domingo, 3 de abril de 2011

A “Adega dos Ossos” e o “proletariado do bagaço”…



Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2011)





(por Fausto Castelhano)



Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica e o café/leitaria “Adega dos Ossos” com os característicos toldos de lona à entrada do estabelecimento. As lojas de comércio foram construídas sob o espaço do antigo cemitério da Freguesia de Benfica.

(Estúdios Mário Novais - 1949)



“Adega dos Ossos”... Oh! Mas que agradável surpresa! Uma prendinha bacana de três assobios! Fiquei em pulgas… O título embateu em cheio no meu imaginário e despertou-me um mundo de sentimentos que não consigo reproduzir totalmente, tal a carga emocional com que, de chofre, me defrontei… O caso em apreço, não se afigurava como mera insignificância… Uma fotografia da antiga “Adega dos Ossos” dos anos 40/50 do século XX enviada por amável colaboradora do Blog “Retalhos de Bem-Fica” e, como se fosse cousa de pouca monta, trazia atracado como brinde inesperado e à guisa de penduricalho, uma pequena peça alusiva ao simbólico sítio e bastante representativo d’uma época já um pouco longínqua da Freguesia de Benfica.



O amável engraxador, mais ou menos privativo da “Adega dos Ossos” exercendo a sua meritória função no local de trabalho: em pleno passeio da Estrada de Benfica e junto às portas da “Adega dos Ossos”. Em frente, do lado contrário da Estrada de Benfica e curvando para a Avenida Grão Vasco, uma categorizada loja de materiais da construção civil: a “Fortex”.

(Foto gentilmente cedida pelo Sr. João Paulo Fontan - 1951)



Deste modo, e como a ingratidão não se encontra inscrita no meu código genético, sinto-me na estrita obrigação de retribuir a gentileza com que fomos agradavelmente obsequiados inserindo, nas singelas letrinhas que ousei rabiscar a propósito do local mítico que albergo nas funduras do coração, uma foto raríssima do simpático engraxador, mais ou menos privativo da “Adega dos Ossos” e que executava as suas meritórias funções com insuperável esmero e total eficiência, postado em pleno passeio e junto às portas do inesquecível estabelecimento…
Assim, ficamos quites e, no final da despretensiosa resenha, farei votos de molde a que os nossos amigos não se sintam defraudados na amigável troca de galhardetes…
Depois, assentei os farolins e, um bocado de través, abalancei-me a ler o texto na real fuçanguice, tal o aliciante do tema em questão e extraído de "O Paraíso - “Livro de Crónicas” - António Lobo Antunes - 1998.
Safa! O coice atingiu-me em cheio, à falsa fé e a esgalhar! Dois berros e graúda blasfémia foi tudo quanto consegui articular e expelir boca fora… Valha-me Belzebu, o todo-poderoso Príncipe das Trevas!


Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica e o café/leitaria “Adega dos Ossos” situado, exactamente, ao lado da escadaria do lado poente da Igreja Paroquial de Benfica.

(Foto de Judah Benoliel - 195.. - Arquivo Municipal de Lisboa)



Atordoado após a contundência do embate inicial, enchi-me de coragem e procedi, agora, à leitura atenta e completa do produto literário deglutindo, a custo, o conteúdo do material que ali se encontrava exposto com pormenores algo extravagantes… Aos poucos, pressenti um certo e dilacerante amargor no garganhol o qual, foi descendo, descendo por ali abaixo até à boca do estômago… A incontrolável azia entrava de rompante em cena e, sem qualquer cerimónia, fixou-se de modo permanente… Tentei, em último desespero, aliviar o incómodo transtorno porém, de nenhum efeito terapêutico valeram as duas malgas a transbordar e sofregamente emborcadas da velha mezinha caseira tão apreciada pelo bom e ordeiro povo luso: chá de cidreira! Fiquei, exactamente, na mesma!
Na verdade, e aqui me confesso, quando findei a leitura do insólito documento, um sentimento de profunda perplexidade assaltou todo o meu ser! Um perturbante e teimoso mal-estar instalou-se, sem apelo nem agravo e, p’ra mal dos meus pecados… catrafilou-me a valer e está ali p’ra lavar e durar!
Então, sem querer, dei comigo a matutar à parva: - “C’um caraças! Mas que grande cegueta me saíste! Ouve, meu salafrário sem pinta de vergonha! Então tu e o teu grupo de inseparáveis amigalhaços, rapazinhos tão ajuizados p’rá época, nunca se deram conta onde se enfiavam? A toda a hora corriam e embrenhavam-se em sítios pouco recomendáveis e arrastavam, na onda, as amigas e namoradinhas!
Afinal, não passas d’um lorpa de primeira água! Tu e os teus compinchas de meia-tigela andaram enganados um ror de anos, curtiram os vossos momentos de lazer num antro de maus costumes, ordinário e de má fama”!
Entretanto, uma vózinha suave e amiga nos momentos de infortúnio aproximou-se devagarinho e desatou a bichanar junto dos meus pavilhões auditivos: - “Espera lá um niquinho, não te amofines por dá aquela palha, afasta os maus pensamentos da cachimónia…Tem calminha, olha a tua fragilizada máquina cárdio/vascular, não te enerves à bambalhona senão, e não tarda mesmo nada, ainda te dá o badagaio e vais desta p’ra melhor”.
- “Por fim, vais concluir que alguém está equivocado neste desaforado filme... Corre, vai direitinho ao velho bornal das memórias, vasculha o mais que puderes e desenrasca-te rapidinho, d’outro modo, ainda te comem as papas na cachola…e logo à primeira vaza”…



Um cliente sedento d’um copázio de “boa pinga” dá entrada na “tasca” da Estrada de Benfica, 727 e 727A, entre a Fortex e a Garagem Bemficauto, ou seja, nas barbas do café/leitaria da nossa especial simpatia: a “Adega dos Ossos”.

