segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Gente de Benfica - IV




Entrevista realizada no âmbito do Projecto "Gente de Benfica"
(todos os direitos de utilização reservados em nome dos entrevistados - Maria Luísa e Fernando Carril - e da antropóloga responsável pelo projecto - Alexandra Carvalho).




Fotografia de Alexandra Carvalho (2009)





[clicar no gravador para ouvir a entrevista de 23/07/09,
integrada no Projecto "Gente de Benfica"]






Maria Luísa (90 anos) e Fernando Carril (84 anos)… 55 anos de vida em Benfica.

Ela, nascida em 1920, na freguesia de Santa Isabel, diz nunca ter gostado de Benfica, por se lembrar com muita saudade de Campo de Ourique e da Rua Maria Pia, onde viveu durante muito tempo.

Ele, nascido na Rua da Prata. Não chegou a conhecer a sua mãe, que morreu tinha ele apenas 22 meses. Este facto viria a marcar não só o percurso de vida do seu pai, como também o seu próprio percurso, fazendo com que nunca estabelecesse laços emocionais a propósito de gostar ou não do local em que habitava (por ter andado quase sempre feito andarilho de um lado para o outro).

Quis o destino que ela e ele se cruzassem na estação dos CTT dos Restauradores, onde trabalharam durante 40 anos.
Em 1949 uniram as suas vidas pelo matrimónio e foram viver para a Penha de França, de onde saíram em 1955, com uma filha de 5 anos, rumo à freguesia de Benfica.

Benfica, nessa altura, era fora de portas… Mas Benfica, nessa altura, já se estava a transformar…

Maria Luísa e Fernando foram morar para um prédio novo, acabado de construir, na Rua Cláudio Nunes.
Rua assaz movimentada, com trânsito em dois sentidos, ligando directamente à Estrada de Benfica. Pela Rua Cláudio Nunes passavam, a essa época, os autocarros que iam para a Amadora e havia sempre pessoas a venderem na rua, com carrinhos. Esta era a principal via de acesso ao cemitério, vinda da Estrada de Benfica.

Nas traseiras do seu prédio, existia ainda uma grande quinta [do Tojalinho], onde se ia comprar leite e buscar água de um poço, ali existiam também três moinhos de vento.

Na Rua Cláudio Nunes, em Junho, era hábito os moradores irem ver a marcha popular sair do "Fófó", quando este tinha a sua sede do lado direito de quem sobe a rua.
E aos domingos ía-se até à Mata de Benfica, onde havia os balouços e o escorrega, e havia até quem levasse comida e por ali almoçasse. "Nesse tempo aquilo era muito visitado", relembra Fernando.

Era na Mercearia do Sr. Octávio, junto à Igreja, que se abasteciam e lhes entregavam as compras em casa; tal como a padeira que, nessa época, ainda vinha entregar à porta.
No entanto, fruto dos seus horários de trabalho, a vida social de Maria Luísa e Fernando Carril fazia-se mais nos Restauradores, perto do emprego.
Só depois de reformados, com mais tempo disponível, se começaram a dar com as pessoas da freguesia. "Agora até parece que há mais conhecimento nosso com as pessoas (...) passámos a conviver mais porque temos mais tempo e porque há muito mais gente, isto é mais povoado.”, diz Fernando, lembrando que não passa agora um dia em que não parem inúmeras vezes ao descer a sua rua, conversando com este ou aquele vizinho.

O comércio desenvolveu-se bastante e já não é necessário, como antigamente, irem à Baixa à procura de algo. Em compensação, ambos relembram com uma certa mágoa que muitas das lojas que têm fechado na rua em que habitam, não voltam a abrir "(...) porque ninguém lhes pega".

"Entretanto isto foi-se tudo modificando, as quintas acabaram, os transportes mudaram com o aparecimento dos autocarros e isto modificou-se tudo. (...) Tudo se transformou, a meu ver, para pior! (...) Porque as pessoas são outras...", explica Maria Luísa. "... E a vida é outra também!", complementa logo em seguida Fernando.





Vídeo de Alexandra Carvalho (2010)









2 comentários:

Luta Popular Online disse...

Excelente trabalho… com grande sensibilidade, é de continuar…

Alexa disse...

Muito obrigada, Rui!

Abraço