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quarta-feira, 30 de junho de 2010

A "Foto Nice"




O trabalho que vai sendo efectuado, actualmente, nos blogs na internet torna-se mais interessante e profundo quando os mesmos proporcionam alguma contrapartida positiva aos seus leitores, para além da troca e partilha quotidiana.

No "Retalhos de Bem-Fica" já proporcionámos alguns reencontros familiares, temos vindo a ajudar na busca pelo espólio de um antepassado e, sobretudo, temos conseguido juntar um grupo de pessoas tão diferentes mas unidas por uma vivência comum na nossa freguesia (que têm dinamizado acções e intervenções cívicas muito interessantes e positivas para o desenvolvimento de Benfica).

Foi por isso mesmo que, esta manhã, ao descobrir o comentário que o José António Baptista nos deixou aqui, fiquei tão contente por, mais uma vez, este nosso blog comunitário ter proporcionado algo de bom a alguém.

Porque as palavras do próprio fazem mais sentido do que as minhas, deixo-vos aqui com o seu belíssimo testemunho e memórias...



"Estrada de Benfica" (s/data),
[a aguardar referência ao autor], in Arquivo Municipal de Lisboa





"Do baú das memórias"


Este texto é uma memória com particular importância para mim. Esta versão é de Outubro de 2002 e não me canso de a ler e reler, pois sempre que o faço novas imagens assomam ao meu espírito, em vagas imparáveis, espessas ondas que me transportam para aqueles tempos felizes em que fui criança. Não é por acaso que sou um apaixonado pela arte da Fotografia. Deixo-o aqui, para vossa fruição, ao jeito de saudade e homenagem a esse homem extraordinário que foi o meu tio e padrinho Virgílio Costa:


'A Fotografia'

- Zézinho, queres vir para casa da tia? Era quanto bastava para eu saltar e pular como se de súbito tivesse ensandecido, gritando que sim, que sim, sorriso rasgado de orelha a orelha, pois ir para casa da tia significava passar alguns dias em Lisboa, na casa da tia na estrada de Benfica e ir com o padrinho, fotógrafo de profissão, que era também tio pois era marido da tia, mas que todos preferíamos tratar por padrinho, para a casa de fotografia que ele tinha na mesma rua, mesmo em frente ao já demolido Palácio dos Sanches Baiena ou de Benfica.

A casa de fotografia ficava num primeiro andar por cima de uma taberna escura de tecto muito baixo, e era conhecida como “Fotografia Nice”, mas todos na família a tratavam carinhosamente apenas por a “Fotografia do Padrinho”. Ir com o padrinho para a Fotografia era penetrar num universo maravilhoso de sonho, fantasia e mistério. Era como entrar num sótão velho, cheio de coisas para descobrir, de luzes e cortinas pretas, como um teatro permanentemente montado, aguardando as pancadas de Moliére para a entrada dos actores e começo do espectáculo. A sensação de entrar num sótão era aumentada pelo acesso, feito por uma escada velha e íngreme de degraus de madeira, dramaticamente gastos e que rangiam a cada passo dando um ambiente fantasmagórico à subida. Entrava-se por uma porta com uma mola de correr que engenhosamente fazia soar uma campainha: trimmmm...

Lá dentro, respirava-se o passado. Armários antigos e gavetas que guardavam sabe-se lá o quê. Talvez memórias de quando aquela casa era o local de habitação do padrinho e da família no tempo em que se racionavam os géneros alimentícios. Mas eu tentava saber o que continham tudo o que fosse gaveta ou caixa e abria todas as que podia, atraído por uma curiosidade incontrolável. Era com um misto de prazer e fruto proibido que abria as pequenas caixas de cartão colocadas às dezenas, disciplinadamente, numa prateleira e de cujo interior extraía velhas chapas de vidro, que guardavam antigos rostos em negativo para os quais eu olhava em contra-luz procurando ver o verdadeiro rosto daquelas pessoas, que eu não conhecia mas que ali via aprisionadas para a eternidade, tal como tinham estado naquele dia, naquele instante, agora tornado passado.

A prensa era um brinquedo fantástico pois marcava, com cunhos, as folhas de papel que lá metia. E esmagava sem piedade as molas da roupa, em madeira, que serviam para pendurar as fotografias a secar. Era um gozo imenso rodar aquelas duas grandes bolas metálicas do braço da prensa e senti-la esmagar, num gemido surdo, os pequenos pedaços de madeira. Havia também aparelhos estranhos de funções desconhecidas, projectores de luz, tripés e uma fabulosa máquina de estúdio, em madeira, com um grande fole negro e um pano preto na retaguarda. Máquina que, como o padrinho me mostrou, punha as pessoas de cabeça para baixo. Juro! Juro...! Caixas de luz onde, a um toque num pequeno interruptor, se acendia no centro um rectângulo de luz, no qual, a pincel e tinta da china, negra como carvão, com mão de artista e toque de génio, o padrinho retocava os negativos, para obter fotografias perfeitas. E obtinha! Mas o melhor de tudo era quando o padrinho me levava para a câmara escura. Era como se eu fosse também um actor naquele espectáculo, com o privilégio de conhecer, não só o palco, mas também os bastidores e o segredo dos cenários.

A velha cozinha transformada, de um lado a bancada com o ampliador e do outro uma enorme bacia de pedra com um ralo no centro e com a água sempre a correr e as tinas dos banhos. Entravamos. A pesada e espessa porta fechava-se. O padrinho apagava a branca luz do tecto. Era a obscuridade absoluta. A sensação de estar envolvido numa qualquer aventura, numa conspiração era verdadeiramente fabulosa, única. Sentia que ia ser iniciado pelos deuses num mistério, o qual me ia ser revelado. Na escuridão ouvia a respiração do padrinho, sentia a sua presença e procurava adivinhar-lhe os gestos. Gestos de quem conhecia bem o espaço que trilhava e se movia no escuro como se a luz estivesse acesa. Então acendia-se a luz vermelha, veladíssima, a única permitida, e só de vez em quando, por curtos períodos, pelo material fotográfico. Depois de tudo preparado e posicionado, fazia-se de novo escuro. Na escuridão, ouvia-o abrir a caixa do papel, tirar uma folha e colocá-la com perícia no ampliador. A luz deste acendia-se projectando o negativo no papel através de um cone de luz e eu espreitava, fascinado, olhando com ávida curiosidade aquelas estranhas manchas cinzentas, umas claras e outras escuras. Manchas que tornavam brancos os pretos das áfricas e dos brancos fazia negros! Como se a fotografia quisesse tratar todos os homens da mesma maneira, talvez com o mesmo desprezo. Manchas das quais nasceria a fotografia. Via o padrinho, com as mãos, manipular o cone de luz com gestos de mágico, para compensar zonas mais ou menos queimadas. A folha era colocada na tina com o banho de revelador e, pouco depois, como por magia, a imagem aparecia a pouco e pouco.

Era ver-me, debruçado sobre a tina com o nariz quase mergulhado lá dentro, vendo a superfície do papel a alterar-se, escurecendo, manchando-se de óxido de prata, objectos, corpos, rostos formando-se, como fantasmas saindo do nada. Mais tarde aprendi por que processos químicos aquele fenómeno era possível e eu próprio fiz trabalho fotográfico em laboratório como amador mas naquele tempo, aquilo tinha o sabor da magia, a atracção do inexplicável. Naquele momento, o padrinho era um mago, um prestidigitador. E eu era o público daquele espectáculo fantástico. Público privilegiado e maravilhado. Depois a fotografia passava ainda por fixador e era lavada sendo em seguida pendurada a secar para, ainda húmida, ir para a esmaltadeira. E eu ia dar outra volta, correr todos os corredores, entrar em todas as salas, assomar a todas as janelas, percorrer todos os cantos, procurar em todos os esconsos, saboreando o mais possível a minha aventura naquele castelo mágico. Era assim ir a casa da tia!

