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sábado, 24 de dezembro de 2011

O Vendedor de Natal





(por Alexandra Carvalho e Fausto Castelhano, com Mário Pires)






"Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente."

"Poema de Natal", de Vinicius de Moraes




Manuel Fernandes Monteiro, 76 anos.
Nascido a 15 de Outubro de 1935, no concelho de Alijó, distrito de Vila Real.

Ficou sem mãe aos 7 anos e foi Fernando Pinto de Sousa (seu vizinho e pai do antigo Primeiro-Ministro José Sócrates) que tentou que ele fosse acolhido na Casa do Gaiato de Vila Real, dizendo-lhe, como recorda, "(...) andas aqui desprezível, ficaste abandonado e tens que tomar outro rumo para a tua vida."
Infelizmente, esses outros tempos não eram nada fáceis e foi o mesmo vizinho quem lhe disse um dia: - "(...) Não há lei para os meninos da aldeia. Só há lei para os meninos da cidade."
Frase que marcou bastante Manuel Monteiro e sobre a qual se indaga ainda: - "(...) Mas não éramos todos portugueses? E não éramos todos iguais?!".

Face a este triste começo de vida, Manuel Monteiro andou a servir em casa alheia "(...) e lá me criei!", como relembra.

Aos 17 anos veio de comboio para Lisboa, com familiares. O bilhete custou-lhe 150 escudos, preço que nunca mais esqueceu.

Inicialmente, ficou a morar, durante alguns meses, em Campolide, na Vila Ferro.
Mais tarde, muda-se para a Quinta da Granja de Baixo, de Custódio da Silva e Miguel Lourenço; onde viria a conhecer a sua futura esposa, Maria, filha da rendeira daquela quinta, onde até vendiam bilhetes para os jogos do Benfica.
Em 1960 casam na Igreja de Benfica e a boda é realizada na Quinta da Granja de Baixo.

Neste re-começo de vida, Manuel Fernandes Monteiro decide ir à chamada "Horta da Luz", pertença do Conde de Carnide, pedir "(...) um bocado de terreno, para plantar umas batatinhas, umas couvinhas e umas cebolas"; pedido com o qual foi agraciado pela nobre figura.

Manuel Monteiro viveu 52 anos nos terrenos onde, recentemente, construíram o Centro Comercial Colombo. "(...) depois, o Belmiro de Azevedo e companhia deram-me alguma coisinha para sair dali e fiz uma casa na Pontinha, onde vivo."

Manuel Fernandes Monteiro, "(...) homem pobre, mas de muito trabalho", como ele próprio se descreve, é, também, um homem de muita luta e afinco.
Durante um ano, trabalhou na empresa de viação "Eduardo Jorge", na Venda Nova, na lavagem das camionetas.
Mais tarde, esteve 8 anos na Metalúrgica de Benfica. E, em seguida, labutou nessa grande obra da construção do colector para o ribeiro de Benfica ser encanado.

Depois, foi vendedor ambulante na Rua Cláudio Nunes e na Rua Morais Sarmento; tendo, posteriormente, sido integrado no espaço do actual Mercado de Benfica, onde vendeu fruta durante 8 anos.





Excerto de Entrevista com o Sr. Manuel Fernandes Monteiro
para a rubrica "Gente de Benfica"

Entrevista: Fausto Castelhano
Filmagens: Alexandra Carvalho
Montagem Vídeo: Mário Pires

Texto: Alexandra Carvalho

Todos os direitos reservados "Retalhos de Bem-Fica" (2011)






Eram os seus filhos ainda pequeninos (com 3 anos apenas), já Manuel Fernandes Monteiro costumava plantar alguns pinheiros e outros produtos hortícolas nos terrenos por detrás do Chafariz.
"(...) e um senhor muito antigo da Amadora desistiu ali [junto ao Chafariz] da venda de pinheiros (...) E um outro senhor disse-me para pôr ali os pinheirinhos, que podia ser que tivesse sorte."

E Manuel Fernandes Monteiro não só teve sorte na sua venda sazonal - que perdura há 45 anos, junto ao Chafariz de Benfica -, como se transformou, também, numa das mais bonitas e singelas memórias de Natal, de crianças e graúdos, na nossa freguesia.

Manuel Monteiro é o símbolo de um Natal antigo, em que os pinheiros eram naturais e não comprados nas "(...) lojas dos chineses, dentro de caixas que até dão para arrumar e tudo!".

Lembra-se de, antigamente, quando ali descarregava os seus pinheiros, ainda correr água no Chafariz, onde cavalos e burros iam beber água e algumas pessoas "(...) menos respeitosas" aproveitarem para ir tomar banho.
Nesses tempos, chegou a vender entre 300 a 400 pinheiros. Mas agora, que "(...) já há pouca gente a usar, só mesmo os que gostam!", "(...) se vender entre 80 a 100, já é muito bom!".

Apesar disso, todos os anos, continuam a vir clientes já antigos e outros mais recentes, não só de Benfica, como de Loures, Almada e Rio de Mouro, para virem comprar os seus "(...) pinheirinhos de Natal" (oriundos de Coruche, do terreno de uma pessoa amiga, que os planta para esse efeito).

"(...) Até já têm morrido pessoas, que algumas me diziam que já tinham saudades de levar um destes pinheirinhos. Mas os filhos foram para longe e eles nunca mais cá puderam vir", refere Manuel Monteiro, quando lhe perguntamos se tem consciência da importância que este seu negócio sazonal teceu no imaginário de muitas pessoas da nossa freguesia.

Em relação ao futuro deste seu negócio, Manuel Fernandes Monteiro apenas nos diz, com um sorriso no rosto: - "Eu tenho uma memória formidável, enquanto assim estiver não é mau! Por isso vou continuar a venda até poder e depois, que venha para cá outro e que tenha melhor sorte!"

De Benfica, que conhece como a palma da sua mão, Manuel Monteiro diz-nos em jeito de confissão: - "Já foi mais bonito isto! Gostava de ver isto mais bonito outra vez! (...) porque destruíram muita coisa, está tudo podre. Benfica está velha!"




Fotografia de Alexandra Carvalho (2011)

[clicar na imagem acima, para ver mais fotografias]







NOTA FINAL: - Esta entrevista é uma homenagem, que consideramos muito justa, a um homem que tem feito a sua vida na nossa freguesia, mas tem, também, proporcionado a muitos de nós as mais singelas recordações da época natalícia. Muito obrigada por isso mesmo, Sr. Manuel Monteiro!

Aproveitamos, ainda, para aqui deixar os nossos sinceros votos de um Feliz Natal e Boas Festas a todos os leitores e amigos do "Retalhos de Bem-Fica"!










segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"Dia dos Namorados" em Benfica





(por Alexandra Carvalho, Fausto Castelhano e JCDuarte)



Gente de Benfica - VI



"De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento


E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure."