(Foto de Augusto de Jesus Fernandes - 1961 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Obediente, segui o pertinente conselho… Angustiado, mergulhei as manápulas até às profundezas dos primórdios da minha existência e esgravatei, esgravatei e, quando regressei da viagem ao passado lá vinha, grudado na ponta dos gatásios, um infindável rosário de velhinhas recordações, límpidas e radiosas como se tais episódios tão remotos tivessem acontecido anteontem!
Pasmei! Na verdade, o texto não encaixa, nem sequer por decreto, com as memórias desses tempos fabulosos e que se alicerçam na assídua vivência na acolhedora “Adega dos Ossos”, a qual, na modesta opinião dum indefectível cliente da castiça loja, apresentava-se com o perfil que caracterizava, sem sombra de dúvida, o chamado café/leitaria dos tempos antigos. Assim, usaremos este termo, muito mais consensual, sempre que nos referirmos à “Adega dos Ossos”, o porto de abrigo da nossa juventude!
Não obstante, como exercício de fértil imaginação no que concerne ao assunto em análise, a peça editada, não custa nada admitir, é notável! Contudo, muita atenção aos “cavais”! Tal narrativa encontra-se absolutamente distorcida da realidade duma época precisa, isto é, reportada às décadas de 40/50 do século XX, não só do café/leitaria “Adega dos Ossos” mas, outrossim, dos dignos cidadãos que ali abancavam nos seus momentos de entretenimento, ócio e saudável convívio, tornando o aconchegado espaço no seu pouso de elevada preferência e afeição…
Aconselhado pelos progenitores a evitar um tal tugúrio, como confessa na referida peça, o mais provável é que o autor em questão, raríssimas vezes tenha transposto as largas portas da simpática “Adega dos Ossos”, se é que alguma vez passou dos umbrais! Só deste modo se poderá avaliar o quadro negro e mordaz que ousou traçar, a tintas fortes, não só do próprio estabelecimento em si, mas englobando na infeliz diatribe, os proprietários, empregados e, também, a honesta e fiel clientela… Um lamentável equívoco…
Ou então, estaremos a mencionar hipotética loja e sítio onde, pessoalmente, nunca lá coloquei os calcantes! Contudo, se algo de semelhante existiu na nossa freguesia que, efectivamente, desconheço em absoluto então, na volta do correio, enviem-me a morada correcta, por favor…



A tasca da Estrada de Benfica 727 e 727A e frente à “Adega dos Ossos”. Repare-se na pipa de vinho à entrada da taberna.

(Foto de Augusto de Jesus Fernandes - 1961 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Enfim, são cenários que o comum dos mortais venera, consome que se farta, são interessantes sob o ponto de vista da morbidez e causa imediato e tremendo impacto face à exposição bem engendrada mas… falseada! Aqui, assim aconteceu: a imaginação ganhou asas e voou, imparável, a uma altura desmedida face a um local histórico e de enorme simbolismo da Freguesia de Benfica…
Na cavalgada desenfreada do tempo, meio século foi percorrido num esfregante e nem sequer nos demos conta do fenómeno. Cinquenta anos que alteraram, profundamente, a fisionomia da Freguesia de Benfica e onde o camartelo se alcandorou a nível superior de destruição sistemática…
O lobby da construção civil investiu em grande estilo e o cimento armado, avassalador, ocupou todo o território: as quintas e sítios de imperecíveis tradições, os palacetes e moradias de traça magnífica, palácios antigos, ruas e azinhagas não escaparam ao descalabro e volatizaram-se na voragem infernal!
Romperam-se novas vias rodoviárias e os carros eléctricos da Carris desapareceram da circulação! Vagas de novos habitantes instalaram-se na Freguesia de Benfica, porém e na rota inversa, muitos outros e com fortíssimas raízes no espaço territorial duma das mais tradicionais freguesias do “Termo” da cidade de Lisboa, desalojados por força de sucessivas e criminosas demolições, rumaram a outros destinos!
Dos tempos que marcaram as nossas existências, restam cada vez menos cidadãos! É a Lei da Vida! Mas, eles andam por aí, “vivinhos da Costa” e, felizmente, gozando de extraordinária memória… Gente credível, cordata e de entranhas lavadas por dentro e por fora… mas jamais irão aparar devaneios despropositados ou graçolas de mau gosto, venham elas donde vierem… É o caso, sem tirar nem pôr!



A boa afluência de fregueses à porta da categorizada “Casa de Pasto” na Avenida Grão Vasco, 9 a 13, cara a cara com a “Adega dos Ossos”. Ao fundo, a curva para a Estrada de Benfica e onde se localizava a papelaria do Sr. Silvino. Na foto, à direita, o mostruário do Chinês, vendedor ambulante de gravatas, cintos, alfinetes de damas, agulhas e outras miudezas

(Foto de Augusto de Jesus Fernandes - 1966 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Por isso, como assíduo e fidelíssimo freguês da “Adega dos Ossos”, repudio as referências maldosas atribuídas ao acolhedor local e ao retrato tortuoso desenhado à desgaira que, ao correr da pena e atrevidamente, acabou por mimosear os habituais clientes de maneira infeliz mas onde, e de modo categórico, não me revejo…
O autor olvidou factores de enorme calibre, primordiais: catalogar pessoas, a seu belo talante, e descrever o ambiente da “Adega dos Ossos” sem o mínimo de rigor ou decoro e eivado de fantasia até dizer chega! Por vezes, o azar esconde-se atrás da porta… mas é o risco de quem se mete à chuva sem exigível precaução! Enfim, percalços inesperados que surgem ao mais pintado sem que daí, venha morte de bicho! Acontecem, mas não deviam acontecer… por amor à verdade!
O autor remete-nos ao mundo do fantástico e do absurdo, recorre à imaginação fácil e descabelada da vivência d’um dos mais carismáticos lugares da Freguesia de Benfica e dos seus frequentadores porém, absolutamente irreal… Ao invés, contraponho o conhecimento sério e autêntico do meio físico e humano de que fui testemunha atenta e participante activo de modo permanente… Esta, a abissal diferença!
Bom, apressemo-nos e vamos lá desfazer o lacinho, abrir o embrulho e focar a nossa atenção às várias incorrecções, lacunas e, mormente, às balelas de pacotilha narradas a esmo… mas carentes de qualquer base de válida sustentação: a ausência de higiene da loja, os jogos de cartas próprios de tascas e tabernas, o avio de vinhaça, o mosquedo esvoaçando pela sala, etc.
Como, também, vem citado na narrativa, o receio de vir a cuspir no lenço infundia respeito e revelava-se de constante preocupação e a hipótese de cuspir sangue às golfadas e, quantas vezes, postas sanguinolentas quando os pulmões se desfaziam pelo avanço inexorável da doença, aterrorizava toda a gente e causava pavor no seio dos agregados familiares, sem excepção!



Cá está ele, o meu padrinho da Comunhão Solene e do Sacramento da Crisma. Se não é o sacristão da Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, Sr. José Neves, então, é o “chifrudo” por ele!

