Carnide, pedir "(...) um bocado de terreno, para plantar umas batatinhas, umas couvinhas e umas cebolas"; pedido com o qual foi agraciado pela nobre figura.
Manuel Monteiro viveu 52 anos nos terrenos onde, recentemente, construíram o Centro Comercial Colombo. "(...) depois, o Belmiro de Azevedo e companhia deram-me alguma coisinha para sair dali e fiz uma casa na Pontinha, onde vivo."
Manuel Fernandes Monteiro, "(...) homem pobre, mas de muito trabalho", como ele próprio se descreve, é, também, um homem de muita luta e afinco.
Durante um ano, trabalhou na empresa de viação "Eduardo Jorge", na Venda Nova, na lavagem das camionetas.
Mais tarde, esteve 8 anos na Metalúrgica de Benfica. E, em seguida, labutou nessa grande obra da construção do colector para o ribeiro de Benfica ser encanado.
Depois, foi vendedor ambulante na Rua Cláudio Nunes e na Rua Morais Sarmento; tendo, posteriormente, sido integrado no espaço do actual Mercado de Benfica, onde vendeu fruta durante 8 anos.
Excerto de Entrevista com o Sr. Manuel Fernandes Monteiro
para a rubrica "Gente de Benfica"
Entrevista: Fausto Castelhano
Filmagens: Alexandra Carvalho
Montagem Vídeo: Mário Pires
Texto: Alexandra Carvalho
Todos os direitos reservados "Retalhos de Bem-Fica" (2011)
Eram os seus filhos ainda pequeninos (com 3 anos apenas), já Manuel Fernandes Monteiro costumava plantar alguns pinheiros e outros produtos hortícolas nos terrenos por detrás do Chafariz.
"(...) e um senhor muito antigo da Amadora desistiu ali [junto ao Chafariz] da venda de pinheiros (...) E um outro senhor disse-me para pôr ali os pinheirinhos, que podia ser que tivesse sorte."
E Manuel Fernandes Monteiro não só teve sorte na sua venda sazonal - que perdura há 45 anos, junto ao Chafariz de Benfica -, como se transformou, também, numa das mais bonitas e singelas memórias de Natal, de crianças e graúdos, na nossa freguesia.
Manuel Monteiro é o símbolo de um Natal antigo, em que os pinheiros eram naturais e não comprados nas "(...) lojas dos chineses, dentro de caixas que até dão para arrumar e tudo!".
Lembra-se de, antigamente, quando ali descarregava os seus pinheiros, ainda correr água no Chafariz, onde cavalos e burros iam beber água e algumas pessoas "(...) menos respeitosas" aproveitarem para ir tomar banho.
Nesses tempos, chegou a vender entre 300 a 400 pinheiros. Mas agora, que "(...) já há pouca gente a usar, só mesmo os que gostam!", "(...) se vender entre 80 a 100, já é muito bom!".
Apesar disso, todos os anos, continuam a vir clientes já antigos e outros mais recentes, não só de Benfica, como de Loures, Almada e Rio de Mouro, para virem comprar os seus "(...) pinheirinhos de Natal" (oriundos de Coruche, do terreno de uma pessoa amiga, que os planta para esse efeito).
"(...) Até já têm morrido pessoas, que algumas me diziam que já tinham saudades de levar um destes pinheirinhos. Mas os filhos foram para longe e eles nunca mais cá puderam vir", refere Manuel Monteiro, quando lhe perguntamos se tem consciência da importância que este seu negócio sazonal teceu no imaginário de muitas pessoas da nossa freguesia.
Em relação ao futuro deste seu negócio, Manuel Fernandes Monteiro apenas nos diz, com um sorriso no rosto: - "Eu tenho uma memória formidável, enquanto assim estiver não é mau! Por isso vou continuar a venda até poder e depois, que venha para cá outro e que tenha melhor sorte!"
De Benfica, que conhece como a palma da sua mão, Manuel Monteiro diz-nos em jeito de confissão: - "Já foi mais bonito isto! Gostava de ver isto mais bonito outra vez! (...) porque destruíram muita coisa, está tudo podre. Benfica está velha!"
