sábado, 30 de outubro de 2010

Ainda sobre as "Portas de Benfica"...




(por Alexandra Carvalho)



Conforme já tínhamos referido ontem
, no século XVIII, praticamente todo o concelho da (futura) Amadora pertencia à freguesia de Benfica.
Incluindo-se nessa pertença o território da actual Venda Nova, que fez parte da freguesia de Benfica até esta ser "amputada", em 1886, da parte exterior à nova Estrada da Circunvalação de Lisboa.
A partir dessa data, a estrada passou a constituir o limite fiscal da capital, consubstanciado com a construção das Portas de Benfica, posto onde a guarda fiscal cobrava taxas pela entrada em Lisboa de mercadorias provenientes dos concelhos limítrofes.

A freguesia da Venda Nova foi criada em 12 de Julho de 1997, por desanexação da então freguesia da Falagueira-Venda Nova, a qual foi renomeada na mesma altura para Falagueira.




"Portas de Benfica, à entrada da Venda Nova, que faziam parte da estrada Militar"
Fotografia de Artur Goulart (1961), in Arquivo Municipal de Lisboa



"Portas de Benfica - do lado da Venda Nova"
Fotografia de Artur Goulart (1962), in Arquivo Municipal de Lisboa




Os testemunhos fotográficos existentes no Arquivo Municipal de Lisboa são comprovativos do facto de que, não só os Castelos das Portas de Benfica nunca pertenceram à Venda Nova (vide na primeira fotografia acima, datada de 1961 a localização da placa de entrada na Venda Nova colocada depois do Castelo Sul), como o marco quilométrico "0", que marcava a entrada na cidade de Lisboa, se situava também depois do Castelo Sul (e não antes do mesmo) - vide na fotografia acima, datada de 1962.

Será que, depois de todas as evidências históricas, o Sr. Gabriel Oliveira, Vereador com o pelouro das Obras Públicas da Câmara Municipal da Amadora, nos saberá explicar melhor porque é que "ambos os castelinhos pertencem a este concelho, ponto final parágrafo"???




Mapa disponível in "Roteiro Municipal da Amadora"




Não obstante estes factos históricos evidentes, isso não impediu que, muito possivelmente, por algum "lapso geográfico", a Câmara Municipal da Amadora tenha colocado este mapa no seu website referente ao Roteiro Municipal, onde os Castelos das Portas de Benfica surgem como fazendo parte do seu território (ver mapa acima e clicar para ampliar).




Fotografia de Alexandra Carvalho (2008)

[clicar na imagem para ampliar]


Legenda 1 - A placa toponímica da Rua Elias Garcia já se encontrava colocada no Castelo Norte (não tendo tal facto resultado da presente alteração urbanística da envolvente das Portas de Benfica).

Legenda 2 - Deste marco quilométrico "0" (entretanto, misteriosamente desaparecido) para a frente é que pertence ao concelho da Amadora, até ao marco ainda é Lisboa.

Legenda 3 - Placa de boas vindas ao concelho da Amadora colocada em zona de Lisboa, também já ali se encontrava em 2008.

Legenda 4 - Placa do concelho da Amadora, colocada em frente ao Castelo Sul, em zona de Lisboa, também já ali se encontrava.




O que já não podemos, de modo algum, entender como "lapso geográfico" é o facto da Câmara Municipal da Amadora, pelo menos desde 2008 (*), ter colocado as sinaléticas discriminadas na fotografia acima em território da cidade de Lisboa, tomando-o como seu!...

Resta fazer mais uma pergunta incómoda...

PORQUE É QUE ATÉ AGORA QUEM DE DIREITO AINDA NÃO FEZ NADA QUANTO A ESTA SITUAÇÃO????

Porque é que se deixou avançar com as alterações urbanísticas introduzidas pela passagem da CRIL (que confinaram as Portas de Benfica a esta "triste" rotunda), e a consequente reorganização desse mesmo espaço (culminando, caricatamente, com o desaparecimento do marco quilométrico "0"), para agora se fazer alarido sobre uma situação que, em termos de marcações geográficas, já foi, há muito tempo, usurpada pela Amadora (com o cala-consente de quem deixou que essas placas ali fossem colocadas)??







(*) - Data desde a qual possuímos registos fotográficos do local, mas a colocação dessas sinaléticas poderá mesmo ter sido anterior a essa data.



5 comentários:

Anónimo disse...

O Instituto Geográfico Cadastral terá o "tira-teimas" desta história saloia de marcos e limitação de terrenos; estamos perante uma vasta área que esteve (ou ainda estará) sob a alçada militar, e não será o Sr. Gabriel de Oliveira - da C.M.A. -, que vai reeditar ali, um contencioso tipo "Olivença"!

Com a 'conversa' da "Grande Lisboa", daqui a pouco ainda vão querer o Terreiro do Paço, ou... 'ipso-facto ainda vamos ter a Amadora como Freguesia de Lisboa?

Se querem guerra, vontade de defender os nossos castelos (lisboetas) não falta!

Nem que seja num "combate" de "Paintball" (...)

Soldado Desconhecido

Alexa disse...

Caro Soldado Desconhecido,

Até ao momento, não vi ninguém querer guerra... a não ser os ânimos exaltados de alguns lisboetas/benfiquenses.

Os comentários deste senhor Vereador sobre o assunto são muito tristes mesmo, mas desprovidos de qualquer fundamento real... daí a descontextualização que aqui fizemos.

Agora, parece-me algo prematuro e irreal falar-se de "guerra" para defender a honra de algo que já é património de Lisboa.
Tenhamos calma!

Cumprimentos

João Ferrão disse...

Caro Soldado Desconhecido,

Corrijo-o apenas acerca do nome da entidade estatal a que se refere, estará com certeza a querer referir-se ao Instituto Geográfico Português (IGP), resultante da fusão entre o IPCC e o CNIG. Esta entidade disponibiliza a Carta Administrativa Oficial de Portugal (CAOP), bastando para isso possuir um software adequado à sua visualização, ou até mesmo vê-la no site do Sistema Nacional de Informação Geográfica (SNIG).

Estou curioso acerca das novidades existentes neste portal, pois sendo eu utilizador habitual de informação geográfica, dada a minha formação, ainda não o usei para visualizar qualquer tipo de informação a este nível.

Espero trazer mais novidades entretanto..

Cumprimentos

Julio Amorim disse...

Acho que esta questão do marco é importante. É um pedaço da história de Lisboa e há que tratar saber do seu paradeiro actual.
Foi removido quando e por quem ?
Não estará esse mesmo a enfeitar o jardim de alguém ?
O património histórico não pode desaparecer de qualquer maneira.

Anónimo disse...

Atenção!
No mapa da Junta Autonoma das Estradas, o sítio das Portas de Benfica chama-se agora, Rotunda da Amadora!