José António
Oeiras, 12 OUT 2002

Publicado in "Caracol, Carolas"









terça-feira, 12 de outubro de 2010

Tabernas, Tascas e Casas de Pasto na Freguesia de Benfica (2)




Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2010)




Ler aqui o Capítulo 1



(Capítulo 2)

Por Fausto Castelhano



A pausa terminou! Aprontemo-nos, há muito caminho a palmilhar. Para já, seguimos rentes ao gradeamento em ferro do estupendo palacete do Visconde Sanches de Baena, cuja demolição foi, com efeito, um violento atentado ao património histórico da Freguesia de Benfica. Logo à frente, mais ou menos a meio do trajecto que dista entre o final deste edifício e a esquina da Avenida Gomes Pereira, encontramos o prédio da Junta de Freguesia de Benfica, já arrasado e substituído por mais um prédio inestético, tipo gaiola. No 1º andar, após subir as escuras escadas de madeira e se chegava ao patamar do velho edifício, á direita, lá estava o local da Junta de Freguesia e onde a solícita funcionária atendia os cidadãos, espreitando pelo postigo inserido na respectiva porta. Muito castiço…



Avenida Gomes Pereira, nº 2, gaveto com a Estrada de Benfica. Do outro lado da Avenida, a cervejaria/restaurante “O Edmundo” que ocupou o espaço d’uma das mais reputadas mercearias da nossa Freguesia.
(Foto de Nuno Barros Roque da Silveira - 1972 - Arquivo Municipal de Lisboa)



No rés-do-chão, a cervejaria/restaurante “A Regional de Benfica” a qual, bastantes anos depois, seria rebaptizada: “O Refúgio dos Beirões”. Estabelecimento mais recente e, embora não reunisse as tão peculiares características do género de locais que estamos a abordar, volta e meia, assentávamos arraiais por aquelas bandas beberricando umas cervejolas fresquinhas. Numa salinha interior ajeitada para o efeito, duas mesas de “Negus”, um estimulante atractivo que enchia os nossos momentos de entretenimento…
Contudo, a principal razão que nos levou a frequentar “A Regional de Benfica”, assiduamente e numa época bastante precisa, teria sido a famigerada Gripe Asiática que desembarcou em Lisboa a 9 de Agosto de 1957 a bordo dum navio vindo de África e que, mal desceu pelo portaló e botou os chispes em terra lusa atacou, furiosamente e a eito, a desprevenida população portuguesa, causando inúmeras vítimas, à semelhança de estragos arrasadores noticiados noutros lugares do planeta onde, e “à má fila”, arribou sem cerimónias…
Então, o porquê da “Regional de Benfica”? Ora, só ali obtínhamos os ingredientes necessários (pela variedade de escolha) na composição da vacina milagrosa na esperança, claro está, de nos protegermos, face à latente e grave ameaça do mortífero vírus da tal gripalhada. Nem mais!
Sim, senhor! As famosas e tão badaladas “Atómicas” que obtiveram estrondoso brado pelas redondezas, vacina artesanal de suprema eficácia contra a moléstia maligna, oportuna e genial invenção do grande amigalhaço e vizinho Manecas (1), mercê d’um irrepetível rasgo de discernimento mental! Manecas, serralheiro mecânico de profissão na Fábrica Simões, sempre com alguns trocos nos bolsos e que repartia, irmãmente, com os companheiros de aventuras, era o mais velho e o cabecilha incontestado do endiabrado e solidário grupo de jovens, ao qual tive a felicidade de pertencer… Rapaziada soberba e predisposta a encetar uma qualquer malfeitoria que lhes cintilasse nas fervilhantes cachimónias!



O prédio de gaveto da Estrada de Benfica com a Avenida Gomes Pereira, nº 2. Já foi loja de modas e pronto-a-vestir de senhoras e cavalheiros. Actualmente, é uma dependência do BBVA - Banco Bilbao e Viscaya Argentaria, S.A.
(Foto de Fausto Castelhano - Outubro de 2010)




Então, aí vai a explosiva receita (é uma atenção especial p’rós meus amigos, é de borla, os tempos estão beras como o caraças, mas eu sou assim… um mãos largas p’ró meu semelhante) e o modo do seu preparo, no caso d’uma próxima e favorável ocasião (Chiça! P’ra longe vá o agoiro!), se o temível surto gripal da Asiática pregar uma sádica partidinha e nos visitar de novo no intuito declarado de aterrorizar a maralha até ao tutano! Tomem nota: uma “imperial” bem fresquinha, misturar três das chamadas bebidas brancas fortes, à escolha do freguês ou então, atendendo a uma qualquer sugestão do parceiro do lado (anis, ginjinha, bagaço, vinho do Porto, abafado, gim, brandy e o que mais houvera, à vista, nas prateleiras). Emborcar o medicamento pelas goelas abaixo d’uma só vez e repetir a dose de três em três dias, pelo menos…
Era assim! Engolíamos a diabólica mistela de chapuz a qual, requeria coragem a rodos e estômagos de ferro… A sensação de violento ardor tornava-se patente, brutal, porém havia que aguentar a estopada de cara alegre, ninguém dava parte de fraco, sabe Deus com que extrema relutância… Pior, só óleo de rícino! Muito boa gente da Freguesia de Benfica, atemorizada pela fatal moléstia, seguiu o nosso exemplo e desataram a ingerir o prodigioso remédio… Será que se safaram? Acho que sim, nem outra cousa seria de esperar!
Durante algum tempo, o extravagante tratamento foi seguido à risca sem ninguém pestanejar e, coincidência ou não, o certo é que a rapaziada jamais foi acometida pela funesta epidemia, enquanto uns milhares de infectados iam caindo como tordos! O supremo sacrifício, que o Divino Espírito Santo seja louvado, valeu bem a pena!



A inauguração em 23 de Agosto de 1967 da Avenida do Uruguai: o Presidente da Câmara Municipal, António Vitorino França Borges, o Cônsul do Uruguai em Portugal, o Vice-presidente da Câmara Municipal, Aníbal David, o Director dos Serviços de Abastecimento da Câmara, Filipe Romeiras, etc.
(Foto de João Brites Geraldes - 23 de Agosto de 1967 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Mas, hoje e cá p’ró rapaz, estou convencido de que se tratou de uma sábia maluquice, um feliz desarrincanço, semelhante a tantos outros e que, volta meia, nos surgia como forte relâmpago nos interfolhos das massas encefálicas. O problema, é que todos amocharam, ai daquele que ousasse contestar a ideia e… pronto! As “Atómicas”cumpriram o seu desígnio, vieram p’ra ficar… e recomendam-se…



O prédio de gaveto da Estrada de Benfica, nº567 com a Avenida Gomes Pereira, nº 1. No espaço, hoje ocupado pelo restaurante/cervejaria “Edmundo” existiu, em tempos que já lá vão, uma reputadíssima mercearia.
(Foto de Fausto Castelhano - Outubro de 2010)



Por agora, chega de palheta, vamos dar ao pernil um pouquinho… Olha, lá está a pequena mercearia do Sr. Mané-Mané… Aproveito e compro uns rebuçaditos dos jogadores do chamado desporto-rei, a tostão cada! Ao lado da caixa de lata dos rebuçados, o chamariz desafiante: a bola de catechu nº 4, o prémio p’ró mais difícil da colecção… E o tal que faltava p’ra completar a caderneta, acabava por sair à casa… O habitual e jamais houve notícia de que alguém tivesse a alegria de afinfar uns valentes chutos na chincha que todos cobiçávamos…
Piões e berlindes, cadernos de uma e duas linhas, tabuadas e lápis, lousas e aparos, etc. A tenda do velho Mané-Mané, vendia tudo aquilo que nos enchia as medidas…
Daqui, damos uns passitos e cá estamos no cruzamento da Avenida Gomes Pereira. A 21 de Maio de 1899 e nos terrenos pertencentes da Quinta do Marrocos, iniciaram-se os trabalhos da construção desta importante via entre a Estação dos Caminhos-de-Ferro e a Estrada de Benfica, num projecto elaborado pela Câmara Municipal de Lisboa.
A Avenida do Uruguai, que prolongaria a Avenida Gomes Pereira, ainda não rasgara, de alto a baixo, a Quinta da Granja de Cima… Mais tarde, sim!