(Foto gentilmente cedida por Maria de Lourdes (Lourdinhas) e esposo, João Dominguez Perez - 1955)



A tuberculose ou tísica pulmonar, doença altamente infecciosa provocada pelo Bacilo de Koch, grassava entre a população portuguesa e não escolhia idade ou classe social! Caíam como tordos, todavia, o mais avantajado número de vítimas ocorriam no seio das famílias pobres devido às adversas condições de vida: alimentação deficiente, hábitos de higiene, habitações insalubres, exposição ao frio ou em ambientes fechados nos locais de trabalho, isto é, oficinas, fábricas, meios de transporte, onde a aglomeração de pessoas propiciava o fácil contágio.
O espectro da morte rondava por todo o lado. Silenciosamente, entrou em nossa casa sem pedir licença e ceifou em 1945, António de 25 anos e em 1948, Maria Helena de 17 anos. Maria Manuela safou-se à tira e resistiu, apenas com um pulmão! Os manos mais novos foram afastados durante algum tempo!
Fiquemos por aqui, chega de tristezas e voltemos à "Adega dos Ossos"! Como é do conhecimento geral e se poderá constatar, in loco, o café/leitaria “Adega dos Ossos” jamais se localizou debaixo da igreja mas… ao lado e sob o adro poente e onde, até ao ano de 1880 funcionou o antigo Cemitério da Freguesia de Benfica… Algum tempo volvido e, em 1900 e no mesmo local, a emérita Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica, tomou a feliz iniciativa de erguer o seu famoso coreto e aí exibir o seu incontestado reportório musical!
Estou em crer que o autor, com um pequenino esforço suplementar ainda colocava a “Adega dos Ossos” encafuada debaixo do altar-mor da Igreja Paroquial de Benfica…C aía o Carmo e a Trindade e, pela certa, teria os paroquianos à perna… e bem podia dar “às canetas” e pirar-se para além dos subúrbios onde os espaços desafogados de infindáveis horizontes nos fascinavam e, literalmente, nos submergia! Um universo maravilhoso e saudável onde tive a felicidade de nascer e viver até ao termo da década de 60 do século XX abraçado pelo pulsar da Mãe Natureza não obstante, desconhecido e ignorado da maioria dos habitantes da aldeola afinal, ali tão pertinho e à distância de um tiro de carabina: o centro da comunidade a que chamaram Benfica…



O casamento de D. Maria de Lourdes (Lourdinhas) e do Sr. João Dominguez Perez na Igreja de Benfica em 1955, celebrado pelo prior da Paróquia de Benfica, Álvaro Proença. À direita, o sacristão Sr. José Neves, o meu padrinho da Comunhão Solene e Sacramento da Crisma.

(Foto cedida gentilmente pela D. Maria de Lourdes (Lourdinhas) e esposo, Sr. João Dominguez Perez)



Quanto ao sacristão da Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, é evidente que não se chamava Manuel. A tômbola girou, girou… e a bolinha saltou: Manél! Porreiro mas… errado! Vá lá… podia sair coisinha bem pior, calhou Manél como, eventualmente, poderia surdir algo arrevesado: Zacarias, Ambrósio ou Zebedeu. Porém, tanto quanto se sabe de fonte seguríssima, tão popular personagem era considerado um bom e cativante homem, devotado de corpo e alma ao seu mister, exercendo a sua profissão com desvelada dedicação e a contento de todos os paroquianos e, sobretudo, das paroquianas mais exigentes que o cirandavam a todo o momento… Não obstante, e segundo opinião geral e abalizada, e aqui é que reside o busílis da questão, nunca e em tempo algum constou que o nosso amigo sacristão enveredasse por condenável caminho e se convertesse num inveterado bebedolas!
Aliás, no interior da afamada “Adega dos Ossos”, cujo nome se pode prestar a interpretações avulsas, não se emborcavam nem copos de dois ou de três e, como o comum dos mortais está “careca” de saber, cafés e pastelarias, leitarias e afins, jamais estiveram habilitadas e, muito menos, autorizadas no avio de brancos ou tintos, sejam eles de que casta ou região vitivinícola fossem… Proibido, com todas as letras! E, nesses tempos negros e safados, a Fiscalização Económica nem sequer brincava às multas e a forte repressão evidenciava-se a cada passo! Agia a sério e a doer… e muito!
Na realidade e no que respeita ao negócio de vinhos, a concorrência mostrava-se às claras e de peso desmesurado… Controlavam-se uns aos outros e à vista desarmada, bastando atentar, com olhinhos de ver, na localização estratégica dos estabelecimentos do ramo em área tão sensível e fulcral: o centro histórico da comunidade e o espaço nobre em torno da igreja!
A rivalidade pela fidelização dos clientes tranformava-se em guerra surda… e sem quartel! O chamariz: uma pomada de excelência, os apetitosos petiscos de lamber as beiçolas, o ambiente amistoso, quase familiar que congregava fregueses, proprietários e empregados das tascas, tabernas e casas de pasto…


Tão compenetrados que estavam os dois mariolas, os irmãos Fausto Augusto e Carlos Alberto no dia festivo da Comunhão Solene e do Sacramento da Crisma na Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica. O evento foi devidamente registado em foto dos “Estúdios Águia d’Ouro”. Grande dia de festa na Paróquia de Benfica e onde pontificou, como espectacular e irrepetível atracção, o Arcebispo de Mitilene - 3 de Maio de 1950 .

(Foto de Fausto Castelhano)



Cá por mim, e que gozo imparável me daria tal sarafusca nesses tempos inolvidáveis, pagaria de bom grado e generosamente p’ra assistir, e na primeira fila, à reacção violenta dos taberneiros perante tão descarado desafio se, por mera circunstância ou capricho, a “Adega dos Ossos” ousasse transaccionar uns copázios de tintol nas barbas das tabernas das redondezas. O temor pelas graves consequências que daí adviriam para os seus intervenientes tornava inviável tão atrevido e afrontoso desconchavo…
Seria o bom e o bonito e, só por devastadora e profunda ignorância nestas matérias, se poderá aventar uma tão remota hipótese. Ao longo da História, geraram-se revoluções originadas por provocações de menor dimensão e, até aposto, em como a Revolta dos Taberneiros iria permanecer como marco indelével desta terra, certamente gravado a letras de ouro na memória colectiva das boas gentes da Freguesia de Benfica…
O dedicado sacristão da Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, ao tempo dos priores António Esteves Robalo (1938-1942), Francisco Xavier da Silva (1942-1944), Matias Augusto Rosa (1944-1954) e Álvaro Proença desde 1955, dava pelo simples nome de José Neves.
Assim é que estas minudências, aparentemente irrelevantes, ficarão correctas p’ra sempre, isto é, colocando tudo no seu devido lugar e a que têm direito… Ou seja, chamar os bois pelos nomes, salvo seja… E, nem sequer teria sido por fortuito acaso que a minha saudosa mãe e católica devota, Maria Augusta Marques, aquando da nossa Comunhão Solene a 3 de Maio de 1950 (e a do meu irmão Carlos Alberto) convidou, precisamente, o Sr. José Neves, o tal sacristão beberrão (na opinião desastrada do autor da peça que estamos cuidadosamente a analisar com o fito de corrigir tudo quanto soar a falso), personalidade muito acima de qualquer suspeita, para nosso padrinho da Comunhão Solene e do Sacramento da Crisma… E com a bênção do Arcebispo de Mitilene que se prontificou, em boa hora, a visitar a Paróquia de Benfica nesse festivo e celebrado dia presidindo, com toda a pompa e circunstância, a todo o espampanante cerimonial…



“Santinhos” oferecidos como lembrança pelas catequistas, D. Maria de Lourdes, D. Madalena Eloy e D. Maria Salgado d’Oliveira.