Vinícius de Moraes - "Soneto de Fidelidade"






Fotografia gentilmente cedida ao "Retalhos de Bem-Fica" por Dª. Lourdes e Sr. João Perez

Arranjos gráficos: Alexandra Carvalho (2011)




No final da semana passada, (pela primeira vez) em equipa, tivemos uma excelente entrevista para a rubrica "Gente de Benfica", com 3 pessoas fantásticas, que muito carinhosamente nos receberam em sua casa e connosco conversaram durante mais de 4 (deliciosas) horas.

Neste dia em que se celebra o Amor, gostaríamos de aqui deixar um pequeno excerto dessa entrevista... como forma de, no "Retalhos de Bem-Fica", também festejarmos, à nossa singela maneira, este dia!

A Dª. Lourdes (Lourdinhas para os amigos) e o Sr. João Perez, ambos de Benfica, comemoraram recentemente, numa linda festa que reuniu família e amigos, o bonito aniversário de 55 anos de casados.
Conheceram-se na nossa freguesia, num namoro que começou mesmo à moda antiga...






Excerto de Entrevista com Dª. Lourdes e Sr. João Perez
+ Sr. António Pereira ("António da Farmácia") para a rubrica "Gente de Benfica"

Entrevista de Alexandra Carvalho e Fausto Castelhano
Filmagens e Vídeo de JCDuarte

Todos os direitos reservados "Retalhos de Bem-Fica" (2011)










sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Gente de Benfica - V





Em homenagem aos meus Amigos Lúcia & Zé Ribeiro,
no 41º aniversário da "Ulmeiro"... (***)




"Este espaço está na Av. do Uruguai desde 10/12/1969.
Aqui nasceu a Ulmeiro neste dia há 41 anos.
Muita água correu debaixo da ponte!
Era um dia de Outono, a cheirar a Inverno,
como o dia de hoje!

Daqui saúdo fraternalmente todas/todos amigas/amigos
que se cruzaram connosco nesta aventura!

Seja-me permitida uma palavra
para os que estiveram sempre connosco
e já não estão entre nós...
Entre tantos recordo aqui o Zeca Afonso
e o Professor Agostinho da Silva neste dia especial para nós
e reafirmo que vamos continuar com o ânimo de sempre
contra ventos e marés,
até porque é sabido que há mais marés que marinheiros."


José Antunes Ribeiro (10/12/10)




Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)



José Antunes Ribeiro, 68 anos, livreiro-editor... Há 41 anos em Benfica.

Numa longa conversa, em viagem a caminho de Marvão, é-me contada, na primeira pessoa, a história de um homem, a qual se cruza com a própria história de um bairro e de uma pequena loja de comércio tradicional (que permanece nos anais da memória devido à luta pela liberdade)...

"Benfica acabou por ser um acidente feliz", conta o Zé Ribeiro. Chegaram a Benfica quando a Av. do Uruguai ainda só tinha apenas 1 ou 2 lojas, foram dos primeiros comerciante e habitantes da rua, "inaugurámos quase o bairro", como me diz.
A "Ulmeiro" acabaria por nascer de um equívoco que, as palavras do seu amigo Alçada Baptista tão bem ajudaram a explicar, ao dizer-lhe: “Zé Ribeiro, nós fazemos livrarias porque gostamos de livros, mas eu não conheço nenhum merceeiro que tenha feito uma mercearia por gostar de feijões!”
E foi dessa contradição permanente entre o comércio e aquilo para que verdadeiramente se nasce e de que se gosta, que acabaria por nascer a "Ulmeiro".

A "Ulmeiro" com as suas acções de poesia e música... O primeiro local em Lisboa onde Mário Viegas declamou poesia, o refúgio onde Zeca Afonso encontrava guarida... por onde também passaram Carlos Paredes, Rogério Paulo e Francisco Fanhais, entre tantos outros.

A "Ulmeiro" e a edição do seu primeiro livro - "Isto anda tudo ligado", livro de poemas de Eduardo Guerra Carneiro (cujo titulo passou a ser usado como expressão corrente).

A "Ulmeiro" que era a "continuação da política, mas por outros meios", tendo as investidas da PIDE, à época, muito contribuído para dar a conhecer melhor a editora e o seu importante papel.
Desses tempos, Zé Ribeiro relembra como, em certo dia, quando a PIDE foi à "Ulmeiro", quase fechou a Av. do Uruguai, numa espécie de operação quase de comandos. Porque, em determinada altura, as apreensões que eram feitas pela PIDE "eram destinadas a inviabilizar o projecto da Ulmeiro e a sua actividade, porque como se diz 'é preciso matar o bicho para acabar com a peçonha'".

A propósito do trabalho efectuado pela PIDE, Zé Ribeiro relembra um determinado agente que, a partir de certa altura, passou a avisá-los da data em que lá iria, "e aquilo que disse é que não concordava com aquele trabalho, não estava de acordo com aquele tipo de acção"; tendo, também, informado o livreiro-editor que muitas das denúncias contra a "Ulmeiro" partiam sobretudo de alguns dos seus vizinhos.
Zé Ribeiro recorda ainda o curioso caso da apreensão de um poster onde figurava um casal de namorados, reproduzindo um poema do livro "A Criança e a Vida" (de antologia de Maria Rosa Colaço), cujo título era "O amor é um pássaro azul no alto da madrugada". "Esse poster foi aprendido, mas no fim do dia o mesmo PIDE que o levou, voltou e pediu um para oferecer à sua namorada".

Anos mais tarde, quando digere alguma desilusão política, Zé Ribeiro volta-se para a Literatura, e "(...) com 40 anos fui fazer um curso de Letras. Eu próprio tinha algumas aspirações nessa matéria".

Para além destes assuntos de gente crescida, a "Ulmeiro" ficará sempre relembrada, por toda uma geração (à data, muito miúda), como a editora dos livros infantis inovadores para a época que, então, se vivia: "Era uma vez uma ilha onde as crianças construíram a escola nova", "Como se educam os adultos".
E do "Clube Infantil Ulmeiro", onde os pais podiam deixar os seus filhos, aos sábados de manhã, a ver sessões de cinema (com uma máquina super8, ali passaram toda a selecção do Charlot); onde, mais tarde, foi até criada uma equipa de futebol apelidada de "UNICEF".

Zé Ribeiro recorda esta como uma época interessante, que acredita ter tido alguma importância no bairro.
Salienta não ser um contemplador do Passado (apesar de adorar História), mas compreende que, apesar das mudanças de nome que os tempos (e a evolução do mercado) foram ditando, as pessoas continuem ainda "muito agarradas à “Ulmeiro”, porque estão ligadas também a esse nosso Passado".