[clicar na imagem acima, para ver mais fotografias]
NOTA FINAL: - Esta entrevista é uma homenagem, que consideramos muito justa, a um homem que tem feito a sua vida na nossa freguesia, mas tem, também, proporcionado a muitos de nós as mais singelas recordações da época natalícia. Muito obrigada por isso mesmo, Sr. Manuel Monteiro!
Aproveitamos, ainda, para aqui deixar os nossos sinceros votos de um Feliz Natal e Boas Festas a todos os leitores e amigos do "Retalhos de Bem-Fica"!
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
"Dia dos Namorados" em Benfica
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."
Vinícius de Moraes - "Soneto de Fidelidade"

Arranjos gráficos: Alexandra Carvalho (2011)
Neste dia em que se celebra o Amor, gostaríamos de aqui deixar um pequeno excerto dessa entrevista... como forma de, no "Retalhos de Bem-Fica", também festejarmos, à nossa singela maneira, este dia!
A Dª. Lourdes (Lourdinhas para os amigos) e o Sr. João Perez, ambos de Benfica, comemoraram recentemente, numa linda festa que reuniu família e amigos, o bonito aniversário de 55 anos de casados.
Conheceram-se na nossa freguesia, num namoro que começou mesmo à moda antiga...
Excerto de Entrevista com Dª. Lourdes e Sr. João Perez
+ Sr. António Pereira ("António da Farmácia") para a rubrica "Gente de Benfica"
Entrevista de Alexandra Carvalho e Fausto Castelhano
Filmagens e Vídeo de JCDuarte
Todos os direitos reservados "Retalhos de Bem-Fica" (2011)
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Gente de Benfica - V
Aqui nasceu a Ulmeiro neste dia há 41 anos.
Muita água correu debaixo da ponte!
Era um dia de Outono, a cheirar a Inverno,
como o dia de hoje!
Daqui saúdo fraternalmente todas/todos amigas/amigos
que se cruzaram connosco nesta aventura!
Seja-me permitida uma palavra
para os que estiveram sempre connosco
e já não estão entre nós...
Entre tantos recordo aqui o Zeca Afonso
e o Professor Agostinho da Silva neste dia especial para nós
e reafirmo que vamos continuar com o ânimo de sempre
contra ventos e marés,
até porque é sabido que há mais marés que marinheiros."
José Antunes Ribeiro (10/12/10)
"Benfica acabou por ser um acidente feliz", conta o Zé Ribeiro. Chegaram a Benfica quando a Av. do Uruguai ainda só tinha apenas 1 ou 2 lojas, foram dos primeiros comerciante e habitantes da rua, "inaugurámos quase o bairro", como me diz.
A "Ulmeiro" acabaria por nascer de um equívoco que, as palavras do seu amigo Alçada Baptista tão bem ajudaram a explicar, ao dizer-lhe: “Zé Ribeiro, nós fazemos livrarias porque gostamos de livros, mas eu não conheço nenhum merceeiro que tenha feito uma mercearia por gostar de feijões!”
E foi dessa contradição permanente entre o comércio e aquilo para que verdadeiramente se nasce e de que se gosta, que acabaria por nascer a "Ulmeiro".
A "Ulmeiro" com as suas acções de poesia e música... O primeiro local em Lisboa onde Mário Viegas declamou poesia, o refúgio onde Zeca Afonso encontrava guarida... por onde também passaram Carlos Paredes, Rogério Paulo e Francisco Fanhais, entre tantos outros.
A "Ulmeiro" e a edição do seu primeiro livro - "Isto anda tudo ligado", livro de poemas de Eduardo Guerra Carneiro (cujo titulo passou a ser usado como expressão corrente).
A "Ulmeiro" que era a "continuação da política, mas por outros meios", tendo as investidas da PIDE, à época, muito contribuído para dar a conhecer melhor a editora e o seu importante papel.