(Documentos de Fausto Castelhano)



A população da Freguesia de Benfica, pelo menos na inigualável manhã primaveril de 3 de Maio de 1950 e que se encontra inscrita no imaginário da população do burgo, tirou a barriguinha de misérias e prantou-se de gatas! Um estoiro!
A Igreja Paroquial de Benfica caprichou e engalanou-se em grande espavento! Sobressaíam as braçadas de flores multicores e a opulência das esplendorosas alfaias e paramentos que emolduravam o interior do templo… Preciosas alfaias, protegidas por bolinhas de naftalina e encerradas, a sete chaves, nas velhas arcas da sacristia, como se fora em cofre-forte… e que apenas lhes concediam ordem de soltura em momentos de altíssimo relevo…
A missa solene teve acompanhamento a condizer, face ao faustoso acontecimento… O competente e afinadinho coro encheu as medidas do maralhal e os sons celestiais emitidos pelo velho órgão de tubos da igreja revelaram-se de autêntica e sublime magia...
O diligente sacristão, Sr. José Neves, esbofado, multiplicava-se num rodopio infernal tentando atender às solicitações mais comezinhas; elaborada a dedo, sábia e num tom de voz de estarrecer, a Homilia agradou, plenamente, a toda a família cristã…
E chegou o momento crucial do ofício divino: a Eucaristia, ponto alto da Santa Missa… Os crentes abeiraram-se junto à balaustrada do altar-mor e, só depois e quase em formatura militar, avançou a aparatosa fila das crianças e por quem toda a assembleia de fiéis ansiava… A festa era-lhes, sobremaneira, dedicada!
Sem parança e ritmo cadenciado, o ritual repetia-se, tanto p’ra graúdos como, seguidamente, p’rós miúdos: o sacerdote sacava do cálice doirado, um a um, o pedacinho de pão ázimo (Corpo de Cristo), desenhava o sinal da cruz no espaço, murmurava entre dentes o rotineiro palavreado das Escrituras e, logo, estendia o braço…
Ajoelhados em drástico jejum desde a meia-noite e postados em recolhimento profundo, os crentes da Santa Madre Igreja escancaravam a bocarra e estendiam o apêndice lingual meio palmo fora da cavidade bucal a fim de receber, finalmente, a hóstia consagrada evitando, sempre, o perigoso toque na dentuça: - “Cautela, se não…vão direitinhos p’rás chamas do Inferno”!
Um terror infundido, desde o confim dos séculos e onde se contavam histórias medonhas a propósito do respeitinho que, obrigatoriamente, deveria merecer a Santa Comunhão! Portanto, máxima cautela! O seguro morreu de velhinho!



As dedicatórias dos “Santinhos” oferecidos pelas catequistas D. Maria Salgado d’Oliveira (1950), D. Maria de Lourdes (1948) e D. Madalena Eloy.

(Documentos de Fausto Castelhano)



Digno de nota, o embevecimento das incansáveis, extremosas e santas catequistas que aturaram, estóica e pacientemente, as traquinices e a irreverência da criançada ao longo dos meses no ensino apurado da Catequese, as Sras. D. Maria de Lourdes, D. Maria Salgado d’Oliveira e D. Madalena Eloy, a quem envio um aceno de saudade e, já agora, que os Deuses as acolham no regaço divino e as guardem no seu eterno descanso…
Ah! A felicidade escarrapachada no rosto do velho prior Matias Augusto Rosa, alentejano de Vila Viçosa e já com 68 Primaveras arrumadas em cima da carcaça, e o aprumo das senhoras e meninas das Irmandades. A alegria e o deslumbramento do povo, o povo aperaltado nas fatiotas domingueiras abarrotando a Casa de Deus, acotovelando-se à bruta e derramando-se até às escadarias exteriores da igreja, mas sempre fiel à Santa Madre Igreja Católica Apostólica e Romana aguentando, a pé firme, o ofício divino em dia de festa de truz… porém, farejando de narinas no ar e deitando os lúzios à magnificência de tão extraordinário espectáculo…
Por fim, e rematando a jornada em beleza ou seja, levar a cabo o encerramento com chave d’oiro do memorável acontecimento, os meninos e meninas, também eles relevantes protagonistas do deleitoso evento foram encarreirados, embora um pouco acagaçados perante a incerteza do acto seguinte, p’ró fatal beija-mão ao Arcebispo de Mitilene e à imposição dos Santos Óleos…
Chegados ali, já não descortinaram alminha caridosa que lhes acudissem no aperto de barriga, coitadinhos! Aperreados, meteram o rabinho entre as pernocas tremelicantes e… lá foram, alinhadinhos…
Chiça, penico! Que magnífico cachucho, em oiro maciço, que o majestático fulanaço ostentava no dedo anelar e onde avultava o brutal, faiscante e precioso calhau encastoado na esplêndida jóia? Ui! Ficámos arrelampados e com os olhos em bico! Apre! A surpresa ultrapassava a nossa imaginação!



“Santinho” oferecido pelo meu padrinho, Sr. José Neves, o sacristão da Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Amparo de Benfica no dia da Comunhão Solene e do Sacramento da Crisma.