Mas Zé Ribeiro não quer "ficar a cantar as glórias do Passado. Porque o Passado não tem só glórias, tem desencontros, tem encontros… tudo isso faz parte daquilo que nós vivemos."
E, por isso mesmo, gostava que acontecesse uma espécie de renascimento. Com um sorriso na voz, como uma criança que não perdeu o entusiasmo com tudo aquilo com que sonha, Zé Ribeiro explica-me que o que gostava que acontecesse no futuro era que "aquele espaço fosse novamente um espaço que pudesse sobreviver, obviamente, no plano económico (…) mas também que voltasse a ser um lugar de referência na zona, no bairro, que voltasse às actividades culturais, que pudesse criar um programa quase permanente de actividades e integrado. E com o apoio de pessoas do bairro, porque é isso que faz sentido. (...) Acho que tudo depende das pessoas. São as pessoas que são o centro das coisas. (…) São sempre as pessoas que determinam o êxito ou o fracasso das coisas. E é, portanto, com as pessoas que nós queremos fazer alguma coisa… com as pessoas do bairro, com Benfica".

Porque "(...) a Ulmeiro foi sempre um lugar de encontros. E a riqueza vem desses encontros!", como me conta o Zé Ribeiro, relembrando, também, o caso de um senhor que, aquando da homenagem promovida pela Junta de Freguesia de Benfica nos 25 anos da "Ulmeiro", lhe dizia: - “Eu todos os dias saio de casa para ir ver a montra. Mas nunca comprei lá um livro. Aquela livraria faz parte da minha vida!”.
E Zé Ribeiro compreende muito bem esse sentimento, tendo até uma explicação para o mesmo - "Aquilo que eu costumo dizer é assim: estes espaços ajudam o Estado a poupar em anti-depressivos. Porque também ali vai muita gente, aparecem muitas pessoas para desabafar, para falar, para sair de casa naquele momento, para terem alguém com quem falar. E sempre é melhor irem ali do que à farmácia em frente!"

E é nesses encontros, nessa troca diária de que é feita a "Ulmeiro", que Zé Ribeiro fala numa pessoa muito importante, na sua vida e na loja... "(...) sobretudo a Lúcia, que passa lá em mais tempo. E nesse aspecto a loja deve bem mais a ela do que a mim próprio, que sou mais volátil, gosto mais de pensar o geral, mas, depois, a Lúcia sustenta o particular".

E, como editora que mais ligações tem com o bairro de Benfica (que aí se instalou e permanece há mais tempo), Zé Ribeiro gostava de continuar o trabalho iniciado com a publicação do livro do Padre Álvaro Proença - “Benfica através dos Tempos”, actualizando toda essa informação sobre Benfica. "E participar em projectos que possam surgir relacionados com Benfica. E, portanto, estaremos sempre disponíveis para fazer esse trabalho."



Entrevista realizada no âmbito do Projecto "Gente de Benfica"
(todos os direitos de utilização reservados em nome do entrevistado - José Antunes Ribeiro - e da antropóloga responsável pelo projecto - Alexandra Carvalho).

Ouvir esta entrevista na íntegra, clicando no vídeo abaixo.





Vídeo e Fotografias de Alexandra Carvalho (2009/10)
Entrevista realizada a 26/02/10

[reproduzir o vídeo para ouvir a entrevista]






(***) Fazendo votos para que, depois da nova vida (e ânimo) que vos fizeram ganhar em 2009, estes 41 anos que hoje festejam sejam o (bom) augúrio para que, em 2011, a Fénix renasça! :)






segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Gente de Benfica - IV




Entrevista realizada no âmbito do Projecto "Gente de Benfica"
(todos os direitos de utilização reservados em nome dos entrevistados - Maria Luísa e Fernando Carril - e da antropóloga responsável pelo projecto - Alexandra Carvalho).




Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)





[clicar no gravador para ouvir a entrevista de 23/07/09,
integrada no Projecto "Gente de Benfica"]






Maria Luísa (90 anos) e Fernando Carril (84 anos)… 55 anos de vida em Benfica.

Ela, nascida em 1920, na freguesia de Santa Isabel, diz nunca ter gostado de Benfica, por se lembrar com muita saudade de Campo de Ourique e da Rua Maria Pia, onde viveu durante muito tempo.

Ele, nascido na Rua da Prata. Não chegou a conhecer a sua mãe, que morreu tinha ele apenas 22 meses. Este facto viria a marcar não só o percurso de vida do seu pai, como também o seu próprio percurso, fazendo com que nunca estabelecesse laços emocionais a propósito de gostar ou não do local em que habitava (por ter andado quase sempre feito andarilho de um lado para o outro).

Quis o destino que ela e ele se cruzassem na estação dos CTT dos Restauradores, onde trabalharam durante 40 anos.
Em 1949 uniram as suas vidas pelo matrimónio e foram viver para a Penha de França, de onde saíram em 1955, com uma filha de 5 anos, rumo à freguesia de Benfica.

Benfica, nessa altura, era fora de portas… Mas Benfica, nessa altura, já se estava a transformar…

Maria Luísa e Fernando foram morar para um prédio novo, acabado de construir, na Rua Cláudio Nunes.
Rua assaz movimentada, com trânsito em dois sentidos, ligando directamente à Estrada de Benfica. Pela Rua Cláudio Nunes passavam, a essa época, os autocarros que iam para a Amadora e havia sempre pessoas a venderem na rua, com carrinhos. Esta era a principal via de acesso ao cemitério, vinda da Estrada de Benfica.

Nas traseiras do seu prédio, existia ainda uma grande quinta [do Tojalinho], onde se ia comprar leite e buscar água de um poço, ali existiam também três moinhos de vento.

Na Rua Cláudio Nunes, em Junho, era hábito os moradores irem ver a marcha popular sair do "Fófó", quando este tinha a sua sede do lado direito de quem sobe a rua.
E aos domingos ía-se até à Mata de Benfica, onde havia os balouços e o escorrega, e havia até quem levasse comida e por ali almoçasse. "Nesse tempo aquilo era muito visitado", relembra Fernando.

Era na Mercearia do Sr. Octávio, junto à Igreja, que se abasteciam e lhes entregavam as compras em casa; tal como a padeira que, nessa época, ainda vinha entregar à porta.
No entanto, fruto dos seus horários de trabalho, a vida social de Maria Luísa e Fernando Carril fazia-se mais nos Restauradores, perto do emprego.
Só depois de reformados, com mais tempo disponível, se começaram a dar com as pessoas da freguesia. "Agora até parece que há mais conhecimento nosso com as pessoas (...) passámos a conviver mais porque temos mais tempo e porque há muito mais gente, isto é mais povoado.”, diz Fernando, lembrando que não passa agora um dia em que não parem inúmeras vezes ao descer a sua rua, conversando com este ou aquele vizinho.

