sexta-feira, 1 de junho de 2018

O dia em que a Vila Ventura deixou de existir





(escrito a 29/05/18. Fotografias e texto de Alexandra Carvalho) 







Conheci a Dª. Emília em finais de 2009, quando formámos o Movimento de Cidadãos pela preservação da Vila Ana e da Vila Ventura, em Benfica, e encetámos contacto com os seus 3 últimos moradores. 

Mulher humilde e de coragem, com uma história de vida riquíssima (a qual tinha um orgulho imenso em relatar) e muito à frente do seu tempo, embrenhada numa teimosia exacerbada, que contrabalançava com a forma terna como olhava sem julgar e ajudava o Outro (inúmeros foram os sem-abrigo e os animais que ajudou). 

Em 2010 passámos os finais das tardes de Verão juntas, a falar da nossa luta pelas Vilas, enquanto aguardávamos por capturar para esterilização a colónia de mais de 20 gatos que existiam nas Vilas. 

Depois, estivemos 2 anos sem nos falar, fruto de um mal entendido e do mau-feitio de ambas. Mas foi, também, graças a uma gata (aquela que viria a ser a sua grande companheira dos últimos anos) que retomámos o contacto em 2014. 




Re-descobri então uma Dª. Emília a quem a idade e a maldita doença que faz misturar o Passado com o Presente já começavam a atraiçoar. 
Uma Dª. Emília com quem passei a conviver com o mesmo nó na garganta (e no coração) que me acompanharam na doença que também atacou o meu Avô nos seus últimos anos de vida. 
Uma Dª. Emília que, certo dia, me conseguiu levar completamente às lágrimas, quando lhe li o enorme elogio que um desconhecido lhe dedicou no "Diário de Notícias", depois de se ter cruzado com ela, por mero acaso, na Estrada de Benfica. 

Apesar das insistências da família, a Dª. Emília nunca quis sair daquela que foi a sua casa (o seu mundo) durante mais de 50 anos. 
Viu os seus 2 últimos vizinhos partirem. E acabou por ter como companhia, na casa ao lado, um ex-locutor de rádio, a quem a vida pregou algumas partidas, levando-o à miséria. Até ao dia 22 de Abril deste ano, em que o senhor faleceu. 

E, nessa altura, a Dª. Emília, ficou mais uma vez sozinha, apenas com a sua gata e os pombos. 
A memória a atraiçoá-la em divagações, o medo dos barulhos da casa e do fim da vida que poderia chegar a qualquer momento. 
E foi nesse preciso momento que julgo que a Dª. Emília, finalmente, aceitou que não tinha mais forças para ali continuar (e deveria ir viver com o filho). 
Foi nessa altura também que, com a ajuda de algumas vizinhas, nos conseguimos ir revezando, para passar por casa da Dª. Emília, a várias horas do dia, para que não se sentisse tão sozinha (cumpre aqui fazer um agradecimento muito sentido à Teresa Lourenço, por, apenas tendo conhecido a Dª. Emília neste momento, ter sido de uma dedicação e carinho extremos para com ela!). 

Tenho para mim que há pessoas cujas vidas se entrecruzam com as casas em que viveram (como se passassem a ser um só ser)... E a Dª. Emília e a Vila Ventura são disso um exemplo claro. Esta grande senhora e mãe-coragem foi a verdadeira guardiã das Vilas (pelas quais agora temo ainda mais pelo seu futuro)!... 

Na véspera da saída da Dª. Emília da casa onde viveu mais de 50 anos, despedimo-nos 2 vezes, sem nunca dizermos "Adeus"... 
Passámos o final de tarde juntas, mais uma vez, entre os animais... 
E a noite em façanhas rocambolescas por causa dumas chaves... 
Curiosamente, como se a própria Vila e os animais não quisessem deixar a Dª. Emília partir. 

Esta manhã, no dia em que a Vila Ventura para mim deixou de existir, num misto de emoções, despedimo-nos ainda uma terceira vez, com um "Até logo", com a carrinha das mudanças já à porta. 


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 -[Adenda de 01/06/18]-
O que havia prometido à Dª. Emília, aquando da sua saída da Vila Ventura, foi hoje cumprido: - a sua gatinha foi recolhida, para ficar protegida...







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