(Documento de Fausto Castelhano - 3 de Maio de 1950)



Então, sem escapar nenhuma criancinha, o austero Arcebispo de Mitilene, luxuosamente ajaezado nas suas vestes sumptuosas, iniciou a insólita praxe da ordem… Enquanto colocava a mão esquerda sobre a cabeça de cada um dos eleitos, com a mão direita traçava o Sinal da Cruz com o Santo Crisma (óleo de oliveira perfumado com um bálsamo) na fronte do crismando, mastigando o aranzel da Forma: - “Eu te marco com o Sinal da Cruz e te confirmo com o Crisma da Salvação, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.
Após realizar tão peculiar gesto, o arcebispo não se fez rogado e aplicou uma tapa nas fuças de cada menino e menina… ninguém se ficou a rir e até acho que é mesmo assim, mas a mim afinfou-me com força excessiva que até as lágrimas me assomaram aos olhos… Corei de indignação e, só não larguei, ali mesmo, um grossíssimo palavrão porque não calhou ou o Cristo pregado no madeiro evitou, in extremis, a imperdoável ignomínia e, p’ra cúmulo, a minha querida mãezinha resolveu pousar os mirantes em cima do seu amado filhinho com ganas de o esganar, à espera que, de súbito, desabasse uma qualquer desgraça… Ela bem sabia o estafermo que ali estava à beira, sempre pronto a martirizá-la com judiarias escabrosas!
Mas, realmente, não apreciei o desajustado atrevimento de um manguelas que jamais tinha topado na porca da vida… Rebelei-me enfurecido, fiquei fulo que nem touro picado na arena e, ainda hoje, quando me vem à lembrança o traumático episódio, sinto um nó nas goelas de incontrolável perturbação e angústia… O ritmo cardíaco acelera, o sangue ferve e aflora-me ao rosto! Conflito existencial insolúvel? Acredito que sim! No entanto e para minha desdita, sou um indivíduo de extrema sensibilidade que, por vezes, desatina a valer e varre tudo a eito contudo, declaro-me inocente nesta matéria! Fui botado ao mundo formatado num feitio tramado e já não há hipótese de refazer seja lá o que for!
Bom, o dramático instante passou e o meu padrinho, o bondoso e atento sacristão Sr. José Neves, ali mesmo ao lado do seu querido afilhado, nem sequer se apercebeu da tempestade iminente… Enfim, a partir da cerimónia de exaltante significado para as nossas vidas futuras e apesar das peripécias ocorridas à vista de todos, ficámos para todo o sempre, graduados em Soldados de Cristo, “tendo o dever, dali em diante suportarmos, pacientemente, em nome de Jesus Cristo, toda a sorte de sofrimentos e de injúrias, defender a Fé Cristã quando atacada e conhecer a doutrina da Igreja”



Cá está a tal confirmação no “Santinho” oferecido como lembrança da Comunhão Solene e Sacramento da Crisma no dia 3 de Maio de 1950… Quem diria, passados tantos anos! A dedicatória e a assinatura na impecável caligrafia do meu querido padrinho do Sacramento da Crisma, o Sr. José Neves, o dedicado sacristão da Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Amparo de Benfica.

(Documento de Fausto Castelhano)



Porra! Eram exigências desproporcionadas p’ra crianças que à meia dúzia de luas e de vez, tinham renunciado os cueiros! “Safa! Aqui, alto e pára o baile! Não, não alinho em militâncias bizarras! Não contem comigo”!
Na verdade, os cândidos jovenzitos sentiram-se entalados e sem escapatória a jeito! A partir de tão importante acção, o Sacramento da Crisma já estava enfiadinha no papo contudo, não escapámos ao inevitável beija-mão… Aí, sim, teve início a derradeira e inesquecível cena que, sobremaneira, nos sensibilizou: a beijoca no tal pedregulho reluzente que nos enfeitiçava desde o começo de tão fatigante, quão fabulosa festarola…
O Arcebispo de Mitilene trincou-nos a todos e não se fez rogado! Resolutamente, o eminente personagem que nos amedrontava na impressionante majestade estendeu a manápula sapuda e luzidia e, então, pimba! Aproximou-a das beiças puras das criancinhas… Não tugimos… nem mungimos, ninguém ousou escapulir-se ao sacrifício… A criançada amochou e foi toda ao castigo, graças a Deus! Foi assim, tal e qual!
Bom, mas p’ra completar e comprovar a descrição dos importantes detalhes trazidos à liça, coloco à disposição dos nossos amigos, não só a fotografia da praxe (minha e do meu irmão Carlos) em Estúdio Fotográfico da “Foto Águia d’Ouro”, máximo luxo p’rá época mas, e vejam só, o “Santinho” gentilmente oferecido ao afilhado mais querido do Universo pelo nosso caríssimo sacristão Sr. José Neves (que tão maltratado foi no texto e que, vivamente, contesto) como recordação de tão marcante data… E lá está, escarrapachada, a dedicatória e a assinatura na impecável caligrafia… E pronto, o reparo está consumado p’ra que conste, evitando despropositadas suspeições a quem quer que seja…
Entrementes, a cerimónia findara, os sinos voltaram a repenicar desalmadamente e o povinho, contente e feliz pelo dever cumprido despejou, ao rebolão, a grande nave do templo de Deus atropelando-se na saída principal e, caso raro, causando engarrafamento na porta lateral virada ao adro nascente, tal a afluência do povoléu em dia tão extraordinário…



Grupo de jovens amigos e habituais clientes da “Adega dos Ossos”: Fausto, Emanuel, Manuel Cabecinha, Coelho e amigas - 27 de Abril de 1958

(Foto de Fausto Castelhano)



E pronto, após a distribuição das prometidas e apreciadas guloseimas pela sorridente pequenada, agora mais descontraída e imbuídos de esfuziante galhofa, a debandada foi, efectivamente, geral…
Os estômagos reclamavam, a hora da paparoca tinha sido ultrapassada à muito, muito tempo e a terrível galga roía as paredes do bucho como se dente de cão de fila o tivesse abocanhado…
Entretanto, os tempos mudaram e os gestores do Vaticano enfiaram a viola no saco e não tiveram outro remédio senão renderem-se à evidência e adaptarem-se aos novos tempos! Agora, após uma barrigada de cozido à portuguesa, caldeirada à fragateira ou posta à mirandesa regados a púcaros de tinto encorpado do Alentejo ou branco de Bucelas, jamais a alma de alguém irá bater com os costados nos Infernos por receber hóstia na palma da mão e trincá-la como se fora simples digestivo! Já não é pecado, olaré! Grande reviravolta operada na Igreja de Roma!

A euforia pairava no ar e manifestava-se nos semblantes excitados de felicidade das gentes que, aos poucos, dispersavam ao redor da igreja moendo tempo, uma vez que o almoço dominical, excepcionalmente, seria servido fora d’horas…
Alguns rumaram ao “Paraíso de Benfica” ou às tascas da vizinhança porém, outros e que desceram pela escadaria poente, embicaram na “Adega dos Ossos”, mesmo ali, à mão de semear! Vamos com eles e já agora, acompanhá-los e lançar olhadela atenta às entranhas da tal “Adega dos Ossos”
Um café/leitaria modesto e possuído de um carácter muito especial que o diferenciava do sossegadoCafé Paraíso de Benficae, uns anos mais tarde, do celebrado Café Marijú. Espaço razoavelmente espaçoso, balcão de madeira a todo o comprimento da sala. Ressaltava o acolhimento amistoso e de braços abertos dos proprietários e empregados, um dos valiosos trunfos da “Adega dos Ossos”.