O comércio desenvolveu-se bastante e já não é necessário, como antigamente, irem à Baixa à procura de algo. Em compensação, ambos relembram com uma certa mágoa que muitas das lojas que têm fechado na rua em que habitam, não voltam a abrir "(...) porque ninguém lhes pega".

"Entretanto isto foi-se tudo modificando, as quintas acabaram, os transportes mudaram com o aparecimento dos autocarros e isto modificou-se tudo. (...) Tudo se transformou, a meu ver, para pior! (...) Porque as pessoas são outras...", explica Maria Luísa. "... E a vida é outra também!", complementa logo em seguida Fernando.





Vídeo de Alexandra Carvalho (2010)









sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A Tia Carolina



This is where wonder was born...





A Tia Carolina vivia na Av. Duque de Ávila e, noutros tempos, costumava levar a sua sobrinha a passear na Mata de Benfica.

Tudo isto se passou há muito, muito tempo atrás...

Hoje em dia, a Isabel vive nos EUA, e, como forma de homenagear a sua tia, publicou um lindissímo texto em inglês, onde as palavras correm de forma doce e tranquila... a forma como as boas memórias sempre afloram às nossas cabeças e corações.




terça-feira, 17 de novembro de 2009

"Cemitério de Pianos"




Numa Lisboa sem tempo, entre Benfica e o centro, nascem, vivem, sonham, amam, casam, trabalham e morrem as personagens deste livro.
No ventre de uma oficina de carpintaria aninha-se o cemitério de pianos, um espaço que alberga pianos "mortos" cujas peças vão dar vida a novos pianos. Instrumentos cujo mecanismo, à semelhança dos seres que os rodeiam, não está morto, encontrando-se antes suspenso entre vidas.

Cemitério de pianos é o quarto romance de José Luís Peixoto lançado em Portugal em Outubro de 2007, baseada na história real do atleta Francisco Lázaro.

A obra retrata uma familia de Benfica e aborda a morte não apenas como um fim, mas, sobretudo, como continuidade através da herança deixada em vida. A morte como destino irremediável da vida e o surgimento de uma nova vida após a morte... num ciclo que se repete ininterruptamente.




Imagem disponível in Quetzal Editores




A Margarida enviou-nos hoje um e-mail, informando que tinha utilizado uma das nossas fotografias, num artigo que escrevera... E, assim, descobrimos um excelente blog sobre livros.






segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Gente de Benfica - III



Todos os direitos reservados © Alexandra Carvalho e Jorge Resende,
"Retalhos de Bem-Fica" (2009)


Fotografia da autoria de Luís Resende (2009)


Jorge Resende, 62 anos, nascido na véspera de Natal, no 1º andar do Nº 13 do Largo Ernesto da Silva, passou grande parte da sua infância e juventude na freguesia de Benfica.

O seu avô materno era vigilante da Escola Normal de Lisboa (hoje Escola Superior de Educação de Lisboa), tendo à falta dum ordenado, a permissão de instalar nos terrenos anexos as habitações para a sua numerosa família e os seus gados. Manuel, seu avô, alcunhado de "Pastor" era muito respeitado em Benfica desses tempos; vivia da exploração leiteira e vendia leite e queijos de porta a porta, como era costume à época.

Jorge Resende foi filho de operários: o seu pai laborou na Fábrica Grandella (Empresa de Fiação e Tecidos de Benfica) e a sua mãe na Fábrica Simões, à porta da qual Jorge se lembra de a ir esperar. Da Fábrica Simões & Companhia Limitada Jorge Resende relembra, com uma réstia de saudade infantil embargada nas suas palavras, a importância de que se revestiam as festas de Natal promovidas pela mesma. Onde o "Patrão Gabriel" e o "Patrão Simões", como benesse da consoada, ofereciam, com toda a pompa e circunstância (nas quais se incluía o direito a uma visita ao alfaiate), roupas novas aos operários e às suas famílias.

Só muitos anos mais tarde, Jorge Resende teve consciência da exploração laboral praticada pela Fábrica Simões, onde, apesar disso, de uma forma dir-se-ia quase paternalista, os patrões "estimulavam a aprendizagem no refeitório da Fábrica, para os operários obterem o diploma da quarta classe (...) Havia equipas desportivas (...) e cerca de 1954, nos terrenos do refeitório, nasceu uma creche para os filhos dos operários (...)". Mas, para quem, em criança, apenas teve como brinquedo um cavalo de cartão, que pertenceu à Família Lobo Antunes (oferecido, assim, em segunda mão por uma das suas criadas), as festas de Natal promovidas pela Fábrica Simões, eram, de facto, uma benesse dos céus.

Por entre as lembranças dos importantes marcos do comércio local (como a mercearia "Vale do Rio", a "Adega dos Ossos", o "Paraíso de Benfica" e a Foto "Nice"), das idas a pé até à Feira da Luz em Carnide e à praia em Algés, das "casas muito bonitas" que os seus olhos fotografavam e de alguns dos personagens da Benfica desses tempos; o discurso de Jorge Resende é entre cortado pelos momentos de índole mais pessoal, como o da emigração dos seus tios (com quem viveu grande parte da sua infância, primeiro em Benfica e, mais tarde, na Venda Nova) para o Canadá, no final dos anos 50, ou o do seu insucesso escolar e ingresso no mundo do trabalho ainda adolescente com treze anos e meio.

Em 1958, Jorge Resende regressa a Benfica com a sua família, para habitar uma casa no novo Bairro de Santa Cruz, gerido pela Caixa de Previdência. É, precisamente, neste bairro de "casas económicas" que Jorge Resende mais sentiu a cisão social que existia na freguesia, ou seja, "(...) entre as duas partes do Bairro, ou seja, os moradores do Bairro da parte de trás da Mata estavam ligeiramente deslocados de Benfica, como se de um gueto se tratasse. E havia um pormenor interessante na arrumação social até dentro de cada rua. (...) dum lado construíram uma banda de casas (...) que ou por acaso ou fatalidade, eram habitadas geralmente por agregados mais modestos. Do outro lado da rua, construíram vivendas com bastantes divisões, geminadas, em que os moradores geralmente eram de profissões ou liberais ou quadros de empresas, funcionários do Estado, “gente bem”, e que dava a impressão que estavam ali para, com os seus exemplos de vida, também servirem para “educar” os pobres que lhes calharam em frente das suas portas."