Desses tempos, Zé Ribeiro relembra como, em certo dia, quando a PIDE foi à "Ulmeiro", quase fechou a Av. do Uruguai, numa espécie de operação quase de comandos. Porque, em determinada altura, as apreensões que eram feitas pela PIDE "eram destinadas a inviabilizar o projecto da Ulmeiro e a sua actividade, porque como se diz 'é preciso matar o bicho para acabar com a peçonha'".
A propósito do trabalho efectuado pela PIDE, Zé Ribeiro relembra um determinado agente que, a partir de certa altura, passou a avisá-los da data em que lá iria, "e aquilo que disse é que não concordava com aquele trabalho, não estava de acordo com aquele tipo de acção"; tendo, também, informado o livreiro-editor que muitas das denúncias contra a "Ulmeiro" partiam sobretudo de alguns dos seus vizinhos.
Zé Ribeiro recorda ainda o curioso caso da apreensão de um poster onde figurava um casal de namorados, reproduzindo um poema do livro "A Criança e a Vida" (de antologia de Maria Rosa Colaço), cujo título era "O amor é um pássaro azul no alto da madrugada". "Esse poster foi aprendido, mas no fim do dia o mesmo PIDE que o levou, voltou e pediu um para oferecer à sua namorada".
Anos mais tarde, quando digere alguma desilusão política, Zé Ribeiro volta-se para a Literatura, e "(...) com 40 anos fui fazer um curso de Letras. Eu próprio tinha algumas aspirações nessa matéria".
Para além destes assuntos de gente crescida, a "Ulmeiro" ficará sempre relembrada, por toda uma geração (à data, muito miúda), como a editora dos livros infantis inovadores para a época que, então, se vivia: "Era uma vez uma ilha onde as crianças construíram a escola nova", "Como se educam os adultos".
E do "Clube Infantil Ulmeiro", onde os pais podiam deixar os seus filhos, aos sábados de manhã, a ver sessões de cinema (com uma máquina super8, ali passaram toda a selecção do Charlot); onde, mais tarde, foi até criada uma equipa de futebol apelidada de "UNICEF".
Zé Ribeiro recorda esta como uma época interessante, que acredita ter tido alguma importância no bairro.
Salienta não ser um contemplador do Passado (apesar de adorar História), mas compreende que, apesar das mudanças de nome que os tempos (e a evolução do mercado) foram ditando, as pessoas continuem ainda "muito agarradas à “Ulmeiro”, porque estão ligadas também a esse nosso Passado".
Mas Zé Ribeiro não quer "ficar a cantar as glórias do Passado. Porque o Passado não tem só glórias, tem desencontros, tem encontros… tudo isso faz parte daquilo que nós vivemos."
E, por isso mesmo, gostava que acontecesse uma espécie de renascimento. Com um sorriso na voz, como uma criança que não perdeu o entusiasmo com tudo aquilo com que sonha, Zé Ribeiro explica-me que o que gostava que acontecesse no futuro era que "aquele espaço fosse novamente um espaço que pudesse sobreviver, obviamente, no plano económico (…) mas também que voltasse a ser um lugar de referência na zona, no bairro, que voltasse às actividades culturais, que pudesse criar um programa quase permanente de actividades e integrado. E com o apoio de pessoas do bairro, porque é isso que faz sentido. (...) Acho que tudo depende das pessoas. São as pessoas que são o centro das coisas. (…) São sempre as pessoas que determinam o êxito ou o fracasso das coisas. E é, portanto, com as pessoas que nós queremos fazer alguma coisa… com as pessoas do bairro, com Benfica".
Porque "(...) a Ulmeiro foi sempre um lugar de encontros. E a riqueza vem desses encontros!", como me conta o Zé Ribeiro, relembrando, também, o caso de um senhor que, aquando da homenagem promovida pela Junta de Freguesia de Benfica nos 25 anos da "Ulmeiro", lhe dizia: - “Eu todos os dias saio de casa para ir ver a montra. Mas nunca comprei lá um livro. Aquela livraria faz parte da minha vida!”.