Lá está o café/cervejaria e a respectiva esplanada na Estrada de Benfica, nº 524. Actualmente, o local tomou o nome de restaurante/marisqueira “A Roda”. O prédio, mais tarde, iria formar gaveto com a Avenida do Uruguai depois da inauguração em 23/8/1967.
(Foto de Artur Inácio Bastos - 1961 - Arquivo Municipal de Lisboa)



O influente lobby da construção civil, imbuída de insaciável ganância, não perdeu tempo e aproveitou, de mão beijada, a oportunidade que se lhe deparou… Retalhou, a seu belo talante, o mimoso espaço rural que ali pontificava em todo o seu esplendor e era um regalo p’rós olhos... Tomando o freio nos dentes e cavalgando a toda a brida, o cimento armado iria desfigurar, de modo profundo e definitivo, a fisionomia da Freguesia de Benfica… As Quintas da Granja (de Cima e de Baixo) e do Conde; Charquinho (2) e Zé Brito; Bom-Nome ou Sarmento; Montalegre e Palmeiras e a sua extensa mata de eucaliptos e palmeiras, um dos pulmões da Freguesia; Pedralvas, etc. O mundo rural aproximava-se do fim!



A cervejaria/marisqueira “A Roda” no nº 524 da Estrada de Benfica. Neste local, existia um café/cervejaria (com uma outra designação) e, em pleno passeio, uma agradável esplanada.
(Foto de Fausto Castelhano - Outubro de 2010)



Esta via estruturante iria romper p’ra Norte, dando acesso fácil a Carnide, Pontinha, Telheiras, Lumiar, etc., uma vez que, tanto a Estrada do Poço do Chão, como a Azinhaga da Fonte, deixaram de corresponder ao excesso de tráfego que, entretanto, aumentara de modo significativo…
A Avenida do Uruguai, apenas seria solenemente inaugurada em 23 de Agosto de 1967 com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa de então, França Borges, o Cônsul do Uruguai em Portugal e uma panóplia de figurões do regime, além dos habituais mirones e basbaques com o fito indisfarçável d’um instante de glória das suas obscuras vidas: de relance, surgir nos écrans da televisão… Era o máximo que se poderia imaginar! Ah! Não olvidar as amestradas câmaras e microfones da RTP, subservientes do Poder instalado e, como é evidente, a reboque e sempre, sempre de cócoras! As tais fantochadas do costume! Não obstante, nada se modificou, ontem como hoje…



O bonito palacete na Estrada de Benfica, nº544. Neste edifício esteve instalado o Posto Médico nº15 da Caixa de Previdência e, depois do 25 de Abril de 1974, foi ocupado pela UDP - União Democrática Popular. Foi arrasado! Mais um!
(Foto de Armando Serôdio -1971 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Espectáculos apalhaçados que se vão repetindo até ao vómito e sem ponta de escrúpulos dos seus mentores contudo, é o pão-nosso de cada dia, seja na inauguração de chafariz da aldeola do depauperado e desertificado interior do país ou sentina pública da cidade… É Portugal no seu melhor!
No prédio de gaveto da Avenida Gomes Pereira, nº 1, com a Estrada de Benfica, nº 567, o restaurante/cervejaria “Edmundo”. Já lá vão muitos e muitos anos e ali, naquele privilegiado espaço, uma reputadíssima mercearia se destacava na área comercial da nossa Freguesia.



Travessa do Açougue, nº4 a 10. A Travessa do Açougue e o curioso conjunto de habitações de um só piso, provavelmente destinadas ao operariado e que teriam sido construídas em 1913.
(Foto de Arnaldo Madureira 1970 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Saltamos p’ró outro lado da Estrada de Benfica, ou seja, do lado da Avenida do Uruguai e, no prédio de gaveto, o talho/salsicharia (que já foi talho de carne de cavalo) e a cervejaria/marisqueira “A Roda”, no nº 524.
Nas décadas de 50/60 do século XX e com outra designação, neste local existia um óptimo café/cervejaria com a sua agradável esplanada em pleno passeio, como se pode observar na foto que é inserida no texto... No seu interior, assistia-se aos programas d’um novel atractivo e que se tornou, rapidamente e em força, no mais eficaz instrumento de manipulação do maralhal: a Televisão, através da recepção das ondas electromagnéticas emitidas pelo Centro Emissor de Monsanto da RTP
Bebia-se bica ou cerveja, fumavam-se umas cigarradas e, mantendo um pouco de cavaqueira, matava-se o tempo nas calmarias, no relax, para descomprimir…
Agora, vamos caminhar no sentido da Igreja Paroquial, isto é, donde iniciámos o nosso percurso. Lá está o palacete no nº 544, onde funcionou o Posto nº 15 da Caixa de Previdência e onde, pós o 25 de Abril de 1974, a União Democrática Popular - UDP, um pequeno partido parido no auge da Revolução dos Cravos e que, entretanto e tal como muitos outros, se extinguiu de morte natural ou foi absorvido por outras forças políticas, resolveu ocupar e instalar a sua sede local… O vistoso palacete, como se calcula, foi à vida! Mais um…
Umas passadas adiante e já está: a Travessa do Açouque e, cara a cara, a Travessa do Rio e a taberna/carvoaria do Ti’Alfredo onde já estivemos…
Repare-se que, nos últimos anos da década de 50 do século XX e sobre o início da Travessa do Açougue, plantaram um mamarracho mal enjorcado, mas não respeitaram nada nem ninguém. A via foi cortada ao trânsito de veículos e apenas, por especial obséquio, deixaram um pequeno túnel de passagem pedonal. O maldito camartelo nem as ruas poupava. As portas e janelas dos moradores da Travessa do Açougue, nº1 e 3, ficaram encafuadas no interior do túnel… Vão lá ver e pasmem, que maravilha!



Travessa do Açougue, nº 7 e 9. O Sr. Arnaldo, o nosso padeiro e amigo de muitos anos, residia no 1º andar do nº 9.
(Foto de Arnaldo Madureira - 1970 - Arquivo Municipal de Lisboa)




Com a Calçada do Tojal, foi pior, muito pior! De bradar aos céus! A sorte madrasta bateu-lhe à porta, brutamente! Tamponaram, à falsa fé e drasticamente, o acesso directo à Estrada de Benfica que, desde os mais remotos tempos, sempre existiu! Afinal, é capaz de ser um pormenor sem a mínima importância, nós é que estamos a divagar com a mania de implicar por qualquer palheirinha. Mas, atentem, com olhinhos de ver, no abominável fenómeno, digno de registo!
Resta averiguar quem engendrou tais esquemas e manigâncias e quem autorizou a sua execução! Fica a pergunta!
Como se torna claríssimo, no valioso espaço do início da Calçado Tojal, enxertaram um feio mamarracho na Estrada de Benfica, nº664 e outro, de idêntica carantonha, sito na Rua Ernesto da Silva, nº17! Autêntica barbaridade de que a nossa Freguesia de Benfica é fértil, Graças a Deus ou ao Demo, já não atino… p’ra que lado me hei-de benzer… Estou baralhado!
Vamos penetrar no insólito túnel de alguns metros de extensão e deitar uma simples olhadela à Travessa do Açougue… ”Ena, pá! Parece um pátio em ponto grande!”… Por acaso, assim é… O conjunto de casas alinhadas e d’um só piso são, na verdade, algo curiosas e segundo voz corrente, teriam sido construídas em 1913 e destinavam-se à habitação do operariado da Freguesia de Benfica.



O prédio da Estrada de Benfica, nº 554. No nº 554A, a taberna do “Zé da Graça” e onde, presentemente, está instalada uma loja de produtos naturais: “O Celeiro da Memória”. A porta, à esquerda, dava acesso ao andar superior e a uma loja de referência: “Foto Nice”.
(Foto de Artur Goulart - 1960 - Arquivo Municipal de Lisboa)




No 1º andar do nº 9, residia o nosso padeiro, o Sr. Arnaldo, sempre prestável e com o qual mantínhamos uma relação de sincera amizade. Em 1948, um seu filho, pequenito, adoecera gravemente com a meningite. Fomos visitá-lo em sua casa… Prostrado, aplicavam-lhe sanguessugas sobre a fronte, as quais iam sendo revezadas à medida que inchavam de sangue do menino, sugado pela ventosa glutona dos repugnantes animaizinhos… Nada resultou e a infeliz criança esticou o pernil daí a dias… As sanguessugas, jamais as esqueci! Ao relembrar a sua visão, causa-me inesperados arrepios!