Segunda metade da década de 50 do século XX. Grupo de futebolistas do Sport Lisboa e Benfica em ameno convívio no Lar do Jogador, situado em plena “Quinta das Pedralvas”. Proporcionaram, como clientes da “Adega dos Ossos”, uma nova e dinâmica movimentação do local.

(Foto Wikipédia)



Acesso franco e isento de empecilhos às variadas classes sociais do burgo que o frequentavam e onde, o famigerado “Reservado o Direito de Admissão” jamais teria cabimento e se afigurava como estouvada aberração e, claro está, pouco consentânea num meio social onde as precárias condições económicas da esmagadora maioria da população eram gritantes!
Frequentador habitual do simpático e pacífico estabelecimento, a par do Paraíso de Benfica e, um pouco mais tarde, do Café Marijú, jamais deixei cair no esquecimento as muitas e excelentes recordações de convívio com companheiros e amigos de juventude e, também, dos aprazíveis momentos de namoricos…
Um aceno de muita saudade ao proprietário da “Adega dos Ossos”, o Sr. Octávio e ao José Manuel, um dos empregados de mesa e que nos tratava a todos, por simples simpatia e amizade, por engenheiro ou doutor! E, se é verdade que alguns jovens do nosso grupo de amigos atingiram esse objectivo, outros não conseguiram ir tão longe e quedaram-se por classificações académicas mais modestas!
Um dia, para gáudio da fiel clientela, surge inesperada atracção: a Juke Box que colocaram encostadinha à parede do lado direito de quem entrava no local! Excelente novidade e, ao tempo, a única na Freguesia de Benfica! Assim, em troca d’uma moedinha de dez tostões enfiada na respectiva ranhura e através dos discos de vinil, as músicas do nosso agrado brotavam da diabólica maquineta… A estupenda modernice, revelou-se um inusitado e maravilhoso sucesso!
Foi a partir da época futebolística de 1954/55 que uma fornada de novos clientes “invadiu” a “Adega dos Ossos”: os jogadores de futebol do Sport Lisboa e Benfica! O brasileiro Otto Glória, o novo treinador do clube, instalou os seus atletas no conhecido Lar do Jogador situado num edifício da Quinta das Pedralvas e a “Adega dos Ossos” caiu no goto de alguns dos famosos novos locatários da Freguesia de Benfica…
O brigadeiro Maia, insigne oficial das Forças Armadas Portuguesas e cidadão desafecto ao regime salazarista, descia da moradia onde residia na Calçada do Tojal, situada do lado direito e depois do cruzamento da Rua Ernesto da Silva e, calmamente, entrava na “Adega dos Ossos” a saborear o seu cafézinho…



Proletariado industrial das Oficinas Gerais de Material Aeronáutico em Alverca do Ribatejo. Fausto Castelhano, o primeiro na fila de baixo. O penúltimo da fila de cima, Armando dos Santos Mineiro, Presidente do Futebol Clube de Alverca durante largos anos – Dezembro de 1957

(Foto de Fausto Castelhano.)



Era o local preferido do meu pai que aí, e era bem pequenino, me introduziu pela primeira vez… Homem probo e despido de qualquer preconceito, o antigo combatente da 1ª Guerra Mundial, na Flandres, calejado pela vida dura que trepou a pulso, pisava forte: na “Adega dos Ossos” ou no “Majestic”, nos tascos de comes-e-bebes das feiras de gado da Malveira, Moita e Pinhal Novo ou em hotel de 5 estrelas! Era assim!
Os filhos apanharam o sabor indelével do agradável estabelecimento e enamoram-se de um dos locais de fortíssimo simbolismo da Freguesia de Benfica mantendo-se, clientes abnegados, até ao fechar de portas em 1960 por imposição de sentença dos tribunais!
A alusão ao “proletariado do bagaço” deu o mote e moldou o título do longo e pertinente desabafo! O reles apodo com que o autor carimbou o proletariado da Freguesia de Benfica, roça o insulto e escusava de ter saído do tinteiro… Termo rasteirinho, rasca, louvado seja Deus! Consciente ou não, assume uma posição de classe e, também e na minha opinião, ideológica…
Não vou reproduzir, pelo respeito que me merece o Blog “Retalhos de Bem-Fica”, a reacção dos meus amigos e antigos proletários quando rumámos a Gestaçô, no concelho de Baião, em romagem à terra natal de Soeiro Pereira Gomes no centenário do seu nascimento e lhes coloquei, à frente dos olhos, o textozinho que acabámos de abordar… Ficaram, como se calcula, estarrecidos!
Pessoalmente, e porque fui um deles durante alguns anos, não conheço gente mais generosa e solidária, sofredora e, ao mesmo tempo combativa… Nutro um profundo respeito e admiração pelo proletariado, seja dos campos, fábricas ou oficinas e, onde quer que se encontrem, envio a minha mensagem de profunda solidariedade…



Proletariado rural na Quinta de Montalegre, Lisboa. Fausto Castelhano ao colo do tio Augusto. António Russo, o primeiro a contar da esquerda, vive em Benfica.

(Foto de Fausto Castelhano - 1941)



E pronto! Apenas me moveu a tentativa de resgatar a memória achincalhada da “Adega dos Ossos” e dos seus titulares, empregados e clientes que, além do mais, apanharam todos pela medida grossa…
A extrema objectividade e o rigor absoluto imperaram, normas das quais não prescindo!
Está aí, não obstante, não sei se consegui levar a cabo a missão a que me propus: apagar a mancha injusta e retorcida vertida no texto que, em má hora, me veio cair nas mãos e que versava um local nobre e de insuperável carisma, muito querido e respeitado pela população da Freguesia de Benfica.




O café/leitaria “Adega dos Ossos”


Mas, afinal como surgiu a famosa e acolhedora “Adega dos Ossos”?

É uma curiosa e atribulada história e prende-se com a propriedade dos adros da Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, demanda que se arrastou por longuíssimos anos.
Mas, comecemos pelo princípio! Como se sabe, desde tempos remotos e como era uso e costume, o espaço do adro poente da igreja estava ocupado pelo cemitério da Paróquia de Benfica. Em 1846 e demolida a igreja velha, a área reservada às sepulturas foi alargada para 1.250 metros quadrados por motivo de extrema necessidade: uma média de 90 enterramentos por ano tornava exíguo o espaço para tanta mortandade! Além do aumento da superfície útil do coval, o cemitério sofreu vários melhoramentos: a construção de um muro em redor do seu perímetro, além doutras obras e beneficiações.