Em criança, Jorge Resende desejava ser professor primário, pois via naquela profissão "(...) uma forma de mudar de lugar constantemente, qual caixeiro viajante ou saltimbanco que andava de terra em terra (...)"... Acabou por trabalhar, mais de 30 anos, como Controlador Planeador de Escalas de Tripulantes de Voo na TAP, onde os seus sonhos continuaram a voar.

A sua história de vida é o fiel retrato de uma época, vivida pelas classes mais baixas, do operariado, na freguesia de Benfica. É, sobretudo, a história de um homem cujas agruras de uma vida difícil lhe incutiram, desde muito cedo, um forte sentido crítico perante as diferenciações sociais existentes e contra elas, mais tarde, tentou activamente lutar.

Apesar das agruras provocadas por uma vida modesta, Jorge Resende recorda com carinho uma "vila" de Benfica agradável, "(..) uma lista enorme de gente simples, humilde, entrosados com outros de posições económico-sociais diferentes, mas que conviviam, como se Benfica fosse um pátio em que todos se conheciam." Uma Benfica que "(...) começou a desaparecer no início dos anos sessenta, com a construção desenfreada de novos prédios (...)", mas que ele próprio gostaria de ver transposta para "(...) uma exposição de fotografias que “falem” de tempos passados, e que muitas e muitas obras nasçam que possam marcar o futuro daquela freguesia."

Actualmente, reformado, Jorge Resende, juntamente com aquela que, há muitos anos atrás, lhe vendeu uma entrada vitalícia para a Festa do Avante, contempla agora a sua neta de 1 ano crescer na ilha da Madeira. Onde o gosto pela leitura o continua a comandar para que se dedique, ainda, a redigir as memórias da sua família para as gerações vindouras.


Pode ler esta história de vida na íntegra aqui (a qual faz parte de um projecto mais abrangente que desenvolvemos numa rubrica intitulada "Gente de Benfica").



quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"Foram muitos anos de vivência de Benfica. Tanta memória..."




Como dizia, há alguns meses atrás, um dos aspectos mais importantes no mundo dos blogs é, na verdade, o facto destes constituírem verdadeiros espaços de partilha... Espaços onde, em tempo quase real, podemos aprender bastante uns com os outros.

A esse nível, tem sido muito interessante a troca (e, sobretudo, a aprendizagem) permanente que tenho mantido com alguns dos nossos leitores, assim como as dúvidas mais quotidianas que me têm sido colocadas por e-mail por algumas pessoas que chegam a este blog quando partem em busca de alguma outra informação mais específica sobre a freguesia de Benfica (seja porque aqui estão a pensar comprar casa, seja porque se encontram a realizar um trabalho universitário ou outro).

Ontem recebi um e-mail que me tocou profundamente.
Um e-mail que fala de memórias de outros tempos, de uma Benfica que não cheguei a conhecer, mas com o qual penso que todos aqueles que viveram a sua infância nesta freguesia encontrarão muitos pontos em comum.

Com a devida autorização do autor deste e-mail (o Sr. Jorge Resende), e uma palavra amiga de sincero agradecimento pela sua partilha, aqui publico hoje o seu texto.
Segundo as suas próprias palavras, foi "escrito de jacto"; em nosso entender, foi redigido com a emoção que as memórias daquilo que vivemos sempre nos trazem, constituindo, por isso mesmo, um importante testemunho das muitas histórias de vida que por Benfica têm passado.

Logicamente que, muito em breve, iremos também aqui publicar uma entrevista mais alongada com o Sr. Jorge Resende, integrada no nosso sub-projecto "Gente de Benfica".



...........................



"Entrei neste blog sobre Benfica, porque gosto de procurar imagens relativas à Vila onde nasci. E fico com uma pena muito grande por ainda não se ter feito uma exposição de fotografias sobre Benfica do antigamente!


(...)

Chamo-me Jorge Benjamim Gomes Resende. Hoje habito na Madeira, estou reformado, mas nasci em 1946 no Largo Ernesto da Silva, no primeiro andar do pátio do número 13 ou 15, num quarto alugado pelos meus pais, tendo-me mudado para as águas furtadas do prédio número 11 ao lado.




Fotografia de Jorge Resende




Deixei Benfica em 1950, e durante 8 anos vivi na Venda Nova, na Rua do cinema, Rua Carlos Amaro de Matos, tendo voltado em 1958 a Benfica, para habitar uma moradia no recém inaugurado Bairro de Santa Cruz, de onde saí em 1979 e jamais voltar a viver em Benfica, hoje bastante descaracterizada, nada que se identifique com a Benfica dos seus tempos áureos. Quanta memória...

Dizia o Sr. Lamas que estava a escrever a sua memória, acredito que sobre Benfica ele tenha imensa memória.

O meu avô materno foi durante muitos anos vigilante da Escola do Magistério Primário, nada recebendo de ordenado pois lhe permitiram erguer naqueles terrenos casa de habitação e estábulos para gado, fonte de receita da sua família, filhas (minha mãe), minha avó, e mais tarde meu pai e crianças aí nascidas como o meu irmão mais velho.

Os meus pais e minha avó foram operários no Grandela e a minha mãe, sua mãe e irmãs foram operárias na Fábrica Simões na Gomes Pereira, frente à qual habitava um professor primário de nome André que foi professor de António Lobo Antunes, como ele descreveu nas suas crónicas, e foi também meu professor até à quarta classe, na escola da Venda Nova. Por tudo isto, foram muitos anos de vivência de Benfica. Tanta memória...

A Gomes Pereira e as suas vivendas, a Escola Normal, a sede do Benfica hoje Junta de Freguesia, onde vi o meu primeiro filme projectado ao ar livre, a Avenida Grão Vasco onde eu e os meus irmãos íamos apanhar folhas de amoreira para colocar em caixas de sapatos com bichos da seda e comer as amoras...
A
Igreja de Benfica onde fui baptizado, onde os meus pais se casaram mas da qual não fiquei cliente... O Parque Silva Porto, onde brinquei e para onde ia estudar, bem como para a Pastelaria em frente da Igreja, o "Paraíso de Benfica".....
E o campo do Futebol Benfica, onde hoje é a Pastelaria Nilo...

A
grande moradia dos avós dos Lobo Antunes, e a outra casa destes na Travessa da Era, ao lado da Travessa do Vintém, junto ao Largo Ernesto da Silva...

E o palacete junto à Travessa do Rio, que pertenceu a uma família de apelido Baena, ao lado do prédio onde foi a Junta de Freguesia antes de se ter mudado para a Gomes Pereira - palacete esse frente ao palacete do que foi o Centro de Saúde, na Estrada de Benfica, no início da Gomes Pereira... Sempre que ali passava, olhava para o palacete e imaginava vivências antigas, talvez recheado ainda de móveis, enfim, fantasias de criança que Benfica soube criar. Tanto para dizer...