Cá está o prédio da Estrada de Benfica, nº 554. Aqui, na entrada do lado direito com o nº 554A, existia a taverna do “Zé da Graça”. Hoje, o local da taverna mudou de ramo. Actualmente, é uma loja de produtos naturais: “O Celeiro da Memória”. No 1º andar, estava instalada a “Foto Nice”.
(Foto de Fausto Castelhano - Setembro de 2010)



Fazendo quina com a Travessa do Açougue, o remodelado prédio da Estrada de Benfica, nº 554. No 1º andar, a célebre Foto Nice (já não existe, que pena!) e, na porta ao lado, nº 554A, a taberna do “Zé da Graça”, uma simpatia de pessoa e aonde os clientes não faltavam e nem se davam por defraudados p’rá vinhaça do barril e petiscos… Hoje, o antigo e mítico estabelecimento mudou de ramo: uma loja de produtos naturais, muito na moda: “O Celeiro da Memória”.
Por agora, ficamos por aqui… O esqueleto exige um pequeno descanso!


Continua…





NOTAS


(1)


O “Manecas"



O “Manecas” morava na Estrada dos Arneiros, nº 2. Vivia com a mãe, viúva, a D. Bernardina, e os tios, a D. Maria e o Sr. João e, ainda, o filho de ambos e nosso companheiro de façanhas, o Armando. O Henrique, irmão do Armando, aluno interno da Casa Pia, só tinha ordem de soltura aos fins-de-semana. O Sr. João, porteiro (um biscate) no Cinema da Avenida Gomes Pereira, sede do Sport Lisboa e Benfica, como bom vizinho e amigo que era, se a lotação não esgotava deixava-nos entrar à borla… mas sempre com o olho atestado no pessoal…



A casa onde morava o “Manecas” na Estrada dos Arneiros, nº2, à esquerda; no nº2A, à direita, morava a família do Sr. Manuel Estrelado.
(Foto de João H. Goulart -1965 - Arquivo Municipal de Lisboa)




Dezembro de 1952 - Estrada dos Arneiros, nº2A, onde morava o Sr. Manuel Estrelado, a esposa e os dois filhos: o José da Conceição (faleceu em 1957, vítima de atropelamento no Calhariz de Benfica) e a Maria da Encarnação, com quem vim a casar e que faleceu em 1983. Na foto, o José e o avô materno.
(Foto de Fausto Castelhano)




“Manecas” entregou a alma ao Criador na década de 80 do Século XX. Espero, lá onde estiver, que continue a repartir pelos comparsas lá do sítio, as “bombinhas” e as “rabichas” dos Santos Populares que costumávamos atirar pelas janelas e a enfiar nas ranhuras das caixas do correio dos nossos vizinhos de Benfica…




(2)


A Quinta do Charquinho



A Quinta do Charquinho tinha entrada pelo nº 4 da Estrada dos Arneiros. No seu lugar e nos finais da década de 50 do século XX, foi edificado o Bairro do Charquinho e, parte do seu espaço, seria ocupado pelo Cemitério de Benfica aquando do seu alargamento.



Estrada dos Arneiros nº2 e 2A, 4 e 6, a contar da direita para a esquerda. Entre estas duas moradias, está o portão de entrada da Quinta do Charquinho.
(Foto de João H. Goulart -1965 - Arquivo Municipal de Lisboa)



Primavera de 1947 na Quinta do Charquinho - Da esquerda para a direita, em cima: as minhas duas irmãs, Helena e Manuela e entre as duas, o Manuel, namorado da Manuela; e os velhos amigos da família, o Sr. Ferreira e a esposa D. Felícia. Em baixo, mais três amigos e o Fausto. Vinham p’rós almoços de coelhos e galinhas de cabidela, regadoss com a excelente àgua-pé, a melhor das redondezas e fabricadas com uvas de grande qualidade da região de Torres Vedras. As uvas, de candonga, eram transportadas em camiões, de madrugada, contornando a Fiscalização Económica, muito severa.
(Foto de Fausto Castelhano)



Até ao final dos anos 40 do século XX existia, na Quinta do Charquinho, o mais prestigiado Retiro das chamadas “Freguesias do Termor” e onde comia e bebia do bom e do melhor e, claro, cantava-se o Fado em grande estilo com os mais conceituados fadistas da época.


Fadistas da Velha-guarda

Em tempos que já lá vão,
O fadista era gingão,
alcunhado de rufia...
De calça estreita e samarra,
Chapéu largo e uma guitarra
Era alguém na Mouraria

Gostava de ir ao Charquinho,
Aonde havia bom vinho
E fresca sardinha assada...
Outros mais para lá iam
E todos se divertiam
Em fados à desgarrada

Ia ao Ferro d’Engomar,
Muitas vezes petiscar,
Ou mesmo ao Senhor Roubado...
E sempre de farra em farra,
Entre mãos uma guitarra,
O corrido era seu fado.

Agora tudo mudou,
A Mouraria passou
Para a tela dos artistas...
No seu lugar uma praça,
Por onde o fado não passa,
Nem já lá param fadistas.

Agora já não há gingões
Quem canta, canta canções,
Direito, bem aprumado...
E a alcunha do fadista,
Passou a ser a de artista
Que ao swing, chama fado

Um apelo, agora, faço
Vai com ele o meu abraço
Para o fado que cobiço:
Que os novos que o palco tem,
Passem a cantar, também,
O nosso fado castiço.

Luciano Marques




A morte da última moradia dos velhos tempos…


Na moradia da Estrada dos Arneiros, nº 30, vivia o Sr. Rogério Cardoso, professor na Escola António Arroio, (faleceu em 2009) e família: a esposa, D. Beatriz, já falecida, e os quatro filhos, companheiros de andanças (Norberto, Paulo, Jorge e Orlando. Esta foi a última demolição ocorrida tanto na Estrada dos Arneiros como na Estrada do Poço do Chão… Paz à sua alma!



A última casa a ser demolida na Estrada dos Arneiros, 30.
(Foto de Arnaldo Madureira -1970 - Arquivo Municipal de Lisboa)











domingo, 29 de dezembro de 2013

A Travessa do Açougue - o 1º Centenário das “moradias em banda” de cariz operário




Todos os direitos reservados @ Fausto Castelhano, "Retalhos de Bem-Fica" (2013)



A Travessa do Açougue - o 1º Centenário das “moradias em banda” de cariz operário


(por Fausto Castelhano)




Ao revisitarmos demoradamente a velhinha Travessa do Açougue aproveitámos a soberana ocasião que se nos deparou e resolvemos tomar em mãos a iniciativa de singela mas justíssima comemoração dando-lhe justificada relevância quando se assinala a efeméride do 1º Centenário da construção do emblemático bloco de “habitações em banda” de cariz operário na sequência das profundas alterações ocorridas no já longínquo ano de 1913 que transfiguraram, de modo substancial, o perfil da recatada artéria. 


Conjunto de “moradias em banda” na Travessa do Açougue 4 a 20/Estrada do Poço do Chão, 2, a actual Rua da Bolívia.
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Além do mais, a Travessa do Açougue alberga no bojo uma história algo interessante polvilhada de pormenores peculiares que importa conhecer e divulgar tendo em vista que não encontramos o mínimo paralelo no contexto da rede viária da Freguesia de Benfica. 


Ao fundo e frontal à Travessa do Rio (donde foi obtida a imagem) avista-se o início da Travessa do Açougue.
(Foto de João H. Goulart, 1960 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Assim, no enfiamento da Travessa do Rio (toponímia atribuída ao Beco Visconde Sanches de Baena após a implantação da República Portuguesa no ano 1910) e inserida num notabilíssimo conjunto de vetustas habitações, lobrigamos a curiosa Travessa do Açougue. 



Estrada de Benfica, 554/554A - A taberna do Zé da Graça e a Foto Nice (1º andar). Nos pisos superiores, também residia o passarinheiro “Passarinho Moni”. À direita deste prédio tinha início a Travessa do Açougue (Foto de Artur Goulart, 1961- Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


E lá está, mais ou menos estrangulada entre os prédios da Estrada de Benfica, 552 (construído em 1960/1961 depois da malfadada demolição do venerável palacete do século XVIII) e o gaveto na Estrada de Benfica nº 554/Travessa do Açougue, nº1 (rés/chão, 1ºandar e águas-furtadas), moradia onde estabeleceram domicílio ou ramos de negócio, meritórios cidadãos que a população de Benfica prezava em absoluto. 