E Zé Ribeiro compreende muito bem esse sentimento, tendo até uma explicação para o mesmo - "Aquilo que eu costumo dizer é assim: estes espaços ajudam o Estado a poupar em anti-depressivos. Porque também ali vai muita gente, aparecem muitas pessoas para desabafar, para falar, para sair de casa naquele momento, para terem alguém com quem falar. E sempre é melhor irem ali do que à farmácia em frente!"
E é nesses encontros, nessa troca diária de que é feita a "Ulmeiro", que Zé Ribeiro fala numa pessoa muito importante, na sua vida e na loja... "(...) sobretudo a Lúcia, que passa lá em mais tempo. E nesse aspecto a loja deve bem mais a ela do que a mim próprio, que sou mais volátil, gosto mais de pensar o geral, mas, depois, a Lúcia sustenta o particular".
E, como editora que mais ligações tem com o bairro de Benfica (que aí se instalou e permanece há mais tempo), Zé Ribeiro gostava de continuar o trabalho iniciado com a publicação do livro do Padre Álvaro Proença - “Benfica através dos Tempos”, actualizando toda essa informação sobre Benfica. "E participar em projectos que possam surgir relacionados com Benfica. E, portanto, estaremos sempre disponíveis para fazer esse trabalho."
Ouvir esta entrevista na íntegra, clicando no vídeo abaixo.
Vídeo e Fotografias de Alexandra Carvalho (2009/10)
Entrevista realizada a 26/02/10
[reproduzir o vídeo para ouvir a entrevista]
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Gente de Benfica - IV

[clicar no gravador para ouvir a entrevista de 23/07/09,
integrada no Projecto "Gente de Benfica"]
Ela, nascida em 1920, na freguesia de Santa Isabel, diz nunca ter gostado de Benfica, por se lembrar com muita saudade de Campo de Ourique e da Rua Maria Pia, onde viveu durante muito tempo.
Ele, nascido na Rua da Prata. Não chegou a conhecer a sua mãe, que morreu tinha ele apenas 22 meses. Este facto viria a marcar não só o percurso de vida do seu pai, como também o seu próprio percurso, fazendo com que nunca estabelecesse laços emocionais a propósito de gostar ou não do local em que habitava (por ter andado quase sempre feito andarilho de um lado para o outro).
Quis o destino que ela e ele se cruzassem na estação dos CTT dos Restauradores, onde trabalharam durante 40 anos.
Em 1949 uniram as suas vidas pelo matrimónio e foram viver para a Penha de França, de onde saíram em 1955, com uma filha de 5 anos, rumo à freguesia de Benfica.
Benfica, nessa altura, era fora de portas… Mas Benfica, nessa altura, já se estava a transformar…
Maria Luísa e Fernando foram morar para um prédio novo, acabado de construir, na Rua Cláudio Nunes.
Rua assaz movimentada, com trânsito em dois sentidos, ligando directamente à Estrada de Benfica. Pela Rua Cláudio Nunes passavam, a essa época, os autocarros que iam para a Amadora e havia sempre pessoas a venderem na rua, com carrinhos. Esta era a principal via de acesso ao cemitério, vinda da Estrada de Benfica.
Nas traseiras do seu prédio, existia ainda uma grande quinta [do Tojalinho], onde se ia comprar leite e buscar água de um poço, ali existiam também três moinhos de vento.
Na Rua Cláudio Nunes, em Junho, era hábito os moradores irem ver a marcha popular sair do "Fófó", quando este tinha a sua sede do lado direito de quem sobe a rua.
E aos domingos ía-se até à Mata de Benfica, onde havia os balouços e o escorrega, e havia até quem levasse comida e por ali almoçasse. "Nesse tempo aquilo era muito visitado", relembra Fernando.
Era na Mercearia do Sr. Octávio, junto à Igreja, que se abasteciam e lhes entregavam as compras em casa; tal como a padeira que, nessa época, ainda vinha entregar à porta.
No entanto, fruto dos seus horários de trabalho, a vida social de Maria Luísa e Fernando Carril fazia-se mais nos Restauradores, perto do emprego.