A Igreja de Benfica e as obras no adro poente para a instalação de várias lojas de comércio sob o espaço onde existiu, até ao ano de 1880, o antigo Cemitério da Freguesia de Benfica. Daí a pouco tempo iria nascer a famosa “Adega dos Ossos”. Na foto, o gradeamento de protecção, desde as escadinhas do Adro Poente e, contornando o início da Calçada do Tojal, prolongava-se até à Rua Ernesto da Silva. À esquerda da foto, o célebre coreto que, no ano de 1900, a prestigiada Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica implantou para as suas actuações musicais.

(Foto de Paulo Guedes - 1940 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Passados poucos anos comprovou-se que, apesar da ampliação, o vetusto cemitério não correspondia às prementes necessidades das populações do burgo. A urgência de um cemitério de maiores dimensões era flagrante. Assim, em 1869 tiveram início os trabalhos de construção de um novo cemitério que iria substituir, não só o Cemitério de Benfica mas, também, o cemitério da vizinha Freguesia de Carnide, localizado ao redor da Igreja de S. Lourenço, isto é, paredes-meias com o Largo do Malvar e da Estrada da Correia.
Efectivamente, assim aconteceu! Em 1880, os restos mortais e as pedras tumulares dos velhos cemitérios de Benfica e de Carnide foram transladadas para um novo local de desova dos cadáveres a que chamaram Cemitério dos Arneiros.
Tanto quanto se sabe, a exumação dos restos mortais destes locais específicos teria sido, de facto, absolutamente atabalhoada e, no que toca ao Cemitério de Carnide, nem as lápides escaparam: muitas jazeram abandonadas no próprio local e ao redor da igreja e outras, reutilizadas em construções diversas.
E chegamos a 1 de Outubro de 1890: a emérita Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica obtém autorização para erigir o seu famoso e polémico coreto no adro poente da Igreja de Benfica ou seja, no espaço onde, alguns anos antes, existira o antigo cemitério. Esta questão foi debatida a nível da Irmandade do Santíssimo Sacramento, proprietária da igreja e adros, e cujo juíz da Irmandade, à época, dava pelo nome de Marquês de Fronteira.
Por unanimidade dos seus membros, a Irmandade concordou, inteiramente, com o pedido da Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica porém, o coreto apenas será inaugurado em 1900 e aí, em pleno terreiro do antigo cemitério eram desenvolvidas as várias actividades lúdicas dirigidas à população: espectáculos musicais, festas, bailaricos, etc. Um pequeno sacrilégio na opinião generalizada das gentes pacatas da Paróquia de Benfica!
Em 1940, como se poderá constatar através de antigas fotos, o coreto e as barraquinhas da sopa dos pobres ainda se encontravam no local e só a partir de 1956, aquando do início das obras do novo Centro Paroquial, as ruínas do célebre coreto e os casinhotos de apoio à população mais carenciada foram, definitivamente, retirados.



O polémico coreto da antiga Sociedade Filarmónica Euterpe de Benfica. O coreto estava assente em base octogonal e possuía cobertura metálica com aspas pintadas.

(Foto do livro “Benfica através dos tempos” - Padre Álvaro Proença)



Com a mudança de regime político em 1910 e com a implantação da República Portuguesa, a Irmandade do Santíssimo Sacramento foi desapossada da propriedade dos adros em 1914 e, posteriormente, o Ministério da Justiça determinou que a concessão da exploração da fachada principal do adro poente fosse entregue a uma sociedade comercial que, entretanto, fora fundada pelos comerciantes da Freguesia de Benfica: a Sociedade Progresso de Benfica… Objectivo: construir e instalar um conjunto de lojas dedicadas ao comércio num sítio, absolutamente, apetecível!
E é aqui que começa a lenda dos ossos! Como? Logo que se iniciaram as escavações nos baixios do antigo cemitério, absolutamente necessárias à construção das lojas, começaram a surgir à luz dia, enormes quantidades de ossadas, fruto da chafurdice operada na transladação dos restos mortais para o novo Cemitério dos Arneiros, mais tarde baptizado de Cemitério de Benfica! Este fenómeno macabro iria repetir-se alguns anos mais tarde, já nos finais da década de 50 do século XX, quando são iniciadas as obras da construção do novo Centro Paroquial.
Então, a fachada do adro poente e virada à Estrada de Benfica, a antiga Estrada Real, iria sofrer as modificações inerentes à instalação das novas lojas de comércio. Segundo era voz corrente nesse tempo, a iniciativa de avançar com uma adega no local, partiu do principal comerciante adjudicatário daquele espaço. E, se já se houvera forte celeuma aquando da fixação do coreto sobre o chamado “campo santo”, ainda com montões de ossadas enterradas e que não teriam sido levantadas condignamente, com a eventual abertura d’uma loja dedicada ao comércio de vinhos e petiscos no subsolo do antigo cemitério e ao lado da própria igreja, o caso iria mudar de figura…



Adro poente da Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica e as barraquinhas de apoio às gentes pobres de Benfica.

(Foto de Arnaldo Madureira - 1960 - Arquivo Municipal de Lisboa)



A esperada borrasca desabou com estrondo! Daí que, para calar as vozes contestatárias, a solução encontrada foi no sentido da abertura de um café/leitaria em concorrência com o conhecido "Café Paraíso de Benfica" do Sr. Manuel Madureira. Presume-se que a ideia inicial de instalar uma adega na zona, também acarretara forte oposição, tanto da taberna em frente, na Estrada de Benfica, como da casa de pasto da Avenida Grão Vasco existentes na mesma área territorial… Os negócios seriam, certamente, afectados...
Não obstante, as referências primitivas da adega e das ossadas do cemitério perduraram, para sempre e ganharam raízes profundas no imaginário das gentes de Benfica! Assim, embora o estabelecimento em questão abrisse as portas como café/leitaria, o nome que ficou gravado na memória da população foi, efectivamente, “Adega dos Ossos”! Estava consumado o baptismo!
Entretanto, a Irmandade do Santíssimo Sacramento jamais se conformou com a espoliação dos seus bens, decisão que considerava lesiva dos seus interesses daí que, no ano de 1938 conseguiu obter uma sentença favorável à sua pretensão e emanada pelos tribunais: a recuperação da “posse dos adros e da igreja” de que fora esbulhada anteriormente e que a Concordata de 1940, firmada entre a Santa Sé e o governo de então, apenas transformou em reconhecimento definitivo. Enfim, a Irmandade do Santíssimo Sacramento alcançava, finalmente, o objectivo que sempre almejou e pelo qual, tanto se esforçara!
A querela com a Sociedade Progresso de Benfica que, entretanto, ocupara com as suas lojas o adro poente, manteve-se. Seguiu-se um longo pleito judicial e, mais tarde, interpretando as boas razões da Irmandade do Santíssimo Sacramento nas suas legítimas pretensões, o Tribunal marcou o ano de 1960 como a data definitiva em que as lojas seriam, obrigatoriamente, removidas do local… E, de facto, assim aconteceu!
Já de posse dos adros e desalojado o café/leitaria “Adega dos Ossos” da fachada do adro poente, a Igreja encetou obras de remodelação de todo o espaço e arrendou as lojas a várias empresas de comércio: a "Fortex" (materiais de construção civil), uma sapataria, etc.
Mas, como não poderia deixar de ser, ali mesmo, foi cometida uma das muitas barbaridades praticadas na Freguesia de Benfica e com plena concordância das entidades oficiais! Está lá, obra verdadeiramente asseada! Do dia para a noite, a Calçada do Tojal apareceu tamponada e, em seu lugar construíram dois mamarrachos: um virado à Rua Ernesto da Silva e o outro, com frente p’rá Estrada de Benfica… Alguém lucrou e muito… com tal negociata!