Assim sendo, vejamos os seus inquilinos: 
O já saudoso Sr. José da Graça, homem de trato lhano e que geria com eficiência a sua modesta, mas cativante taberna, um dos locais de eleição onde o “povo miúdo” da comunidade aportava no intuito de acamaradar com amigos alguns momentos de amizade e lazer, ora cavaqueando qualquer assunto que por mero acaso viesse “à baila”, ora participando de modo activo nas renhidas jogatinas de “dominó” ou “damas”, “sueca” ou “bisca de quatro”. 



Estrada de Benfica, 546 (antigo nº 481). A entrada do venerável edifício do século XVIII demolido na segunda metade da década de 50 do século XX e que formava gaveto com a Travessa do Açougue. No seu espaço foram construídos prédios de habitação em regime de “propriedade horizontal” e lojas comerciais 
(Foto de Eduardo Portugal, 1951 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


E, claro está, sem jamais prescindirem do trivial copázio de “vinho genuíno do lavrador” ou trago de macia bagaceira enfiados pelo “garganhol” abaixo e, quando o “rei fazia anos”, o tilintar de meia dúzia de tostões no bolso davam sinais de vida ou mercê de ocasião propícia, ninguém se escusava na pronta degustação de eventual petisco caseiro de “arregalar o olho”. 



Estrada de Benfica, 546 - Pedra de Armas (já mutilada no topo) e que estava colocada no palacete da Estrada de Benfica, 546 e demolido nos “anos 50” do “século XX” 


E mal findava o “defeso” e despontava o Outono, os extractos mais desfavorecidos da população aproveitavam as tardes de Domingo e abancavam, infalivelmente, pelas várias tabernas e tascas do burgo acompanhando, a par e passo, os emocionantes relatos radiofónicos do Campeonato Nacional de Futebol da 1ª Divisão transmitidos através das ondas hertzianas da Emissora Nacional na voz vibrante de Domingos Lança Moreira ou Alfredo Quádrio Raposo e, anos mais tarde, Amadeu José de Freitas e tantos outros… E sempre, sempre à volta do tal copinho de vinho tinto ou branco da praxe. Tempos safados e já um tanto perdidos no tempo valha a verdade, mas onde possuir um simples receptor de rádio e só de Onda Média representava, sem qualquer dúvida, autêntico objecto de luxo. A porta de entrada do prédio propriamente dito (Estrada de Benfica, 554) dava acesso aos pisos superiores. Os reputados Estúdios da Foto Nice estavam sediados no 1º andar, onde o Sr. Virgílio, exímio profissional na exigente especialidade de “tirar retractos”, seja em estúdio, casamento ou baptizado, “dava cartas” em concorrência com a categorizada Foto Águia d’Ouro (Estrada de Benfica, 574 onde pontificava a afabilidade de Alice Lisboa, a Beca para amigos e vizinhos, dominando sem qualquer dificuldade, a técnica de criação de imagens a expensas de fonte luminosa e a sua posterior fixação em película adequada. 



Panorâmica da Travessa do Açougue no sentido Este/Oeste. Ao fundo, o termo do arruamento na confluência da Estrada do Poço do Chão (actual Rua da República da Bolívia) com o Largo da Cruz da Era. À direita, o bloco de “moradias em banda” 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Anos mais tarde surgiria a conceituada Fotografia Flórida localizada na Estrada de Benfica, 678C, 1º Frente contudo, a entrada fazia-se na fachada lateral, exactamente no adro oriental da Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica. 



Vista geral da Travessa do Açougue no sentido Este/Oeste. Ao fundo, a bifurcação com o Largo da Cruz da Era e a Estrada do Poço do Chão (actual Rua da República da Bolívia) À direita, o conjunto de moradias de “cariz operário” construídas em 1913 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Chegados aqui, vamos relançar uma demorada olhadela à histórica Travessa do Açougue, mas recuando ao mês de Outubro de 1947 quando, provavelmente, teríamos irrompido pela primeira vez no maltratado piso da referida via, ou seja, seguindo a rota do habitual caminho que nos levava à Escola Primária que iríamos frequentar no início do primeiro período da 2ª Classe. 



Travessa do Açougue, 25. O final da Travessa do Açougue na bifurcação do Largo da Cruz da Era e da Estrada do Poço do Chão (actual Rua da República da Bolívia). Neste último edifício do lado esquerdo esteve instalado desde a década de 40 do século XX, o afamado “Ferro-velho”, o ramo de negócio do Guarda-nocturno da área. 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Afinal, tratava-se de atalho natural depois de calcorrearmos o longo trajecto desde a Estrada dos Arneiros onde residíamos e, seguindo pela Estrada do Poço do Chão, cruzávamos a Travessa do Açougue, desaguávamos em plena Estrada de Benfica e, um pouco mais à frente, chegávamos ao final da etapa na Quinta do Marrocos, local onde se erguia o barracão de albergava as quatro salas de aula da Escola Primária Elementar nº47, precisamente à ilharga, não só do antigo Quartel do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Benfica, mas também das alongadas traseiras da Fábrica Simões e defronte da Cozinha dos Pobres da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a celebérrima “Sopa do Sidónio” ou “Sopa do Barroso”. 



Travessa do Açougue, 3A e 5 (lado direito). Panorâmica no sentido Oeste/Este e, ao fundo (a Nascente), um dos portões de acesso à Quinta da Granja de Cima registado com o nº2 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Ora, o início da discreta Travessa do Açougue sempre se salientou pelo especial condão de passar quase despercebida a transeuntes menos observadores que circulassem pela Estrada de Benfica, não obstante e percorridos os iniciais 15 metros (Sul/Norte), abre-se um alargado espaço, à esquerda e no sentido Este/Oeste, facto que ainda hoje acontece e que induz, logo ao primeiro impacto, a visão inopinada de um enorme pátio ou terreiro de dimensões invulgares e onde se torna patente, a esplêndida fileira de moradias geminadas que tamanha admiração continuam a causar. 



Travessa do Açougue, 20. A última moradia (gaveto) no lado direito localizava-se na confluência do Largo da Cruz da Era e da Estrada do Poço do Chão, actual Rua da República da Bolívia 
(Foto de Artur Goulart, 1965 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Mais adiante, a espaçosa superfície afunila e termina na bifurcação do Largo da Cruz da Era e da Estrada do Poço do Chão (actual Rua da República da Bolívia) perfazendo o comprimento aproximado de 80 metros. 



Travessa do Açougue, 3A, 5, 7A, 7, 9 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Assim sendo, coloca-se a premente pergunta: será que a Travessa do Açougue consegue reunir todos os predicados que lhe conferem o estatuto deste género de arruamento tendo, na devida conta, o formato do traçado, tal e qual como se apresenta? Pois bem e sem mais delongas, vejamos a definição de “Travessa”: “rua estreita e curta entre outras duas ruas principais; pequena rua transversal”. Nesta medida, certamente haverá uma sólida e plausível razão que torne entendível tão flagrante facto. Com efeito, recuando além de uma centena de anos e dispondo da parca documentação disponível, verifica-se que o presente topónimo teria sido concedido mediante um Decreto de 1889 quando o Travessa do Açougue expunha uma faceta algo diferente em relação àquela com que somos defrontados hoje em dia, contudo ignoram-se os reais motivos da atribuição da mencionada nomenclatura que, ao cabo e ao resto, perdura desde o final do século XIX até aos nossos dias… 



Travessa do Açougue, 3A, 5, 7A, 7, 9 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


A hipótese mais provável aponta para a existência de um açougue de relativa amplitude integrado no próprio local ou suas imediações, favorecido pela superior vantagem de usufruir de curso de água corrente muitíssimo próximo, sito na Travessa do Rio (Ribeira de Benfica), factor determinante associado às múltiplas tarefas que se desenrolam nas actividades inerentes aos matadouros (açougues) desde o abate, o desmanchar das rezes e à comercialização. 



Travessa do Açougue, 3A, 5, 7A, 7, 9, 11, 15 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Entretanto, face à observação em pormenor da Planta Topográfica 4O datada de Junho de 1908 (Arquivos da Câmara Municipal de Lisboa) permite-nos concluir, inequivocamente que, afinal de contas, a estreita Travessa do Açougue assumia em épocas mais remotas, a sua verdadeira característica, ou seja, condizente com a condição de Travessa, tal como se sublinhou atrás e apenas sofrerá modificações de monta em 1913. 