Só depois de reformados, com mais tempo disponível, se começaram a dar com as pessoas da freguesia. "Agora até parece que há mais conhecimento nosso com as pessoas (...) passámos a conviver mais porque temos mais tempo e porque há muito mais gente, isto é mais povoado.”, diz Fernando, lembrando que não passa agora um dia em que não parem inúmeras vezes ao descer a sua rua, conversando com este ou aquele vizinho.
O comércio desenvolveu-se bastante e já não é necessário, como antigamente, irem à Baixa à procura de algo. Em compensação, ambos relembram com uma certa mágoa que muitas das lojas que têm fechado na rua em que habitam, não voltam a abrir "(...) porque ninguém lhes pega".
"Entretanto isto foi-se tudo modificando, as quintas acabaram, os transportes mudaram com o aparecimento dos autocarros e isto modificou-se tudo. (...) Tudo se transformou, a meu ver, para pior! (...) Porque as pessoas são outras...", explica Maria Luísa. "... E a vida é outra também!", complementa logo em seguida Fernando.
Vídeo de Alexandra Carvalho (2010)
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Gente de Benfica - III
"Retalhos de Bem-Fica" (2009)
O seu avô materno era vigilante da Escola Normal de Lisboa (hoje Escola Superior de Educação de Lisboa), tendo à falta dum ordenado, a permissão de instalar nos terrenos anexos as habitações para a sua numerosa família e os seus gados. Manuel, seu avô, alcunhado de "Pastor" era muito respeitado em Benfica desses tempos; vivia da exploração leiteira e vendia leite e queijos de porta a porta, como era costume à época.
Jorge Resende foi filho de operários: o seu pai laborou na Fábrica Grandella (Empresa de Fiação e Tecidos de Benfica) e a sua mãe na Fábrica Simões, à porta da qual Jorge se lembra de a ir esperar. Da Fábrica Simões & Companhia Limitada Jorge Resende relembra, com uma réstia de saudade infantil embargada nas suas palavras, a importância de que se revestiam as festas de Natal promovidas pela mesma. Onde o "Patrão Gabriel" e o "Patrão Simões", como benesse da consoada, ofereciam, com toda a pompa e circunstância (nas quais se incluía o direito a uma visita ao alfaiate), roupas novas aos operários e às suas famílias.
Só muitos anos mais tarde, Jorge Resende teve consciência da exploração laboral praticada pela Fábrica Simões, onde, apesar disso, de uma forma dir-se-ia quase paternalista, os patrões "estimulavam a aprendizagem no refeitório da Fábrica, para os operários obterem o diploma da quarta classe (...) Havia equipas desportivas (...) e cerca de 1954, nos terrenos do refeitório, nasceu uma creche para os filhos dos operários (...)". Mas, para quem, em criança, apenas teve como brinquedo um cavalo de cartão, que pertenceu à Família Lobo Antunes (oferecido, assim, em segunda mão por uma das suas criadas), as festas de Natal promovidas pela Fábrica Simões, eram, de facto, uma benesse dos céus.
Por entre as lembranças dos importantes marcos do comércio local (como a mercearia "Vale do Rio", a "Adega dos Ossos", o "Paraíso de Benfica" e a Foto "Nice"), das idas a pé até à Feira da Luz em Carnide e à praia em Algés, das "casas muito bonitas" que os seus olhos fotografavam e de alguns dos personagens da Benfica desses tempos; o discurso de Jorge Resende é entre cortado pelos momentos de índole mais pessoal, como o da emigração dos seus tios (com quem viveu grande parte da sua infância, primeiro em Benfica e, mais tarde, na Venda Nova) para o Canadá, no final dos anos 50, ou o do seu insucesso escolar e ingresso no mundo do trabalho ainda adolescente com treze anos e meio.