O actual Centro Paroquial da Freguesia de Benfica, obra de mérito relevante.

(Foto de João Brites Geraldes - 1970 - Arquivo Municipal de Lisboa)



E pronto! A Calçada do Tojal que desde tempos imemoriais tinha o seu início na Estrada de Benfica, num ápice e mercê de enormes manigâncias ocorridas no território da freguesia, sacudiram-na para a Rua Ernesto da Silva e é aí que, actualmente, tem o seu início…
Foi uma época madrasta p’rá Freguesia de Benfica! Nos finais da década de 50 da centúria anterior, o lobby da construção apresentou-se munida de todo o seu poderio: trucidaram, esventraram, arrasaram e pouco escapou à onda destruidora! A descaracterização da Freguesia de Benfica foi colossal, perdendo todo o seu pitoresco, beleza e carisma! Uma imensa desgraceira de proporções bíblicas!
A 7 de Fevereiro de 1959 e através do Decreto-Lei 42142, a Freguesia de Benfica é espoliada dum enorme pedaço do seu território. Nasce uma nova freguesia no Concelho de Lisboa: S. Domingos de Benfica que absorve, também, parte da área correspondente à Freguesia de S.Sebastião da Pedreira.
Presentemente, o espaço do adro poente está integrado no novo Centro Paroquial da Freguesia de Benfica, obra notável iniciada sob a batuta do prior da Paróquia de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, padre Álvaro Proença (1912-1983) o qual, geriu a paróquia com enorme eficiência e dedicação desde 1955 até próximo da data do seu falecimento e enquanto as condições físicas lho permitiram…

Abril de 2011-04-01


Fausto Castelhano










5 comentários:

Anónimo disse...

Se alguem teve paciencia para ler tudo isto, parabéns.

Demasiado florido este texto, passe a escrever em português que se safa muito melhor vai ver.

Quanto ao Texto (documento como lhe chama) em questão. Como aliás todos os textos de A.L.A são obras de ficção.

Lamento, mas exactidão histórica numa obra de ficção é uma coisa que não é nem nunca foi obrigatória.

Fausto disse...

Sr. Anónimo
Eu sei, eu sei que, certamente, a reposição da verdade histórica não iria agradar a muito boa gente! A verdade incomoda mas, as coisas são como são.
Quando se trata de pessoas e lugares em concreto, o sr A.L.A. não pode recorrer de ficção. Um pouco de decoro, nunca fez mal a ninguém! Estava em causa o bom nome de um estabelecimento muito querido da população de Benfica que o sr. Anónimo, se calhar nunca lá entrou!
E quanto o Sr. José Neves, sacristão da Igreja de Benfica, o meu padrinho da Crisma e homem acima de qualquer suspeita, é tratado d'um modo, absolutamente, abjecto!
Quanto ao proletariado, A.L.A. errou o alvo. Ao tempo, teria muito onde apontar, mas noutras direcções como todos sabemos!
Quanto ao valor literário do texto agora publicado, para mim é absolutamente secundário. Estou-me nas tintas. O que eu gostava é que sr. Anónimo contestasse os factos mencionados no texto " A Adega dos Ossos e o Proletariado do bagaço" isto é, as pessoas, os locais, as datas! Consegue?

Alexa disse...

Caro/a Anónimo/a: muito obrigada pelo seu comentário e seja muito bem vindo/a a este blogue (ou, talvez, não, se não for a primeira vez que aqui comenta).

A julgar pelos comentários que deixaram sobre este post na nossa página do Facebook, felizmente, houve muita gente a ter "paciência" para ler este texto até ao fim. O que vem provar, não só o seu valor, como, também, que, apesar de tudo, ainda existem muitas pessoas a ter o gosto pela literatura no nosso país.

Em relação à questão da obra de ficção do António Lobo Antunes, lamento discordar da sua opinião.
É que, apesar das suas crónicas sobre Benfica se poderem tratar de ficção, na medida em que têm sido veiculadas pela comunicação social e por outros canais como se tratando da caracterização histórica de uma certa época da freguesia de Benfica, então, convinha mesmo que se tratassem de veracidades históricas e não de ficções. Só assim se escreve uma História verdadeira! A menos que o/a Anónimo considere que a História também pode ser ficcionada...
E, nesse sentido, acho que o trabalho do Fausto Castelhano foi excelente, do ponto de vista de repôr a verdade sobre factos, lugares e, sobretudo, pessoas da nossa freguesia.

Quanto ao seu comentário a propósito do Português utilizado no texto, sinceramente, não o compreendi.
No entanto, se sentiu incomodado a esse nível, deixo-lhe o repto para que brinde este blogue comunitário com um texto da sua autoria, se assim lhe aprouver.

Cumprimentos,
Alexandra Carvalho

1143 disse...

reconhece?
http://1.bp.blogspot.com/-yulmHgn3pjU/TaCQ4fH5EMI/AAAAAAAAAJg/ted__AXKmVs/s1600/benfica.bmp
gravura oitocentista onde se vê a igreja de Benfica , grande diferença

Fausto disse...

Amigo 1143

Efectivamente, existem algumas diferenças no próprio edifício, embora seja um desenho (Barbosa Lima e gravação em madeira de Coelho e Pedroso) e não uma fotografia.
Lá está a ribeira (o nosso rio, como era conhecido) antes das margens serem muradas.
Na década de 60 do século XX, o rio foi totalmente encanado.
Este rio recebia vários afluentes antes de chegar a Sete-Rios e daí até desaguar no Tejo na zona de Alcântara!
Um dos afluentes mais importantes em Benfica era a ribeira que, partindo das terras de Alfornelos e Pontinha, atravessava a Quinta do Sarmento ou do Bom-Nome, servia de fronteira entre as Quinta do Conde de Carnide e da Granja de Cima e desaguava junto onde, hoje, é o Centro Comercial Fonte Nova.