Travessa do Açougue, 7A e 7. A moradia onde residia a família do Sr. Arnaldo, um dos padeiros que procedia à distribuição de pão ao domicílio nas ruas da Freguesia de Benfica 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Assim, a exígua largura do primitivo traçado resumia-se a cerca de 2/2,5 metros e apenas consentia a circulação de veículos de tracção animal (tão comuns num passado já distante) e estava cingido, não só pelo casario alinhado em todo o percurso do lado esquerdo mas, também, no lado direito e desde o seu início, por um primeiro troço de cerca 15 metros (sentido Sul/Norte e mais largo que o restante) e que correspondia à extrema da propriedade da Estrada de Benfica, 552 (demolida na “década de 50” do século XX). A partir daqui, e guinando à esquerda no sentido Este/Oeste, o forte muro da Quinta da Granja estabelecia a fronteira da Travessa do Açougue até ao seu termo, isto é, a bifurcação do Largo da Cruz da Era e da Estrada do Poço do Chão (actual Rua da Bolívia). Refira-se que o primitivo trajecto e que contorna as habitações no lado esquerdo permanece funcional embora com limitações no final da via devido à aplicação de três degraus e patamar em pedra. 



1 - Quinta da Granja de Cima (roxo, tracejado); 2 - Quinta do Caldas (castanho tracejado); 3 - Quinta dos Baldaias ou Quinta de Colares Pereira (laranja tracejado); 4 - Quinta do Visconde de Baena; 5 - Ribeira de Benfica/Ribeira de Alcântara ou Caneiro de Alcântara; 6 - Chafariz das Águas Livres; Travessa dos Arneiros, actual Rua dos Arneiros (azul); 7 - Passagem pedonal (quelha) entre a Estrada de Benfica e a Travessa do Açougue; Estrada do Poço do Chão (verde); Largo do Espírito Santo/Rua do Espírito Santo, actual Largo Ernesto da Silva/Rua Ernesto da Silva (vermelho); Travessa da Cruz da Era/Largo da Cruz da Era (verde tracejado); Travessa do Açougue (laranja); Travessa do Vintém das Escola/Beco do Vintém das Escolas, antiga Travessa do Espírito Santo (amarelo); Estrada das Garridas (vermelho tracejado); Travessa do Rio (verde tracejado). 
Extracto da Planta Topográfica 4O - Junho de 1908 (Arquivo Municipal de Lisboa) 


Além da colocação de passeios, as bermas e valetas foram objecto de melhorias significativas apenas na década de 80 do século XX e o empedrado basáltico foi substituído por tapete de asfalto contudo, o segmento inicial de 15 metros manteve a estrutura antiga em pedra negra de calçada. 



Travessa do Açougue, 7 e 9 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Erguidos no lado esquerdo da artéria, as traseiras dos fogos citados colidem com o flanco posterior (anexos e pequenos espaços) do soberbo quarteirão de edifícios que remontam aos séculos XVIII e XIX (incluindo exemplares da Era Pré-Pombalina) que se estendem na Estrada de Benfica desde a Travessa do Açougue (Estrada de Benfica, 554) até ao prédio de esquina, sito na Travessa da Cruz da Era, 2/Estrada de Benfica, 608). Engloba, também, a totalidade das moradias nesta curta via (cerca de 45 metros), isto é, contidas desde o início até ao seu termo no Largo da Cruz da Era. Valioso conjunto arquitectónico que urge preservar a todo o custo e que se encontra totalmente reabilitado com excepção da moradia assinalada com os números 580 a 584 a qual, se não forem tomadas medidas convenientes e atempadas continuará a degradar-se pouco a pouco correndo-se o risco de iminente derrocada. Nos últimos anos foram empreendidas várias benfeitorias dignas de apreço, tanto a nível dos rés/chão, como também no que concerne às paredes-mestras e travejamentos, reforço de telhados ou soalhos valorizando, sobremaneira, os edifícios em questão… Analisando “à lupa” a Planta 4O de 1908 mencionada anteriormente descobre-se ainda, uma surpreendente quelha ou viela que permitia, em tempos idos, a passagem pedonal desde a Estrada de Benfica até a um ponto situado, sensivelmente, a meio do percurso original da Travessa dos Açougue. 



A entrada da oficina de reparação de automóveis do Sr. José Ernesto (Travessa do Açougue, 11) e habitação demolida nos “anos 80” do século XX. Em seu lugar foi erguida uma moradia (Travessa do Açougue, 13) composta por rés/chão e 1º andar onde reside a família do Sr. José Ernesto 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


A proveitosa ligação teria sido vedada em data indeterminada, já depois de 1937 por meio de dois portões metálicos s/número, quer pelo lado da Travessa do Açougue entre os nºs 13 e 17, quer na Estrada de Benfica, intercalado entre os prédios registados com os nºs 590 e 592. 



Edifício na Estrada de Benfica, 580 a 584 e que se encontra em adiantado estado de ruina 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Enfim, comprovámos “in loco” e por mera curiosidade, a existência efectiva deste pormenor verdadeiramente extraordinário e, mesmo na consulta à Carta Militar de Portugal dos Serviços Cartográficos do Exército de 1937, constatamos que a citada interligação intermédia algo inesperada, mas de insuspeitada valia, continuava aberta ao vaivém da população no afã dos seus afazeres quotidianos. 



Travessa do Açougue,11 (oficina do Sr. José Ernesto) e 13, a residência da família do Sr. José Ernesto. Moradia edificada no local onde existia uma habitação bastante antiga (apenas um piso) e demolida nos anos 80 do século XX 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 



O já obsoleto, mas utilíssimo percurso que ao longo de sucessivas gerações serviu exemplarmente os cidadãos de Benfica, manteve-se imutável até ao dealbar do ano de 1913 quando a tranquilidade da obscura Travessa do Açougue foi subitamente estremecida por um brutal salto qualitativo que modificou de modo definitivo, o antigo aspecto físico que remontava a muitas épocas atrás. Como assim? Pois bem, sucede que os proprietários da Quinta da Granja de Cima (Família Cannas) concederam apreciável parcela da enorme herdade, a qual e ao tempo balizava, todo o lado direito da Travessa do Açougue excluindo, como já se citou, o segmento inicial de 15 metros. Derrubado o robusto muro divisório da Quinta da Granja de Cima, a exiguidade do velho itinerário da Travessa do Açougue amplia-se de modo considerável atingindo assim, novos e impensáveis limites no sentido da largura (Sul/Norte) redesenhando quiçá, um figurino em moldes absolutamente distintos do anterior. 



Travessa do Açougue (vermelho); Largo Ernesto da Silva, Rua Ernesto da Silva e Travessa do Vintém das Escolas (cinzento); Largo da Cruz da Era e Travessa da Cruz da Era (azul); Passagem pedonal (amarelo). 1 - “Moradias em Banda” do Bairro Operário da Travessa do Açougue; 2-Estrada de Benfica; 3-Estrada do Poço do Chão (actual Rua da Bolívia); 4-Calçada do Tojal; 5-Rua Cláudio Nunes; 6-Travessa dos Arneiros (actual Rua dos Arneiros); 7-Avenida Grão Vasco; 8-Estrada das Garridas; 9-Avenida Gomes Pereira; 10-Travessa do Rio (Extracto da Carta Militar de Portugal (1937) dos Serviços Cartográficos do Exército) 


O segmento inicial da Travessa do Açougue, a Nascente e no sentido Sul/Norte, salta de 15 metros e alcança a fasquia de 37 metros e a embocadura do lado Poente, ou seja, a bifurcação com a Estrada do Poço do Chão/Largo da Cruz da Era, passará de 2/2,5 metros a 20 metros. Medidas que implicam, obviamente, a largura das moradias (cerca de 10 metros). 