"Palacete do Visconde Sanches de Baena" (1960),
Armando Serôdio, in Arquivo Municipal de Lisboa



E a casa do Senhor Santos, o penhorista, na Grão Vasco onde hoje fica a Pastelaria Lua de Mel, e onde eu ia, envergonhado com a minha mãe negociar empréstimos que as condições económicas eram tão débeis...




"Av. Grão Vasco, Nº 13 a 17" (s/data),
Arnaldo Madureira, in Arquivo Municipal de Lisboa



Benfica, Benfica, que um dia gostaria de ver em livro, pois acredito que ainda se vá a tempo de recuperar a memória.
Ao dispôr, não com fotografias porque os rendimentos daquela época e desta família não suportavam a despesa com máquina fotográfica. Tudo está na minha memória, no meu coração. Na minha casa do Bairro de Santa Cruz ainda vive o meu irmão mais velho.

(...)

Anexo duas ou três fotos engraçadas. Uma será do Largo Ernesto da Silva Nº 11 onde morei no topo do prédio, águas furtadas, prédio que ainda existe, o outro é do referido palacete na esquina da Travessa do Rio, que hoje dá para um parque de estacionamento.



"Estrada de Benfica" (s/data),
[a aguardar referência ao autor], in Arquivo Municipal de Lisboa



E a outra é do prédio que ficava em frente do atrás referido, e que no primeiro andar teve um fotógrafo, Foto NICE, que durante décadas fotografou ,conjuntamente com a
Foto Águia de Ouro, os pequenos e graúdos de Benfica.
O pouco de Benfica antiga que ainda resta precisava de ser fotografado."
***




*** Texto da autoria de Jorge Resende.







domingo, 19 de julho de 2009

A "Rabinho de Raposa"





As parcas “aventuras-com-animais” em que, nos últimos anos, me tenho visto enleada têm sido, quase sempre, preenchidas com a descoberta de grandes "personagens"…Pessoas cujas vidas e pequenos gestos diários trouxeram algo de único e muito precioso ao tempo que passaram neste mundo. Pessoas que, na maioria dos casos, findaram sozinhas e esquecidas os seus próprios dias… Mas cujas histórias de vida, certamente, dariam direito a uma bela narração no papel. Esta é uma homenagem muito sentida a uma dessas "personagens", uma grande Senhora, que, infelizmente, não tive a oportunidade de conhecer senão através das palavras das suas vizinhas (que, nas últimas semanas, tenho escutado atentamente), dos risos quentes que noutros tempos me chegavam vindos do seu terraço… e dos olhos das duas gatas que sempre protegeu em vida.



"Quero, um dia, dizer às pessoas que nada foi em vão...
Que o amor existe,
que vale a pena se doar às amizades e às pessoas,
que a vida é bela sim
e que eu sempre dei o melhor de mim...
e que valeu a pena."

  Mário Quintana



Fotografia de Alexandra Carvalho



(por Alexandra Carvalho)


Rezam as memórias dos mais antigos que, em tempos idos, aqueles quintais haviam sido habitados por um número infindável de gatos, de todas as cores, pelagens e feitios. Os felinos viviam em paz e tranquilidade nas suas lides quotidianas: ora espraiando-se ao sol quente da tarde, ora vagabundeando monotonamente de quintal em quintal… naquele pátio interior, fruto da confluência das traseiras dos prédios de duas das principais ruas de Benfica.

Dª. Luísa morava no 1º Esq. do prédio amarelo, num andar cuja cozinha terminava com uma imensa varanda fechada de cortinas alvas, que se abria sobre um pequeno terraço.
No seu pequeno terraço, debruado a buganvílias carmim, Dª. Luísa recebia diariamente a visita de inúmeros desses gatos dos quintais, a quem oferecia alimento e abrigo.

A
“Rabinho de Raposa” (também conhecida por alguns como Misha) era bebé quando por ali começou a aparecer há muitos anos atrás (cerca de 18 no total), ainda o "Shaka" (cão da Dª. Julieta, a vizinha do lado e grande amiga de Dª. Luísa) era vivo.
Ninguém sabe ao certo de onde a Rabinho de Raposa apareceu, mas a sua pelagem de
Bosques da Noruega deixava indiciar que a sua linhagem seria, eventualmente, originária daquele barracão de alumínio e vidro, à frente dos terraços, onde um vizinho do mesmo prédio amarelo fazia criação de gatos de raça para seu sustento.
Shaka, o
Bichon Frisé, nascido na África do Sul, a quem haviam concedido nome de rei, não tolerava a presença dos restantes felinos no terraço da vizinha, apenas se predispondo a entendimento com a bela (e quase nobre pela pose) Rabinho de Raposa.

Dª. Luísa era viúva e, apenas de tempos a tempos, recebia a visita de algum familiar. No entanto, tinha uma perfeita adoração por uma das suas sobrinhas, a qual considerava como o seu
“Ai Jesus!”.
Com a distância física e o esquecimento moral dos que lhe eram próximos pelo sangue, Dª. Luísa acabou por ter que tecer a sua própria família no prédio onde viveu durante mais de 30 anos (afinal de contas, sempre possuíra veia de artista e tecia tapetes de Arraiolos como ninguém!): Dª. Julieta, a vizinha do lado, era a amiga de todas as ocasiões, com quem compartilhava o seu amor pelos animais; Dª. Helena, a vizinha do 2º andar, a sua confidente dos últimos anos, quando se apaixonara e não sabia o que as restantes vizinhas iriam comentar nas suas costas por receber visitas diárias do seu homem. 
Dª. Luísa era, sobretudo, uma mulher muito avançada e emancipada para o seu próprio tempo!... Apaixonada sim, mas com as devidas distâncias (e cautelas), mantendo-se cada um na sua própria casa – ou não fora o facto de ser Aquariana lhe conceder essa intempestividade quotidiana de quem anseia sempre por mais liberdade interior.

No que diz respeito aos ciclos reprodutivos dos felinos dos quintais, foi, também, Dª. Luísa que, por sua livre auto-recriação, decidiu passar a dar a pílula a todas as gatas, quando descobriu que a maioria dos gatos que ali nasciam das ninhadas sucessivas da “sua” Rabinho de Raposa terminavam os seus dias envenenados
num quintal não muito longe do seu pequeno e aprazível terraço.