Em 1958, Jorge Resende regressa a Benfica com a sua família, para habitar uma casa no novo Bairro de Santa Cruz, gerido pela Caixa de Previdência. É, precisamente, neste bairro de "casas económicas" que Jorge Resende mais sentiu a cisão social que existia na freguesia, ou seja, "(...) entre as duas partes do Bairro, ou seja, os moradores do Bairro da parte de trás da Mata estavam ligeiramente deslocados de Benfica, como se de um gueto se tratasse. E havia um pormenor interessante na arrumação social até dentro de cada rua. (...) dum lado construíram uma banda de casas (...) que ou por acaso ou fatalidade, eram habitadas geralmente por agregados mais modestos. Do outro lado da rua, construíram vivendas com bastantes divisões, geminadas, em que os moradores geralmente eram de profissões ou liberais ou quadros de empresas, funcionários do Estado, “gente bem”, e que dava a impressão que estavam ali para, com os seus exemplos de vida, também servirem para “educar” os pobres que lhes calharam em frente das suas portas."
Em criança, Jorge Resende desejava ser professor primário, pois via naquela profissão "(...) uma forma de mudar de lugar constantemente, qual caixeiro viajante ou saltimbanco que andava de terra em terra (...)"... Acabou por trabalhar, mais de 30 anos, como Controlador Planeador de Escalas de Tripulantes de Voo na TAP, onde os seus sonhos continuaram a voar.
A sua história de vida é o fiel retrato de uma época, vivida pelas classes mais baixas, do operariado, na freguesia de Benfica. É, sobretudo, a história de um homem cujas agruras de uma vida difícil lhe incutiram, desde muito cedo, um forte sentido crítico perante as diferenciações sociais existentes e contra elas, mais tarde, tentou activamente lutar.
Apesar das agruras provocadas por uma vida modesta, Jorge Resende recorda com carinho uma "vila" de Benfica agradável, "(..) uma lista enorme de gente simples, humilde, entrosados com outros de posições económico-sociais diferentes, mas que conviviam, como se Benfica fosse um pátio em que todos se conheciam." Uma Benfica que "(...) começou a desaparecer no início dos anos sessenta, com a construção desenfreada de novos prédios (...)", mas que ele próprio gostaria de ver transposta para "(...) uma exposição de fotografias que “falem” de tempos passados, e que muitas e muitas obras nasçam que possam marcar o futuro daquela freguesia."
Actualmente, reformado, Jorge Resende, juntamente com aquela que, há muitos anos atrás, lhe vendeu uma entrada vitalícia para a Festa do Avante, contempla agora a sua neta de 1 ano crescer na ilha da Madeira. Onde o gosto pela leitura o continua a comandar para que se dedique, ainda, a redigir as memórias da sua família para as gerações vindouras.
domingo, 1 de março de 2009
Gente de Benfica - II

Tinha o rosto duro e queimado pelo sol, deformado por feridas antigas encrostadas.
Do braço e perna do lado direito do seu corpo apenas possuía a metade superior, e andava para todo o lado numa cadeira de rodas.
Ao fim da tarde, costumava estar junto à igreja a pedir esmola e conversava com quem vinha da missa, com quem levava os netos à catequese e com os lojistas, interessando-se pelas suas vidas e gracejando com respeito quando a situação se proporcionava a tal.
A forma como o Sr. M falava, o cuidado que colocava nas palavras e os termos que utilizava, denotavam uma pessoa inteligente e com alguma instrução. Pelo que, alguns vizinhos começaram a oferecer-lhe livros e revistas, para que ele lesse e se distraísse um pouco no antigo colégio degradado em que dormia.
Inúmeras vezes, era, também, possível encontrá-lo perto do terreno abandonado de um prédio embargado, onde se sabia que todos os toxicodependentes daquela zona deambulavam.
Na rudeza do seu aspecto ressaltava o facto de andar sempre acompanhado por uma cadela, uma jovem rafeira, arraçada de podengo, de focinho meigo, olhos doces e tristes, que seguia a sua cadeira de rodas diligentemente para todo o lado.
Por vezes, a altas horas da noite, lá ia ele, pelo meio da Estrada de Benfica, na sua cadeira de rodas, transportando-a ao colo, abraçada a ele.
Os dois passavam as manhãs a pedir esmola, à porta do Café "Monalisa", na Estrada-a-Damaia, servindo de atracção para as caridosas senhoras de idade daquele bairro (as quais acabariam por auxiliá-lo para que a cadelinha Meg fosse esterilizada no veterinário local).