Portão s/número na Estrada de Benfica intercalado entre os nºs 590 e 592, um dos pontos de ligação da antiga passagem pedonal entre a Estrada de Benfica e a Travessa do Açougue existente entre os nºs 13 e 17 e, entretanto, vedada em data indeterminada depois de 1937 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Arranca a construção de harmonioso bloco de “moradias em banda” (apenas rés/chão) coroadas no topo e ao longo da fachada principal por um arremedo de ameias ao nível do telhado. Simultaneamente e ladeando o novíssimo empreendimento, será delineada uma ampla faixa de rodagem em terra batida e ausência de passeios para peões e onde, seguramente, a precaridade saltava à vista, mas que irá facilitar, sem dúvida, o trânsito rodoviário em ambos os sentidos. Podemos laborar num grave de erro de apreciação não obstante, estamos convictos que a simplória Travessa do Açougue nunca mereceu grandes favores das entidades competentes. Esquecida, propositadamente ou não, alvo de uma espécie de claríssima marginalização, só a muito custo foram obtidos alguns benefícios, tanto a nível da pavimentação ou passeios, bermas ou espaços livres. As péssimas condições de circulação, tanto de veículos como de pessoas perdurará por tempo infinito e só serão supridas aquando da sua completa remodelação nos “anos 80” do século XX. O piso de terra batida será eliminado e substituído por tapete asfaltado. 



Portão na Travessa do Açougue s/número entre os nºs 13 e 17 e que permitia a interligação pedonal com a abertura localizada na Estrada de Benfica s/número entre os nºs 590 e 592 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa) 


Essencialmente de índole social, as inovadoras moradias serão reservadas ao alojamento dos trabalhadores rurais da Quinta da Granja de Cima, mas ao alcance do proletariado residente na área territorial da Freguesia de Benfica, abrangendo alguns empregados e operários da prestigiada Fábrica Simões



Actual portão s/número na Travessa do Açougue entre os nºs 13 e 17 e que permitia a interligação pedonal com a abertura localizada na Estrada de Benfica s/número entre os nºs 590 e 592 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Abarca um núcleo de dez fogos em correnteza de arquitectura ímpar (3 assoalhadas, cozinha, hall de entrada, além de pequeno quintal) concentrados no lado direito (Este/Oeste) da Travessa do Açougue desde o nº4 ao nº20. Este último, concebido em forma de gaveto abrange, ainda, a moradia da Estrada do Poço do Chão, 2 (actual Rua da Bolívia). A estrutura edificada cobre uma superfície total de 600 m2 (60x10 metros), aproximadamente. 



Travessa do Açougue, 15, 17, 19 - A moradia com os números 17 e 19 (onde laborou uma carpintaria em tempos muito antigos) foi demolida na primeira década do século XXI. Nesse espaço ergueu-se o actual prédio de Rés/chão e 1º andar, registado com o nº 17 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Por não disporem de água canalizada nas moradias, os moradores acarretavam o precioso líquido para o consumo diário por meio de cântaros ou outro vasilhame apropriado e abasteciam-se em dois locais principais: Chafariz das Águas Livres na Estrada de Benfica no início da Estrada das Garridas (desactivado) e um dos poços na Quinta da Granja de Cima junto da habitação D. Gertrudes, a guarda/porteira da herdade (entrada na Estrada do Poço do Chão). Para o efeito, as aberturas introduzidas nos muros dos quintais de cada um dos fogos e mais tarde eliminadas, facilitavam as incursões ao poço providencial. A distribuição domiciliária, tanto de água da Companhia das Águas de Lisboa, como de energia eléctrica da CRGE, só ocorreu em 1948. 



Travessa do Açougue, 17 e 19 – Moradia já demolida na primeira década do século XXI e onde, em épocas passadas, laborou uma carpintaria. O espaço foi ocupado pelo actual prédio de Rés/chão e 1º andar registado com o nº 17 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Os despejos domésticos efectuavam-se em acanhados casinhotos localizados nos quintais e incluíam simples sanitários que estavam ligados à rede de saneamento básico situada no extremo Este da Travessa do Açougue. Posteriormente, os próprios inquilinos introduziram melhorias nas suas habitações, nomeadamente no que se refere às casas de banho que foram perfeitamente incorporadas no interior e apetrechadas com os necessários requisitos. 



Travessa do Açougue, 17 e 19. Habitação demolida na primeira década do século XXI quando já ameaçava derrocada e onde, em tempos já remotos, laborou uma carpintaria. No espaço será construída uma nova moradia 
(Foto de Gomes Mota, 2002) 


Mas, então, quem residia ou ainda reside na Travessa do Açougue? Um punhado de gente altamente respeitável, operários, empregados, comerciantes, etc. e que, no decurso de várias gerações, sempre nos habituámos a saudar com deferência quando nos cruzávamos aqui e ali, em qualquer espaço da urbe onde nascemos e vivemos a maior parte da nossa já longa existência. 



Travessa do Açougue, 17. A actual moradia foi construída na primeira década do século XXI após demolição da antiga habitação registada com os nº17 e 19 e onde funcionou uma carpintaria 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Assim e desde logo, vamos ao encontro da Srª. D. Elisa do Rosário Pereira Nunes, a simpática inquilina da moradia nº10 e a quem endereço sinceros agradecimentos pela desinteressada colaboração e as preciosas informações prestadas na identificação de inúmeros dos seus vizinhos, tanto actuais como antigos. A Srª. D. Elisa nasceu, precisamente aqui, corria o ano de 1929 e a sua avó foi a primeira locatária da habitação. Bom, agora recordemos alguns cidadãos mais à mão de semear que nos ficaram na memória e residentes da Travessa do Açougue: O Sr. Paulo (pai da D. Capitolina, já falecida e que conheci em jovem na década de 50/60 do século XX), técnico de nomeada, exercia a minuciosa profissão de relojoeiro junto à janela da sua residência, a moradia nº16. 



Travessa do Açougue, 19, 21, 23, 25 - Ao fundo, a bifurcação com o Largo da Cruz da Era e a Estrada do Poço do Chão (actual Rua da Bolívia). Na foto observa-se, ainda, o Ford Prefect, matrícula LF-13-68, o automóvel do Sr. Manoel de Almeida e Sousa, o dono da Farmácia União.
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


E quem não conhecia o célebre “Chico Carreira”? Filho de Francisco Luís Gato e de D. Capitolina vivia com os pais na moradia nº 6. Depois do matrimónio com D. Teresa, ali residiram após o casório de que resultaram 2 filhas: a D. Capitolina e a D. Maria Teresa. 



Travessa do Açougue, 21, 23 - Na foto, avista-se o Ford Prefect, matrícula LF-13-68, o automóvel do Sr. Manoel de Almeida e Sousa, o dono da Farmácia União .
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa) 


Proprietário de afamado restaurante no “Parque Mayer”, além de um óptimo talho localizado na Estrada de Benfica nº570/572 o qual, mais tarde, encerraria. Abriria portas, seguidamente, com um novo titular e outro ramo de comércio: loja de móveis e afins. Durante muitos anos, “Chico Carreira” foi dono do único automóvel existente nas mãos do núcleo populacional da Travessa do Açougue. Tratava-se de espampanante espadalhão que não deixava ninguém indiferente. 



Travessa do Açougue, 4 a 20. Conjunto de “moradias em banda” de cariz operário 
(Foto de João H. Goulart, 1969 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


A família do Sr. José Ernesto estabeleceu residência no nº13 e a sua oficina de mecânica, bate-chapa e pintura ocupava o barracão cuja entrada se fazia pelo nº11. O actual prédio (rés/chão e 1º andar) onde presentemente reside a família do Sr. José Ernesto, foi construído nos “anos 80” depois da demolição de uma antiga habitação de um só piso (nº13). O Sr. José Ernesto entregou a alma ao Criador em Janeiro de 2009 e a esposa, D. Florinda, faleceu recentemente (Dezembro de 2013). O Sr. Arnaldo e respectiva família assentaram arraiais no prédio nº7 (rés/chão e 1º andar). Exercia a profissão de padeiro e, alombando com o enorme e tradicional cesto de verga, percorria as ruas de Benfica na distribuição de pão porta-a-porta. Passados alguns anos, adquiriu uma pequena furgoneta de caixa fechada que lhe facilitou a dura e cansativa função. 



Travessa do Açougue, 4 a 20. Conjunto de “moradias em banda” 
(Foto de João H. Goulart, 1969 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


A D. Irene, a famosa “Girafa”, alcunha como era conhecida a ilustre figura de proa da Marcha de Benfica e que alinhou “anos a fio” como marchante de alto gabarito, morava na habitação nº 12. O popular “Chaman”, operário de profissão e inquilino na moradia nº2 da Estrada do Poço do Chão (Rua da República da Bolívia). 