E foi assim que no seu pequeno terraço passaram a viver (protegidas) apenas a Rabinho de Raposa e uma das suas filhas que nunca dali se afastara (gata a quem nunca apelidara, talvez, por ser arisca; e a quem alguém, meses mais tarde, viria a nomear como
Luana, por ter focinho de lua cheia). Protegidas por entre as buganvílias e outras flores matizadas, Rabinho de Raposa e Luana tinham, também, o privilégio de pernoitar na varanda fechada de Dª. Luísa e, de vez em quando, de entrarem em sua casa.

Rabinho de Raposa, apesar da atitude de princesa e de nunca arranhar nada dentro de casa (ao contrário de Luana), tinha alma de viandante e, tal como a sua protectora, não gostava de se sentir aprisionada... pelo que gostava de ir sempre dar as suas voltinhas pelos quintais, tendo descoberto um outro 1º Esq. onde abundavam as iguarias para felinos.


Fotografia de Alexandra Carvalho



Com o passar dos anos e os consequentes achaques de saúde, Dª. Luísa teve, um dia, que ser internada no hospital.

Nesse preciso momento, o seu pensamento encontrava-se muito mais distante da doença que a assolara... percorrendo o seu aprazível terraço, implorando às vizinhas que tratassem das duas gatinhas na sua ausência.

Alguns meses mais tarde, Dª. Luísa foi encontrada sentada na sua cozinha, como que adormecida… para todo o sempre (apenas a alguns dias de completar o seu 78º aniversário, no mês de Fevereiro de 2008).
O seu “enorme” e precioso coração, que todos os seres amava e protegia, havia parado bruscamente.
Rezam as memórias mais recentes que, no seu funeral, o seu apaixonado de outros tempos não conseguira evitar o pranto ao vê-la partir; tal como, no seu aprazível terraço, a Rabinho de Raposa ficara
com os seus olhos felinos em lágrimas, enquanto dormitava na varanda fechada que fora de Dª. Luísa.

A família de sangue foi célere em arrecadar os bens e pertences de Dª. Luísa,
despindo o outrora aprazível terraço de toda a vida vegetal e animal. Rabinho de Raposa e Luana foram votadas ao abandono e enxotadas para longe, tendo encontrado abrigo no quintal vizinho de Dª. Julieta, que as continuou a proteger por se tratarem da única herança que a amiga de longa data lhe havia deixado.

Em pleno mês de Março, início da Primavera, os quintais estavam impregnados de um odor a flores murchas… como se a própria natureza sentisse a dor da perda deste imenso coração.

Em Abril, após a morte de Dª. Luísa e de
um outro casal, a harmonia e beleza da vida nos quintais pareceram, por momentos, conseguir ser arrebatadas pela desumanidade do Homem.
Felizmente, durante o mês de Maio, a natureza e a própria vida conseguiram vingar por onde a agrura se quis instalar...
Os 6 filhotes de Luana nasceram no tanque da vizinha do R/c. Protegidos, durante meses a fio, das chuvas e do frio, pelo corpo e pêlo da Rabinho de Raposa, sua avó; que, mais tarde, ensinaria a sua filha Luana a pegar-lhes pelo cachaço e a trazê-los para o terraço que outrora pertencera a Dª. Luísa.

Rezam as vozes de quem viveu (bem) de perto toda esta história que não há mãe tão protectora e diligente como a Rabinho de Raposa… que só lhe falta saber expressar-se na nossa própria língua.

Há, ainda, quem diga que os animais adquirem as qualidades dos humanos com quem mais convivem!






domingo, 1 de março de 2009

Gente de Benfica - II








Tinha o rosto duro e queimado pelo sol, deformado por feridas antigas encrostadas.
Do braço e perna do lado direito do seu corpo apenas possuía a metade superior, e andava para todo o lado numa cadeira de rodas.

Ao fim da tarde, costumava estar junto à igreja a pedir esmola e conversava com quem vinha da missa, com quem levava os netos à catequese e com os lojistas, interessando-se pelas suas vidas e gracejando com respeito quando a situação se proporcionava a tal.

A forma como o Sr. M falava, o cuidado que colocava nas palavras e os termos que utilizava, denotavam uma pessoa inteligente e com alguma instrução. Pelo que, alguns vizinhos começaram a oferecer-lhe livros e revistas, para que ele lesse e se distraísse um pouco no antigo colégio degradado em que dormia.

Inúmeras vezes, era, também, possível encontrá-lo perto do terreno abandonado de um prédio embargado, onde se sabia que todos os toxicodependentes daquela zona deambulavam.

Na rudeza do seu aspecto ressaltava o facto de andar sempre acompanhado por uma cadela, uma jovem rafeira, arraçada de podengo, de focinho meigo, olhos doces e tristes, que seguia a sua cadeira de rodas diligentemente para todo o lado.
Por vezes, a altas horas da noite, lá ia ele, pelo meio da Estrada de Benfica, na sua cadeira de rodas, transportando-a ao colo, abraçada a ele.

Os dois passavam as manhãs a pedir esmola, à porta do Café "Monalisa", na Estrada-a-Damaia, servindo de atracção para as caridosas senhoras de idade daquele bairro (as quais acabariam por auxiliá-lo para que a cadelinha Meg fosse esterilizada no veterinário local).

No dia 10/02/06, a Meg desapareceu... supostamente, como constava na zona, roubada por ciganos que vendiam no Mercado de Benfica.

Naquele bairro, gerou-se, então, uma onda de solidariedade como tal nunca fora visto. E diversas pessoas se disponibilizaram a procurar a cadelinha, durante semanas a fio.

No dia 04/03/06, a Meg foi resgatada (ou melhor, adquirida em troca de dinheiro) de um ferro-velho num bairro social perto da Alta de Lisboa, regressando para junto do seu dono.

A estória de vida do Sr. M era bem conhecida de alguns autóctones, que se interessaram por saber como ficara naquele estado físico.

Uma história, porém, tem sempre 2 lados!
E o melhor desses lados nem sempre é aquele como a história termina. Ambos podem ser ambivalentes, dúbios e pouco transparentes, induzindo-nos em erro sobre a escolha de qual das melhores probabilidades de uma história acabar.

Em Abril de 2006, o Sr. M foi internado no Hospital Amadora-Sintra com sintomas de hepatite.
Certa noite, em Junho de 2006, regressou a casa dos seus pais num estado muito crítico; vindo a falecer a 06/06/06, minado pelas inúmeras doenças que tinha e com um tumor no fígado como causa de morte.