No dia 10/02/06, a Meg desapareceu... supostamente, como constava na zona, roubada por ciganos que vendiam no Mercado de Benfica.
Naquele bairro, gerou-se, então, uma onda de solidariedade como tal nunca fora visto. E diversas pessoas se disponibilizaram a procurar a cadelinha, durante semanas a fio.
No dia 04/03/06, a Meg foi resgatada (ou melhor, adquirida em troca de dinheiro) de um ferro-velho num bairro social perto da Alta de Lisboa, regressando para junto do seu dono.
A estória de vida do Sr. M era bem conhecida de alguns autóctones, que se interessaram por saber como ficara naquele estado físico.
Uma história, porém, tem sempre 2 lados!
E o melhor desses lados nem sempre é aquele como a história termina. Ambos podem ser ambivalentes, dúbios e pouco transparentes, induzindo-nos em erro sobre a escolha de qual das melhores probabilidades de uma história acabar.
Em Abril de 2006, o Sr. M foi internado no Hospital Amadora-Sintra com sintomas de hepatite.
Certa noite, em Junho de 2006, regressou a casa dos seus pais num estado muito crítico; vindo a falecer a 06/06/06, minado pelas inúmeras doenças que tinha e com um tumor no fígado como causa de morte.
O Sr. M tinha 38 anos…
A sua estória nunca foi bonita... fruto de tanto engano, para poder sobreviver no mundo em que viveu.
Todavia, prefiro continuar a recordá-lo apenas por aqueles momentos que, em determinada altura, nos pareceram belos e simples, como na fotografia tirada no dia em que a cadelinha Meg lhe foi devolvida.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Gente de Benfica - I
João António Lamas, 88 anos de idade... 54 dos quais vividos na freguesia de Benfica. Filho de um militar, aos 7 anos, mudou-se com a família do quartel da Pontinha para Benfica (acabara esta de deixar de ser 'fora de portas'), indo morar para o 1º andar Dto. da Vila Ventura, no nº 674 da Estrada de Benfica - casa que pertencia a uma sua tia-avó, Dª. Ana Macedo de Barros Lamas.
Vizinho, de um lado, da escritora Maria Lamas, que morava no 1º andar da casa onde outrora existiram os primeiros correios de Benfica (na esquina com o início da Calçada do Tojal, onde actualmente, funciona uma agência do Banco Santander); a qual tinha uma filha que aterrorizava as crianças da zona, com as impressionantes façanhas que fazia com o seu olho de vidro.
Do outro lado, bem mais perto, na Vila Ana, foi vizinho de alguém que, muitos anos mais tarde, viria a ser uma iminente figura... "(...) no 1º andar vivia o Spínola. O Spínola vivia aí! (...) Ele veio ainda fardado do Colégio Militar, ele, o irmão e o pai. O pai que era do Tribunal de Contas. E o Spínola vivia ali, janela com janela connosco." Desse final dos anos 20 em Benfica, recorda que "(...) era muito agradável a vida lá nessa altura, porque era tudo muito livre, muito à vontade, havia poucas pessoas, a maior parte era ainda campo, havia muitas quintas ao longo da estrada, uma quantidade de quintas (...) eram casas de Verão, as pessoas tinham as casas em Benfica onde iam passar o Verão. (...) Era uma terra também engraçada por isto (...) havia uma simplicidade muito grande… E um respeito muito grande também, que era engraçado."
Estudou no Colégio Instituto Lusitano, quando este ainda se encontrava localizado na Quinta do Tojalinho. E é com muita ternura que se lembra dos "caga-lumes" e das suas caixinhas de gás, que, mais tarde, lhe serviriam como estojo para a escola. As amizades de criança foram cimentadas com os inúmeros filhos do Brigadeiro Maya. E a adolescência passada entre os bailaricos (casamenteiros) às 3ª feiras na quinta dos Lobo Antunes (avô do escritor António Lobo Antunes, o qual, à época, cometeu a proeza de ganhar duas vezes a lotaria), as festas de Carnaval e as "desfolhadas" dos Santos Populares.