Travessa do Açougue, 4 a 14 – Na foto (sentido Poente/Nascente) e ao fundo, observa-se um dos portões da Quinta da Granja de Cima identificado com o nº 2 
(Foto de Arnaldo Madureira, 1970 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


A moradia que ostenta o nº17 foi construída na primeira década do século XXI após demolição da antiga habitação registada com os nº17 e 19 e onde laborou, décadas atrás, uma antiga carpintaria. A família de Carlos Alberto Garrancho, jogador internacional de Hóquei em Patins do Sport Lisboa e Benfica, além de outros clubes de grande nomeada nas décadas de 60/70 do século XX, residia na habitação cujo acesso se fazia pelo portão nº3. 



O gaveto do conjunto de “moradias em banda” construído em 1918 na Travessa do Açougue, nº20/Estrada do Poço do Chão, nº2, actual Rua da República da Bolívia e onde residia a família do operário Sr.“Chaman” 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Os alvores da “década de 50” do século XX assinalam o início da avalanche do “cimento armado” originado pelo maremoto que, de maneira intempestiva, assolou a área territorial da Freguesia de Benfica deixando marcas insanáveis, as quais, decorridas cerca de seis décadas, ainda se reflectem na época que decorre. A massiva e sistemática destruição do património histórico edificado foi, efectivamente, coroada de indiscutível êxito e impressiona pela colossal dimensão. A antiga Freguesia do Termo descaracterizou-se em alta escala e em todos os azimutes. Nada escapou a tanta e tão celerada cegueira. A velha Travessa do Açougue, acossada fortemente, também não conseguiu safar-se ao medonho assalto a que foi submetida e foi atingida em cheio… Arrasadas várias propriedades históricas adjacentes à Travessa do Açougue, Travessa do Rio e Avenida Gomes Pereira, o poderoso “lobby” da Construção Civil avançou… imparável. 



O início da Travessa do Açougue. O prédio da Estrada de Benfica, 552 em plena construção no início da década de 60 do século XX no espaço onde existia o venerável e brasonado edifício demolido no final da “década de 50”). Ao lado esquerdo, a moradia da Estrada de Benfica, 554 onde se situava o estabelecimento (taberna) do Sr. José da Graça. No 1º andar, encontravam-se os Estúdios da Foto Nice 
(Foto de Artur Inácio Bastos, 1960 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Pois bem, no caso concreto da Travessa do Açougue e na nossa modesta opinião, tal investida guindou-se às raias do absurdo…e com foros de cambalacho de altíssimo quilate. Plantado em pleno espaço público, a Travessa do Açougue surge, como se fora por artes mágicas, absolutamente conspurcada por um enorme mamarracho de apartamentos (tipo “gaiola”) em regime de propriedade horizontal. 



Estrada de Benfica, 552/554 após a construção do prédio sobre a Travessa do Açougue. À esquerda, a moradia da taberna do Zé da Graça e da Foto Nice 
(Foto de Artur Goulart, 1961 - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa


Assim mesmo! A entrada da via fica encanada por apertado e escuro túnel, um pouco à semelhança do fenómeno acontecido na Travessa do Rio, além de obstruir uma parte da fachada lateral da moradia da Estrada de Benfica, 554 assim como, portas e janelas da habitação da Travessa do Açougue, 1 e 3…Ver para crer como diria S. Tomé… 



O início da Travessa do Açougue e a habitação registada com o nº1 sob o túnel do prédio nº552 da Estrada de Benfica construído no início da “década de 60” do século XX 
(Foto de Fausto Castelhano) 


E assim ficou…encurralada. E se é verdade que a modesta Travessa do Açougue passava despercebida aos olhares dos cidadãos, agora nem sequer se dá pela sua presença… Na realidade, esconderam-na, definitivamente. Como consequência imediata, a circulação automóvel foi suprimida pelo lado da Estrada de Benfica. Enfim, concluída a construção do edifício no ano de 1961 na Estrada de Benfica, 552 sobre a entrada da Travessa do Açougue, a loja do rés-do-chão (nº552A) albergou a firma “Malata” vocacionada em componentes da área electrónica, mormente, cinescópios, tubos de raios catódicos e válvulas utilizados em receptores de televisão. Encerrou em 1974. 



O medonho início da Travessa do Açougue e a habitação registada com o nº1 sob o túnel do prédio nº552 da Estrada de Benfica construído no início da “década de 60” do século XX 
(Foto de Fausto Castelhano) 


Reabriu no mesmo ano, agora sob a batuta do Sr. Patrício como loja de Electrodomésticos e Material Eléctrico. Entretanto, o Sr. Patrício faleceu em 1988 contudo, o estabelecimento continua com o mesmo género de negócio e a gerência eficaz da D. Maria Emília, a viúva do Sr. Patrício. 



O túnel da Travessa do Açougue. Além de conspurcar a histórica artéria, o prédio da Estrada de Benfica, 552 e construído na “década de 60” soterrou, também, parte da fachada lateral (com os nºs 1 e 3 da moradia da Estrada de Benfica, 554, Na foto e ao fundo, o túnel da Travessa do Rio 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Quanto ao Sr. José da Graça, já não pertence ao número dos vivos desde a “década de 80” do século transacto. O memorável ponto de encontro, tendo por base a taberna da Estrada de Benfica, 554A e onde tantos e tão bons momentos de convívio ofereceu aos assíduos frequentadores, foi “chão que deu uvas” e, na mesma década do seu falecimento, fechou as portadas de vez. 



Entrada de habitação na Travessa do Açougue, 1. Encontra-se sob o túnel depois da construção do prédio na Estrada de Benfica, 552 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 


Após várias remodelações no seu interior, reabriu, mais tarde, mas com mudança de negócio: “Celeiro da Memória”, Produtos Naturais. Também não conseguiu sobreviver e encerrou. Entretanto, reabriu recentemente como Café/Pastelaria/ Snack Bar “Água na Boca”. A introdução das modernas tecnologias digitais e outras recentes inovações implicou a liquidação de um incontável lote de estúdios fotográficos da Freguesia de Benfica. Tanto a Foto Nice do Sr. Virgílio, como a Foto Águia d’Ouro (onde a afável Alice Lisboa, a Becas, fazia questão em colocar a clientela na posição ideal antes de apontar a objectiva e clicar), além de outras casas dedicadas à fotografia, desapareceram sem deixar rasto… Actualmente, a belíssima correnteza de moradias da Travessa do Açougue mostram-se de “cara lavada” e em perfeitíssimo estado de conservação. Os inquilinos continuam a pagar as rendas mensais, nitidamente simbólicas, ao senhorio de sempre: a Família Cannas. 



Entrada de habitação na Travessa do Açougue, 3. Encontra-se juntinho ao túnel depois da construção do prédio na Estrada de Benfica, 552 
(Foto de Fausto Castelhano, 2013) 



“O Celeiro da Memória”, Produtos Naturais na Estrada de Benfica, 554A em 2010 após remodelação do prédio onde existiu a célebre taberna do Zé da Graça 
(Foto de Fausto Castelhano, 2010) 



O início da Travessa do Açougue na Estrada de Benfica, actualmente. O túnel sob o prédio nº542. À esquerda, a Café/pastelaria/snack-bar “Água na Boca” e, à direita (rés/chão), a loja de Electrodomésticos e Material Eléctrico gerida pela D. Maria Emília Patrício 
(Foto Fausto Castelhano, 2013) 


Apesar da tremenda vaga de expansão urbanística desenvolvida no território da Freguesia de Benfica desde a década de 50 do século XX, a excepcional vila operária, única no seu no género em termos de projecto arquitectónico, teima em manter-se incólume contra ventos e marés, precisamente em 2013, quando já se acenderam cem velas e se enchem os peitos de ar preparando, sem perda de tempo, a assopradela da ordem…
Amigos, não se façam rogados, vamos lá! Ergamos as nossas taças de champanhe e brindemos aos primeiros cem anos de longevidade das “moradias em banda” de carácter essencialmente operário, aqui mesmo, Travessa do Açougue, Freguesia de Benfica. Parabéns! Votos de muitos, muitos anos de vida…Tchim-Tchim!  



*** O autor não respeita as normas do Novo Acordo Ortográfico