O Sr. M tinha 38 anos…
A sua estória nunca foi bonita... fruto de tanto engano, para poder sobreviver no mundo em que viveu.
Todavia, prefiro continuar a recordá-lo apenas por aqueles momentos que, em determinada altura, nos pareceram belos e simples, como na fotografia tirada no dia em que a cadelinha Meg lhe foi devolvida.






segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Gente de Benfica - I




  Todos os direitos reservados © Alexandra Carvalho, "Retalhos de Bem-Fica" (2009)


Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)


João António Lamas
, 88 anos de idade... 54 dos quais vividos na freguesia de Benfica. Filho de um militar, aos 7 anos, mudou-se com a família do quartel da Pontinha para Benfica (acabara esta de deixar de ser 'fora de portas'), indo morar para o 1º andar Dto. da Vila Ventura, no nº 674 da Estrada de Benfica - casa que pertencia a uma sua tia-avó, Dª. Ana Macedo de Barros Lamas.

Vizinho, de um lado, da escritora Maria Lamas, que morava no 1º andar da casa onde outrora existiram os primeiros correios de Benfica (na esquina com o início da Calçada do Tojal, onde actualmente, funciona uma agência do Banco Santander); a qual tinha uma filha que aterrorizava as crianças da zona, com as impressionantes façanhas que fazia com o seu olho de vidro.

Do outro lado, bem mais perto, na Vila Ana, foi vizinho de alguém que, muitos anos mais tarde, viria a ser uma iminente figura... "(...) no 1º andar vivia o Spínola. O Spínola vivia aí! (...) Ele veio ainda fardado do Colégio Militar, ele, o irmão e o pai. O pai que era do Tribunal de Contas. E o Spínola vivia ali, janela com janela connosco." Desse final dos anos 20 em Benfica, recorda que "(...) era muito agradável a vida lá nessa altura, porque era tudo muito livre, muito à vontade, havia poucas pessoas, a maior parte era ainda campo, havia muitas quintas ao longo da estrada, uma quantidade de quintas (...) eram casas de Verão, as pessoas tinham as casas em Benfica onde iam passar o Verão. (...) Era uma terra também engraçada por isto (...) havia uma simplicidade muito grande… E um respeito muito grande também, que era engraçado."

Estudou no Colégio Instituto Lusitano, quando este ainda se encontrava localizado na Quinta do Tojalinho. E é com muita ternura que se lembra dos "caga-lumes" e das suas caixinhas de gás, que, mais tarde, lhe serviriam como estojo para a escola. As amizades de criança foram cimentadas com os inúmeros filhos do Brigadeiro Maya. E a adolescência passada entre os bailaricos (casamenteiros) às 3ª feiras na quinta dos Lobo Antunes (avô do escritor António Lobo Antunes, o qual, à época, cometeu a proeza de ganhar duas vezes a lotaria), as festas de Carnaval e as "desfolhadas" dos Santos Populares.

Dessa época, recorda-se ainda muito bem de ter assistido bem de perto à revolução de 26 de Agosto de 1931; do Dr. Figueiredo, médico de renome em Benfica (bisavô da geração actual dos Lobo Antunes), que fazia com que "(...) muita gente ia de Lisboa a Benfica ao Dr. Figueiredo, que era, de facto, considerado um belíssimo médico."; e dos Serpas hoquistas, mundialmente conhecidos pelas suas façanhas neste desporto, 3 irmãos que moraram nesta casa...

De 1946 a 1956, passou 10 anos fora de Benfica, em trabalho. Tendo à mesma freguesia regressado e instalado-se na Rua Cláudio Nunes. Desse (outro 2º) tempo da sua vida em Benfica, relembra as procissões da imagem de Nossa Senhora do Amparo, da Igreja de Benfica para a de São Domingos.

E, já nos anos 60, quando, por sua iniciativa, foi criado o primeiro "tele-clube", por detrás do Chafariz... "Começou a haver a televisão e, então, muitas das pessoas não tinham possibilidades para ter televisão em casa, outras não queriam… eu não queria! (...) E então, criámos um ‘tele-clube’ de Benfica, com uma série de sócios, que iam lá ver então à noite televisão, numa sala com televisão e tal. Enfim, era uma coisa, era um acontecimento!"

Aos 88 anos de idade, com uma memória extraordinária, João António Lamas entretém-se, agora, a escrever aquilo a que chama "A minha memória"... "Não são as memórias, porque eu não gosto de memórias! (...) quando se dizem memórias são… É uma prosápia da pessoa que vai escrever… ‘As minhas memórias’ e por aí fora, ou contar aquilo que fiz, os êxitos que tive (...) Não é as memórias de mim, é a memória que eu tenho, é uma coisa completamente diferente! (...) Eu tenho, de facto, muito boa memória e, por isso mesmo, decidi escrever a minha memória, fixar no papel e deixar para os meus filhos as coisas que me envolveram durante a vida toda e que eu pude reter na minha memória."

João António Lamas termina a nossa entrevista de cerca de 2 horas, falando com tristeza sobre o plano de urbanização que estava inicialmente previsto para a freguesia de Benfica: "Foi, mais ou menos, quando se começou a construir o Bairro de Santa Cruz, nessa altura então é que se deu um grande desenvolvimento de construção e que se… Mas está claro, não se fez nada do que estava projectado! O que estava projectado era uma coisa muito boa, era um plano de urbanização de Benfica que tinha sido muito bem estudado (...) Aliás, quem coordenou esse plano de urbanização de Benfica, ele era um primo da minha mulher, que depois foi… Administrador aqui da Gulbenkian, que era um Engº. Luís Lobato… Luís Guimarães Lobato… Esse foi vice-presidente da Câmara de Lisboa e foi quem orientou o projecto de urbanização de Benfica. Era um projecto muito bom porque estava muito apoiado naqueles projectos de depois da Guerra, feitos pelos ingleses… Ao redor de Londres foi tudo arrasado e eles fizeram coisas muito curiosas. E ele aproveitou isso e aplicou ali os mesmos princípios que seguiram lá em Londres. Mas depois foi para a Câmara de Lisboa um senhor, que era o Brigadeiro… Como é que ele se chamava?... Não me lembro agora o nome… Era a quem chamavam o ‘Comandante da Câmara’ e não o presidente, era o ‘Comandante’… Que era, de facto, um individuo que era ‘eu quero, posso e mando’, deu cabo daquele plano de urbanização, mudou completamente tudo, ficou completamente diferente daquilo que estava projectado, porque fizeram tudo quanto queriam e mais alguma coisa… Enfim, sem interesse nenhum e Benfica ficou uma coisa que não é nada, é um bairro… Infelizmente, podia se ter aproveitado como havia ali muito prédio antigo, muito terreno vago, poderia se ter feito um plano de facto bom… e fez-se! E depois não se seguiu nada e fez-se uma coisa, e continuou-se aquilo de qualquer maneira, só para fazer dinheiro e mais nada."


Pode ler esta história de vida na íntegra aqui (a qual faz parte de um projecto mais abrangente que iremos desenvolver numa rubrica intitulada "Gente de Benfica").