Dessa época, recorda-se ainda muito bem de ter assistido bem de perto à revolução de 26 de Agosto de 1931; do Dr. Figueiredo, médico de renome em Benfica (bisavô da geração actual dos Lobo Antunes), que fazia com que "(...) muita gente ia de Lisboa a Benfica ao Dr. Figueiredo, que era, de facto, considerado um belíssimo médico."; e dos Serpas hoquistas, mundialmente conhecidos pelas suas façanhas neste desporto, 3 irmãos que moraram nesta casa...
De 1946 a 1956, passou 10 anos fora de Benfica, em trabalho. Tendo à mesma freguesia regressado e instalado-se na Rua Cláudio Nunes. Desse (outro 2º) tempo da sua vida em Benfica, relembra as procissões da imagem de Nossa Senhora do Amparo, da Igreja de Benfica para a de São Domingos.
E, já nos anos 60, quando, por sua iniciativa, foi criado o primeiro "tele-clube", por detrás do Chafariz... "Começou a haver a televisão e, então, muitas das pessoas não tinham possibilidades para ter televisão em casa, outras não queriam… eu não queria! (...) E então, criámos um ‘tele-clube’ de Benfica, com uma série de sócios, que iam lá ver então à noite televisão, numa sala com televisão e tal. Enfim, era uma coisa, era um acontecimento!"
Aos 88 anos de idade, com uma memória extraordinária, João António Lamas entretém-se, agora, a escrever aquilo a que chama "A minha memória"... "Não são as memórias, porque eu não gosto de memórias! (...) quando se dizem memórias são… É uma prosápia da pessoa que vai escrever… ‘As minhas memórias’ e por aí fora, ou contar aquilo que fiz, os êxitos que tive (...) Não é as memórias de mim, é a memória que eu tenho, é uma coisa completamente diferente! (...) Eu tenho, de facto, muito boa memória e, por isso mesmo, decidi escrever a minha memória, fixar no papel e deixar para os meus filhos as coisas que me envolveram durante a vida toda e que eu pude reter na minha memória."
João António Lamas termina a nossa entrevista de cerca de 2 horas, falando com tristeza sobre o plano de urbanização que estava inicialmente previsto para a freguesia de Benfica: "Foi, mais ou menos, quando se começou a construir o Bairro de Santa Cruz, nessa altura então é que se deu um grande desenvolvimento de construção e que se… Mas está claro, não se fez nada do que estava projectado! O que estava projectado era uma coisa muito boa, era um plano de urbanização de Benfica que tinha sido muito bem estudado (...) Aliás, quem coordenou esse plano de urbanização de Benfica, ele era um primo da minha mulher, que depois foi… Administrador aqui da Gulbenkian, que era um Engº. Luís Lobato… Luís Guimarães Lobato… Esse foi vice-presidente da Câmara de Lisboa e foi quem orientou o projecto de urbanização de Benfica. Era um projecto muito bom porque estava muito apoiado naqueles projectos de depois da Guerra, feitos pelos ingleses… Ao redor de Londres foi tudo arrasado e eles fizeram coisas muito curiosas. E ele aproveitou isso e aplicou ali os mesmos princípios que seguiram lá em Londres. Mas depois foi para a Câmara de Lisboa um senhor, que era o Brigadeiro… Como é que ele se chamava?... Não me lembro agora o nome… Era a quem chamavam o ‘Comandante da Câmara’ e não o presidente, era o ‘Comandante’… Que era, de facto, um individuo que era ‘eu quero, posso e mando’, deu cabo daquele plano de urbanização, mudou completamente tudo, ficou completamente diferente daquilo que estava projectado, porque fizeram tudo quanto queriam e mais alguma coisa… Enfim, sem interesse nenhum e Benfica ficou uma coisa que não é nada, é um bairro… Infelizmente, podia se ter aproveitado como havia ali muito prédio antigo, muito terreno vago, poderia se ter feito um plano de facto bom… e fez-se! E depois não se seguiu nada e fez-se uma coisa, e continuou-se aquilo de qualquer maneira, só para fazer dinheiro e mais nada."




